Ensaios - São Paulo São

São Paulo São Ensaios

Nos vitrais, a pintura complementa o colorido dos vidros, serve para a criação de sombras e tonalidades, para o aprimoramento das formas, para a modulação da luz. A arte do vitral desenvolveu-se enormemente durante o período medieval, momento em que, com a afirmação do gótico como expressão da arquitetura, as composições de vidros coloridos passaram a vedar grandes superfícies das igrejas e, além das funções decorativas, ganharam funções pedagógicas, ensinando aos fiéis, por meio de imagens, a vida de Cristo, dos Santos e passagens da Bíblia.
 
Entre os séculos XIV e XVI, os vitrais passaram a ser utilizados como formas de iluminação dos ambientes e a pintura dos vidros adotou a perspectiva, o que tornava os vitrais semelhantes aos quadros. Sua utilização ampliou-se dos espaços públicos, em especial das igrejas, para os ambientes privados, como palácios e sedes de corporações. As representações neles contidas se estenderam, então, para a heráldica, para as epopeias, para as caçadas e para a mitologia. No Estado de São Paulo, a utilização de vidros coloridos e pintados, montados em perfis de chumbo para decoração e iluminação de ambientes, correspondeu à fase moderna do desenvolvimento da arte de produzir vitrais.
 
Na capital, ampliou-se a partir da virada do século passado, com a expansão de novos bairros, a monumentalização dos edifícios públicos e o requinte arquitetônico das residências. Até hoje vitrais de edifícios públicos paulistanos, como os do Palácio da Justiça e do Mercado Municipal, causam admiração pela proporção, beleza e integração com o projeto arquitetônico. Representando temas históricos ou referentes às funções públicas dos edifícios, as imagens formam um conjunto das representações que, a partir do fim do século anterior, criaram e reafirmaram um perfil de São Paulo diante do Brasil. 
 

Sob esse ponto de vista, os vitrais, além de peças de arte, constituem importantes documentos históricos. Eles nos falam do forjar de ideias que se tornaram referência e moldam nossa relação com o passado e com o presente, justificando papeis e responsabilidades sociais. Produtos materiais de cultura, parte de nosso patrimônio histórico e objetos de fruição de beleza, os vitrais expressam por meio do poder das imagens a tradição, a excelência econômica e cultural de São Paulo, o trabalho, a determinação e o progresso. 

Cenas do cotidiano da vida no campo na década de 30.Cenas do cotidiano da vida no campo na década de 30.
 
 
Plantação de café.Plantação de café.
 
Agricultores trabalhando na lavoura. Agricultores trabalhando na lavoura.
 
 
A colheita e o transporte de bananas.A colheita e o transporte de bananas.
 
Boiadeiro conduzindo a manada de bois através do rio.Boiadeiro conduzindo a manada de bois através do rio.
 

Outras possibilidades de criação do vitral podem ser observadas no Mercado Municipal de São Paulo, 1933, que apresentam um tom quase jornalístico a temática dos vitrais. Ali aparece o homem flagrado no momento de seu trabalho: alimentando animais de criação, colhendo café, transportando bananas, tocando o gado. Cenas da agricultura, avicultura, pecuária, mostrando agricultores trabalhando de forma bem rudimentar, numa época anterior à mecanização. Tudo retratado dentro de um realismo fotográfico no que diz respeito à paisagem, à proporção e à profundidade dos elementos representados, buscando a autenticidade das informações.

Os 5 vitrais que retratam cenas da vida no campo, estes foram criados por Conrado Sorgenicht Filho que já tinha a tradição na família, cuja técnica foi trazida da Alemanha no século XIX pelo seu pai, Conrado Sorgenicht.

Conrado Sorgenicht (filho) andou pelas fazendas do interior do Estado de São Paulo, acompanhado de seu filho Conrado (neto), que já trabalhava no ateliê desde 1922, fotografando lavouras para registrar as ferramentas utilizadas, os meios de transporte, os animais de pequeno porte sendo criados soltos. Inspirados nestas fotos, o vitral foi criado. A criação dos vitrais levou 5 anos. Os vitrais foram restaurados no final dos anos 80 por Conrado Sorgenicht Neto.

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Artigo da Professora Dra. Regina Lara Silveira Mello da ANPAP - Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas.

Fim de ano se aproxima e com ele a vontade de fazer tudo o que não foi feito nos últimos onze meses. Lista de desejos, promessas para o próximo ano, novos projetos… Por isso, resolvi listar 10 coisas que quero para o ano que vem. Não me apeguei ao que quero comprar, ter ou algo desse tipo. Mas, sim, às atitudes que quero ter ou desenvolver em 2018. O objetivo é seguir essa lista para ser uma pessoa um pouquinho melhor. Confere aí!

1- Ter mais paciência

A vida numa grande cidade me deixou mais impaciente do que eu já era. Falta paciência no trânsito, com o pedido que não chega, com a fila que não anda, com tudo. Este primeiro item é um alerta para que no próximo ano, eu pare de tratar 10 minutinhos como 10 horas e desacelerar um pouco.

2- Respeitar quem pensa diferente

A impaciência do tópico 1 interfere muito no que vou chamar de intolerância com quem apresenta um pensamento, postura ou atitude que eu jamais teria. Esse item está aqui para me lembrar de ser uma pessoa mais compreensiva e sempre tentar entender o ponto de vista das outras pessoas. Não preciso concordar, apenas respeitar. Parece ser bem simples, a gente que acaba complicando, não?

3- Me divertir mais

Aqui é procurar fazer coisas e estar perto de pessoas com as quais eu realmente me divirta. Já reparou que, muitas vezes, podemos estar dentro de uma super festa, com uma turma de pessoas legais e mesmo assim não se divertir? O objetivo desse tópico é respeitar mais meus desejos e personalidade e, sim, deixar de ir a lugares ou fazer coisas só porque outras pessoas acham divertido. Se eu não acho, eu não vou.

4- Cuidar do corpo e da alma

Cotswold Allure Magazine Soul Circus Yoga Yogi Health Fitness Wellbeing 77Cotswold Allure Magazine Soul Circus Yoga Yogi Health Fitness Wellbeing 77O item 4 vale tanto para cuidados com meu corpo, quanto com minha mente. Aqui entram bons hábitos alimentares, exercícios físicos, cuidar mais de minha saúde mesmo. Sem deixar de lado a sanidade mental e, por que não, espiritual. Afinal, de nada adianta um corpinho bonito numa cabecinha ruim, né?

5- Conhecer pessoas e lugares novos

Essa é a meta que mais se renova a cada ano. Mas a intenção para 2018 é conhecer de verdade pessoas novas, ter interesse por elas, seus desejos e rotinas. A gente anda tão preocupado com o próprio umbigo que se esquece de formar laços e se interessar pelo que não tem a ver com a gente. Quanto aos novos lugares, pode ser uma nova cidade, país ou até mesmo um bar ou restaurante que fica na esquina de casa e eu ainda não conheço. Qualquer novidade é bem-vinda.

6- Ficar mais perto de pessoas queridas

Esse item da lista é um tanto óbvio, pois o que a gente menos quer nessa vida é ficar perto de gente que não gostamos. Mas, muitas vezes, deixamos ou adiamos isso, com desculpas como falta de tempo, dinheiro, cansaço e por aí vai. Por isso, a meta é ir ao encontro de quem se gosta mesmo sem grana, sem tempo ou morrendo de cansaço. Só vai!

7- Aprender alguma coisa nova

Tem um tempo que venho reclamando que a vida anda no automático. Casa, trabalho, trabalho, casa. Por mais que a vida em sociedade seja um constante aprendizado, o que quero na verdade é aprender algo novo. Pode ser um esporte, uma receita, consertar algo, construir ou montar um móvel, um jogo ou um novo idioma.

8- Não criar expectativas

Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém…

9- Não me preocupar tanto com o futuro

O item 8 também pode ser aplicado aqui, mas vou reforçar para deixar bem claro. Viver o momento presente está cada vez mais difícil. Estamos sempre preocupados com o amanhã, com o quanto eu vou ganhar daqui um ano ou com onde eu vou estar e, simplesmente, nos esquecemos de aproveitar as experiências que estamos tendo agora. Deixar rolar é a ordem nesse item.

10- Agradecer por tudo isso

Uma das coisas que mais nos esquecemos de fazer é agradecer pelas coisas. Ficamos felizes quando algo sai como o planejado, mas não agradecemos. E quando sai diferente de como imaginamos aí é que a gente esbraveja, fica triste e arrasado, no lugar de agradecer também por isso. Parece coisa de hippie, gente doida que abraça árvore e fala com planta, mas não é. É importante agradecer também pelo o inesperado e não planejado. Como diria minha avó: “Muitas vezes, é livramento”.

E você, qual a sua lista de desejos para o próximo ano?

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Mayra Sá é jornalista, lá de Minas Gerais. Mente adulta numa alma de criança, por isso não pensa muito antes de falar e fala exatamente o que pensa. Ama fazer piada, principalmente sobre si mesma. *Artigo publicado originalmente no Coletivo We Love

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

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Mário de Andrade (1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.

“O Peru de Natal“, foi publicado por Mário de Andrade (1893-1945) na revista da Academia Paulista de Letras em 1942 e, posteriormente, na obra póstuma Contos Novos, de 1947. O texto acima foi extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23.

Morar no centro é bom. Já andei traçando listas de vantagens, séries de atividades, rotas, itinerários, opções de cafés, comidas, salões, mercados e passeios.

Já aprendi nos emaranhados labirínticos das ruelas, viadutos, vias expressas e calçadões, onde vai dar aonde e o que vai dar no que.

Já especulei as melhores alternativas e métodos de conciliar o bom e o barato, me achando a maior malaca descolada; aquela que se da bem nas compras e que domina o centro da cidade como se fosse o centro do mundo. Ah, eu e meu umbigo libertino não sabiam o quanto iriam aguentar do lado B do glamour do baixo-paulistano.

Já fiz muitos trabalhos no Centro, como o Café Girondino, Salve Jorge, extinto café republica e mais uns lances. Já dei banda por aqui todos os dias e em diversos horários. Lembro que a noite descia a ladeira Porto Geral, uma enxurrada de ratazanas recém-saídas dos bueiros e porões, e que na minha fantasia dirigiam-se aos empórios, restaurantes árabes e mercadão municipal.

Os estabelecimentos costumavam abrigar gatos, não apenas por conta do amor felino, mas pra dar cabo dos roedores.

Foto: Márcia Fukelmann.Foto: Márcia Fukelmann.Mudando de rato para gente, tenho reparado no aumento da miséria, do desabrigo, da fome, do desolamento, da tristeza. Nas ruas multiplicam a cada dia os leitos improvisados de espumas de colchões, sacos plásticos, panos velhos, caixas de papelão, barracas tipo lobinho (um novo estilo de acampamento urbano), ou usufruto direto das pedras da calçada como leito.

Vejo gente encaixada em frestas entre canteiros e prédios, gente dormindo com a cabeça sob rodas de cadeiras de rodas, casais dormindo abraçados sob um cobertor encardido (sim, os brutos também amam), moço dormindo sob plástico preto de embrulhar presunto, sob garoa e vento, gente especulando os lixos atrás de comida ou objetos recicláveis...

Já vi gente dividindo marmitex com o cachorro, e já vi cachorro devorando ossos dados ao mendigo que cochilou na porta do açougue.

Vejo maluco beleza varrendo a calçada onde dorme, cuidando da limpeza deste lar a céu aberto... vejo todos os dias a miséria crescer num nível além da fome, do desprezo das gestões publicas que com seus jatos de água fria, com suas almas frias, não sentem o que fingem não ver. Ando bem tocada com a minha nova e necessária convivência.

Não me afasto desta verdade. Mudanças devem ser feitas. A miséria é epidêmica, não dá pra fazer vista grossa. Enquanto homens “pardos” sujam e poluem a paisagem da cidade linda, ratos brancos e gatos pretos fazem a festa.

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Márcia Fukelmann é proprietária de Consultoria Gastronômica com seu nome.

No dia 5 de maio de 2011 o New York Times anunciava, sob a manchete “The Tupperware Party Moves to Social Media”, a decisão da tradicional marca de vasilhames de explorar as novas redes sociais como estratégia de marketing e vendas.

O anúncio provavelmente teria passado despercebido, mas o fato de trazer, no mesmo enunciado, dois universos de convivência tão desconectados no tempo e no espaço me pareceu irônico e, por isso mesmo, merecedor de uma reflexão. Uma reflexão em torno das relações de proximidade estabelecidas nessas novas redes sociais juntamente com um produto ou marca que, a seu tempo, se tornou símbolo de um modelo de vizinhança paradigmático que teria uma grande influência na conformação ainda pouco amadurecida das cidades brasileiras: o subúrbio norte-americano.

Em 1947, Earl Silas Tupper, inventor e químico da DuPont, desenvolveu um sistema de vedação à prova de ar e água, derramamento e deterioração, que seria usado para o armazenamento de comida. A sua invenção, batizada de “Tupper Seal”, passou a ser aplicada a uma linha de vasilhames de polietileno produzida pela empresa nos anos anteriores. Os Tupperware, assim batizados, logo viriam a se tornar um símbolo do american way of life dos anos 50.

O lançamento desse produto no mercado coincidiu com um cenário pós-guerra, pré-feminista e de afirmação dos subúrbios como um modelo de vizinhança, aprovado por grande parte da população norte-americana, que abandonou os centros urbanos em troca da promessa de um ambiente adequado ao cotidiano da família, livre da indesejada convivência com grupos ou indivíduos que não se encaixavam no perfil de normalidade estabelecido pela sociedade.

Earl S. Tupper e Brownie Wise na fábrica da Tupperware em Farnumsville, EUA, em 1951. Cortesia: Tupperware.Earl S. Tupper e Brownie Wise na fábrica da Tupperware em Farnumsville, EUA, em 1951. Cortesia: Tupperware.Os pioneiros Tupperware tiveram uma curta temporada de vendas nos grandes magazines norte-americanos antes de serem retirados do mercado para poderem ser adquiridos apenas em encontros organizados entre as donas de casa de uma mesma comunidade: as Tupperware Parties.

Brownie Wise, uma mãe divorciada vinda do interior e com um estilo de vida um pouco distante do ideal feminino da mulher norte-americana dos anos 50, foi a responsável pela criação da estratégia de marketing da marca, que alcançaria cifras de centenas de milhões de dólares por ano.

Tudo começou com um telefonema à fábrica, no qual a senhora Wise – que costumava vender eletrodomésticos, panelas e vassouras em casa –, irritada com o atraso na entrega de suas encomendas, insistiu em conversar pessoalmente com o Sr. Tupper, presidente da marca. Ao perceber que a insolente reclamante era uma revendedora autônoma que, sozinha, tinha alcançado vendas maiores do que qualquer um dos grandes magazines, o senhor Tupper decidiu contratá-la para uma transformação no modelo de comercialização dos seus produtos. Ms. Wise iniciou então o seu projeto de recrutamento de colaboradoras. A oportunidade de se ter renda própria, trabalhando em casa e com um horário flexível que não prejudicasse as funções de mãe e esposa foi suficientemente atrativa para conquistar adeptas de todo país. 

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Em pouco tempo, Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança, distinta do competitivo e agressivo marketing associado ao tradicional modelo masculino de negócios.

Logo, as Tupperware Parties tomam conta dos subúrbios. Nas animadas tardes só para mulheres, entre receitas, drinks e dicas de como armazenar melhor o jantar do marido, muitas encontraram uma boa remuneração, fato que configurou, segundo estudiosos, o princípio de uma autonomia feminina no mercado de trabalho. 

Alguns anos mais tarde, esse mesmo projeto não ofereceu entusiasmo ao movimento feminista, então latente. Muitas mulheres entenderam que tal modelo de trabalho reforçava estereótipos femininos suburbanos, por representar uma espécie de desvio do propósito que buscava igualar as condições e oportunidades do trabalho feminino às dos homens. Além disso, as feministas argumentaram que a exploração econômica das redes de vizinhança e família era extremamente destrutiva, uma vez que se sustentam pela comercialização das relações afetivas.

As Tupperware Parties tornaram-se bastante populares no mundo todo, assim como o modelo de expansão dos subúrbios, ambiente que parece ter sido perfeito para a organização dessas festas. Em 1963, a empresa chegou à Europa, Japão e Austrália. No Brasil, as primeiras Tupperware Parties datam dos anos 70, época em que também apareceram por aqui os primeiros condomínios horizontais fechados. O AlphaVille Residencial, ícone pioneiro dessa tipologia, foi lançado em 1975.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família e por um déficit habitacional que, a princípio, foi associado às novas famílias formadas pelos jovens veteranos da guerra. A partir de então, a população norte-americana testemunhou uma mudança significativa no conceito de moradia e vizinhança. A crescente demanda por moradia, juntamente com as políticas públicas de incentivo ao mercado imobiliário suburbano, aceleraram a indústria da pré-fabricação e impulsionaram a rápida expansão e afirmação dos subúrbios. A produção em série de subúrbios como Levittown e Park Forest redefiniram os antigos modelos de espaço público com a nova estética da pré-fabricação e da propriedade privada inserida num espaço coletivo contínuo. Em Lewittown, as taxas de produção alcançaram 30 casas por dia em julho de 1948.

Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança. Foto: Hulton Archive / Getty Images.Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança. Foto: Hulton Archive / Getty Images.

Como um modelo de moradia e convivência sem precedentes na história das cidades, o empreendimento suburbano encontrou suporte numa ideologia política e estéticaBrownie Wise em folder de campanha. Imagem: Reprodução.Brownie Wise em folder de campanha. Imagem: Reprodução. associada a conceitos de eficiência e assepsia, não somente no planejamento espacial, como também no plano social.

Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Grupos sociais fora desse perfil não encontrariam as mesmas facilidades ou qualquer tipo de identificação. Os modelos das casas propostos pelo Federal Housing Administration apresentavam uma tipologia única e segregadora, de arquitetura exclusivamente voltada para as famílias nucleares, razão pela qual eram excluídos grupos sociais como os solteiros, casais sem filhos e idosos. Já os mecanismos de controle étnico dos subúrbios eram menos discretos.  Em Levittown, uma cláusula contratual restritiva estipulava que as casas somente poderiam ser vendidas ou alugadas para “membros da raça caucasiana”.

Entre os equipamentos que compunham o convidativo conjunto dos subúrbios estavam as novas escolas públicas aclamadas nacionalmente, a facilidade de conexão com a cidade por um eficiente sistema de trens e railways, os modernos centros comerciais, os playgrounds, igrejas e sinagogas, dispostas sobre os intermináveis jardins coletivos.

Somados à sedução dos baixos impostos, esses fatores configuravam um cenário atrativo o suficiente para justificar a adesão de milhões de famílias norte-americanas nos anos 1950. No entanto, por trás dessa aparente liberdade de escolha, os baixos juros cobrados no financiamento das casas suburbanas e as hipotecas garantidas pelo governo atestavam que o sucesso da empreitada era patrocinado por um projeto político que almejava a liberação das cidades para a implementação dos projetos federais de renovação urbana.

No Brasil, o modelo de expansão periférica das cidades que mais se aproxima dos subúrbios norte-americanos são os já citados condomínios horizontais fechados. Mas, nesse contexto de transposição, há que se considerar o frágil equilíbrio das nossas cidades, assoladas por um conflito social muito mais dramático do que o das cidades norte-americanas.

O conflito vivenciado no Brasil faz com que as palavras violência e segurança funcionem como passe de mágica na construção das arquiteturas mais contraditórias de que se tem notícia. Em essência, os nossos condomínios fechados, “enclaves fortificados”, definem relações de vizinhança bastante diversas do seu modelo de inspiração. Os moradores dos subúrbios norte-americanos compartilham um sentimento coletivo de pertencimento a um grupo social coeso e aparentemente bem integrado, sentimento este que justifica críticas: a aparente monotonia dos padrões e comportamentos dos seus integrantes.

No caso brasileiro, a migração das classes média e alta para os condomínios fechados, em porcentagens muito inferiores, foi motivada principalmente pela busca da segurança prometida pelos muros fortificados. Muitos desses condomínios trazem também a proposta de um isolamento campestre, que garante, no seu projeto de urbanização paisagística, o equivalente aos metros quadrados de jardim coletivo suburbano sob a forma de coeficiente em área de preservação da vegetação nativa.

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Mas a lógica do isolamento fortificado não se limitou apenas aos condomínios periféricos. Podemos verificar, com lamentável frequência, o mesmo princípio de segregação aplicado aos edifícios particulares que inevitavelmente colaboram com a conformação do espaço público das nossas cidades. Dessa maneira, estabelecem-se os princípios de convivência contraditórios que caracterizam as cidades brasileiras e que têm como principal consequência a deterioração qualitativa do espaço das cidades como local de convivência e trocas.

E é nessa esfera das convivências e trocas que o deslocamento das Tupperware Parties para as redes sociais inspira uma reflexão sobre o novo ambiente de vizinhança surgido quase meio século depois da exportação endêmica do modelo suburbano. As redes de convivência no facebook se consolidam sob o argumento promissor de uma cartografia que eliminaria as limitações espaciais e reconfiguraria o território virtual segundo critérios democráticos de afinidades que poderiam ser confortavelmente operados pelo usuário, construtor do seu espaço público. Trata-se, obviamente, de uma categoria bastante particular de espaço público, cuja grande conquista parece ter sido a exclusão do corpo físico e de todas as limitações a ele associadas. Essa exclusão permite estabelecer os novos parâmetros de proximidade e vizinhança.

Diante da metáfora do espaço público aplicada ao espaço virtual seria possível dizer, também metaforicamente, que aos usuários das redes sociais cabe o papel de articuladores de seu próprio espaço público. As ferramentas disponibilizadas pelo sistema permitem selecionar o perfil dos frequentadores do seu círculo de amizades, bem como erradicar da sua porção particular de espaço público qualquer manifestação que não esteja de acordo com os padrões estabelecidos pelo administrador. Esse movimento constante de construção e manutenção do espaço de convivência em seu estado ideal reproduz, ainda que remotamente, as ações dos urbanistas ortodoxos dos subúrbios e dos enclaves condominiais em seu esforço de ordenação asséptica do território.

Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Foto: Getty Images. Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Foto: Getty Images.

Nem os subúrbios e condomínios, nem as inovadoras redes sociais se aproximam do que há de mais instigante no modelo de vizinhança aparentemente caótico das cidades reais: o privilégio do encontro com o outro. Um outro que é em essência diferente de mim, e que me confronta regularmente com uma demanda de reposicionamento, adaptação e afirmação diante do coletivo. Nos dias de hoje, com todos os avanços das telecomunicações, que permitem modos de vida, trabalho e relacionamento desvinculados da condição de proximidade física, viver na cidade deveria ser uma escolha. E, como em toda escolha, há que se entender o que está em jogo antes de realizá-la. Viver na cidade significa conviver com o outro, com a diversidade – e é sob esse paradigma que seus habitantes deveriam optar ou não pelo modelo de moradia e vizinhança urbana.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família. Foto: ZLB Houses / 1950.Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família. Foto: ZLB Houses / 1950.

Condomínios e facebook em coexistência com a metrópole contemporânea poderiam configurar alternativas de vizinhanças diversas, possíveis escapes para a intensidade da convivência urbana, e não o contrário. Não se pode esperar da metrópole a garantia Tupperware de vedação contra vizinhos incovenientes, e nem o acondicionamento perfeito dos seus habitantes em recipientes separados e rotulados numa logística de reconhecimento e identificação que vai um bocado além da cartela de cores disponibilizada à clientela das Tupperware Parties.

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Por Ana Paula Assis. *Artigo publicado originalmente na Piseagrama, a única publicação sobre espaços públicos — “existente, urgentes, imaginários” — no Brasil.  

Nasci no bairro da Mooca. Isto foi no ano de 1951 quando a cidade de São Paulo tinha linhas de bonde que percorriam bairros e mais bairros com mais de 400 km de trilhos. Ainda nem se sonhava com um Parque como o Ibirapuera. Um dia chegou notícia! Vamos andar de papa-fila. Que sucesso!

No Parque Dom Pedro II um lugar para as diversões, estava instalado o Parque Shangai com a roda gigante a girar. Tivemos uma infância nos quintais com terra, sem nada de centros de compra ou lanchonetes rápidas. Ouvíamos canções de muitos países no rádio, do Japão, do Paraguai, da Alemanha, da Itália e também de Pernambuco, Ceará ou Rio Grande do Sul. A pastelaria era uma grande novidade assim como novos objetos incríveis. Lembro daquele copinho de beber água feito de plástico com várias camadas que abriam e fechavam. E ainda se apresentava em várias cores!

O Parque Shangai em 1958. Acervo: São Paulo Antiga.O Parque Shangai em 1958. Acervo: São Paulo Antiga.

Tomei banho entre as pedras naquela água geladinha que foi toda canalizada e hoje se conhece por um lugar chamado Vila Nova Cachoeirinha. Aguardei tantas vezes o trânsito feroz da Avenida Celso Garcia para visitar parentes que moravam na zona leste. Lembro do famoso ônibus Penha-Lapa. O ônibus para o Jardim Pedreira onde morava minha mãe, saia do Vale do Anhangabaú. Lá já estava ficando difícil de atravessar, com trânsito intenso. Na Rua Augusta fui estudar, usava o ônibus elétrico com seu andar silencioso. Era o Ginásio de Aplicação da PUC que foi demolido no atual terreno do pretendente “Parque Augusta”.

Consegui dois empregos e morando na zona sul, mais tarde veio matrícula no curso de magistério na Lapa e a lentidão do trânsito nos anos 1970 porque uma obra viária crescia em nossas cabeças escurecendo a alegre Avenida São João, nosso Champs Elysee. Era em formato de minhoca.

Para as férias uma gostosa viagem com malas se arrastando pela Rodoviária colorida em frente à Estação de trens Sorocabana.

Antiga Rodoviária da Luz, posteriormente convertida em shopping popular, hoje demolida, centro de São Paulo. Foto: Tuca Vieira.Antiga Rodoviária da Luz, posteriormente convertida em shopping popular, hoje demolida, centro de São Paulo. Foto: Tuca Vieira.

Assim muito jovem descobri que a melhor fórmula de ganhar tempo seria trabalhar, estudar e morar no Centro, tudo perto. Ir caminhando com pequenos atrasos apenas se o elevador demorava.

Para a boemia de violões nas madrugadas tínhamos transportes pela noite toda! Em 1979 vem o bebê e morando na Alameda Barão de Limeira quantas vezes o carrinho aguardava manobras para tirar os carros da calçada. Esperava até o proprietário do veículo aparecer e muitas pessoas comentando “tira o carro, a mulher quer passar com o carrinho de bebê!”. Isto acontecia sempre e nas décadas seguintes pouco mudou, ou melhor, acentuou.

O menino cresceu e disse “mãe porque você não volta a estudar”. E voltei, fui para a faculdade e nossos colegas se misturavam nos trabalhos, os dele quando entrou no cursinho e os meus. Era o final dos anos 90 e o turismo me impregnou com suas vertentes. Estudei mais e me tornei guia da cidade. E o caminhar se fez freqüente. Agora com análises e embasamentos históricos. A geografia permeando o olhar para conduzir outros sonhos e descobrir mais e mais. Pesquisei sempre e tentei desvendar as palavras que dizem muito sobre o lugar, são as origens indígenas do chão paulistano “terra dura” Butantã, “caminho de tatus” Tatuapé, riacho vermelho” Ipiranga, “gafanhoto verde” Tucuruvi, “fazer casas” Mooca, “esconderijo de fujões” Jabaquara , “madeira em extinção” Ibirapuera.

Ônibus elétrico na Rua Augusta. Acervo: São Paulo Antiga.Ônibus elétrico na Rua Augusta. Acervo: São Paulo Antiga.

Recordo então as origens, e as mudanças com inúmeros carros por todos os lados, a construção do Metrô, trens e ônibus mais confortáveis e quase sempre lotados.

Os quintais foram sendo cimentados, os copos de papelão viraram de plástico. Quanto plástico! O bonde se foi e nenhum ficou para lembrança como tem Lisboa ou em Santos. Quem sabe salvamos o ônibus elétrico e todos me perguntam “onde está aquele lindo veículo que circula somente no aniversário da cidade?” Não sei responder.

O Anhangabaú virou jardim. O ônibus elétrico da Rua Augusta acabou. A cidade pulou em meio século de 2 para 11 milhões de habitantes. E carros, quantos desde que em 1902 foi chegando o primeiro.

A Rodoviária mudou de lugar e ficou bem grande. E ficou difícil atravessar as ruas e avenidas repletas de veículos. “Teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel”...” Iracema cuidado ao atravessar essa rua, eu falava mas você não escutava não, Iracema você atravessou contramão” .”Olá como vai, eu vou indo e você tudo bem, o sinal vai abrir, vai abrir”, são versos que cantaram Adoniram e Paulinho da Viola. Cada vez mais fica complexo andar pelo nosso lugar que é a calçada. Quando chegamos à maturidade ficamos com receio de atravessar ruas, com medo de motociclistas, andamos mais lentos e com cuidado. Será que vamos ter que ocupar as ruas e deixar que o automóvel durma nas calçadas em berço esplêndido? Temos ainda muito que fazer.

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Vera Lúcia Dias é turismóloga com pós graduação em Globalização e Cultura. Texto originalmente publicado no Jornal GGN.