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Como afirma o antropólogo David Graeber, o comunismo já está entre nós. O problema que se coloca na contemporaneidade é como alargamos e democratizamos suas células.

Quando se fala em economia de compartilhamento, podemos identificar vários tipos ideais. Há o grupo dos ursinhos carinhosos, que sonham mudar o mundo e alcançar a era pós-capitalista sem mudar o capitalismo. Há também os querem lucrar com a palavra bonita e vender gato por lebre. Há o grupo da esquerda carrancuda, que faz cara feia quando se fala no assunto e alega que economia de compartilhamento é capitalismo enfeitado e ponto final, já não seria capaz de destruir nem o grande capital nem os sedutores e perversos mecanismos ideológicos de sua reprodução.

Penso que a crítica não pode ser dirigida ao conceito de compartilhamento em si, mas ao abuso semântico que ele tem sofrido, ao tornar-se um guarda-chuva que engloba um leque de coisas muito diferentes (peer-economy, mesh, economia ou consumo colaborativo, etc.). Compartilhamento que ocorre entre usuários, mas que gera lucro privado para proprietários não é economia  de compartilhamento – ao menos no sentido estrito do termo.

No universo de startups de economias colaborativas, já conheci muitos projetos brilhantes e inspiradores, mas também muita gente tentando enriquecer à custa do compartilhamento dos outros - o que para mim é uma contradição tão óbvia quanto a soma de dois mais dois.Airbnb, eBay, Zipcar... Eles podem ser um modelo de negócios mais humano, sustentável ou vantajoso, mas tudo isso tem nome: economia de mercado.

Eu gostaria de pegar este mote deixado pelo debate sobre o Uber e chamar atenção para outra economia das trocas, que anda meio fora de moda: a comunitária. Partindo do Ensaio sobre o Dom (1922), de Marcel Mauss, economia de compartilhamento é um sistema de trocas de dádivas, não um modelo de negócios consumido esporadicamente.

É um modo de vista holista, uma prestação total que cola as pessoas umas às outras e engloba diversas esferas da vida: social, emocional, jurídica, religiosa, política e econômica. As coisas não se acumulam: elas circulam - o faz toda a diferença.

Eu procuro me situar entre os otimistas de esquerda que acreditam que o compartilhamento é um ato revolucionário. Concordo com o antropólogo David Graeber que o comunismo já está entre nós. O problema que se coloca na contemporaneidade é como alargamos e democratizamos suas células.

Imaginar novas e velhas práticas

Economia de mercado corrói a comunidade.

Na Inglaterra, a identidade do pequeno vilarejo de Eynsham celebra o fato de nunca ter tido uma família rica na área.  Apoiam-se os pequenos produtores que vendem orgânicos a preço justo. Os produtos são cultivados em hortas comunitárias.

Em especial, os moradores nunca aceitaram a entrada de uma cadeia de supermercados – o que é uma façanha. A troca de bens materiais e imateriais é parte de um sistema cotidiano complexo que une as pessoas. A comunidade se autodeclara feliz.

Pequenas cidades ou bairros sempre cultivaram a comunidade: laços fortes e ajuda-mútua; solidariedade e reciprocidade. Nas favelas, isso sempre foi o segredo da resiliência. Crianças sendo cuidadas por muitas pessoas, troca de alimentos e de favores. - Me empresta cinco reais para eu pegar o ônibus e ir ao hospital? Compra-se fiado, retorna o pagamento com o conserto do fogão. As etnografias de Lúcia Scalco (Morro da Cruz, Beco das Pedras, Porto Alegre) e Hilaine Yaccoub (Barreira do Vasco, Rio de Janeiro) mostram com rigor e poesia como funciona a velha e boa economia de compartilhamento.

Elas não mostram um mundo romântico da pobreza. Elas narram vidas duríssimas com problemas de todas as ordens, a começar pela juventude que, celebrando o consumo de marcas, não está nem um pouco interessada nessa história de trocar orgânicos na feira.

Empoderamento é o que pode mudar e melhorar tudo isso. Por defender a soberania local, penso que isso só pode ser alcançado pelos próprios caminhos da comunidade, seus desejos e anseio – jamais via partido político que distribui ficha de filiação na associação de moradores, tentando discutir Gramsci enquanto as senhoras querem fazer crochê e debater a novela.

Mas como se alcança, na prática, empoderamento quando o mercado é uma sereia que só promete encantamento e o Estado é uma patrola burocrática que só faz sofrer?

Líderes comunitários, ativistas e intelectuais – “de raiz” – cada vez mais se articulam para pensar diferentes formas de conectar as comunidades. A Iniciativa da Transição, por exemplo, procura formar uma rede internacional de localidades. Em comum, da favela brasileira ao pequeno vilarejo inglês, é a ideia que a resiliência crítica se dá resistindo ao mercado, estimulando as trocas, fortalecendo a identidade local e lutando por formas de vida menos predadoras e mais sustentáveis.

A troca de experiência comunitária é fundamental. Ela forma um cordão de resistência, encoraja as comunidades a se reinventarem e, principalmente, mostra que os problemas são parecidos, mas as soluções podem ser diferentes. Trocam-se sementes, roupas, conhecimentos e honrarias. Menos Uber e mais Kula. Ao que tudo indica, estamos hoje observando o retorno da era das trocas inter-comunitárias.

Communis

A palavra comunismo vem do latim communis (comum, universal, público) ou ainda decomoenus (compartilhamento, geral). Trata-se de um sistema político e econômico cujas riquezas e recursos são comuns e compartilhados, de acordo com habilidades e necessidades, entre os membros de uma mesma comunidade.

Poucos constatariam de que se trata de um modelo justo, já que a natureza é uma dádiva comum e não propriedade privada. O que causa arrepio, portanto, é a associação que foi feita do conceito com os regimes totalitários do século 20. Se aceitarmos essa definição básica, o desafio contemporâneo é pensar novas formas de implementar algo que deveria ser tão fundamentalmente óbvio: o compartilhamento das riquezas entre membros de uma mesma comunidade.

Intelectuais são produtos de sua época. Marx era grande admirador de Charles Darwin.  O Capital foi escrito em pleno século 19, auge do evolucionista, que, quando aplicado às sociedades e não às espécies, é sempre etnocêntrico. O comunismo, então, foi pensando dentro de uma grand narrativa universalizante que prevê estágios de civilização, uns superando os outros. Trata-se de uma visão linear e progressiva da história, pressupondo que todas as sociedades caminharão na mesma direção. Mas as sociedades são diferentes e, feliz ou infelizmentemente, um pouco mais complexas.

O pensamento do século 19 influenciou as revoluções do século 20 e tanto os stalinistas quanto os maoístas impuseram a revolução às massas. Ainda que grande da esquerda atual repudie esses regimes, a forma de pensar a revolução mantém-se moldada epistemologicamente dentro da ideia de etapas societárias e de amplos sistemas institucionais tradicionais, especialmente aqueles que giram ao redor do Estado-nação. Mas é preciso pensar fora da casinha e lutar contra a máquina capitalista da desesperança.

Cada comunidade tem uma forma de se organizar e, portanto, reagirá diferentemente a tudo que for imposto homogeineizante de cima para baixo, mesmo que sob o rótulo popular de “baixo para cima”.  Com isso, eu chego ao meu argumento: não existe revolução se não for comunitária.  Ela precisa ser de raiz, singular, autônoma.

Ela precisa escolher seus próprios rumos (suas formas de produção, de troca e compartilhamento) e resolver seus próprios problemas por meio da soberania local. Há de se argumentar que o capital é global, mas ele próprio se localiza para conquistar mercados. De raiz, globalizemos a localidade e a diversidade da resistência.

Assim, de deixando de lado o evolucionismo, é preciso parar de esperar o amanhã utópico – ainda que sonhá-lo seja importante para seguirmos lutando – e reconhecer e fortalecer os clusters comunistas, comunitários ou compartilhados que já boicotam o grande capital. Deixemos de lado por ora as grand etapas, lineares e verticais. Olhemos horizontalmente para as comunidades que praticam economias do compartilhamento de formas singulares. Como fortalecer e interconectar estes que são microcosmos de resistência? Ao que me parece, este é uma das grandes questões do século 21. Estamos longe de precisar recriar a roda, ainda que a criatividade para imaginar novos sistemas de trocas comunitários seja fundamental. 

Rosana Pinheiro-Machado em Carta Capital.

 


Existem na cidade de São Paulo 290 mil imóveis não habitados e 130 mil famílias sem casa. Pela matemática, sobraria casa mesmo que todos os sem-teto fossem abrigados em moradias dignas. O problema é a especulação imobiliária, que condena tantos a uma vida de privações e medo.

Confira o ensaio realizado em dois dos principais símbolos de resistência da Frente de Luta por Moradia (FLM) do centro de São Paulo: a Ocupação Mauá e a Ocupação Prestes Maia. 

A íntegra: https://goo.gl/Cz9NYN

Amanda Coutinho e Fellipe Mello, especial para os ‪#‎JornalistasLivres‬

 


São Paulo, 2015. Um dia após a data na qual é celebrado o dia da mulher negra latina e caribenha, o vão do MASP foi ponto de concentração para a primeira Marcha do Orgulho Crespo.

O concreto de Lina Bo Bardi foi tomado pelas cores, turbantes, grandes brincos e os mais variados cabelos crespos. Das longas tranças às cabeças raspadas, dos black powers aos cachos mais tímidos, dos cabelos coloridos aos turbantes ainda mais coloridas: todas e todos estavam reunidos para celebrar o orgulho que é ser [email protected] O cabelo crespo não é cabelo ruim, o cabelo crespo é coroa, que todas as negras e negros carregam consigo, junto de sua ancestralidade africana.

Histórias de vidas foram compartilhadas pelo megafone em uma roda formada pelos participantes antes da saída da Marcha. Cada fala era saudada pelos companheiros e companheiras com palmas e gritos de força. A dor e o preconceito sofrido por um é sentido por todos. O ato festivo e político contou com a presença de Karol Conká  - artista negra e ícone do hip-hop  - , que foi recebida com a euforia por todos no ato.

Porque celebrar o orgulho do cabelo crespo em uma sociedade racista é sim um ato revolucionário e subversivo.

O ensaio: https://goo.gl/JBu17d

Por Jornalistas Livres e fotos Mídia Ninja.

 


Francisco, por mais que tu saibas do cronicamente inviável do mundo, repare nos detalhes, no latim dos rapazes, há um requinte na rima e no que Mano Brown diz: oxicus est rabidus, processum est tardus. Traduzo, no meu latim chinfrim de quem fugiu das aulas no Seminário da Diocese do Crato (Ceará), um mantra dos Racionais MC´s: o bagulho é louco, o processo é lento.

O delírio deste cronista é imaginar o papa Francisco --presenteado pelo prefeito Fernando Haddad com um disco dos rappers brasileiros na sua visita ao Vaticano --, mandando os versos do grupo da periferia paulistana em um sermão dominical no Vaticano.

Toxicus est rabidus, processum est tardus. Para quem foi ateu e agora faz morada na tenda dos milagres como eu, não duvido nada do xará católico apostólico romano.

Mano Brown e o papa têm mais em comum, cada qual com seu testamento, do que imaginam as fiéis criaturas de qualquer seita ou credo deste, tomara Deus para todo o sempre, Estado laico.

A turma dos Racionais, com seus salmos ao rés do chão dos subúrbios, semeou uma mensagem tão importante –e aqui redundo o franciscanismo do santo de Assis - quanto o atual discurso de Jorge Bergoglio na cúpula de Roma.

“Diário de um detento”, para ficar apenas numa faixa dos caras, é tão importante quanto algumas páginas do gênio-mor Machado de Assis, nego do Morro da Providência e do Cosme Velho... Tão bonito quanto os subterrâneos de Lima Barreto... Tão comovente como as escritas de Luiz Mendes, ex-presidiário e o maior colunista do Brasil (revista Trip) ao lado do Jânio de Freitas, da Folha.

Nada mais lindo, em um certo sentido devoto da linguagem, do que o conforto das letras dos Racionais para as almas apenadas que padecem no inferno das dostoievskianas “casas dos mortos”. As gentes das masmorras com suas culpas cristãs e capivaras de processos roendo o cérebro “sob o olhar sanguinário do vigia”... Somente mais um dia riscado na parede no ajuntamento de desventuras e inglórias, somente mais uma recusa até do sol por testemunha –se nem ele nasceu para todos, como expiar os erros na desordem?

Este cronista visitou tantos irmãos e parentes na cadeia que talvez saiba do que está falando:

“Minha palavra alivia sua dor

Ilumina minha alma

Louvado seja o meu senhor

Que não deixa o mano aqui desandar ah

E nem sentar o dedo em nenhum pilantra

Mas que nenhum filha da puta ignore a minha lei

Racionais capítulo 4 versículo 3”.

Vida loka

Nada mais alentador para os jovens dos arrabaldes das metrópoles, anjos ou demônios, do que os versículos dos músicos do Capão Redondo dirigidos aos feios, sujos e rejeitados.

Imagino a cena. O papa Francisco vai à janela e manda para a juventude do mundo inteiro: Toxicus est rabidus, processum est tardus. Óbvio que vai mandar num latim mais rochedo, correto, mas saberá do que se trata o bagulho.

Vida loka, como na expressão consagrada pelos Racionais no Brasil todo. Vida loka é saber que um papa, quase sempre um vanguardista do atraso por causa da solenidade sacana do cargo, agora está a muitas léguas submarinas na frente de muitos estadistas, leio o Juan Arias, colunista deste mesmo EL PAÍS, e sei disso. Que maravilhoso argentino. Só tem um pecado, amigo Mano Brown, torce pelo San Lorenzo, El corvo, e não pelo maior time do universo de todos os planetas, o Santos Futebol Clube. Remittuntur tibi, será assim que se escreve “está perdoado” , sumo pontífice?

Vida loka: quando uma autoridade do Vaticano consegue emplacar umas ideias adiante, quem diria, de toda uma sociedade –sacanagem atribuir o atraso somente aos governos. Vida loka, agora o papa é vanguarda, tem algo estranho no mundo quando o papa consegue ser mais avançado que a imprensa, a política e até mais que os poetas. Que falta nos faz o Roberto Piva, o trovador de uma São Paulo menos tacanha, uma São Paulo iluminista da avenida São Luiz até a tocha da Petrobras no final da Sapopemba.

Viva o papa. Com um ideário em sintonia com o Mano Brown e Emicida, com o GOG, com o Zé Brown, com os grandes rappers brasileiros, nossos maiores cronistas.

Agora, silêncio, escutem esses versos dos Racionais MC´s, please:

"Cadáveres no poço, no pátio interno.

Adolf Hitler sorri no inferno!

O Robocop do governo é frio, não sente pena.

Só ódio e ri como a hiena."

A narrativa era sobre o massacre do Carandiru, mas vale para qualquer hora ou chacina. Vale o escrito. Hannah Arendt assinaria embaixo.

 



Sobrevivendo no inferno

Salmo 23: "Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da Justiça". Eis a epígrafe, logo na capa, da obra entregue a Francisco. Digo do CD “Sobrevivendo no Inferno”... Que lindeza... O motivo dessa crônica. O disco que o melhor prefeito de hoje do Brasil, obviamente o que mais leva porrada, levou ao papa de presente. Haddad, mas não se esqueça, porrada mesmo, no sentido Fernando Pessoa do termo, quem levou foi a Erundina, talvez a melhor prefeita de SP de todos os tempos, se liga, a tia paraibana estava na mira, qualquer foca editorializava acima de qualquer suspeita ou rasgava as regrinhas do manual de redação que só valem quando você é contra.

Silêncio.

Agora estou reouvindo de fato o maior disco de rap de todos os tempos: “Sobrevivendo no inferno”, se liga, todo mundo sabe que Jorge sentou praça na cavalaria/ E eu estou feliz porque eu também/ sou da sua companhia...

Francisco, por mais que tu saibas do cronicamente inviável do mundo, repare nos detalhes, no latim dos rapazes, há um requinte na rima e no que Mano Brown, Ice Blue, KLjay e Edy Rock dizem. Eles são tão importantes quanto o T.S. Eliot de uma certa terra desolada.

Há um dito bendito além da conta. Se liga, Francisco.

Xico Sá no El País.

Sempre que saio às ruas com os meus amigos e amigas do SP Invisível para conversar com pessoas que encontramos no caminho, seja ela prostituta, moradora ou morador de rua, criança, adolescente, catador ou artista de rua, procuro levar algo além dos meus ouvidos. Às vezes levo comida, roupas, porém me recordo até hoje da única vez que levei a maior arma que uma pessoa pode segurar. Lembro muito bem que, em pleno debate sobre redução da maioridade penal, a gente tinha que entrevistar meninos e meninas que moravam nas ruas, então saí por aí distribuindo Drummond, Aloísio de Azevedo, Machado de Assis, Jorge Amado, José de Alencar e munindo essas crianças e adolescentes de informação após cada papo.

No segundo sábado que saímos para entrevistar esses jovens, um menino chamado Pedro (nome fictício) nos marcou muito. Ele tinha mais ou menos uns 10 anos e chorava muito, pois estava com dor de dente. “Ele come muito doce e não escova o dente, senhora”, disse o irmão dele que fazia malabares no farol para Marina, que cuidava do menino sentado na calçada. Depois de muito choro e muito tempo tentando arrancar uma palavra de Pedro, ele disse à ela que queria um remedinho. Ela e o André então foram com ele à farmácia comprar alguma coisa para o menino.

Quando eles voltaram com o remédio, eu fiquei com ele enquanto eles entrevistavam seu irmão para a série de adolescentes do SP Invisível. Estávamos sentados na calçada e, para tentar calar seu choro, decidi ler um livro de poesias que havia levado. Depois de ler vários poemas, um chamou sua atenção, o famoso “E Agora José ?”. Ele lia atentamente verso por verso enquanto aos poucos parava de soluçar: E agora, José ?/A festa acabou,/a luz apagou,/o povo sumiu,/a noite esfriou,/e agora, José?/e agora, você?/você que é sem nome,/que zomba dos outros,/você que faz versos,/que ama, protesta?/e agora, José?/Está sem mulher,/está sem discurso,/ está sem carinho,/está sem carinho,/já não pode beber,/já não pode fumar,/cuspir já não pode,/a noite esfriou,/o dia não veio,/o bonde não veio,/o riso não veio/não veio a utopia... Essa última palavra chamou sua atenção e interrompe a leitura:

- Tio, o que é isso?

- Isso o que?

- Utopia.

- Ah, é uma coisa muito boa que a gente quer que aconteça, mas nunca vai acontecer. Só que a gente sempre luta para que isso aconteça.

Nessa hora fui surpreendido pela sabedoria e simplicidade da resposta daquele menino de 10 anos que pedia dinheiro no farol com o seu irmão:

- É tipo acabar as crianças da rua, né?!

Não soube o que afirmar naquele momento, rapidinho passou um monte de dúvidas e reflexões sobre o que ele quis dizer e o que aquela pergunta carregava. Não foi só uma simples pergunta. Ela veio também com um grito de “eu quero sair daqui”. Veio também com uma denúncia que coloca no chão qualquer jornal. Além disso, veio com um engajamento de dar inveja aos movimentos sociais, inclusive às maiores revoluções históricas como a Russa ou as da Europa em 1968, “Je suis Pedro”. Chegou com tanto sonho e esperança aquele questionamento que nem Luther King ou Galeano esperavam tal resposta. Aurélio que me perdoe, mas a sua simples definição para a palavra deveria estar em todos os dicionários, pois só alguém com muita propriedade do assunto poderia definir o que é “utopia” tão facilmente. Só alguém muito sonhador como o jovem Pedro. 

Para não ficar muito tempo quieto, respondi com outra pergunta e disse a ele:

- O que você quer ser quando crescer?

- Professor – Ele respondeu – de História. 

“Está tudo explicado”, pensei. Mal sabia ele que o seu primeiro aluno já estava à sua frente. Num dia que saí com uma postura prepotente e preconceituosa de “ensinar algumas coisas distribuindo meus livros nas ruas”, fui eu quem mais aprendi no papo com aquela criança cheia de sonhos. O livro ficou com ele, a lembrança comigo. Meus desejos para o jovem Pedro é que numa cidade tão grande e ele que é tão pequeno, não desanime e nem desista de ser o professor que ele já é. E que assim como eu, ele possa fazer por aí outros alunos dentro e fora da sala de aula ao longo de sua vida inteira. 

O Pedro quer ser um professor, mas para isso ele precisa de um. Acabar com as crianças nas ruas pode sim ser uma utopia, como ele disse. Mas é isso que nos faz caminhar, como disse Galeano. Há muitas crianças e adolescentes invisíveis nas ruas do Brasil carregando bolinhas, limões, rodinhos, sonhos e histórias. Histórias essas que precisam de atenção. Não podemos deixar de olhar para essas pessoas e nem que essa esperança que resta a algumas delas se acabar.? O Museu da Pessoa tem um acervo de histórias de brasileiros e brasileiras anônimos e anônimas como o Pedro. É para tirá-las da invisibilidade e mostrar a riqueza da alma humana que existe o projeto. São elas que motivam iniciativas como esta, “SP Invisível”, “Nós, Mulheres da Periferia”, “Caçadores de Bons Exemplos” e vários outros movimentos e pessoas contadores de histórias por todo mundo. São as histórias de vida que motivam e que transformam o mundo e as pessoas. Muito obrigado pelo espaço e pela confiança cedidos pelo museu. 

Vinícius Lima, 19 anos, estudante, é um dos fundadores do SP Invisível.

Especial para o Museu da Pessoa. 

Leia baixinho os versos a seguir e vá aumentado a voz gradativamente: Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução. Redução não é solução.

Eram cinco mil vozes em comum. Eram cinco mil timbres afinados, não emtom, mas em ideologia. Brasília não tem esquinas, por isso, os gritos ficaram presos dentro dos corredores dos prédios públicos do Distrito Federal. Dizem que ontem, os Deputados Federais, ao saírem dos gabinetes levaram um susto. Sabe por quê? O gramado do planalto estava vazio, mas eles ouviam gente gritando. Dizem ainda que o tal do Cunha mandou fechar as portas para que nenhuma daqueles vozes invadisse a sessão. Até a polícia do Congresso se armou esperando por algo que não vinha.

Não havia mais ninguém em Brasília, o que sobrou foi os gritos dos manifestantes, o choro das mães que perderam seus filhos e o lamentos dos mortos. O grito que sobrou na Capital se assemelha com aquele que a gente ouve no dia da Consciência Negra, no Dia do Índio, nas aulas de histórias quando se fala de tortura na ditadura. “Soa apenas como um soluçar de dor. E ecoa noite e dia. É ensurdecedor”.

Caro leitor, optei abrir essa matéria de forma mais lírica, como pode perceber. Em linha gerais, daqui por diante devo apenas retratar o Guerrilha viu no dia em que estivemos em Brasília acompanhando os movimentos socais, que combatem a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171, aquela que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

Diário de Viagem

Partimos de São Paulo no dia 30, às 19 horas, do Pátio do Colégio. Haviacerca de 160 pessoas ligadas aos mais diversos movimentos sociais. Antes de partir ao destino federal, para nossa surpresa, o ex-senador e atual secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, Eduardo Suplicy (PT) veio até nós e declarou total apoio a causa, o que talvez tenha dado um ânimo ao pessoal, que já estava cansado de esperar a partida. Percorremos em 15 horas, mais de 11 mil quilômetros.

Chegamos a Capital por volta das 12 horas. Era preciso antes de tudo, acharum local para poder retirar as credenciais de imprensa para que pudéssemos cobrir a sessão de dentro do Congresso. Era evidente a tensão que pairava sobre os seguranças dos prédios federais. Tensão essa que levou um deles a discutir com o Deputado Federal Jean Willys (Psol) por conta da entrada de uma assessora sem crachá. O parlamentar entrou na frente do rapaz que tentava impedir a passagem e segurou na mão da moça e exigiu que ela fosse liberada. Após uns cinco minutos de discussão tudo foi resolvido. Quer dizer, entre eles, pois nós que buscávamos pelo setor de imprensa fomos proibidos de acessar o prédio e “orientados” a seguir por outro caminho.

Fomos então para o anexo II do Congresso e, mais uma vez confusão naentrada de visitantes. A reportagem já estava irritada com a situação e quase bateu boca com um segurança, O desgaste não adiantou em nada, pois as credenciais não foram liberadas.

Por volta das 15h30 a reportagem estava no Anexo II de novo acompanhando os movimentos sociais que se aglutinavam no local. Com os mais diversos gritos de ordem, cerca de 100 pessoas faziam uma pequena barreira entre a entrada no prédio. Às 16 horas, por conta de um grupo de ativistas a favor a redução um tumulto começou. Aproximadamente 20 policias faziam uma fileira e bastou um empurra-empurra para que as primeiras doses de gás de pimenta fossem dispersadas sobre os ativistas.

“Covardes”, gritavam os manifestantes. A polícia agia como se nada tivesse acontecendo. Talvez, nessa hora, leitor, você pense: onde estavam os outros mil e tantos ativistas? Bem, segundo informações, eles estavam fazendo uma ciranda e fazendo algum tipo de sarau, ao invés de somar luta com os de mais companheiros que sofriam com a retaliação.

Ao todo foram três ataques, sendo que o mais agressivo foi às 18 horas, quando um grupo maior chegou e mais spray de pimenta foi liberado. Uma menina de 17 anos teve contato direito dos olhos com o liquido. Nessa hora parecia cena de confronto real, como em junho de 2013. Pessoas gritavam com as mãos nos olhos pedindo por socorro. As mais diversas pessoas choravam e não conseguiam abrir os olhos por conta do cheiro forte.

Enquanto isso, os restantes dos cinco mil ativistas estavam no gramado fazendo qualquer coisa. Segundo uma ativista que conseguiu descer, os movimentos que estavam organizando todas as ações impedirem que os manifestantes descessem para ajudar.

Foi incrível o ato de pelegagem protagonizado principalmente pela UNE e pela UJS. Após toda essa agressão sofrida pelos ativistas, esses “movimentos” que se dizem parte de uma revolução, chegaram como se fosse ajudar de alguma forma, quando na verdade, preferiram acender velas e ficar cantado musiquinha rimada.

Ficaram então, parados por mais 1 hora em frente ao anexo sem fazer nada. Enquanto isso, a tropa de choque se alinha. Esses movimentos não tiveram a capacidade de ao menos dar uma palavra de ordem contra aqueles que violentaram manifestantes horas antes da chegas deles. Deixo registrado aqui, que para aquele movimento que se diz “a juventude do Araguaia” sugiro estudar um pouco mais o que foi essa juventude, antes de reproduzir tamanho impropério.

Após tudo isso, chegou a hora de acompanhar a votação. Dois telões foram instalados para que os grupos pudessem acompanhar. Os ativistas vaiavam e aplaudiam os parlamentares, como se esses pudessem ouvir alguma coisa.

Depois longas horas de espera, enfim, a decisão saiu, Naquela noite de terça, éramos vitoriosos. E o que nos restava senão gritar bem alto:

Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.
Redução não é solução. 
Redução não é solução.

Por Vinícius Amaral, colaborador do Guerrilha GRR e repórter pelo jornal Diário de Suzano.

 

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