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São Paulo São Ensaios


Na adolescência, eu não entendia São Paulo. Não sei se alguém entendia. Era uma fria e enevoada cidade húngara encravada nos trópicos. Entediante e inexplicável. Hoje, ferve.

Vivi de uma infância e pré-adolescência praiana no Rio e em Santos. Vim morar aqui no ano em que se inaugurou a primeira linha de metrô (1974). Crianças do meu bairro não brincavam nas ruas, não faziam do asfalto a quadra de um futebol improvisado, camisas contra sem-camisas. Nas calçadas não se empinavam pipas, nem tinham campeonato de bola de gude.

Ninguém andava de bicicleta. Ninguém tinha bicicleta. Aos fins de semana e férias, as ruas ficavam desertas. Itanhaém, Praia Grande, Santos, Guarujá e Litoral Norte, lotados. Alguns iam para sítios e fazendas do interior. Ou para as montanhas de Campos do Jordão.

Quem morava na periferia mal convivia com quem morava na região central. As pessoas eram caseiras. As pessoas queriam andar de carro, não a pé. Tudo era para o carro. Era o desejo maior. O maior símbolo de ascensão social. As pessoas faziam de tudo para ter um carro e um telefone.

Adolescentes jogavam pingue-pongue no prédio, botão no prédio, fumavam escondidos nas escadarias. Alguns prédios começaram a ter espaços para não se saírem dos prédios, grades e guaritas para dificultarem a entrada. Alguns prédios viraram condomínios, miniclubes com quadras, piscinas, salões de festas, academias de ginástica, até saunas.

Era um ato de rebeldia ser skatista. Compensados de propaganda sobre placas de ruas que arrancávamos no meio da madrugada eram serradas, lixadas, ganhavam rodas de poliuretano, que se vendiam na Vila Mariana, e viravam skate. As pessoas tinham serrote em casa.

As ladeiras de Perdizes-Sumaré logo foram tomadas. Milhares de adolescentes invadiam as praças íngremes para descer ou observar outros moleques descerem as ruas num skate fabricação-própria. A polícia passou a reprimir, chamada pelos moradores. Invadíamos a rua vizinha. Os moradores chamavam a Prefeitura, que instalava lombadas.

Minha turma radicalizou e passou a descer as ruas íngremes dos Jardins. O ponto alto era a Ministro Rocha Azevedo, um abismo em formato de alameda. Sempre de madrugada. Porque não tinha ninguém de madrugada nas ruas da húngara capital. Nem carros. Só nós e eventualmente a polícia.

Os bairros não se comunicavam. Eram nítidas as diferenças de sotaque da zona norte e da leste, mais italianado. Na zona sul, como no ABC, falava-se como se fala no interior, puxando o erre. Na zona norte, o rock era o punk. A zona sul recebia influências da música negra americana. Leste era do samba do seu Nenê. Na zona oeste, o rock era progressivo, sob as asas dos Mutantes.

Se um sujeito entrasse numa máquina do tempo nos anos 1970, não reconheceria a cidade hoje. A desordem urbana é a mesma. Ainda se vive mais tempo dentro de carros do que nas calçadas. Mas agora eles são questionados.

Nos condomínios-clubes algo virou espaço gourmet. Pizza ainda é a paixão do domingo. A rivalidade entre os times aumentou, ficou mais violenta; não se assiste mais a jogos de times de amigos com amigos, para ver craques em ação. O Pacaembu perdeu o protagonismo (mas ganhou um baita museu). O MASP faliu. O Museu do Ipiranga está fechado. Deverá reabrir só em 2022, ano do bicentenário da Independência. Os restaurantes chineses sumiram.

São Paulo se internacionalizou. Milagre: turistas brasileiros e estrangeiros vêm conhecê-la, andam pelas ruas. Esbarra-se com gente falando em inglês, francês, espanhol pelas calçadas. Tem camelôs haitianos vendendo em francês nas esquinas. Tem muitos africanos passeando aos fins de semana pelo centro. Tem homens de negócio estrangeiros em almoços executivos. O Bom Retiro que já foi judeu virou coreano e agora boliviano.

São Paulo ainda lembra uma grande aldeia, que acolheu a cultura europeia, afro, árabe e oriental e se americanizou. Mas o que a transformou definitivamente numa outra cidade foi o metrô integrado a trens e corredores de ônibus, cujos tentáculos alcançam zonas profundas e socialmente díspares, a democratiza, rompe muros segregacionistas, penetra em guetos, une as classes que ocupam enfim as calçadas e praças, dia e noite.

Dê um rolê num fim de semana. Estações cheias. Gente, festa, cores, despojamento: caleidoscópio miscigenado. A Paulista virou um parque. Começa a ser fechada aos domingos, como cariocas fecham há décadas a orla e o Aterro aos domingos e feriados, como nova-iorquinos fecharam a Times Square.

Agora tem bicicleta em toda parte, alugadas ou próprias. Uma infinidade de ciclistas em toda a parte. Ciclovias tomam espaço de vias, como em todas as grandes cidades do mundo. Bicicleta agora se chama modal.

Tem menos livrarias, mas as que resistiram se tornaram maiores e vivem lotadas. Têm ônibus às madrugadas. Metrô fecha à 1h aos sábados. O Kilt demoliram. Mas ele reabriu do outro lado da rua. E mais sofisticado. O Riviera também voltou. Mais sofisticado. Abriram o mirante do túnel 9 de Julho. A Augusta está cheia de prédios, que agora são chamados de “torres”.

Skate agora é “SK8”, tem diversos tipos, de diversos tamanhos. Tem praças só para seus praticantes, “picos”. Já é um dos esportes mais praticados do mundo.

Fecham o Minhocão aos fins de semana, que vira um parque, como o High Line de Nova York. Até pensam em demoli-lo, como fizeram em San Francisco e no Rio (com a Perimetral). Querem fechar a Sumaré aos domingos. O que era impensável. Querem fechar também as avenidas Carlos Caldeira Filho, no Campo Limpo, a do Mar Paulista, na zona sul e a Rua Benedito Galvão, na leste.

Aliás não se diz fechar, mas abrir. Fechar para os carros, abrir para a população. Ainda falta muito. Faltam os rios. A gente chega lá.

Pediram para eu blogar o artigo do New York Times onde minha coluna é citada na íntegra: http://goo.gl/31OYxM Ela foi publicada no Estadão sábado 26/09.

Marcelo Rubens Paiva em seu blog no Estadão.

 

 

A programação artística e cultural do último trimestre de 2015, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura e anunciada nesta semana pelo Prefeito Fernando Haddad e pelo Secretário de Cultura Nabil Bonduki, representa a consolidação da implementação de um Sistema Municipal de Programação Cultural que torna a política mais transparente, democrática e republicana.

A criação do Circuito Municipal de Cultura foi o primeiro passo neste sentido. Com ele, estabeleceu-se maior racionalidade no setor, seja nas contratações artísticas da Secretaria Municipal de Cultura, na medida em que fez com que os artistas circulem pela cidade, diminuindo custos diretos e indiretos, seja na ampliação da abrangência territorial das apresentações, contemplando todas as regiões da cidade, ou ainda, na melhora da divulgação e comunicação dos eventos, fazendo com que maior parte dos cidadãos paulistanos tenham conhecimento do que acontece pela cidade e possam optar de acordo com suas preferências.

A partir de tal racionalidade, foi possível viabilizar o que o Secretário Nabil Bonduki vem chamando de Sistema Municipal de Programação Cultural, que conta com quatro dimensões. A primeira e já citada inicialmente é a administrativa; a segunda é a da economia da cultura; a terceira é a da fruição e formação de público; e a quarta é a participativa.

No campo administrativo, a Secretaria reordenou o fluxo de informações entre os setores administrativos e de programação de todos os departamentos e equipamentos. Assim, redefiniu padrões e estabeleceu a necessidade de se trabalhar com softwares que, além de ampliarem a transparência dos contratos e valores praticados, deram maior agilidade para os processos. Esse procedimento, com o tempo, tende a diminuir o incompreensível volume de papel. Além disso, já vem facilitando a obtenção de dados, que passaram a municiar todos os setores da Secretaria, melhorando a qualidade de seus indicadores e, consequentemente, de seu planejamento.

Em relação à dimensão da economia da cultura, busca-se aprimorar ainda mais o papel desempenhado pela Secretaria, que é, sem sombra de dúvidas, o maior financiador cultural da cidade de São Paulo e, portanto, o principal dinamizador das relações econômicas no campo cultural. Apenas por meio de editais, a Secretaria Municipal de Cultura investirá, só em 2015, mais de 50 milhões de reais na dança, no teatro, no circo, no cinema, na música, na literatura, na cultura digital e em outras linguagens. Por meio das contratações artísticas, serão investidos cerca de 30 milhões de reais. Esses recursos deverão cumprir, cada vez mais, o papel de dinamizador da economia da cultura, sobretudo, valorizando os novos talentos que estão “escondidos” nas quebradas da cidade e que precisam ter oportunidades de circular pelos equipamentos culturais da secretaria e ganhar vitalidade econômica.

No campo da fruição e formação de público, é importante frisar a maior diversificação das linguagens e dos diversos gêneros nas contratações artísticas, descentralizando os eventos e fazendo com que as apresentações artísticas e culturais ocorram cada vez mais próximas dos cidadãos e de maneira gratuita, com especial atenção às programações especiais voltadas ao público infantil. Vale ressaltar a orientação de garantir uma programação constante nos equipamentos que favoreçam o estabelecimento de rotinas de fruição cultural.

Por fim, a dimensão inovadora da participação social na definição da programação artística da Secretaria começa a ser implantada com alguns pilotos que radicalizam nos processos de escuta e definição por parte da comunidade. Trata-se do caso, por exemplo, do Centro Cultural da Juventude (CCJ), que disponibiliza parte de seus recursos de programação para ser definido por meio de “orçamento participativo” com a comunidade da região. Ou, ainda, do caso da participação dos Núcleos de Ação Cultural dos CEUs (Centros Educacionais Unificados) que, por meios de grupos de trabalhos e plenárias com a Secretaria, definiram todos os artistas que se apresentarão nos CEUs até o final do ano.

Evidentemente, a institucionalização desta política pública passa pelo aprimoramento das iniciativas que estão sendo adotadas, principalmente no aspecto da participação e do controle social, mas também pelo sucesso de outras ações que estão sendo desenvolvidas de maneira concomitante com a implementação de tal Sistema. A aprovação na Câmara Municipal da Reforma Administrativa que reorganiza o funcionamento da Secretaria Municipal de Cultura, que trabalha no seu limite de recursos humanos, contando com a competência e comprometimento de seu exíguo corpo funcional e que, não por acaso, foi a proposta mais votada na Conferência Municipal de Cultura realizada em agosto de 2013 é fundamental. Assim como a ampla discussão e futura aprovação, também no legislativo municipal, do Plano Municipal de Cultura e do Conselho Municipal de Cultura, que deverá legislar, em parceria com a Secretaria, sobre o recém aprovado Fundo Municipal de Cultura.

Márcio Pozzer é Gestor de Políticas Públicas, doutor em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo, com sanduíche pelo Instituto de Iberoamerica da Universidade de Salamanca, na Espanha, e chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

 

 
Em meados do século XIX, viveu por aqui um romântico incorrigível. Do alto de seus vinte anos, Maneco estudou, sofreu e escreveu sobre as suas dores, as suas vontades. E, indiretamente, sobre o cenário dessa vida: a cidade, que ele odiava. 
 
Cresceu no Rio e veio estudar direito em São Paulo. Não essa que conhecemos. Outra, uma que tinha 15, 20 mil habitantes. Que não tinha quase lojas, cafés, bares, vitrines, atrações. E que ficava quase inteira dentro do triângulo histórico e que ele percorreu de alto a baixo. 
 
O jovem Álvares de Azevedo não escondia seu desalento com a cidade:
 — “as calçadas do inferno são mil vezes melhores” 

E, coitado, também não escondia seu desconsolo com as mulheres: 
— “não há em parte alguma mulheres que tenham sido mais virgens que ali”. 
 
Para compensar, em alguns dias, bebia com os amigos na taberna, na verdade um lugar de terra batida que vendia algum destilado ou vinho em meio a rolos de fumo e velas. Em outros, visitava a Rua das Casinhas, de dia, a mais movimentada da cidade e, de noite, local de encontros furtivos.
 
 
Rua das Casinhas (1862). Foto: Militão Augusto de Azevedo 
 
Os estudantes do Largo São Francisco tentaram sacudir a cidade modorrenta. Escreviam jornal, faziam brincadeiras, discursos, bebiam e … visitavam o cemitério!
 
À beira dos túmulos, de madrugada, declamavam poemas aos gritos, excitados pela peraltice do horário e do frio. Diz a lenda que ele tinha uma caveira em seu quarto. Como ser romântico sem um apetrecho desses?
 
Nada se compara à glória de um discurso bem feito. Ainda mais se ele traz consigo um elogio da Marquesa de Santos, já promovida a Condessa, sim ela mesma: “A Senhora dona Condessa tinhame mandado prometer um ramo de flores caso eu 'brilhasse' no discurso”. 
 
Um dos passeios preferidos de Álvares de Azevedo era, de fato, ir aos saraus na sua casa elegantíssima, que, surpreendentemente, ainda está de pé, ali, pertinho do Pátio do Colégio. 
 
Mas, nada como um exercício matinal. Logo depois de acordar, um copo de leite e uma boa caminhada pela cidade. Imaginemos nosso herói andando pela bruma de uma cidade muito mais fria e úmida do que hoje. 
 
Ele sai de casa, dá uma grande volta, vê a a descida até o Obelisco dos Piques, segue paralelo ao vale, vai até o mosteiro de São Bento e na volta para casa, desvia dos buracos da calçada da Rua Direita, saúda um ou outro transeunte com a aba do chapéu, espera um homem a cavalo passar, contempla dois escravos que vendem doces, medita e segue em frente. E vai à escola, estudar, discutir, debater. 
 
É lá que ele se dá conta da maldição do 5º ano, um aluno morrera um ano antes, outro ainda, um amigo, dois anos atrás. E teme a própria morte. Tanto que morreu, de fato, não em São Paulo, sozinho, mas junto à família, no Rio de Janeiro, antes de completar 21 anos de idade. 
 
Se quiser saber mais sobre essa vida do poeta na São Paulo de 1840/50, leia o delicioso livro 'Delírio, Poesia e Morte. A solidão de Álvares de Azevedo' de Luciana Fátiam. A poesia e teatro de Álvares de Azevedo estão em 'Macário', 'Lira dos Vinte Anos' e 'Noite na Taverna'.
 
Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. 

*Este artigo foi publicado originalmente em O Estado de S.Paulo.
 
 


A Volkswagen admitiu, recentemente, ter instalado em 11 milhões de veículos um dispositivo com um propósito claro: fraudar os testes de controle de emissão de poluentes.

O escândalo revelou um abismo entre o discurso da marca e algumas práticas ocultas. Afinal, estamos falando de uma companhia que se propôs a produzir e entregar carros mais "verdes" ao consumidor e que também já realizou campanhas ambientais como, por exemplo, pela reciclagem do lixo.

De uma hora para outra, o discurso da Volks foi posto em xeque. Poucos duvidam que o episódio abalará a confiança do consumidor na marca, especialmente nos EUA. Hoje, as pessoas estão mais atentas, mais informadas e apontam inconsistências entre o discurso de uma empresa e sua prática cotidiana.

A montadora alemã inicia agora uma longa batalha de reconstrução de imagem. Não há soluções mágicas, mas uma coisa é certa: a Volks precisa mostrar compromisso verdadeiro com o controle da poluição.

O caso evidencia que o discurso das marcas precisa ser sempre sustentado por ações sérias e práticas verdadeiras. De que adianta fabricar e promover um carro "verde" se ele contém um dispositivo para burlar o controle de poluentes? Por que se posicionar como a companhia "Além do Petróleo", como fez a britânica BP, se sua produção continua a ser basicamente petróleo?

A distância entre o discurso e a prática das marcas ocorre de forma recorrente no campo do marketing relacionado a causas. As marcas podem, sim, se envolver com temas de interesse público, mas precisam fazê-lo com critério e correção.

Há anos, por exemplo, a campanha "Real Beleza", de Dove, mostra a beleza de mulheres que não são modelos profissionais, resgatando a autoestima de milhões delas.

Alguém duvida que a maior rede fast-food do planeta tenha ganhado mais respeito e admiração quando adotou o câncer de crianças como causa? Um sucesso, sem dúvida. Mas é preciso ir além. Pouco adianta apoiar uma causa, por mais relevante que ela seja, se a empresa não adota práticas socialmente responsáveis, respondendo à problemática da obesidade infantil.

Observando sucessos e fracassos, fica claro que as marcas precisam ter muito cuidado na hora de escolher uma causa para chamar de sua. O processo de seleção envolve o alinhamento com a agenda da sociedade e, sobretudo, com os valores e o propósito da empresa.

Só assim se estabelece um compromisso verdadeiro que se reflete nas práticas cotidianas. Não vale a pena associar a marca a alguma causa se não houver um compromisso autêntico, sincero e genuíno.

Com o escândalo da Volkswagen, observamos como é tênue o limite entre o discurso e a prática. Entre a responsabilidade social corporativa e a marquetagem. Entre conquistar o consumidor e enganá-lo.

As revelações sobre a Volkswagen também mostram o quanto isso pode ser comum. Se olharmos para trás, veremos muitos exemplos negativos de outras marcas. Dezenas deles. Felizmente, no entanto, já tem gente remando na direção correta e colhendo os frutos de se associar, de forma verdadeira, a uma causa de interesse público.

Bob Vieira da Costa é presidente da agência de publicidade Nova/Sb. Foi coordenador de comunicação do Ministério da Saúde e ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (governo FHC)

* Texto originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo.

 

 

Suas ruas são arborizadas, largas avenidas compostas de casas charmosas que parecem ter vindo de outra época. Blocos de arranha-céus que formam uma paisagem urbana cinzenta no horizonte, tornando-a distante desse bairro cheio de cor e vida que é o Bixiga.

O Bixiga é um dos bairros mais tradicionais da cidade, e provavelmente o mais italiano também. Situado na região da Bela Vista, sua forte tradição e cultura vieram de seus imigrantes, a maioria vinda da região de Calábria. Aqueles que não queriam trabalhar nos cafezais foram seduzidos pelos baixos preços das terras, o que resultou em atrair também portugueses, espanhóis e negros recém-libertos.

Os imigrantes acabaram tornando-se uma importante mão-de-obra especializada em substituição à mão-de-obra escrava. Foi então que o bairro começou a criar sua identidade, surgindo sapateiros, quitandeiras, padeiros, artesãos e alfaiates e por consequência, o aparecimento de pequenas indústrias.

Antes mesmo do bairro do Bixiga nascer, é importante explicar um pouco sobre o desenvolvimento da cidade e como o sistema hidrográfico é um fator essencial à expansão da Vila de São Paulo.

Os rios Tietê, Tamanduateí e Pinheiros tiveram uma função histórica: foram usufruídos como vias de comunicação e as estradas aparecendo como canais de acesso. A vila teve sua formação no alto da colina, com a várzea do rio Tamanduateí de um lado e o Vale do Anhangabaú de outro. Os riachos Anhangabaú e Pacaembu e seus afluentes com a modernização foram canalizados sobre ruas e avenidas, facilitando a comunicação entre as mercadorias que vinham do interior e do litoral.

No final do século XVI, a cidade era constituída de um aglomerado de cem casas no topo da colina, o núcleo urbano localizava-se na região central, reproduzido pelo triângulo de três ruas: 15 de novembro, São Bento e Direita. O crescimento da economia brasileira aconteceu em meados do século XIX, com a criação de ferrovias a capital impulsionou-se, formando novos bairros através do loteamento de chácaras e novos arruamentos.

Cidade em transformação

Os bairros começaram a serem definidos, os aristocratas cafeeiros construíram seus luxuosos casarões nos Campos Elísios, e posteriormente, no bairro de Higienópolis. Próximos às ferrovias instalaram-se os bairros populares na região do Brás, Luz e Bom Retiro. Por consequência desse desenvolvimento, a Paulista ganhou lindos casarões e no Bixiga, negros libertos e calabreses foram ocupando seu espaço devido aos baixos preços de loteamento. A expansão capitalista ligada à crescente industrialização fez com que a capital crescesse desenfreadamente.

A partir de 1870, São Paulo sofreu uma enorme transformação impulsionada pelas fábricas que surgiam, a construção de prédios, bondes de tração animal e a população só aumentava. E a partir desse momento, a Paulicéia passou a ser considerada a metrópole do café, o mais populoso centro do planalto brasileiro. 

O Bixiga participou de seu processo de aculturação, pois a cidade para atrair imigrantes, fundou a Sociedade Promotora de Imigração e uma hospedaria de imigração com capacidade para quatro mil pessoas. Os italianos aproveitaram a oportunidade já que no país deles houve um superpovoamento e uma grave crise na agricultura, e no início do século atual, chegaram a constituir mais de 50% da população paulista.

Os costumes da Península passaram a serem mantidos pela população, desde sua culinária às suas músicas, comemorações e até mesmo a forma de se comunicar uns com os outros. Certas palavras e expressões muito usadas atualmente originaram-se do italiano, como por exemplo, o até-logo que foi substituído pelo “ciao”, e hoje escreve-se tchau. Sua arquitetura também foi incorporada, assim como o hábito de jogar cartas e dominó, mas foi através da cozinha que o italiano se socializou e começou a de fato se sentir em casa. E em pouco tempo, cantinas, pizzarias, padarias apareceram no cenário.

As cantinas eram ponto de encontro dos moradores, localizadas na parte baixa do bairro, próximas a Rua 13 de maio. A primeira veio em 1907, Capuano é o restaurante mais antigo em atividade de São Paulo, posteriormente em 1931 a cantina C...que sabe! e cada uma com a sua especialidade, como por exemplo a Vila Távola que fica aberta 24horas por dia e as tradicionais Montechiaro, Speranza e Roperto. Destaca-se também a padaria São Domingos, uma das casas mais tradicionais, no bairro desde em 1913.

A parte mais baixa era povoada pelas casas dos imigrantes mais pobres, em cortiços que viviam os operários italianos. A monocultura cafeeira terminou devido à crise econômica de 1929,provocando um aumento da população e dos bairros operários da cidade, assim como os números de habitações coletivas. Os cortiços nada mais são que casas sublocadas, e em algumas delas chegaram a morar oito famílias de uma vez para dividir o aluguel. A especulação imobiliária fez com que muitos casarões fossem destruídos para a construção de pequenos prédios, mudando consideravelmente o bairro, evidenciando um empobrecimento efetivo e uma deterioração urbana.

Os negros se acomodaram próximos às margens do Riacho Saracura, alegrando o Bixiga com muito samba e bom humor. E foi nesse bairro ítalo-africano, de muita vitalidade, que surgiu a escola de samba Vai-Vai, quatorze vezes campeão, oficializada no ano de 1930.

O primeiro registro de ocupação do território surgiu em 1559, como Sítio do Capão, pertencente ao português Antônio Pinto, posteriormente passou a chamar-se Chácara das Jabuticabeiras, por causa da grande quantidade de árvores dessa fruta. E em 1820 um homem conhecido como Antônio Bixiga, nome popular devido suas cicatrizes de varíola, comprou as terras. Há várias versões para a origem do nome do bairro, mas essa, até hoje, é a mais conhecida. E tratando-se de uma área territorial, é comum que ela se torne conhecida pelo nome do seu proprietário.

A fundação do bairro

Depois de mais de trezentos anos, no dia 1º de outubro de 1878, foi registrado o Dia da Fundação do Bairro do Bixiga, segundo consta no Calendário Oficial de eventos de São Paulo, da Câmara Municipal. O bairro é demarcado entre as ruas Major Diogo, Nove de julho, Rua Silva e Brigadeiro Luís Antônio, mas assim como o nome, suas limitações ainda geram polêmica.

A escritora Célia Toledo Lucena, em seu livro “Bairro do Bixiga: A sobrevivência cultural” destacaa importância no resgate da memória e que é “impossível pensar no Bixiga sem mensurar a relevância de continuidade de tempo e preservação de nosso patrimônio.” Porque segundo ela, o brasileiro sofre de uma ausência histórica devido à dominação política e econômica do país, intensificada pela falta de incentivos e inadequação de verbas. O que posteriormente, resultou no maior centro cultural e de resistência política do país, talvez por isso o bairro seja o palco de grandes atores, ondese encontra até hoje o maior número de teatros da cidade, formando a paisagem cênica mais significativa da cultura nacional.

A depressão instalada na Europa, após a Segunda Guerra Mundial, provocou o exílio voluntário de inúmeros intelectuais e artistas fazendo com o que houvesse esse estimulo cultural exacerbado na região.

De braços dados com a cultura

O primeiro teatro a surgir foi o Teatro Brasileiro de Comédia (TBc), fundado em 1948,na Rua Major Diogo, pelo industrial italiano Franco Zampari. Depois dele, em 1953 o Teatro Arena surgiu como alternativa à cena teatral da época, a intenção era apresentar produções de baixo custo, e além de buscar a dramaturgia nacional passou a incentivar a nacionalização das peças clássicas. Em 1956, veio o teatro Sérgio Cardoso, antigo Bela Vista, administrado pela Associação Paulista dos Amigos da Arte. Dois anos depois apareceu o Teatro Oficina, território tombado pelo conselho de Defesa do Patrimônio histórico, artístico, arqueológico e turístico, e em 1963, o Teatro Ruth Escobar, um dos mais famosos centros culturais da cidade e ponto de encontro de todos os guetos e suas diversas classes sociais.

Os artistas na época estavam engajados com o problema da reforma agrária, na luta por greves e em busca de seus direitos, e as peças refletiam esses anseios. Foi então que em 1968, com a Ditadura Militar, muitos teatros foram destruídos, peças paralisadas, atores reprimidos e massacrados.

E é nesse cenário quefloresce o compositor de uma das músicas mais conhecidas do repertório brasileiro, Trem das Onze é fruto do sucesso do Adoniran Barbosa, nome artístico de João Rubinato. Nasceu no dia 6 de agosto de 1910 em Valinhos, São Paulo, mas foi no Bixiga que se desenvolveu como profissional e ganhou fama. Filho de imigrantes italianos, Adoniran é considerado o pai do samba paulista.As letras tem uma linguagem popular paulistana, cheio de dialetos e ironias que mistura a língua brasileira com a de seus pais, e seu sotaque ganhou a simpatia dos moradores, além do seu nome em uma rua do bairro.

Adoniran faleceu em 1982 devido a um enfisema pulmonar, mas seus pertences são um dos 1,5 mil itens de propriedade do Museu da Memória do Bixiga, atualmente fechado e sem previsão de abrir suas portas devido à falta de patrocínio. Inaugurado no ano de 1981 e localizado na Rua dos Ingleses (parte alta), nasceu na casa do Armando Puglisi, considerado o maior “guardião do bairro”. Armandinho como ficou conhecido, tem uma frase que diz “O Bixiga é um estado de espírito”, e foi por esse amor ao bairro que também criou o extinto “Jornal do Bixiga”, foi diretor e presidente da Vai-Vai e idealizador do famoso bolo de aniversário de São Paulo, a fim de comemorar a data com um bolo gigante, de um metro correspondente a cada ano que completava. A ideia surgiu em 1985 e continua até hoje, na Rua 13 de maio, mesmo depois de sua morte em 1994.

O Museu emergiu porque ele recolhia objetos das casas quando algum morador falecia, atualmente, os itens são utilizados pelos produtores de televisão em novelas de época, e as mais de 8mil fotografias têm como finalidade de reconstituir a história do bairro. Tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrocínio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Compresp), antes de virar um Museu o lugar ficou abandonado por mais de 30 anos. Os atuais proprietários têm como objetivo restaurar o imóvel, digitalizar o acervo e promover cursos, porém estão em busca de recursos financeiros.

Além do Museu, casarões e construções históricas deram origem a pontos turísticos do bairro, como a escadaria do Bixiga, palco de peças e filmes publicitários, que dá acesso ao Museu do Óculos, a casa da Dona Yayá, que foi uma das primeiras chácaras e atualmente sede do Centro de Preservação Cultural da USP, os arcos da Rua Jandaia, constituído no século XIXI e descoberto apenas na década de 80 por acaso quando algumas construções foram demolidas, o “Caminito Brasileiro”, conjunto de casas e estabelecimentos comerciais que tiveram suas fachadas restauradas em 2009 ganhando cores vibrantes e alegres (o nome faz referência ao famoso ponto turístico de Buenos Aires) e a Feira de Antiguidades, localizada na praça desde 1982 com cerca de 300 barracas com diversos tipos de roupas, livros, joias, obras de arte, imóveis  e LPS.

Memórias

Destaca-se também a Vila Tororó, símbolo do Bixiga imigrante, construída pelo tecelão português Francisco de Castro em 1922, com 4,5m quadrados, foi à primeira vila de São Paulo, com 37 casas e conhecido como Casa Surrealista. Aproveitando a nascente do Riacho do Vale do Itororó, foi também a primeira residência particular da cidade a ter uma piscina. Foi leiloada para cobrir dívidas e acabou arrematada pela Santa Casa de Indaiatuba, que depois alugou para outras pessoas. Apesar de tombado pelo Conselho Municipal, está muito deteriorado.

O bairro é caracterizado por profissionais artesanais, alguns já extintos, mas outros como o amolador de facas é mantido até os tempos atuais. E apesar dessa crescente deterioração o Bixiga ainda tem em seu caráter humano uma magia que só vivenciando para entender. Sua cultura ainda muito bem mantida, assim como seus rituais e festas, e a mais conhecida é a Festa da Achiropita.

Comemorada desde 1926, a Festa da Achiropita acontece em todos os fins de semana do mês de agosto, em homenagem a padroeira do bairro. A renda da festa é revertida para obras sociais da paróquia Nossa Senhora Achiropita, que recebe também a procissão em louvor à padroeira. Estima-se que em média duzentas mil pessoas aproveitam a festa em cada final de semana, mais de 900 funcionários trabalhavam no evento, dez mil litros de vinho e onze toneladas de macarrão são consumidos por noite.

Célia explica em seu livro que “as culturas do bairro são mantidas, mas como uma energia renovadora, condizente à continuidade histórica, sem cair naquela preservação estática.” Isso quer dizer que apesar da tradicionalidade das festas, a maneira que esses festejos se dimensionam tem um teor de resistência às reações impostas pelo modernismo. E apesar do Bixiga ser um universo complexo com graves problemas urbanos, sua diversidade étnica e cultural é a herança de uma civilização tradicional e consistente, que luta por essa cidade carente de memória.

Até hoje é possível ver as crianças brincando nas ruas, nas sacadas a prosa entre os amigos, sua poesia em pequenas vilas que conservam seu espírito cheio de tradições e memórias. Um bairro histórico, de inúmeras histórias em cada cômodo dos casarões que abriga inúmeras famílias, personagens e um palco de alegria, cheiro de comida gostosa e de um cenário antigo e popular. Sua arquitetura é humilde e delicada, cheia de autenticidade, gestos e uma fala cantada que dá vontade de dançar em suas festas e rezar por suas santas.

A comunidade fez sua história, mas ela precisa ser democraticamente viabilizada, oferecendo disponibilidade de recursos proporcionando uma integridade executável. O Bixiga foi percursor da tarefa de recuperação do verdadeiro retrato da capital paulista. E um povo que não valoriza o seu passado, não tem nem presente e nem futuro.

Thays Bittar, paulistana, é fotógrafa. Escreveu este texto em 2013, quando era estudante de jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo
 

 
O samba paulista é diferente do samba carioca. É isso que dizem os sambistas mais tradicionais de São Paulo e o que estuda a tese de doutorado A memória do samba na capital do trabalho: os sambistas paulistanos e a construção de uma singularidade para o samba de São Paulo (1968-1991), de Lígia Nassif Conti. A pesquisa se atenta ao discurso que busca enaltecer a singularidade do samba de São Paulo, tanto verbal quando musicalmente.
 

De acordo com a pesquisa, realizada no Departamento de História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o principal argumento dos sambistas para diferenciar os dois sambas estaria nas suas origens e no espaço que obtiveram dentro das cidades. Acredita-se que, em São Paulo, o gênero tenha surgido, em meados da década de 1910, nas festas das colheitas de café, assumindo uma tradição rural negra, carregada dos batuques afro-brasileiros, além do sotaque caipira e um ritmo mais marcado.

Além disso, a alcunha de cidade cosmopolita e fruto do progresso restringiu os espaços informais como reduto do samba, ao contrário do Rio de Janeiro, onde o samba é o símbolo-mor. A valorização do “samba rural” seria, segundo Lígia, uma tentativa de mostrar ao mundo outras facetas da cidade de São Paulo. Relembrando o samba marcadamente negro, rural e popular, os defensores do samba paulista vão na contramão da exaltação do progresso da cidade.

Mudanças

Outra constatação é que o discurso dos sambistas e entusiastas da música popular encontra amparo nas próprias composições. Lígia analisou 20 canções, compostas entre 1968 e 1991, de Geraldo Filme, Osvaldinho da Cuíca e Toniquinho Batuqueiro. A partir disso, foi possível perceber uma “narrativa de lamentação”, de saudade, e o uso de certos instrumentos tipicamente caipiras como bumbo, caixa e reco-reco de bambu, utilizados nas manifestações do samba na cidade de Pirapora do Bom Jesus. Além deles, também compõem a lista de “instrumentos tracionais” a frigideira e a caixa de engraxate, recorrentes nas realizações do samba na capital.
 

A década de 1970 marca uma série de transformações para o samba paulista. Com a oficialização do Carnaval, em 1968, os antigos cordões e blocos de carnaval são padronizados aos moldes cariocas. Associado à intervenção institucional, há a consolidação da industrialização da cidade de São Paulo. Lugares como o Largo da Banana — onde está atualmente o Memorial da América Latina — conhecidos pelas rodas de samba, são engolidos pelo desenvolvimento paulistano.Há grande repercussão nas composições de samba, que vão, aos poucos, perdendo sua caracterização caipira.

A partir desse marco cronológico, o discurso de diferenciação do samba ganha força, na tentativa de resgatar sua origem e a cultura negra da cidade de São Paulo. Os movimentos atuais de exaltação e preservação da tradição do samba paulista representam uma continuidade da narrativa dos sambistas. No final de 2013, o reconhecimento institucional veio com o tombamento do samba paulistano como patrimônio imaterial de São Paulo.

Para desenvolver a tese, Lígia entrevistou Germano Mathias, Osvaldinho da Cuíca e Mestre Divino, ícones do samba paulista, além de se utilizar de entrevistas cedidas por outros pesquisadores. O doutorado contou com a orientação da professora Maria Inez Machado Borges Pinto, do Departamento de História da FFLCH, e coorientação do professor Carlos Sandroni, da Universdidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Juliana Brocanelli na Agência USP de Notícias.