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São Paulo São Ensaios

Quando junho termina, o pânico chega, fala bom dia e se instala na vida de muitos de nós com a seguinte questão: O que fazer com as crianças durante 31 longos dias de férias? Você continua trabalhando na mesma intensidade, o pai dele também.

Billy Eckstine, o grande Mr. B, já passara dos 70 quando fez uma temporada no 150 Night Club, no hotel Maksoud Plaza, em São Paulo. Ainda estava sacudido e mantinha o elán dos anos 1940, quando fumava com piteira e se tornou o primeiro cantor negro a fazer sucesso entre as plateias brancas entoando um repertório romântico – antes mesmo de Nat “King” Cole.

São Paulo é uma cidade suja.

Sempre foi.

Sempre tem cara de suja, cinza, poeira de asfalto misturado com borracha de pneu de automóvel, uma poeira fina que penetra nas frestas; limpa de manhã, de tarde já está sujo.


É com muita tristeza que a população paulista recebe as notícias da morte de pessoas em situação de rua em decorrência do frio. Mais graves ainda são as denúncias feitas contra a Guarda Civil Metropolitana – GCM -, que estaria retirando cobertores dessas pessoas. Questionada, a Prefeitura avisou que irá investigar a denúncia e punir os culpados.

Tendo essa realidade em vista, é importante nos atentarmos e, principalmente, nos questionarmos sobre outro ponto extremamente crucial: o urbano, nos moldes em que cresceu, se desenvolveu e vem sendo planejado em praticamente todas as cidades ocidentais é caótico, é desigual e segrega. Por quê? Porque esse é o sistema em que vivemos. A violência faz parte da cidade e faz parte do urbano, em uma ação perversa que se inicia com a base do modelo capistalista de cidade: a privatização da terra, onde uns tem direito à ela e outros não. A prioridade da terra enquanto valor de troca, e não valor de uso. A privatização dos espaços acaba por selecionar aqueles que tem direito à cidade, à memória e à representatividade. E não se trata de uma política municipal, estadual ou federal. É um movimento econômico pautado pela financeirização da terra e do solo urbano e explorado por diversos autores e autoras do mundo inteiro.

Por um lado, a imprensa, e isso é sempre importante lembrar, bem como uma importante parcela da elite paulistana, não se importa com a população em situação de rua. Nunca se importou e não mudou de ideia em função de um inverno rigoroso ou a perda de vidas humanas. São aqueles que lutaram contra o IPTU progressivo e contra uma cidade mais democrática no acesso a terra. São aqueles que lutam contra as ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social) nas áreas centrais e nobres da cidade de São Paulo. Eles (sim, eles, os que sustentam e lucram com esse modelo de financeirização da terra) não querem uma solução progressista para esse problema inerente ao cotidiano paulistano. Querem, na realidade, o que queria para a chamada “cracolândia”: arrasar o bairro, não importa se pessoas vivem lá. O repentino interesse da imprensa pelo tema é movido só e somente só por motivos eleitorais. Caso contrário, um debate maior sobre o tipo de cidade em que vivemos estaria sendo proposto.

É importante também ressaltar que essa visão não diminui a importância sobre o tema – seja por parte do poder público ou por parte da população. Lembremos que, a última pauta da esquerda comprada pela grande mídia e pela direita gerou um movimento de dimensões gigantescas no ano de 2013 em todo o Brasil, tendo começado justamente na cidade de São Paulo.

Deixarmos de nos sensibilizar, entristecer e indignarmos com notícias desse tipo significaria a nossa falência da sociedade. Uma vida é uma vida, e como disse a própria prefeitura em uma peça publicitária veiculada recentemente, “Quem salva uma vida salva o mundo inteiro”. Não podemos aceitar, e devemos, sem dúvida, cobrar a atual gestão. Isso é essencial para a evolução dessa São Paulo em uma cidade que queremos, mais igualitária, democrática e acessível.

Devemos fortalecer o debate em termos que realmente signifiquem e sinalizem uma mudança para São Paulo. Aqueles se identificam como progressistas e com o campo de esquerda devem, neste momento, impulsionar e fomentar um debate que resulte em uma mudança concreta para a cidade. Que contemple a crítica contra a GCM, mas que vá além nesta discussão e proponha também o debate sobre o urbanismo que há séculos produz uma cidade como a nossa. Que condene o poder público que arranca o cobertor de uma pessoa em situação de rua, mas que acima de tudo se questione: porque essa pessoa está na rua?

Não devemos apenas cobrar vagas em albergues no inverno paulistano. Não podemos nos contentar com a falsa sensação de que uma campanha do agasalho, por mais louvável que seja, vá representar alguma mudança social. Devemos fomentar cada vez mais medidas como o “De Braços Abertos”, que busquem alternativas sociais – e não policiais – para problemas de saúde, apoiar o IPTU progressivo, importante ferramenta no combate à especulação imobiliária, exigir a implantação de ZEIS em toda a cidade, bem como devemos cobrar medidas de assistência e inclusão social para aqueles tão marginalizados em nossa sociedade.

O problema é complexo, a indignação é profunda e extremamente necessária. Mas não podemos nos deixar levar por uma imprensa que, mais uma vez, tentar se apropriar de uma pauta progressista com um viés eleitoral. Aqueles que controlam a grande imprensa paulista não lutam pela inclusão, tem horror a uma cidade mais democrática e lucram com a financeirização do solo urbano. Cabe à esquerda, seja ela no âmbito das eleições, do dia a dia ou das redes sociais, fomentar o debate no nosso campo, da crítica construtiva e propositiva para nossa São Paulo. O nosso adversário não é um partido, uma gestão ou uma pessoa. É um modelo de crescimento. E precisamos estar atentos a isso.

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Por Jornalistas Livres.
 
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