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O modelo de negócios das smart cities tem que levar em conta, no fundo no fundo, as pessoas. Foto: USP Imagens.O modelo de negócios das smart cities tem que levar em conta, no fundo no fundo, as pessoas. Foto: USP Imagens.

Ninguém gosta de ser chamado de burro.

Será que a cidade que eu vivo é a última da classe?

Quando fui chamado para mediar uma discussão sobre Smart Cities aqui no Welcome Tomorrow, logo pensei: acho que São Paulo tem muito pouco de smart.

Mas será que ela é Dumb?

Dumb é burro em inglês.

É que a gente adora falar estes conceitos em inglês.

Aí a gente fala commuters, people-mover e smart city.

Em geral, cidades como Tóquio, Reiquiavique, Singapura e Toronto estão no topo dos rankings das smart cities. No Brasil, pode espantar o fato de que o Rio de Janeiro lidere as listas.

Mas o que é ser smart city?

Turista consulta "ponto de ônibus inteligente" em Barcelona, Espanha. Foto: Istockphoto.Turista consulta "ponto de ônibus inteligente" em Barcelona, Espanha. Foto: Istockphoto.

Seria a conquista de mais qualidade de vida para os habitantes através da tecnologia? Sobre usar dados e inovações tecnológicas para melhorar o trânsito, a segurança, as áreas verdes e a conveniência geral de se viver nesta ou naquela cidade?

Existe um index que condiciona a inteligência de uma cidade a algumas características principais. O grau de conexão digital e funcionalidade da infraestrutura das cidades, que controlam o horário dos trens e metrôs, as iniciativas ambientais, o planejamento urbano, a mobilidade em geral e a quantidade de pessoas que vivem e utilizam estes recursos inteligentes.

São Paulo, a minha cidade, é um monstrengo enorme e complexo.

Muito complexo.

Recentemente, a Rede Nossa São Paulo mostrou que o morador das áreas mais ricas vive até 23 anos mais que o morador das regiões mais pobres.

Um pouco antes da palestra. Foto: James Scavone.Um pouco antes da palestra. Foto: James Scavone.São várias cidades dentro da mesma cidade.

Mas para mim, o grande problema de SP é que para aquelas pessoas que vivem no centro expandido, ela às vezes funciona.

Às vezes, surpreende.

As enchentes castigam a cidade. A poluição faz com que a gente se torne fumantes passivos. Não tem uma pessoa que diga que jamais tenha sido assaltada. Mas às vezes é legal.

Às vezes tem um belo pôr do sol.

Pores do sol com poluição são mais bonitos.

Às vezes, você chega em casa em menos de 20 minutos em vez de ficar quase uma hora no trânsito.

Às vezes, tem lugar para estacionar ou para sentar no seu lugar favorito.

E assim vamos vivendo.

Somos humanos e na cidade, o que interessa no fim são as coisas humanas.Edifício Figueira : mais de 50 andares no Tatuapé. Imagem: Reprodução.Edifício Figueira : mais de 50 andares no Tatuapé. Imagem: Reprodução.

É menos sobre ônibus de última geração com WiFi e tomadas para recarregar o celular e mais sobre como conter o assédio no transporte público. Como fazer com que os pontos de ônibus tenham calçadas decentes, sejam bem iluminados e seguros.

É sobre parcerias bem feitas não só entre governos e iniciativa privada, mas principalmente com as comunidades, com as pessoas e seus bairros, suas ruas,suas casas e seus quintais.

Cada vez menos, smart city é um grande projeto tocado de maneira central pelo governo e mais sobre centenas de milhares de micro-projetos, que atacam centenas de milhares de problemas “burros” das nossas cidades.

Para mim, o modelo de negócios de smart city exige um novo paradigma. Não é o da obra com começo, meio e fim, com contrato fechado, mas sobre a manutenção de cada projeto. A melhoria continua do projeto através de um acompanhamento 365 dias por ano. É sobre ser maior que este ou aquele governo e sobre ter um projeto de longo prazo.

É, no fundo no fundo, sobre pessoas.

Logo mais vou perguntar aqui sobre um prédio que brotou nos últimos meses no Tatuapé. O edifício Figueira tem mais de 50 andares e já é um dos 3 mais altos da capital. Estava lendo uma matéria sobre a construção e fui ver os comentários. A maioria reclamava da sombra do prédio.

Aí lembrei de quando aprendi sobre o encontro do filósofo grego Diogenes com Alexandre, o Grande. O filósofo estava deitado na grama, sob a sombra de uma árvore. O homem mais poderoso de seu tempo tinha ido em seu encontro e quando o encontrou perguntou se podia ajudar em alguma coisa. A resposta de Diogenes ficou famosa: sim, você pode se mover um pouco. Está cobrindo o meu Sol.

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James Scavone é redator/escritor e fundador do Sincronicidade, laboratório de impacto urbano que propõe uma relação mais inteligente e legítima entre as pessoas, as marcas e a cidade.

Ps. este texto foi lido na abertura de um Painel chamado "Smart Cities, Smart Living" da conferência Welcome Tomorrow Mobility (WTM19), que aconteceu em São Paulo, entre 6 a 10 de novembro.

 
 
 
 

Porto Alegre tem uma das maiores restrições ao aproveitamento do solo entre todas capitais brasileiras. Foto: Anthony Ling.Porto Alegre tem uma das maiores restrições ao aproveitamento do solo entre todas capitais brasileiras. Foto: Anthony Ling.

O Brasil urbano é feio demais. Por que isso aconteceu? Alguns acusam“a ausência de planejamento urbano e de zoneamento, os gabaritos manipulados, o poder nefasto das empreiteiras e construtoras influindo na elaboração dos planos diretores”.

Em um colóquio sobre as questões mais urgentes das cidades do Brasil e países da região, uma colega nos desafiou com a seguinte pergunta: "Vocês acreditam que as cidades podem comprar sua sustentabilidade?". Depois de um intenso debate, não conseguimos chegar a uma conclusão. No entanto, a semente da incerteza caiu em solo fértil. Para além das respostas por vezes conflitantes, a verdade é que, sendo a América Latina um dos continentes mais urbanizados do planeta, cada decisão de um país ou uma cidade ao adquirir bens, serviços ou obras implica importantes repercussões econômicas e socioambientais.

1939: ao fundo a várzea do rio Pinheiros, atual bairro de Pinheiros. Foto: B. J. Duarte.1939: ao fundo a várzea do rio Pinheiros, atual bairro de Pinheiros. Foto: B. J. Duarte.

Nas décadas de 1920 e 1930, com o objetivo inicial de gerar energia, a Light desapropriou 20 milhões de metros quadrados para a realização das obras, que incluíam a execução de barragens, elevatórias e a reversão do rio Pinheiros que passaria a receber as águas do Tietê, do qual era afluente, para alimentar a Usina Henry Borden nas encostas da Serra do Mar. Desta obra, cerca de 80% das terras passaram para o poder de Light, que tinha o direito de ficar com as terras “saneadas e drenadas” regulamentado por lei.

Esqueça aquela avenida tomada por buzinas estrondosas e passos apressados que vemos durante a semana. Foto: Carta Capital.Esqueça aquela avenida tomada por buzinas estrondosas e passos apressados que vemos durante a semana. Foto: Carta Capital.

Domingo é dia de praia – todo mundo sabe disso. Cadeirinha de plástico nas costas, breja no isopor, protetor na bolsa, garganta aquecida para gritar com a molecada, selfie ostentação e pronto: #partiupraia. Se existe algo que brasileiro ama mais do que polemizar nas redes sociais, com certeza, seria o sol. Basta ele chegar que a cara das pessoas muda; brota um bom dia inesperado no elevador; aparece um sorrisão largo no lugar do amarelo; e troca-se a sofisticação do preto e cinza para a estampa colorida de gosto duvidoso. Assim, ele vai assumindo o papel de maestro das nossas vidas e, como os planetas, giramos em torno dele.

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