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São Paulo São Ensaios

Uma das singularidades de São Paulo é ter no seu centro uma fenda topográfica de difícil resolução urbanística: o vale do Anhangabaú. Na origem o vale protegia, juntamente com a várzea do Carmo, a colina onde se abrigava a povoação jesuítica. Com a expansão do núcleo urbano, no entanto, foi preciso vencê-lo, embora de maneira nunca definitiva.

O vale, que abrigava um riacho assombrado, segundo o seu nome indígena, foi ocupado por chácaras, bordejado por plantações de chá, deu lugar a residências de elite, foi racionalizado como espaço público ajardinado, depois aberto a avenidas amplas e depois ainda transformado em calha automobilística subterrânea recoberta por uma praça de concreto de uso inconclusivo.

Já abrigou shows e comícios, como o das Diretas-Já, sem que se consagrasse o sentido coletivo de sua ocupação. Sua história forma o palimpsesto de um espaço inabordável, anfiteatro de um acontecimento por vir e que não vem, no ponto cego da força centrífuga que arrasta a cidade para mais longe.

Atravessada pelo cartão postal do viaduto do Chá, a falha do Anhangabaú é o centro secreto dos vários centros que estão à sua volta: no meio exato entre a praça da Sé e a praça da República, entre o Pátio do Colégio e o cruzamento da Ipiranga com a São João, no qual a famosa canção “Sampa”, de Caetano Veloso, identificou o epicentro emocional em que o coração da cidade bate junto com o de quem chega. Não deixa de ser sintomático que o primeiro verso de “Ronda”, de Paulo Vanzolini, samba no qual se inspirou “Sampa”, pareça falar do giro em torno desse centro que não se fixa: “de noite eu rondo a cidade / a te procurar / sem te encontrar”. E que “Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa, seja o lamento sublimado de uma demolição oculta em camadas: o “edifício alto” ocupa o lugar onde estava o “palacete assobradado” que por sua vez ocupou o lugar da “saudosa maloca”. No “Trem das onze”, o Jaçanã (“moro em Jaçanã”) aparece literalmente como o ponto de fuga em direção às redondezas de uma circunferência tão pouco evidente quanto o centro da cidade (Vanzolini perguntou uma vez a Adoniran porque ele não dizia “moro no Jaçanã”, como é usual, em vez de “moro em Jaçanã”, e a resposta não se fez por esperar: “e eu sei lá onde fica essa porcaria?”).

Década de 20 - Visão do vale do Anhangabaú a partir do antigo Viaduto do Chá. Imagem: Pinterest.Década de 20 - Visão do vale do Anhangabaú a partir do antigo Viaduto do Chá. Imagem: Pinterest.

Quando o eixo empresarial se deslocou para a avenida Paulista, Tom Zé surpreendeu, em “Augusta, Angélica e Consolação”, a mesma síndrome do centro faltante: entre duas mulheres indóceis, a Augusta e a Angélica (“Que saudade!” e “Que maldade!”) só se encontra o consolo de um nome: a Consolação. E é notável que o eixo de negócios, ao se deslocar cada vez mais para a Faria Lima, para a Berrini e a Marginal, já não deu mais samba, perdendo contato com os pontos de imantação em que o nervosismo da cidade se irradia.

Voltemos, pois, ao enigma do vale do Anhangabaú. A interpretação grandiosa dele se encontra no final da Paulicéia desvairada de Mário de Andrade. No longo poema intitulado “As enfibraturas do Ipiranga”, o poeta modernista imaginou o Anhangabaú tomado pela população em massa na execução de um convulsionado “oratório profano” sinfônico e coral, em que se expunham choques culturais e conflitos de classe quase como se fossem a manifestação de torcidas nos nascentes estádios de futebol (que, aliás, ocupavam às vezes o Anhangabaú para acompanhar ao vivo notícias de jogos acontecendo em cidades distantes). No poema, as “juvenilidades auriverdes” modernistas, com os pés mergulhados no fundo do vale, se debatem contra o coro solene dos “orientalismos convencionais” (artistas acadêmicos, parnasianos e beletristas, entrincheirados nos terraços do Teatro Municipal), secundados pela dança caricata das “senectudes tremulinas” (milionários e burgueses, nas sacadas elegantes do lado oposto do vale) e pela massa dos “sandapilários indiferentes” (trabalhadores e desempregados, postados no viaduto do Chá, reativos às batalhas campais da cultura de elite e mais interessados na ópera italiana e nos emergentes sucessos musicais de massa, como a marchinha “Pé de anjo”, de Sinhô).

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.

Foi nessa grande fenda, no anfiteatro da falha central do vale do Anhangabaú, que Mário de Andrade vislumbrou a cidade como um tumultuado campo centrífugo de forças sociais, comportamentais, artísticas, de conflitos expostos, de impasses e destruição, mas também do generoso impulso transformador aberto ao múltiplo e à eclosão das diferenças. O centro é vivo e fecundo justamente ali onde ele não se fixa nem se fecha.

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José Miguel Wisnik é músico, ensaísta e professor de Literatura Brasileira na USP. É autor, entre outras publicações, de O coro dos contrários – A música em torno da Semana de 22 (1977), O som e o sentido – Uma outra história das músicas (1989), Sem receita – Ensaios e canções (2004) e Veneno remédio – O futebol e o Brasil (2008). Fez música para teatro, cinema e dança, além de Cds autorais de canções (José Miguel Wisnik, 1993, São Paulo Rio, 2000, Pérolas aos poucos, 2003, Indivisível, 2011 e Ná e Zé, com Ná Ozzetti, 2015). Atuou como professor convidado na Universidade da Califórnia (Berkeley) e na Universidade de Chicago.

*Artigo publicado originalmente na Revista E Online do SESC.

Enquanto era escrito o texto que você lê agora, me lembrava de fotografias tingidas de vermelho: registros da tradicional Tomatina, a festa do tomate na Espanha. A “guerra” ocupa as ruas da cidade de Buñol uma vez por ano, sempre na última quarta­-feira de agosto. As pessoas jogam tomate umas nas outras e depois tomam um banho ali mesmo. Parecem todas muito alegres. O fruto usado como munição é esmagado antes de ser arremessado, para não machucar ninguém, e os organizadores dizem que a variedade é cultivada especialmente para a festa. A batalha teve início há mais de setenta anos e virou atração turística da cidade valenciana.
 
Mesmo que os tomates sejam cenográficos, para muitos que observam a cena de fora é difícil não pensar em desperdício. Jogar comida pela janela, lavar a calçada com o esguicho de mangueira. Quem se esforça minimamente para entender o momento que vivemos sabe que algumas ações, mesmo se praticadas como exceção, parecem não ter lugar. Outras, por outro lado, são importantes e há pessoas que, incomodadas com a desconexão do homem e o meio ambiente e preocupadas com o futuro, agem a favor delas.

La Tomatina de Buñol: a guerra de tomates da Espanha. Foto: Wikipedia.La Tomatina de Buñol: a guerra de tomates da Espanha. Foto: Wikipedia.
É verdade que muitos desses indivíduos, hoje, andam como se estivessem no mar, com a água na altura dos joelhos. É difícil, precisa de certo esforço. E não se tem notícias de grandes empresas em escancarada procura por profissionais ‘sustentavelmente engajados’, sobretudo em tempos de crise. Há os que conseguem trabalho em ONGs de causas socioambientais, instituições que lidam com políticas públicas, educação (é importante ensinar para mudar), escritórios de arquitetura e urbanismo ou de novo aquelas que de um jeito autônomo, mas integrado à vizinhança, começam a plantar para consumir e até vender para restaurantes, escolas e consumo doméstico. Quem tem conhecimento de sustentabilidade, porém, vai ser cada vez mais requisitado e valorizado, porque os problemas relacionados à água, aquecimento global e diversas mudanças no clima são reais e temos de lidar com eles – sua compreensão no planejamento das cidades é fundamental para prevenir e mitigar os riscos. 

Os que acham que um texto sobre profissão do futuro só faz sentido se falar de emprego e dinheiro no bolso, trazendo respostas bem objetivas (o que vou estudar, aonde vou trabalhar e quanto eu vou ganhar), provavelmente já desistiram há alguns parágrafos. Aos que ficam: escolhemos encerrar esta série de treze reportagens com uma reflexão de formação social, comportamento e atitude.
 
Decidimos usar como fio condutor a agricultura urbana, porque é urgente nas cidades a ação de pessoas sintonizadas com o meio ambiente e seus processos naturais e sociais. A produção agrícola pequena, perto dos centros urbanos – ou dentro deles – é uma coisa boa. “A profissão do agricultor voltado à agroecologia vai crescer cada vez mais, porque na agricultura convencional você pega a sementinha da empresa X, com o adubo da empresa Y e o defensivo químico da empresa Z e teoricamente vai produzir seu alimento cheio de veneno. Mas vai causar sérios danos à saúde de quem aplica e de quem consome e vai acabar destruindo e degenerando cada vez mais a terra.

Nesse sistema é muito simples de plantar. Já o agricultor que leva em conta o cuidado com a terra e o meio ambiente precisa ter um conhecimento muito grande de como fazer o adubo, a compostagem, e as pragas acabam sendo um indicador do que está faltando na horta e tem de desenvolver tecnologias sociais para combater sem usar química”, diz o consultor e coordenador de projetos de sustentabilidade Samuel Gabanyi. “Os engenheiros agrônomos vão ajudar na conversão de uma agricultura convencional para a orgânica e melhorar a produtividade. Depois, provavelmente, virão os urbanistas. As pessoas que planejam a cidade hoje não têm na cabeça a importância da agricultura urbana e você vai precisar cada vez mais dela.”

Por que a agricultura urbana é importante?

Estevao Silva da Conceicao e sua filha em horta urbana na periferia de São Paulo. Foto: Mauricio Lima / Getty Images.Estevao Silva da Conceicao e sua filha em horta urbana na periferia de São Paulo. Foto: Mauricio Lima / Getty Images.

– Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local. Além de diminuir as distâncias, evita desperdício (consumo consciente), gera menos poluição (menos transporte) e lixo (embalagens especiais) e contribui para a qualidade de vida. O agricultor vive melhor sem o uso agrotóxicos. O consumidor se alimenta melhor com orgânicos e locais e o meio ambiente tende a ficar mais confortável. A biodiversidade agradece e, ao redor das hortas, as pessoas se encontram e convivem e colocam energia em um projeto cheio de significado. E tem mais: elas colocam a mão na terra, plantam, entendem e acompanham de perto o ciclo produtivo. Há benefícios sociais enormes em torno do engajamento e da atividade. 
 
“Praticar agricultura urbana é produzir alimentos dentro da cidade. Frutas, legumes, verduras, hortaliças e animais. Ao comprar diretamente do produtor, sem intermediários, o produtor recebe mais dinheiro e o comprador paga mais barato. Não tem necessidade de transporte poluidor de longa distância nem de nenhuma embalagem complexa”, diz Gabanyi. “Além disso, o alimento é fresco e de verdade, orgânico, não é comida de caixinha cheia de ingredientes que, quando você lê, não entende o que está escrito. O alimento que vem de longe perde nutrientes até chegar na sua mesa. A agricultura urbana, seja na pequena horta comunitária, seja em espaços maiores, promove a regeneração dabiodiversidade, superimportante para os ciclos da natureza. Ela atrai borboletas, besouros, joaninhas, abelhas. E também ajuda a diminuir as ilhas de calor na cidade. Com o aumento das áreas verdes, a temperatura fica mais agradável, o ar mais limpo, visualmente mais bonito, a horta vira espaço de lazer e conforto.”
 
Gabanyi tem 33 anos, formou­-se em administração pública e fez o primeiro estágio na ONG Banco de Alimentos, que arrecada produtos bons para o consumo e que seriam jogados fora e os entrega em creches, asilos, instituições de caridade, orfanatos. “Foi um choque de realidade quando eu comecei a conhecer muito a periferia da cidade e todos os dias vendo pessoas que passam fome e eu sempre tinha um prato de comida na minha frente. Acho que isso me cativou bastante. Comecei a ver que tinha alguma coisa errada nessa lógica: como tem gente jogando alimento no lixo, se tem quem precisa dele? A partir disso já são quinze anos trabalhando com projetos na área social ou na área ambiental e com a certeza de que a gente precisa agir em conjunto com o meio ambiente e não como soberano dele.”

No meio do caminho, Gabanyi, que já frequentava horta comunitária e cultivava em casa, entrou para a formação do MudaSP, organização sem fins lucrativos voltada para a agroecologia em espaços urbanos. “Cada pessoa tem, por enquanto, um outro emprego e é voluntário na organização. Atualmente, cerca de quarenta participantes têm alguma ligação com o movimento. Desses, catorze formam o grupo gestor, cuidando do planejamento e da gestão de projetos no dia a dia. Tem arquiteto, biólogo, administrador, gestor ambiental, permacultor e pessoas de marketing, comunicação, jornalismo e design. Não temos gastos, não há despesa fixa.” 

Por onde começar e o que fazer
Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress. Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress. – As hortas comunitárias são um ponto de partida para projetos de agricultura urbana e relacionamentos mais saudáveis com os espaços públicos. Além disso, cada profissional pode direcionar as atividades, em sua própria área de atuação, nesse sentido. Ao erguer um prédio, o arquiteto e o engenheiro vão pensar em um pomar vertical, no uso da ventilação cruzada para promover mais conforto térmico e usar menos o ar condicionado, na luz natural e nos telhados. “A quantidade de telhado que temos em São Paulo para fazer hortas é enorme. São metros e metros quadrados de área que podem ser plantados. Os próprios urbanistas, as pessoas que fazem o planejamento da cidade têm que começar a levar isso cada vez mais em questão, aumentar o número de áreas verdes, porque cidades mais sadias têm população mais saudável. A indústria têm de entender seus impactos ambientais e a própria população têm de incorporar os conceitos de sustentabilidade”, diz Gabanyi. 

Educar para a sustentabilidade

– Levar hortas e educação ambiental para as escolas é outro gesto fundamental para promover a agricultura urbana. E surge como área de atuação importante. A dificuldade é conseguir apoio para essas ações. “O paulistano está muito desconexo não só dos ciclos da natureza, mas da questão do alimento. Como é o plantio, o preparo, de onde vem, para onde vai, qual é o impacto disso. Ele chega, come, joga fora e vai embora”, avalia Gabanyi. 
“Hoje em dia, ainda se fala em profissional da área de sustentabilidade como uma função específica. O certo seria que todos os profissionais de todas as áreas tivessem conhecimento de sustentabilidade. A primeira área da empresa que sofre cortes é essa. Não é prioridade, sobretudo na crise. Enquanto todas as profissões não incorporarem essa questão de sustentabilidade, a necessidade de levar em conta o meio ambiente e seus processos naturais e o lado social, estamos fadados ao caos. A mudança acontece quando a sustentabilidade estiver incorporada em tudo.”

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Viviane Zandonadi especial para o blog Educação em O Estado de S.Paulo.

"A criança é essencialmente um ser sensível à procura de expressão. Não possui ainda a inteligência abstraideira completamente formada. A inteligência dela não prevalece e muito menos não alumbra a totalidade da vida sensível. Por isso ela é muito mais expressivamente total que o adulto. Diante duma dor: chora – o que é muito mais expressivo do que abstrair: “estou sofrendo”. A criança utiliza-se indiferentemente de todos os meios de expressão artística." (Andrade, 1929).

Os primeiros Parques Infantis foram implantados na cidade de São Paulo no ano de 1935, em bairros operários Lapa, Ipiranga e Mooca. Visaram promover atividades educacionais e culturais para as crianças de três a seis anos, com o foco na valorização da cultura nacional, sendo uma das estratégias o levantamento dos costumes e hábitos desse público. As ações assistências também se fizeram presentes com atendimento médico e odontológico e com a distribuição de copos de leites e frutas, conforme o fotografado por Benedito Junqueira Duarte em 1937, no Parque Infantil do Ipiranga.

Crianças brincando em tanques de areia sentadas, realizando jardinagem e se alimentando foram algumas das cenas selecionadas para compor o álbum de fotografias dos Parques Infantis, do Departamento de Cultura. Aliás, muitas dessas imagens foram  fabricadas com a intencionalidade de divulgação de determinadas práticas educacionais promovidas pelas educadoras dos Parques Infantis, o que demonstra uma preocupação dos seus idealizadores no agenciamento de certas ações e, portanto, a construção de certa memória.

Criança, infância, brincadeira e cultura são elementos indissociáveis nessa proposta. De modo que, quando se apresenta a educação infantil na atualidade em São Paulo, o resgate do pioneirismo de Mário de Andrade na proposição dos Parques Infantis e a organização de rotinas de aprendizagem, que tenham como foco o desenvolvimento social da criança, constituem a identidade dessa modalidade de educação. A despeito disso, Faria (FARIA, Ana Lúcia Goulart de. A contribuição dos parques infantis de Mario de Andrade para a construção de uma pedagogia da educação infantil. Educação & Sociedade, ano XX, nº 69, Dezembro/1999. pp. 60-91) tem argumentado em suas pesquisas que a implantação dos Parques Infantis contribuiu decisivamente para se pensar em uma pedagogia da infância, ou seja, tais instituições foram precursoras na organização da educação infantil ao realizarem práticas que consideravam a criança em sua especificidade formativa.

Parque Infantil Dom Pedro II, 1938. Foto: B. J. Duarte / Acervo da SMC.Parque Infantil Dom Pedro II, 1938. Foto: B. J. Duarte / Acervo da SMC.

A autora recupera historicamente a trajetória dos Parques Infantis com a apresentação dos eixos estruturantes dessa proposta expressos na integração entre a recreação, a assistência e a educação no atendimento à criança. Outra questão importante abordada por ela é o diálogo que Mário de Andrade estabeleceu com a cultura produzida nos anos 20 e 30, no Brasil e em outros países a respeito da utilização de jogos para o ensino, o uso da arte, especificamente, o teatro, além do interesse pela preservação da cultura via organização das bibliotecas e acervos documentais. 

Os significados dos Parques Infantis foram objeto de interesse também de Freitas (2001), em seu estudo do pensamento social brasileiro na transição do século XIX para o XX. O autor defende, a partir das considerações de Antônio Cândido (1971), que o Departamento de Cultura e a implantação dos Parques Infantis, sob a responsabilidade de Mário de Andrade se configuravam como iniciativas inovadoras de atendimento às crianças e suas famílias, ao promoveram situações que valorizavam suas experiências e dialogavam com as questões da cidade. Para Cândido apud Freitas (2001:265), essas instituições não realizavam somente a “rotinização” da cultura, mas se constituíam em uma “tentativa consciente de arrancá-la dos grupos privilegiados para transformá-la em fator de humanização da maioria através de instituições planejadas”. 

As crianças de três a doze anos efetivaram sob a supervisão e orientação das educadoras esculturas em argila, marcenaria, danças, teatro, pinturas e desenhos. De acordo com Gobbi apud São Paulo (2010:25), os Parques Infantis promoviam concursos de desenhos, cujos temas eram de livre escolha das crianças. 

 Parque Infantil Dom Pedro II, 1938. Foto: B. J. Duarte / Acervo SMC. Parque Infantil Dom Pedro II, 1938. Foto: B. J. Duarte / Acervo SMC.Havia uma orientação do próprio Mário de Andrade às educadoras de que não houvesse intervenção nos desenhos das crianças. Em um discurso pronunciado na Hora do Brasil no ano de 1935, Mário de Andrade apresenta os propósitos da criação dos Parques Infantis e qual sua relação com o fenômeno da urbanização em São Paulo. Em sua visão, "os grotões transformaram-se em jardins cortados ao meio pelas avenidas e pela sombra dos viadutos. Não há mais sapo. Nos jardins encontrareis recintos fechados com instrutoras, dentistas e educadoras sanitárias dentro. São Parques Infantis onde as crianças proletárias se socializam aprendendo nos brinquedos o cooperatismo e os valores do passado. São crianças tartamudeando em torno de uma Nau Catarineta de vinte, as melodias que seus pais esqueceram, e nos vieram de novo da Paraíba, do rio Grande do Norte e do Ceará. Todas essas iniciativas não poderão pretender jamais a uma gloríola no presente, senão uma fecundidade futura. Tudo é novo, e muito está nascendo. São Paulo é uma cidade num dia, mas já agora os seus caminhos conjuntos vão e vêm.“

A aprendizagem de certos valores como a socialização e o cooperativismo ocorreria a partir da organização de práticas em espaços específicos. Daí a necessidade do planejamento e consequentemente realização de atividades com o foco na manifestação das crianças. 

Nesse sentido, os Parques Infantis eram tidos como lugares privilegiados na transmissão e na produção da cultura infantil. É possível dizer que, as imagens de crianças das  classes operárias brincando em espaços planejados, com a supervisão de adultos capacitados, tendem a indicar os múltiplos sentidos acerca da infância. 
A primeira Biblioteca circulante de São Paulo. Foto: Acervo do Departamento de Patrimônio Histórico da PMSP.A primeira Biblioteca circulante de São Paulo. Foto: Acervo do Departamento de Patrimônio Histórico da PMSP.

Considerações finais 

A experiência dos Parques Infantis nos convida a uma reflexão a respeito do lugar da infância nos anos 30 do século passado nos discursos e ações dos intelectuais brasileiros. Nesse sentido, a análise das intervenções do poder público, por meio da construção de políticas educacionais que abrangeram particularmente os filhos dos operários na cidade de São Paulo, torna-se uma discussão fértil no campo da História da Educação. 

No cotidiano dos Parques Infantis o lúdico, as brincadeiras tradicionais infantis e os jogos constituíam-se em possibilidades de livre manifestação das crianças. Ao promoverem práticas pedagógicas, que objetivaram o desenvolvimento físico, intelectual e social das crianças, tais instituições idealizadas por Mário de Andrade foram responsáveis pela difusão de uma nova concepção de infância e de criança, além de institucionalizarem um conjunto de práticas específicas no campo da educação infantil, incorporadas às escolas municipais de educação infantil de São Paulo transformando-se em saberes necessários à proposição de atividades que visem o desenvolvimento social da criança. 

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Maria Aparecida da Silva Cabral é professora adjunta do Departamento de Ciências Humanas, Curso História, da Faculdade de Formação de Professores da UERJ.

Artigo publicado nos anais do XVI Encontro Regional de História da Anpuh - Rio / Saberes e Práticas Científicas.

Praça Ramos de Azevedo, Rua 24 de Maio, Avenida Ipiranga, Rua 7 de Abril. Nesse quadrilátero aconteceu o de mais importante na cultura brasileira: o encontro entre o novo e o velho mundo.

Em torno do Theatro Municipal, o biscoito fino da música, teatro, dança, artes plásticas e literatura brasileira saiu do forno e alimentou nossa antropofagia e sede de saber.

As grandes livrarias da Barão de Itapetininga, como a Brasiliense, fundada por Monteiro Lobato e Caio Prado, eram o fervilho de troca de ideias, de busca por novidades, de debate político e econômico, atrás de um projeto de Nação.

Não havia outro grande teatro em São Paulo, a não ser o Municipal, da borbulhante e definitiva Semana de Arte Moderna de 1922. Nos cafés ao lado, como a Leiteria Americana, Oswald de Andrade e outros se debruçavam sobre a essência brasileira, casavam o moderno com o folclore.

Até a década de 1970, se o Ballet de Bolshoi viesse ao Brasil, era no Theatro Municipal que iria se apresentar, com a divina montagem de Pássaro de Fogo, de Stravinsky. Astor Piazzolla, o alterego da dor portenha, da tragédia sul-americana, só se apresentava lá. Até Miles Davis, com seu experimentalismo tão profundo e introspectivo, se apresentou lá.

Só depois abriram em São Paulo as grandes casas de show.

Vi esses três espetáculos na minha adolescência. Vi Stravinsky, com a alma incendiada em êxtase, assim que cheguei em São Paulo em 1975. Vi Miles Davis, de costas para a plateia, num show de fusion jazz, em que ignorava a nossa audiência, a fim de não perder a concentração. Quantas vezes não vi Astor Piazzolla tocar Adeus Niño e Balada Para um Louco, as minhas favoritas.

Eu tinha 15, 16, 17 anos, exilado, recém-chegado na cidade, filho de uma genuína paulistana, que me contava das suas peripécias como adolescente por aquelas quadras. Fui atrás dos locais em que ela e meu pai frequentavam na juventude.

Aprendi a tocar violão no conservatório, aprendi a tocar Villa-Lobos, comprava por ali partituras, sim, naquela época comprávamos partitura, dos grandes violonistas. Violão comprado na 24 de Maio, com o dinheiro de anos de economia.

Comprava cordas de náilon na Casa Bevilacqua, ponto de encontro de violonistas, guitarristas, amantes da música clássica e pop. Ouvi lá um senhor tocando no piano Balada Para um Louco e enlouqueci. Pedi para ele me ensinar a versão em violão. Não havia, mas me deu a partitura em piano, com a qual pude eu mesmo fazer uma adaptação e a minha versão.

A meia quadra da loja, uma galeria de varejo, que depois de abrir uma loja de discos, transformou-se na Galeria do Rock, centro de aglutinação de músicos e fãs, polo da transformação da música brasileira dos anos de 1980.

Foi com dor no coração que descobri, anos depois, que as livrarias da Barão de Itapetininga fecharam, inclusive a Brasiliense, que as lojas de música e as livrarias do entorno do Municipal fecharam. Tentei encontrar a Leiteria Americana e vi apenas um prédio degradado, que manteve a sua magnífica porta, transformada agora apenas em uma decoração pichada sem história. Não se compra mais discos, não se debatem mais ideias musicais numa loja de música.

A ideia de restaurar o centro de São Paulo torna-se urgente, quando testemunhamos o empobrecimento da nossa cultura, passado, memória: da nossa história. O novo Sesc 24 de Maio reacende as esperanças de voltarmos a ter o centro da cidade de São Paulo como um vibrante, vanguardista e cativante caldo cultural.

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Marcelo Rubens Paiva é escritor. Artigo publicado originalmente no E Online do Sesc São Paulo.

Entre os desafios enfrentados pelas cidades, o da mobilidade é um dos maiores. As ineficiências nessa questão causam perdas econômicas expressivas, desperdiçam o tempo e energia das pessoas em deslocamentos de rotina e sobrecarregam a atmosfera com poluentes. A tendência das cidades de concentrar população e atividades econômicas apenas reforça a necessidade de se lidar com essa questão. A mobilidade tem que se dar de uma forma digna, rápida, confortável e econômica.