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Nunca havia parado pra pensar na influência que Mário de Andrade teve sobre mim, até que uma equipe de TV me pediu um depoimento por ocasião da homenagem prestada pela FLIP ao autor de Macunaíma. Mário de Andrade me veio pelo cinema, não pela literatura. Primeiro, como uma espécie de mito, quando na minha infância os adultos não paravam de falar de um filme (Macunaíma) que eles não entendiam e que eu, por causa da idade, não podia ver. E depois, quando cheguei finalmente à idade de ver o que bem entendesse, por um filme diametralmente oposto a Macunaíma (na concepção e na forma), sobre a descoberta do sexo, e que coincidiu com a minha própria descoberta do sexo.

Assisti a Lição de Amor, de Eduardo Escorel, baseado no romance Amor, Verbo Intransitivo, quando eu tinha 15 anos. Ao contrário da carnavalização genial que Joaquim Pedro de Andrade fizera de Macunaíma (que eu só fui ver anos mais tarde), Lição de Amor era um filme contido, circunspecto e engessado, que tratava da educação sexual de um filho da arcaica burguesia paulista nas mãos de uma preceptora alemã. Era o oposto da imagem do cinema brasileiro promovida pelo Cinema Novo. Escorel tinha tomado a decisão temerária de reproduzir os diálogos do livro ao pé da letra, o que não só quebrava o realismo da interpretação, mas a levava aos limites do canhestro. Eu adorei aquilo. Parecia cinema novo alemão (do qual eu era fã) feito no Brasil.

Nesse meio-tempo (e antes de ver o filme de Joaquim Pedro), li Macunaíma. E foi a partir daí que Mário de Andrade se tornou uma espécie de parceiro involuntário contra a obsessão por uma identidade nacional que informava tudo o que se queria fazer respeitar na cultura brasileira da minha juventude. Todo mundo evocava e ecoava Oswald de Andrade como o gênio da raça. E eu batia palmas, encantado com a genialidade publicitária de frases de efeito como “só a antropofagia nos une”. Até começar a desconfiar daquilo tudo, daquela alegria, e de que talvez a antropofagia não me unisse a ninguém.

Ainda que se leia o “Manifesto Antropófago” como chiste ou ironia, ele continua dando as bases para um mito positivo de nacionalidade. E, de fato, a ambiguidade e a abrangência do conceito de antropofagia (onde cabe tudo, uma vez que o princípio é devorar e deglutir o outro, as culturas estrangeiras) permitiram que se passasse a repetir que somos todos antropófagos como um refrão da natureza. E que se erguesse a partir daí uma identidade nacional mais sofisticada, mais moderna, mais humorada e mais radical do que a frágil idealização romântica do índio como mito de origem, mas que nem por isso era menos questionável. Embora reciclada pela inteligência modernista, a antropofagia reproduz o mito da identidade nacional. Parece de brincadeira, mas é a sério. Escarnece da identidade romântica, apenas para encontrar outra menos vulnerável ao confronto com a realidade.

Em contrapartida, há um aspecto bem mais problemático e trágico na ideia de “herói sem nenhum caráter”, que define Macunaíma. Não é possível construir a identidade de um país sobre um mito negativo. A antropofagia é positiva, ela nos transforma a todos em devoradores do que nos é imposto de fora, pelo estrangeiro. No final das contas, é um mito de resistência. E é muito diferente da falta representada por um herói sem nenhum caráter. Não duvido de que a homossexualidade de Mário de Andrade o tenha predisposto a desconfiar das identidades fáceis. Por mais que estivesse à procura de uma identidade nacional (e que, ao contrário de Oswald, precisasse fazer viagens, ir a campo, recorrer à etnografia na sua busca desesperada), era como se a busca já denunciasse a sua impossibilidade.

Quando lê Macunaíma, Manuel Bandeira reprova as incoerências do personagem: “Macunaíma é um herói do folclore indígena do Amazonas. (...) Macunaíma, com a vaidade de escrever com sabor clássico, é um disparate, uma quebra violenta da unidade da personagem”. Mário de Andrade retruca: “É justo nisso que está a lógica de Macunaíma: em não ter lógica. Não imagine que estou sofismando, não. É fácil de provar que estabeleci bem dentro de todo o livro que Macunaíma é uma contradição de si mesmo. O caráter que demonstra num capítulo, ele desfaz noutro. (...) Não corrijo, se arranje”.

Ao contrário do amálgama idealista da antropofagia, Mário de Andrade vai buscar o mito amazônico para torná-lo disparate. Em vez de recriar o mito da identidade nacional, Macunaíma o torna incoerente. Em Amor, Verbo Intransitivo, quem come o brasileirinho é a alemã. Ela o come e o deixa chorando de amor, para que um dia ele se case com uma mocinha de sua própria classe, herde as terras e a indústria do pai e continue fazendo do Brasil o que o Brasil de fato é. 

Bernardo Carvalho é escritor e jornalista, autor dos livros Nove noitesO filho da mãe e Reprodução, entre outros.

Fonte: Blog do IMS.


Hildegard Rosenthal, uma das pioneiras do fotojornalismo brasileiro, deixou um acervo em que se destacam cenas urbanas de São Paulo nos anos 1930 e 1940, período em que a cidade passava por vertiginoso crescimento, tanto material quanto cultural.

Hildegard congelou no tempo uma metrópole moderna e atarefada que, no entanto, seu olhar fascinado por tipos e personagens tratava de humanizar. “A fotografia, quando não tem uma pessoa, não me interessa”, declarou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo, em 1981. Um conjunto com cerca de 3.400 negativos de Hildegard Rosenthal integra o acervo do IMS.

Veja algumas imagens produzidas pela fotógrafa no site do IMS: http://miud.in/1GnT

Fonte: Instituto Moreira Salles.


"As pessoas que vivem em condomínios fechados contribuem ativamente para o enfraquecimento e a corrosão do espaço público". Tony Judt, 'O Mal Ronda a Terra' (Editora Objetiva, 2010).

As grande cidades crescem. E quando crescem, separam. Constroem muralhas urbanas. Condomínios fechados. Cercados. Por segurança privada. Em contraste, favelas abertas. Sitiadas. Por insegurança pública. Dialética urbana. Síntese arquitetônica. A segregação espacial integra todas as outras. A racial, a social e a econômica. 

No Rio de Janeiro, os bem nascidos sonham com a utopia de uma cidade condomínio. Um cidade maquete. Limpa, organizada, segura, próspera e atrativa. Grandes herdeiros, rentistas, tecnocratas, executivos, empresários, proprietários, todos unidos em busca do sonho de uma nova cidade chamada Zona Sul. Um cidade oficializada. Com prefeitura e legislatura próprias. 

Um apartheid geográfico legalizado. Uma Zona Sul higienizada. Separada. Emancipada. Protegida. Uma nova unidade da federação. Condominizada. Com as favelas expropriadas.  Removidas. Gentrificada. Na utopia da cidade condomínio, os morros um dia serão ocupados por moradias de luxo. E o lixo varrido para debaixo do tapete da sala de estar da periferia. 

Nesta utopia, os usos lucrativos do solo serão como sempre garantidos pelo direito civil. E pela força policial. Mas de uma forma muito mais radical e transparente. Sem ambiguidades. Sem contrapartidas sociais. A soberania do mercado será incontestável. Valorização imobiliária transformada em estatuto legal. Um novo plano diretor. Degradação ambiental amparada pelo direito como política urbana. Aprovada pelo Ibama. Projeto verde. Sustentável. Seguro. Racional. As crianças plantarão árvores. Os menores habitarão cárceres. Tudo amparado pela lei. Protegido pela segurança pública. E privada. 

Em volta, um cinturão de pobreza chamado subúrbio, abraçará de longe a "Muralha Maravilhosa". Sem tocar. Sem trocar. Povoada de gente que só serve para servir. Gente periférica cujo acesso ao condomínio Zona Sul será exclusivamente para fornecer mão de obra barata. Ao preço do custo da subsistência. Uma senzala, cuja casa-grande estará localizada a quilômetros de distância. Um mundo igual ao que vivemos hoje. Só que mais evidente. Mais explícito. Menos eufemizado. Sem culpa. Nem volta.

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Ulysses Ferraz, ator e escritor independente em seu blog.

Estamos em 1947 pelas lentes da Life. Plínio Salgado, Gaspar Dutra, Harry Truman: o “trio fascista” surge em muros empastelados pelos comunistas de Prestes, numa São Paulo que, naquele ano, tinha seu primeiro prefeito negro. Negro e socialista: Paulo Lauro. Mas Socialista com “Ç”, que o dele era o do Partido Social Progressista, nome promissor, mas não comprometido, liderado que era por um certo Adhemar de Barros. Paulo Lauro prefeitou por um ano, nomeado pelo próprio Adhemar. Em 1938, Paulo Lauro havia ganhado fama por ter conseguido absolver o réu confesso do infame Massacre do Restaurante Chinês: Arias de Oliveira, garçom que fora despedido dias antes do acontecido pelo cruel Ho Fong, proprietário do inglório Órion, na Wenceslau Brás. Para Paulo Lauro, alguém que não seu cliente havia distribuído pauladas noturnas noutros dois garçons, em seguida esganado o chinês e, escada acima, sobre a cama do casal, esmagado as vísceras de Akiu Fong, esposa do patrão, que se negara a contar onde estavam o dinheiro e as joias. Assim foi que Arias deixou de roubar, por não achar o cofre, mas matou. Arias foi primeiramente absolvido, o que elegeu Paulo Lauro, mas depois acabou condenado e preso, o que não impediu que, de prefeito, Lauro chegasse a Deputado Federal. 

Adhemar tinha seu lado Arias. Cofre por cofre, os públicos padeceram mais em suas mãos, porém o dele próprio tampouco se pode dizer que tenha ficado intacto como o de Ho Fong. Quanto ao trio, Truman, que fez duo com Dutra em Washington, também era dado a roubos, e matou infinitamente mais orientais do que Arias. Dutra não fez fama com roubos, mas, uma vez pavimentado, passou a matar depois de morto. Dos três pichados, Plínio, que não levou fama com roubo ou morte, era o único fascista à vera.

A nêmesis de Plínio era Prestes, que tinha estado preso, não por roubar ou matar, mas por conspirar, e era então senador. Na foto se lê: “Sem P.C.B. não há democracia”.  Prestes foi cassado no ano seguinte… Seus comunistas, que picharam o muro de ’47, perderam o rumo com a queda do Muro de ’89. Quanto a Plínio, este, discretamente, é mantido vivo pelas mortes e roubos que campeiam em São Paulo, e norteia vitorioso o pensamento majoritário paulistano até hoje.

Caio Leonardo Bessa Rodrigues é advogado.

O que será necessário para que as cidades possam atrair mais atividades inovadoras e fazer com que as empresas sejam mais importantes para a sociedade?

Estudo da Câmara de Comércio Americana, mostra uma nova perspectiva sobre esta questão, através de um olhar em profundidade para as comunidades empresariais, em oito cidades dos Estados Unidos. O objetivo da pesquisa é fornecer um painel para que os líderes das cidades estimulem inovações para a melhoria da vida dos cidadãos.

O artigo de Patrick McAnaney, analista de pesquisa econômica em inglês: http://bit.ly/1ELvL1J

 

 


A partir de 2002 as políticas culturais, sobretudo do governo federal foi a de valorização das comunidades tradicionais no sentido de entendê-las como patrimônio imaterial. A partir desse entendimento, torna-se imperiosa a preservação e divulgação das memórias desses grupos e comunidades. E mais do que isso estender esse preceito para valorização da diversidade cultural.

Hoje muito se fala em valorização da diversidade cultural, mas é  preciso tomar cuidado com a expressão “diversidade cultural”, pois ela pode levar a uma noção romântica e a confinamentos das comunidades à sua própria história. Uma espécie de cristalização de seu passado.  A esse repeito José Marcio Barros coloca:

O enfrentamento crítico da questão sugere que se vá além da postura que confina a diversidade cultural ao passado, às tradições ou às culturas populares. Demanda também a superação de uma curiosa prática, na qual, em nome de sua proteção, se vê reforçada a preservação de fundamentalismos de matizes as mais distintas[1].

E aqui reside, a meu ver, a importância das práticas museológicas como as desenvolvidas pelo Museu da Pessoa ao longo de sua trajetória histórica. A partir de sua metodologia de história oral e práticas de disseminação dos conteúdos produzidos, o Museu vem buscando evidenciar no passado dos grupos ou das pessoas as experiências vividas. E, ao evidenciar as experiências vividas, podem-se abrir caminhos para as questões, expectativas e desafios que se colocam no presente para as próprias pessoas, os próprios grupos, comunidades, coletivos, redes. É a partir desse horizonte que podemos entender a diversidade cultural:

 “como construção, assumindo um papel de fonte de dinamismo social e econômico, capaz de enriquecer a condição humana no século XXI e suscitar novas relações entre memória, a criatividade e a inovação”[2].

Para Jesus Martín Barbero, diversidade cultural hoje significa alteridade e multiculturalidade, sendo que a  alteridade indica agora o desafio das culturas diferentes da hegemônica; o que para ele é impossível sem se fazer o vínculo da diferença com a desigualdade social e a discriminação política, ou seja, colocando em primeiro plano a indispensável ligação entre direitos culturais e sociais. Interculturalidade no sentido de que a comunicação é dimensão constitutiva da vida cultural, o que é acentuado hoje, quando algumas das transformações culturais mais decisivas que estamos vivendo provêm das mutações que a rede tecnológica da comunicação atravessa, mutações que, ao afetar a percepção que as comunidades culturais têm de si mesmas, de seus modos de construir as identidades[3].

A diversidade cultural traz em si a questão das identidades ou da identidade dos grupos, comunidades, pessoas. E aqui podemos cair na armadilha, também, de utilizar identidade simplesmente como sinônimo de raízes e origens, desvinculadas do presente. Importante sublinhar a relação entre identidade e relato apontada por Martín Barbero:

O novo imaginário relaciona menos a identidade com essências e muito mais com trajetórias e relatos. Para isso, a polissemia do verbo 'contar' se torna amplamente significativa. 'Contar' significa tanto narrar histórias como ser considerado pelos outros. O que implica que, para ser reconhecidos, precisamos contar o nosso relato, pois não existe identidade sem narração, já que esta não é somente expressiva, mas sim construtiva do que somos. Para que a pluralidade das culturas do mundo seja politicamente considerada, é indispensável que a diversidade de identidades possa ser contada, narrada[4].

É dentro desse contexto que podemos entender a atuação do Museu da Pessoa, que se propõe a ser um “lugar” onde a diversidade de identidades possa ser contada.

Ao incentivar ou promover um projeto cultural as empresas devem ter em mente esse desafio contemporâneo de valorização da diversidade cultural. Comunicar as memórias dos diferentes grupos para os seus diferentes públicos e com a sociedade de maneira geral, assumindo assim o seu papel de empresa cidadã.

Rosana Miziara é historiadora com mestrado em história social e gestora cultural.

Publicado originalmente na Revista da ABERJE.


[1] BARROS, José Marcio. “Aos Leitores”. Revista Observatório Itaú Cultural, nº 8 (abr./jul. 2009), São Paulo: Itaú Cultural, 2009, p. 9
[2] Idem.
[3] MARTÍN-BARBERO, Jesus. “Desafios Políticos da Diversidade” Revista Observatório Itaú Cultural, nº 8 (abr./jul. 2009), São Paulo: Itaú Cultural, 2009, pp. 154-155.
[4] 15Idem, ibidem, p.156. O comentário baseia-se em BHABHA, Homi K. (Ed.). Nation and narration. Londres: Routledge, 1977; e MARINAS, Jose Miguel. “La identidad contada”. In: Destinos del relato al fin del milenio. Valência: Archivos de la Filmoteca, 1995. p. 66-73.