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A cidade de São Paulo é a mais multicultural do Brasil e uma das mais diversas do mundo. Com a chegada de imigrantes europeus no século passado, a cidade de São Paulo ganhou diversas vilas proletárias. Construídas para abrigar operários de uma mesma construção ou indústria, os bolsões de casinhas coloridas ainda sobrevivem cercados por grandes prédios na metrópole paulistana.

Uma das singularidades de São Paulo é ter no seu centro uma fenda topográfica de difícil resolução urbanística: o vale do Anhangabaú. Na origem o vale protegia, juntamente com a várzea do Carmo, a colina onde se abrigava a povoação jesuítica. Com a expansão do núcleo urbano, no entanto, foi preciso vencê-lo, embora de maneira nunca definitiva.

O vale, que abrigava um riacho assombrado, segundo o seu nome indígena, foi ocupado por chácaras, bordejado por plantações de chá, deu lugar a residências de elite, foi racionalizado como espaço público ajardinado, depois aberto a avenidas amplas e depois ainda transformado em calha automobilística subterrânea recoberta por uma praça de concreto de uso inconclusivo.

A Vila Madalena de hoje concentra estúdios de artes, fotografia, galerias, exposições, escolas de teatro e principalmente bares, muitos bares. É um ponto de concentração de artistas, escritores, jornalistas e gente jovem à procura de diversão. Nada que lembre os idos de 1954, quando a parte alta da Fradique Coutinho nem era pavimentada, como todas as ruas em redor, mas já existia a Escola de Balé Elza Prado, no mesmo local até hoje.

Imagem: reprodução.Imagem: reprodução.Na foto ao lado, é possível ver o rosto do ladrão da minha bicicleta. Ele caminhou até ela, pegou o alicate dentro do bolso, cortou a corrente e foi embora como se fosse o próprio dono. Levou mais do que apenas uma simples bicicleta, levou uma parte vital de mim.

Eu sei que, infelizmente, há um monte de crimes nas ruas de São Paulo, mas eu nunca imaginei que acontecesse comigo, talvez por ser grandão (1,89 metros) e forte, porque sempre fiz Crossfit. Mas descobri que isso não fez diferença nenhuma.

Eu passeio com cachorros e aquela era mais uma tarde normal. Como de costume, deixei minha "Magrela" (apelido que dei para minha bicicleta) presa a um poste com cadeado, bem em frente a um prédio cheio de câmeras e seguranças, que ao meu ver dificultaria qualquer tentativa de furto.

Com a magrela presa ao poste, saí para passear com uma das minhas clientes, a Pipoca, uma cachorrinha Border Collie linda e muito inteligente. Ah! Um adendo aqui:  talvez te cause um certo estranhamento falar que um cão é um cliente, porém, para mim, cada um dos meus cães é um cliente especial que se torna amigo (a), e cada um recebe meu carinho de forma igualmente especial. Acho que esse é o motivo de hoje eu ter muitos amigos para andar.

Voltando a história, você sabe aquela sensação estranha de que algo está errado, mas você não sabe dizer o que é? Era isso que eu sentia quando voltei da minha caminhada com Pipoca. Algo parecia errado. Encostei no poste e me senti estranho porque não havia nada lá. Senti meu coração bater mais rápido. Eu olhei e pensei, "Onde está minha Magrela?"

Dentro de mim eu já sabia o que tinha acontecido e como qualquer pessoa reagiria, meu primeiro instinto foi entrar em negação. Em seguida, comecei a me questionar: "Onde eu podia ter deixado minha bicicleta?”, mas o sentimento de perda já estava no ar. 

O segurança não tinha sequer percebido o que tinha acontecido, mas em seguida confirmou o que eu já sabia e alguém havia furtado a minha Magrela e bem debaixo de seus olhos, em plena luz do dia.  

Agora, me diga: como você sentiria?

Continuei negando, negando e enfim não pude mais negar. Troquei a negação por  uma raiva profunda! Com que direito alguém pega o que é seu? Nenhum!

Furioso, lembrei que o edifício tinha câmeras. Eu pedi para ver a gravação e consegui descobrir a identidade do criminoso. Minha vontade era direcionar toda minha raiva e indignação não para um atitude errada, mas para um rosto específico. 

Magrela não foi comprada com dinheiro, ela foi comprada com o suor do trabalho árduo. Foto: Getty Images.Magrela não foi comprada com dinheiro, ela foi comprada com o suor do trabalho árduo. Foto: Getty Images.

O chefe da segurança me mostra todas as imagens e lá estava o ladrão, sem pressa, sem medo e preparado (com alicate em seu bolso). Cortou, sentou, pedalou e foi embora.

Ah, a urb!... O vaivém nas ruas, o signo pulsante da modernidade, o espaço público por excelência. No início do século XX, João do Rio, o Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.cronista marginal, fez um inventário dos “tipos” que circulavam pela cidade em "A Alma Encantadora das Ruas", um clássico nacional. Mais do que um livro sobre crônicas de costumes, a obra retrata as transformações urbanas que o Rio sofria no momento de autoestima elevada da Belle Époque, quando despontava como capital da república nascente.

Morar no centro é bom. Já andei traçando listas de vantagens, séries de atividades, rotas, itinerários, opções de cafés, comidas, salões, mercados e passeios.

Já aprendi nos emaranhados labirínticos das ruelas, viadutos, vias expressas e calçadões, onde vai dar aonde e o que vai dar no que.

Já especulei as melhores alternativas e métodos de conciliar o bom e o barato, me achando a maior malaca descolada; aquela que se da bem nas compras e que domina o centro da cidade como se fosse o centro do mundo. Ah, eu e meu umbigo libertino não sabiam o quanto iriam aguentar do lado B do glamour do baixo-paulistano.

Já fiz muitos trabalhos no Centro, como o Café Girondino, Salve Jorge, extinto café republica e mais uns lances. Já dei banda por aqui todos os dias e em diversos horários. Lembro que a noite descia a ladeira Porto Geral, uma enxurrada de ratazanas recém-saídas dos bueiros e porões, e que na minha fantasia dirigiam-se aos empórios, restaurantes árabes e mercadão municipal.

Os estabelecimentos costumavam abrigar gatos, não apenas por conta do amor felino, mas pra dar cabo dos roedores.

Foto: Márcia Fukelmann.Foto: Márcia Fukelmann.Mudando de rato para gente, tenho reparado no aumento da miséria, do desabrigo, da fome, do desolamento, da tristeza. Nas ruas multiplicam a cada dia os leitos improvisados de espumas de colchões, sacos plásticos, panos velhos, caixas de papelão, barracas tipo lobinho (um novo estilo de acampamento urbano), ou usufruto direto das pedras da calçada como leito.

Vejo gente encaixada em frestas entre canteiros e prédios, gente dormindo com a cabeça sob rodas de cadeiras de rodas, casais dormindo abraçados sob um cobertor encardido (sim, os brutos também amam), moço dormindo sob plástico preto de embrulhar presunto, sob garoa e vento, gente especulando os lixos atrás de comida ou objetos recicláveis...

Já vi gente dividindo marmitex com o cachorro, e já vi cachorro devorando ossos dados ao mendigo que cochilou na porta do açougue.

Vejo maluco beleza varrendo a calçada onde dorme, cuidando da limpeza deste lar a céu aberto... vejo todos os dias a miséria crescer num nível além da fome, do desprezo das gestões publicas que com seus jatos de água fria, com suas almas frias, não sentem o que fingem não ver. Ando bem tocada com a minha nova e necessária convivência.

Não me afasto desta verdade. Mudanças devem ser feitas. A miséria é epidêmica, não dá pra fazer vista grossa. Enquanto homens “pardos” sujam e poluem a paisagem da cidade linda, ratos brancos e gatos pretos fazem a festa.

***
Márcia Fukelmann é proprietária de Consultoria Gastronômica com seu nome.

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