Mocinho ou vilão: aqui tomamos café sem pensar muito nisso - São Paulo São

Basta uma rápida pesquisa pelas milhões de páginas da internet para descobrir todos os benefícios e todos os malefícios do consumo do café. Quem gosta de radicalismos pode escolher um lado e se fartar. Vai de excelente opção até vilão em poucos cliques. Eu sou grande consumidor e vejo os portugueses também encarando um (uns...) cafezinho (s) sem qualquer receio. Aliás, um estudo da Universidade do Minho, no norte de Portugal, divulgado há poucas semanas, aponta que os consumidores de café têm melhor controle motor, maiores níveis de atenção e alerta, além de indicar que a cafeína traz benefícios para o aprendizado e para a memória.

O material mostra as mudanças estruturais e de conectividade que acontecem no cérebro de quem bebe café regularmente. Sendo assim, que tal dedicar um tempinho para ler esse artigo com uma chávena, ou melhor, xícara de café ao lado, como faria a maioria dos portugueses. Saiba que, estando em Portugal, além de simplesmente pedir “um cafezinho, se faz favor”, há outras maneiras de dar um pouco de cafeína para o corpo. 

Para começar, vale saber que Portugal não é o maior consumidor de café do mundo, tampouco da Europa. Mas apesar de os números colocarem o país lá no fim do ranking das 20 nações que mais bebem um cafezinho, a sensação que a gente tem quando anda por qualquer cidade do país é que os portugueses são movidos a cafeína. É impressionante como se bebe café por aqui, o que nos deixa, nós brasileiros, como se estivéssemos em casa. Não há bar, não há pastelaria (as nossas padarias), nos balcões ou nas esplanadas, em que não tenha alguém tomando uma xícara. E sem qualquer constrangimento de sentar numa mesa, pedir apenas um cafezinho e ficar horas de papo para o ar. O lado ruim, devo dizer: também não há mesa que não tenha um cinzeiro, quase sempre sendo usado. A dupla café e cigarro é quase onipresente. Mas vamos focar no café!

Em Portugal, além de simplesmente pedir “um cafezinho, se faz favor”, há outras maneiras de dar um pouco de cafeína para o corpo.  Foto: Euro Dicas.Em Portugal, além de simplesmente pedir “um cafezinho, se faz favor”, há outras maneiras de dar um pouco de cafeína para o corpo. Foto: Euro Dicas.Quando estive aqui, em 2012, bem antes, portanto, de pensar em morar na terrinha, lembro que já havia notado o hábito do café – talvez por eu ser um grande bebedor – e em todo o passeio ou caminhada a gente fazia uma pausa para um expresso com nata (ou queijada, ou queques, ou ovos moles...). De acordo com os dados da AICC, a Associação Industrial e Comercial do Café, entidade portuguesa deste setor, o consumo per capita anual dos portugueses em 2012 era de 4,73 quilos. Cinco anos depois, pulou para 5,5 quilos. E segue crescendo. Como referência, o maior consumo per capta do mundo é o dos finlandeses, que encaram mais do que o dobro (cerca de 12 quilos) dos portugueses ao ano. Noruega e Islândia ocupam as duas seguintes posições, o que coloca os países nórdicos como realmente “viciados” em café. Uma explicação para esses dados é que por lá a bebida é tomada em formatos maiores, ou seja, ainda que, eventualmente, não bebam tantas vezes ao dia, cada vez que tomam ingerem uma maior quantidade (o que ajuda a entender também a percepção que tenho sobre os portugueses: a frequência aqui é grande, mas o formato é principalmente o da xícara pequena). Aliás, dos 25 maiores consumidores de café no mundo (consumo per capta), 21 estão na Europa, que é o continente onde mais se bebe café. Fora da Europa, estamos nós, brasileiros, canadenses, libaneses e norte-americanos. Se considerarmos o volume total consumido, a lista muda um pouco, com Estados Unidos liderando e Brasil em segundo lugar, o que pode ser explicado pelo gigantesco tamanho dos seus mercados. 

Pesquisa recente do Instituto de Pesquisa Multidados mostra que mais de 40% dos portugueses tomam 2 cafés por dia (pouco mais de 22% chegam a tomar de 3 a 5 cafés) e quase 60% bebem ao acordar.  Outro estudo, este da empresa Marktest, mostra números semelhantes em relação ao grande e crescente consumo de café: em 2020, mais de seis milhões e meio de portugueses, com 15 anos ou mais, beberam em casa uma média diária de pelo menos um café. Bares e padarias podiam estar fechados (já abriram!), mas o cafezinho não deixou de ser sagrado, mesmo que tenha que ser em casa.

Mais de 40% dos portugueses tomam 2 cafés por dia (pouco mais de 22% chegam a tomar de 3 a 5 cafés) e quase 60% bebem ao acordar. Foto: Time Out Lisboa.Mais de 40% dos portugueses tomam 2 cafés por dia (pouco mais de 22% chegam a tomar de 3 a 5 cafés) e quase 60% bebem ao acordar. Foto: Time Out Lisboa.Mas se em casa não há muita dúvida (basta por a cápsula ou utilizar as cafeteiras do tipo “italiana” ou "francesa'', por exemplo), pedir café fora de casa em Portugal pode não ser tão simples assim. Abatanado? Cimbalino? Eu que já vivi a experiência de servir café aqui em Portugal, confesso que me vi em apuros algumas vezes. Mas nada que um amigo “tuga” não possa explicar. Mas atenção: há muito regionalismo e até mesmo discrepância entre alguns nomes. Falei com bastante gente, amigos e até desconhecidos que pilotam uma máquina de café para confirmar alguns nomes (afinal, apesar de tomar muito café, ainda sou um forasteiro. Melhor ir direto na fonte) que seriam usados em determinadas regiões. E descobri que nem sempre há um consenso (lembra muito uma recente conversa que tive em um bar numa cidade próxima de Coimbra sobre qual é a fronteira que demarca o momento em que o nosso chopp vira “Fino” ou vira “Imperial”).

- “Disseram-me que aqui o café com um pouco de leite é o pingado, certo?”

- “Não, quem disse? Isso é o pingo, que é o contrário do Garoto. Só se for mais lá no Norte (ou no Sul...)”.

- “Não, o que ouvi foi justamente o oposto...”

Entre certezas e quase certezas, uma coisa é certa: se pedir um café ou um expresso, vai tomar... um café ou um expresso, de máquina, do jeito que conhecemos no Brasil (e já deixo aqui uma ressalva: há os que não concordem com a grafia com x, optando por escrever espresso. E já aviso que não vou entrar nessa briga). Não há estabelecimento que não tenha uma boa máquina de expresso. Aliás, nunca vi alguém tirar um cafezinho no coador de pano, como ainda achamos em várias padarias e bares no Brasil. Aqui, de norte a sul, se pedir um expresso, vão saber o que é. Mas o cafezinho também pode ser uma “Bica” em Lisboa e arredores (ao que consta, Bica teria nascido no "Café A Brasileira”, uma das mais tradicionais de Lisboa, inaugurada no início do século XX, quando as pessoas ainda estranhavam o gosto forte e amargo do café. Daí vem uma possível explicação: Bica seria o acrônimo de Beba Isso Com Açúcar. Outra possível versão refere-se ao fato de que o café, antes das máquinas de expresso, era coado e armazenado em grandes recipientes metálicos – como ainda vemos no Brasil – saindo para a xícara por uma torneirinha ou bica) ou um Cimbalino, nome mais utilizado no Porto e região e que é uma referência ao nome da marca da máquina de café expresso – La Cimbali. Ao contrário de Bica, Cimbalino é pouco usado e tem muita gente que nem sabe o que é. Ficou mais no passado e no repertório dos consumidores mais velhos. Mas seja lá qual for o nome, o cafezinho também pode ser pedido curto (alguns chamam de Italiano) ou cheio. Pela minha experiência, o “normal” aqui já é um café mais curto do que o que tomamos no Brasil. Ou seja, se pedir um curto, pode vir realmente um dedinho de café apenas.

O 'Café A Brasileira' tinha como um de seus clientes mais assíduos o poeta Fernando Pessoa, o que motivou a criação de uma estátua de bronze em sua homenagem. Foto: Divulgação.O 'Café A Brasileira' tinha como um de seus clientes mais assíduos o poeta Fernando Pessoa, o que motivou a criação de uma estátua de bronze em sua homenagem. Foto: Divulgação.

Outro clássico, presente em praticamente todos os “pequenos-almoços” é a meia-de-leite, algo como a nossa média. Na prática, uma boa xícara de café com leite, exatamente como no Brasil. A mistura também pode vir em copo, e ganha o nome de Galão. Quem tiver curiosidade em pesquisar, vai descobrir que há uma certa rixa entre os dois, ou melhor, entre os consumidores e consumidoras de cada um deles. Tem os que dizem que meia-de-leite é coisa de mulher, enquanto galão seria mais masculino. Outros dizem que no galão vem mais quantidade do que na xícara, o que muitos rebatem dizendo que na verdade tudo depende do tamanho da xícara em comparação com o copo e vice-versa, claro... Uns dizem preferir o copo porque dá pra sentir a temperatura do café com leite quando a gente segura, o que é minimizado quando se pega a xícara pela asa. A turma que quer contrariar fala a mesma coisa, mas com sensações invertidas, ou seja, o copo é ruim porque queima a mão, a xícara protege. Enfim, em tempos de radicalização, escolha outras batalhas e tome sem preconceito o seu galão ou sua meia-de-leite. Ah, pode ser que perguntem: “quer a meia-de-leite (ou o galão) direta?”. Traduzindo, é quando é feita com o café expresso tirado direto na xícara (ou no copo), que depois recebe o leite. O contrário disso seria usar um café já pronto, tipo de coador.

E eis que surge o Abatanado, que para muitos é como um “café americano”, ou seja, na xícara grande, um ou dois expressos diluídos em água, o que torna o café mais fraco. Não confundir com o café duplo. Aqui não tem qualquer pegadinha: o café duplo é simplesmente um café em maior quantidade numa xícara grande. Nada de água para completar. Café mesmo, em dose dupla.

Tem também o Carioca, que é um café mais fraquinho na xícara pequena, exatamente como no Brasil. De modo geral, tira-se um café normal e, sem trocar o pó, tira-se o segundo, que naturalmente já descerá mais fraco. Este é o Carioca. Alguns também chamam de café Escorrido. Mas pra confundir um pouco tem também o chamado Carioca de limão, que nada mais é do que água fervendo com lasquinhas da casca de limão. Ou seja, tem mais jeito de chá. E pode ser na xícara pequena ou na grande. Ainda nesta “categoria” de café mais fraco, há o chamado Café sem Ponta, quando a xícara é posta para ser enchida apenas depois que já saiu o primeiro jato de café da máquina.

Quer mais? Pode pedir o Pingado ou o Pingo (mais falado no Norte), que é como o brasileiro. Café numa xícara pequena e com um pouquinho de leite. E o inverso é o Garoto, ou seja, pouco café e mais leite, também numa xícara pequena. Para muitos, porém, não há grande diferença entre o Pingado (ou Pingo) e o Garoto, pois nem sempre as proporções são respeitadas. Na dúvida, eu sigo aquela “técnica” brasileira: digo se quero o meu pingado mais claro ou mais escuro, assim como fazia no Brasil pedindo uma média mais clara ou não. Tem funcionado.

Há ainda os que vão de café com um cheirinho, o que nada mais é do que dar uma “batizada” na bebida com um pouco de bagaço, aguardente bem portuguesa. E, claro, o pessoal do descafeinado, que pode ser usado para fazer todas as versões e tipos de café que já citei.

Agora que os dias estão ficando bem mais quentes, entra em cena algo bastante comum: café num copo com gelo, que responde pelo nome de Mazagran. O mais simples é tirar o expresso num copo já com pedras de gelo. Há variações, que muitas vezes acabam virando mais coquetel do que café. Tem quem coloque rodelas de limão, um pouco de água com gás, folhas de hortelã. Mas o básico mesmo é o cafezinho caindo sobre pedras de gelo num copo baixo.

Em 2020, mais de seis milhões e meio de portugueses, com 15 anos ou mais, beberam em casa uma média diária de pelo menos um café. Foto: Getty Images.Em 2020, mais de seis milhões e meio de portugueses, com 15 anos ou mais, beberam em casa uma média diária de pelo menos um café. Foto: Getty Images.

Por fim, e não menos importante, é comum perguntarem se queremos a chávena quente ou escaldada (ou nós, clientes, já podemos indicar o que queremos). A xícara então é escaldada naquele vapor da máquina e o café chega bem quente. Parece que é uma opção meio óbvia, mas já vi gente pedindo para servir em xícara fria, mesmo no inverno. E com certeza o café vai chegar pelo menos morno no balcão ou na mesa do cliente. Eu sou da linha do café bem quente e mesmo em casa costumo esquentar a xícara antes de fazer meu cafezinho de cápsula.

Uma curiosidade: poucas pessoas bebem café com adoçante, hábito muito mais comum no Brasil. Aqui, ao pedir o café, vai receber com um pacotinho de açúcar no pires e, vez ou outra, uma balinha (ou rebuçado, como falam por aqui). Mas eu prefiro mesmo é tomar junto com um pastel de nata, combinação bastante presente nos cafés daqui. O “combo” café e nata quase sempre tem um preço especial nos bares e padarias.

E aí, deu pra tomar um cafezinho enquanto lia?

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***Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.

 



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