Ensaios - São Paulo São

São Paulo São Ensaios

Na Aclimação era conhecida como vendinha do seu Elias.

Era na Rua Pires da Motta, bem esquina da Conselheiro Furtado, quase em frente ao saudoso Oswaldo Barberis, cirurgião-dentista e palmeirense.

Logo na entrada, sacas de arroz, feijão e batata. Em cada nicho você descobria o óleo, azeite, pimentas, résteas de cebolas, alho. Mas também prateleiras com bebidas baratas, uisquis paraguaios, vinhos em garrafão, conhaque Palhinha, o vinho Precioso, seco e suave. O Fogo Paulista, cigarros, todos...

Agora o que marcou na memória foi o balcão de madeira com vitrine que exibia doces enfileirados por categoria, em harmonia geométrica e de cores.

Eu não sei mas também nunca perguntei onde seu Elias ia buscar aquelas cocadas pretas e brancas no formato de losango, crespas rendadas, carregadas de açúcar, de derreter na boca, adoçadas tanto mas sem perder o sabor do coco que poderia ser encontrado em pedacinhos.

Um olhar cobiçoso também para a maria-mole branca ou com tom de canela uma mistura do coco ralado, do leite condensado e a indispensável gelatina branca que dá o toque de malemolência, de estremelicação, esponjosa e flexível...

Imagem: Doces Bela Vista.Imagem: Doces Bela Vista.O pirulito de açúcar queimado redondo na base afinando na ponta como uma pirâmide era um mistério na sua simplicidade e pobreza, apesar de vestido e enrolado num papel grudento que pedia uma lambida final que era travo de mel..

Do pirulito de chocolate em forma de guarda-chuva nem é bom falar. O coco também era a matéria prima para obras de arte como quindins reluzentes de tão dourados. E não há como menosprezar o doce de abóbora, jeito de cobre, aparência de falsa humildade, porque na boca expandia seu caráter verdadeiro de crosta firme e puro purê de abóbora no recheio.

Não esqueço o pão de mel, mais mel do que pão, lustroso na superfície achocolatada, crocante de esfarelar na boca e meu prêmio quando corria até o seu Elias para comprar Lincoln, os cigarros preferidos de minha tia Maria José.

Imagem: Doceira Dulca.Imagem: Doceira Dulca.
Finalmente a bomba de chocolate que, à certa distância parecia um tanto murcha, vazia e tristonha mas que à primeira mordida explodia como bomba que era, o cacau escorrendo pelos cantos da boca, pelo céu da boca, pelo queixo, pela criança.

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Nelson Porto é redator publicitário com passagens pelas principais agências de propaganda do país.

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) está completando 70 anos. Entre as diversas contribuições à produção de conhecimento no campo da arquitetura, urbanismo e design feitas ao longo de sua história, uma se destaca particularmente ao associar uma escola, no sentido prático de um estabelecimento de ensino, a uma “escola”, uma corrente de pensamento dentro da arquitetura. Trata-se da chamada Escola Paulista de Arquitetura Moderna, grupo de arquitetos e pensadores sobre arquitetura brasileira que constituiu, desde os anos 1950,  um movimento no interior do modernismo.

O próprio prédio da FAU, projetado por Villanova Artigas, no Campus Butantã da USP, é uma das principais expressões e inspirações dessa escola. Mas, talvez uma de suas características mais relevantes seja sua enorme capacidade de renovação e reinvenção no presente. Não se trata, portanto, de um movimento “do passado”, do extinto século XX com suas promessas de modernidade, mas um léxico – e também, eu diria, uma ética, que se reatualiza diante dos desafios do presente.

Dois projetos que acabam de ser inaugurados em São Paulo falam muito sobre o conjunto de valores que caracterizam essa escola. O SESC 24 de Maio, no Centro,  de autoria do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, uma das maiores referências da Escola Paulista, em parceria com o escritório MMBB; e o Instituto Moreira Salles (IMS), na Avenida Paulista, de autoria do escritório Andrade Morettin. Separados por uma década, tanto o MMBB quanto o Andrade Morettin foram formados nos anos 90 por ex-alunos da FAU.

Os dois projetos revelam explicitamente seus processos construtivos: os insumos usados nas obras aparecem o tempo todo; sem forros ou revestimentos a estética que se revela é aquela dos materiais em sua forma bruta, na beleza de suas funções construtivas. Há quem diga que esta característica tem muito a ver com a própria origem da FAU, que surgiu em contraposição a escola de arquitetura do Rio de Janeiro, constituída a partir das Belas Artes. Em São Paulo foi a engenharia, e mais especificamente a Politécnica da USP, que originou a nova faculdade.

Para além de outros elementos construtivos e de linguagem, que certamente colegas arquitetos e críticos de arquitetura muito mais especializados no tema do que eu já apontaram, quero chamar a atenção aqui para outro elemento central da Escola Paulista: a relação da arquitetura com o urbanismo ou do edifício com o lote e a cidade.

Nos dois edifícios as opções de projeto fazem com que a cidade continue para dentro dos prédios, recepcionada em grande estilo e convidada a percorrer os andares superiores. No SESC, o térreo é  para se constituir numa espécie de praça, que pode ser acessada a partir de mais de uma rua. Nos dois casos deste térreo-que-continua-a-cidade, o visitante é conduzido, por rampas no SESC e por escadas rolantes no IMS, até o último dos andares dos edifícios.

Em tempos de privatizações e cercamentos e de edifícios que se pretendem âncoras para operações imobiliárias, a reafirmação dos valores da Escola Paulistana nesses novos centros culturais da cidade é um respiro e um alento.

Resta para as gerações que são hoje os estudantes e arquitetos inspirados pelos valores da escola a disseminação desta posição para além de centros culturais e museus, para os usos corriqueiros da vida cotidiana.

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Raquel Rolnik, urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Artigo publicado originalmente no Blog da Raquel Rolnik em 17 de outubro de 2017. 

Nas prateleiras de dezenas de bibliotecas, livrarias e casas brasileiras existe uma senhora chamada Dona Sofia. Trata-se de uma professora aposentada, que mora no alto de uma entre tantas colinas de uma bucólica região. Os moradores dos arredores não sabem, mas a casa de Dona Sofia é diferente das outras: tem poesias escritas pelas paredes de todos os cômodos! Certo dia, ela se dá conta de que não há mais espaço para escrever e, então, decide criar cartões poéticos para distribuir seus poemas preferidos aos moradores da cidade. Esta é uma já clássica história do autor pernambucano André Neves, narrada no livro A Caligrafia de Dona Sofia, que teve a primeira edição em 1992 e está desde 2007 com a Editora Paulinas.

Ilustração: André Neves.Ilustração: André Neves.É inspirada em uma professora de pintura que ele teve em Recife, a renomada artista plástica Badida, com quem também aprendeu a amar ainda mais poesia. Era, então, simplesmente uma memória que ele quis colocar em livro. Mas uma memória do que, na educação, chama-se “mediação de leitura”, uma prática que pode acontecer de várias maneiras com o intuito de promover o encontro entre livro, leitura e leitor. Não à toa, Dona Sofia vem se tornando um símbolo da “mediadora ideal”, mesmo que a primeira intenção de André não tenha sido esta, por se tratar de uma mulher que tem muito repertório de leitura e quer compartilhar o que ama ler.

Esta poderia ser, no entanto, a premissa do papel do mediador de leitura: gostar de ler e gostar de contagiar o outro com a sua paixão por determinado livro. Mas... como? Primeiro, talvez, entendendo que não há receitas prontas. Desde que nasce, cada pessoa irá descobrir seu caminho leitor. E ambientes e objetivos diferentes pedem atitudes diferentes.

“O professor que tem o objetivo de mediar, de apresentar uma leitura como projeto pedagógico naquele lugar, tem um plano, é uma tarefa educativa, mesmo que seja a de formação literária, formar repertório, observar linguagens. Então é dever do professor preparar esta leitura, ver que recursos são necessários, possibilidades para provocar o diálogo a partir daquele livro”, diz Maria José Nóbrega, assessora pedagógica de projetos sobre leitura em diversas escolas de São Paulo. “Já em situação familiar, o pai ou a mãe, enfim, o adulto não tem que preparar algo como se tivesse um fim pedagógico. Esta mediação tem que ir mais livre, com a possibilidade até de se surpreender com a leitura junto com a criança. Quanto mais espontânea e intuitiva, mais bacana é o encontro”, continua.

Mesmo em um espaço profissional de leitura, como uma biblioteca pública, por exemplo, a mediação pode acontecer de forma muito diversa. Assim como as vitrines e os espaços atrativos (ou não) das livrarias, os espaços físicos das bibliotecas já são mediação. Só que os profissionais dos equipamentos públicos podem encontrar missões, digamos, mais complexas.

Nas bibliotecas dos CEUs em São Paulo, há ainda uma grande parte da população que não se sente legitimada a entrar, principalmente um público jovem e adulto que nunca teve acesso ao livro. “É primeiro um trabalho de convencer aquele leitor tardio de que ele pode, sim, gostar de ler. Tirar o livro deste altar inatingível, que a sociedade instituiu, e trazê-lo como um objeto cotidiano, como água, de direito e de todos”, afirma Carlos Otelac, bibliotecário e contador de histórias do CEU São Mateus. Uma das primeiras ações que eles fazem diante de um usuário novo é uma espécie de entrevista.

“Quando entra uma pessoa que não sabe o que quer, fazemos quase uma ‘psicologia literária’(risos). Vamos tentando entender os interesses dela, seus gostos por determinados assuntos. Às vezes você encontra um autor e começa a seguir tudo dele, ou ele leva a outro, e vai criando repertório, pode se atrair pode determinada linguagem ou gênero. Isso é algo que acontece a todos nós”, completa Carlos. Nestas situações, segundo ele, há muitos mitos que ficam em evidência, como o fato de que ler é algo natural quando, na verdade, requer esforço.

“Para se ter uma ideia, tem gente que não sabe nem que há livros que podem nos fazer rir. Penso que o começo é o ponto sensível de tudo e podemos descobrir que a pessoa ou a criança já tem uma memória ruim de leitura e, assim, rever com ela estes passos e, quem sabe, que descubra que todos podem ler de alguma forma.”

Obstáculos

Todas estas dificuldades independem da classe social. A falta de acesso à leitura toca em outras fragilidades nossas, como a falta de escuta. Colocar-se no lugar do outro é uma das premissas de quem pretende promover o encontro do livro com o leitor. A outra é sua própria bagagem leitora. Seja nas escolas, bibliotecas ou outras instituições – quem é o mediador tem, no entanto, um peso maior do que qualquer tipo de prática de sucesso de algum lugar.

“A mediação mais forte - independente das variáveis ambiente, cultura, número de pessoas envolvidas etc - é o quão leitor é esse mediador, o quanto ele leu. Numa sociedade em que vivemos a ausência do tempo, a leitura muitas vezes fica ameaçada. O mediador pode conhecer técnicas, estratégias, mas o fundamental é ler. Simples assim”, diz o educador e pesquisador Giuliano Tierno, criador do curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias na Contemporaneidade e um dos idealizadores d’ A Casa Tombada – Lugar de Arte, Cultura e Educação, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

Ilustração: Bruna de Assis Brasil.Ilustração: Bruna de Assis Brasil.“Com a prática de dessacralização do livro, de transformá-lo em algo comum, que se pode pegar, montar castelo, pular página, tem de vir a figura de alguém que tem experiência leitora acumulada e que, na hora que está conversando com leitor, traz elementos. Sou de um tempo em que ia à vídeolocadora e escolhia um filme porque o atendente havia contado a história. A gente alugava pela narrativa.”

A mediação em si tem, então, diversos caminhos a percorrer até que ela aconteça. A narração oral ou “contação de histórias” é das mais usadas. Mas todos os envolvidos têm um dilema: se e narração de histórias oralmente é uma prática artística, seria justo o educador ou bibliotecário se sentir obrigado a fazer? E, pelo mesmo motivo, seria dever do contador de histórias a função pedagógica de mediar o livro? Para Giuliano, que pesquisa o papel do narrador em contextos urbanos, há que se diferenciar as intenções das práticas e acolhê-las todas.

“Oralidade e literatura são coisas muito diferentes. Para justificar a oralidade, se criou esse vínculo. De alguma forma, os contadores de história encontraram aí uma possibilidade de trabalho. Tem contadores que fazem efetivamente o trabalho com o livro, com a narração literária. E há contadores que são os que não estão interessados no livro, que querem contar a história. Mas as políticas públicas sempre valorizaram mais a literatura, o livro, e muitas vezes o interesse do contador não é o fim (o livro), mas sim o meio (a narração). E não me vejo sozinho nisso. Eu particularmente me inspiro em muitos livros, mas o livro não é meu fim. Estudo os livros para poder contar as histórias. Acho que contador de história não é mediador de leitura, ele pode contribuir para que o ouvinte vá atrás do livro, mas às vezes ele é apenas um contador de história. E os dois são muito importantes”, afirma.

A contação de histórias também é prática de Carlos Otelac, no CEU São Mateus. Como trabalha com público de todas as idades, a narração é assistida pelos bem pequenos, crianças da escola do ensino fundamental da unidade, bem como os projetos que envolvem alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos).

“Para mim é maravilhoso, boas histórias podem ser contadas para qualquer público. E agora temos mais os projetos com saraus também, que tem o fazer textual, as pessoas desenvolver seu jeito de se expressarem.” Para Carlos, todas estas atividades têm características próprias, valores em separado e até objetivos distintos. “Muitas vezes, acaba sendo também uma mediação da comunidade com o espaco cultural público! Como lugar de exibir seus talentos, como fórum para passar suas mensagens, como um lugar em que todos têm algo a compartilhar em várias artes, com várias linguagens”.

Mostra literária

Ilustração: Daniel Kondo.Ilustração: Daniel Kondo.O autor da história da Dona Sofia, que abre esta reportagem, há cinco anos fez sua primeira “exposição literária”, como ele denomina. Foi com o livro Tom (Ed. Projeto), em que narra de forma poética e emocionante a relação de um menino autista com o mundo. Com Nuno e as Coisas Incríveis (Ed. Jujuba), do ano passado, também surgiu a ideia de se tornar uma mostra visual. Ela nasceu em uma livraria, a NoveSete, especializada em publicações de literatura infantojuvenil, e agora percorre espaços escolares.

A experiente professora de leitura Sílvia Casatle, assim que viu a mostra na livraria foi conversar com a editora sobre a possibilidade de levá-la ao Colégio Santa Cruz, onde está há 15 anos e onde hoje trabalha com crianças de segundo e terceiro do ensino fundamental. Impactada com a obra em si – a história de um menino que se comunica apenas por desenhos e é desprezado por uma menina que “transforma palavras em arte” – ela entendeu que levar o projeto para dentro da escola poderia ser uma maneira diferente de oferecer o encontro deste livro com as crianças.

“Com a chegada destes tipos de livros ilustrados ao nosso mercado, me questionei ainda mais por formas de ler, venho estudando muito”, diz Sílvia que notou, então, que a mediação precisava dar um outro passo: para ler estes livros em que texto e imagens dialogam de uma maneira especial, era necessária outra sensibilização. Durante semanas, fez um trabalho que foi se dando em etapas: primeiro com vários livros ilustrados. Depois, uma degustação do próprio Nuno de várias maneiras diferentes: leu o somente o texto, depois uma vez eles liam só as imagens, depois a leitura dela em voz alta do texto com as imagens que eles já liam, depois foram estimulados a identificar os detalhes do projeto gráfico e, assim, foram se aproximando da complexidade do tema, do direito de cada um ser como quiser ser. As interpretações e até os incômodos apareciam.

“Nessa situação de mediação, ficamos dosando até onde damos a resposta a alguma pergunta, até onde a gente vai esperar para que alguém do grupo traga as questões, para dar liberdade de eles pensarem outras hipóteses. E eu dizia: algumas perguntas podemos guardar para perguntar para o André”, conta. E foi aí que ela notou que o trabalho foi aproximando as crianças não só do texto e da imagem, mas também do autor. “Foram se sentindo cada vez mais à vontade de se colocar na roda de conversa e eu fui notando quanto de repertório cada um já tinha, como elaboravam determinadas questões que o livro provocava”. Eles levaram o livro para a casa, mostraram para a família e quando a exposição foi para a escola, as mesmas crianças levaram os pais e foram mediadoras de tudo: do livro e da mostra. “Ficaram íntimos do livro e da história. Cheguei a ouvir de um pai que a cada leitura que faziam em casa, algo novo aparecia. Uma coisa se ligou à outra.”

Não é raro ouvir André dizer que mais do que ilustrador ou escritor ele é um promotor de leitura. É comum também que ele em encontros com crianças cite outros autores ou até leia com eles diversos tipos de livros, fale sobre suas preferências, aponte caminhos. As exposições, no fim, são uma outra forma de fazer o que ele mais gosta: ler com o outro, a partir do momento que exibe a sua maneira de criar um livro e como aquele livro não termina nunca.

“É como quando você reler um livro e encontrar outras coisas que não tinha percebido. Não termina. Eu sempre penso o livro como um todo e no pensamento do livro ilustrado eu penso na leitura também de uma forma geral: não quero que as pessoas leiam melhor meu livro ilustrado para ler outros meus ou outros livros ilustradros apenas. Quero que as pessoas se desenvolvam e leiam romances, contos, que sejam adultos leitores de vários tipos de livros.”

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Por Bia Reis e Cristiane Rogerio no Especial Edu. em O Estado de S.Paulo.

Uma das singularidades de São Paulo é ter no seu centro uma fenda topográfica de difícil resolução urbanística: o vale do Anhangabaú. Na origem o vale protegia, juntamente com a várzea do Carmo, a colina onde se abrigava a povoação jesuítica. Com a expansão do núcleo urbano, no entanto, foi preciso vencê-lo, embora de maneira nunca definitiva.

O vale, que abrigava um riacho assombrado, segundo o seu nome indígena, foi ocupado por chácaras, bordejado por plantações de chá, deu lugar a residências de elite, foi racionalizado como espaço público ajardinado, depois aberto a avenidas amplas e depois ainda transformado em calha automobilística subterrânea recoberta por uma praça de concreto de uso inconclusivo.

Já abrigou shows e comícios, como o das Diretas-Já, sem que se consagrasse o sentido coletivo de sua ocupação. Sua história forma o palimpsesto de um espaço inabordável, anfiteatro de um acontecimento por vir e que não vem, no ponto cego da força centrífuga que arrasta a cidade para mais longe.

Atravessada pelo cartão postal do viaduto do Chá, a falha do Anhangabaú é o centro secreto dos vários centros que estão à sua volta: no meio exato entre a praça da Sé e a praça da República, entre o Pátio do Colégio e o cruzamento da Ipiranga com a São João, no qual a famosa canção “Sampa”, de Caetano Veloso, identificou o epicentro emocional em que o coração da cidade bate junto com o de quem chega. Não deixa de ser sintomático que o primeiro verso de “Ronda”, de Paulo Vanzolini, samba no qual se inspirou “Sampa”, pareça falar do giro em torno desse centro que não se fixa: “de noite eu rondo a cidade / a te procurar / sem te encontrar”. E que “Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa, seja o lamento sublimado de uma demolição oculta em camadas: o “edifício alto” ocupa o lugar onde estava o “palacete assobradado” que por sua vez ocupou o lugar da “saudosa maloca”. No “Trem das onze”, o Jaçanã (“moro em Jaçanã”) aparece literalmente como o ponto de fuga em direção às redondezas de uma circunferência tão pouco evidente quanto o centro da cidade (Vanzolini perguntou uma vez a Adoniran porque ele não dizia “moro no Jaçanã”, como é usual, em vez de “moro em Jaçanã”, e a resposta não se fez por esperar: “e eu sei lá onde fica essa porcaria?”).

Década de 20 - Visão do vale do Anhangabaú a partir do antigo Viaduto do Chá. Imagem: Pinterest.Década de 20 - Visão do vale do Anhangabaú a partir do antigo Viaduto do Chá. Imagem: Pinterest.

Quando o eixo empresarial se deslocou para a avenida Paulista, Tom Zé surpreendeu, em “Augusta, Angélica e Consolação”, a mesma síndrome do centro faltante: entre duas mulheres indóceis, a Augusta e a Angélica (“Que saudade!” e “Que maldade!”) só se encontra o consolo de um nome: a Consolação. E é notável que o eixo de negócios, ao se deslocar cada vez mais para a Faria Lima, para a Berrini e a Marginal, já não deu mais samba, perdendo contato com os pontos de imantação em que o nervosismo da cidade se irradia.

Voltemos, pois, ao enigma do vale do Anhangabaú. A interpretação grandiosa dele se encontra no final da Paulicéia desvairada de Mário de Andrade. No longo poema intitulado “As enfibraturas do Ipiranga”, o poeta modernista imaginou o Anhangabaú tomado pela população em massa na execução de um convulsionado “oratório profano” sinfônico e coral, em que se expunham choques culturais e conflitos de classe quase como se fossem a manifestação de torcidas nos nascentes estádios de futebol (que, aliás, ocupavam às vezes o Anhangabaú para acompanhar ao vivo notícias de jogos acontecendo em cidades distantes). No poema, as “juvenilidades auriverdes” modernistas, com os pés mergulhados no fundo do vale, se debatem contra o coro solene dos “orientalismos convencionais” (artistas acadêmicos, parnasianos e beletristas, entrincheirados nos terraços do Teatro Municipal), secundados pela dança caricata das “senectudes tremulinas” (milionários e burgueses, nas sacadas elegantes do lado oposto do vale) e pela massa dos “sandapilários indiferentes” (trabalhadores e desempregados, postados no viaduto do Chá, reativos às batalhas campais da cultura de elite e mais interessados na ópera italiana e nos emergentes sucessos musicais de massa, como a marchinha “Pé de anjo”, de Sinhô).

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.

Foi nessa grande fenda, no anfiteatro da falha central do vale do Anhangabaú, que Mário de Andrade vislumbrou a cidade como um tumultuado campo centrífugo de forças sociais, comportamentais, artísticas, de conflitos expostos, de impasses e destruição, mas também do generoso impulso transformador aberto ao múltiplo e à eclosão das diferenças. O centro é vivo e fecundo justamente ali onde ele não se fixa nem se fecha.

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José Miguel Wisnik é músico, ensaísta e professor de Literatura Brasileira na USP. É autor, entre outras publicações, de O coro dos contrários – A música em torno da Semana de 22 (1977), O som e o sentido – Uma outra história das músicas (1989), Sem receita – Ensaios e canções (2004) e Veneno remédio – O futebol e o Brasil (2008). Fez música para teatro, cinema e dança, além de Cds autorais de canções (José Miguel Wisnik, 1993, São Paulo Rio, 2000, Pérolas aos poucos, 2003, Indivisível, 2011 e Ná e Zé, com Ná Ozzetti, 2015). Atuou como professor convidado na Universidade da Califórnia (Berkeley) e na Universidade de Chicago.

*Artigo publicado originalmente na Revista E Online do SESC.

Enquanto era escrito o texto que você lê agora, me lembrava de fotografias tingidas de vermelho: registros da tradicional Tomatina, a festa do tomate na Espanha. A “guerra” ocupa as ruas da cidade de Buñol uma vez por ano, sempre na última quarta­-feira de agosto. As pessoas jogam tomate umas nas outras e depois tomam um banho ali mesmo. Parecem todas muito alegres. O fruto usado como munição é esmagado antes de ser arremessado, para não machucar ninguém, e os organizadores dizem que a variedade é cultivada especialmente para a festa. A batalha teve início há mais de setenta anos e virou atração turística da cidade valenciana.

La Tomatina de Buñol: a guerra de tomates da Espanha. Foto: Wikipedia.La Tomatina de Buñol: a guerra de tomates da Espanha. Foto: Wikipedia.

Mesmo que os tomates sejam cenográficos, para muitos que observam a cena de fora é difícil não pensar em desperdício. Jogar comida pela janela, lavar a calçada com o esguicho de mangueira. Quem se esforça minimamente para entender o momento que vivemos sabe que algumas ações, mesmo se praticadas como exceção, parecem não ter lugar. Outras, por outro lado, são importantes e há pessoas que, incomodadas com a desconexão do homem e o meio ambiente e preocupadas com o futuro, agem a favor delas.

É verdade que muitos desses indivíduos, hoje, andam como se estivessem no mar, com a água na altura dos joelhos. É difícil, precisa de certo esforço. E não se tem notícias de grandes empresas em escancarada procura por profissionais ‘sustentavelmente engajados’, sobretudo em tempos de crise. Há os que conseguem trabalho em ONGs de causas socioambientais, instituições que lidam com políticas públicas, educação (é importante ensinar para mudar), escritórios de arquitetura e urbanismo ou de novo aquelas que de um jeito autônomo, mas integrado à vizinhança, começam a plantar para consumir e até vender para restaurantes, escolas e consumo doméstico. Quem tem conhecimento de sustentabilidade, porém, vai ser cada vez mais requisitado e valorizado, porque os problemas relacionados à água, aquecimento global e diversas mudanças no clima são reais e temos de lidar com eles – sua compreensão no planejamento das cidades é fundamental para prevenir e mitigar os riscos. 

MUDA-SP (Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo). - Foto: Circuito Fora do EixoMUDA-SP (Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo). - Foto: Circuito Fora do Eixo

Os que acham que um texto sobre profissão do futuro só faz sentido se falar de emprego e dinheiro no bolso, trazendo respostas bem objetivas (o que vou estudar, aonde vou trabalhar e quanto eu vou ganhar), provavelmente já desistiram há alguns parágrafos. Aos que ficam: escolhemos encerrar esta série de treze reportagens com uma reflexão de formação social, comportamento e atitude.
 

Decidimos usar como fio condutor a agricultura urbana, porque é urgente nas cidades a ação de pessoas sintonizadas com o meio ambiente e seus processos naturais e sociais. A produção agrícola pequena, perto dos centros urbanos – ou dentro deles – é uma coisa boa. “A profissão do agricultor voltado à agroecologia vai crescer cada vez mais, porque na agricultura convencional você pega a sementinha da empresa X, com o adubo da empresa Y e o defensivo químico da empresa Z e teoricamente vai produzir seu alimento cheio de veneno. Mas vai causar sérios danos à saúde de quem aplica e de quem consome e vai acabar destruindo e degenerando cada vez mais a terra.

Nesse sistema é muito simples de plantar. Já o agricultor que leva em conta o cuidado com a terra e o meio ambiente precisa ter um conhecimento muito grande de como fazer o adubo, a compostagem, e as pragas acabam sendo um indicador do que está faltando na horta e tem de desenvolver tecnologias sociais para combater sem usar química”, diz o consultor e coordenador de projetos de sustentabilidade Samuel Gabanyi. “Os engenheiros agrônomos vão ajudar na conversão de uma agricultura convencional para a orgânica e melhorar a produtividade. Depois, provavelmente, virão os urbanistas. As pessoas que planejam a cidade hoje não têm na cabeça a importância da agricultura urbana e você vai precisar cada vez mais dela.”

Por que a agricultura urbana é importante?

Estevao Silva da Conceicao e sua filha em horta urbana na periferia de São Paulo. Foto: Mauricio Lima / Getty Images.Estevao Silva da Conceicao e sua filha em horta urbana na periferia de São Paulo. Foto: Mauricio Lima / Getty Images.

– Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local. Além de diminuir as distâncias, evita desperdício (consumo consciente), gera menos poluição (menos transporte) e lixo (embalagens especiais) e contribui para a qualidade de vida. O agricultor vive melhor sem o uso agrotóxicos. O consumidor se alimenta melhor com orgânicos e locais e o meio ambiente tende a ficar mais confortável. A biodiversidade agradece e, ao redor das hortas, as pessoas se encontram e convivem e colocam energia em um projeto cheio de significado. E tem mais: elas colocam a mão na terra, plantam, entendem e acompanham de perto o ciclo produtivo. Há benefícios sociais enormes em torno do engajamento e da atividade. 
 
“Praticar agricultura urbana é produzir alimentos dentro da cidade. Frutas, legumes, verduras, hortaliças e animais. Ao comprar diretamente do produtor, sem intermediários, o produtor recebe mais dinheiro e o comprador paga mais barato. Não tem necessidade de transporte poluidor de longa distância nem de nenhuma embalagem complexa”, diz Gabanyi. “Além disso, o alimento é fresco e de verdade, orgânico, não é comida de caixinha cheia de ingredientes que, quando você lê, não entende o que está escrito. O alimento que vem de longe perde nutrientes até chegar na sua mesa. A agricultura urbana, seja na pequena horta comunitária, seja em espaços maiores, promove a regeneração dabiodiversidade, superimportante para os ciclos da natureza. Ela atrai borboletas, besouros, joaninhas, abelhas. E também ajuda a diminuir as ilhas de calor na cidade. Com o aumento das áreas verdes, a temperatura fica mais agradável, o ar mais limpo, visualmente mais bonito, a horta vira espaço de lazer e conforto.”

Motorista da ONG Banco de Alimentos recolhe frutas e legumes de doador para redistribuir em SP. Foto: Divulgação.Motorista da ONG Banco de Alimentos recolhe frutas e legumes de doador para redistribuir em SP. Foto: Divulgação.

Gabanyi tem 33 anos, formou­-se em administração pública e fez o primeiro estágio na ONG Banco de Alimentos, que arrecada produtos bons para o consumo e que seriam jogados fora e os entrega em creches, asilos, instituições de caridade, orfanatos. “Foi um choque de realidade quando eu comecei a conhecer muito a periferia da cidade e todos os dias vendo pessoas que passam fome e eu sempre tinha um prato de comida na minha frente. Acho que isso me cativou bastante. Comecei a ver que tinha alguma coisa errada nessa lógica: como tem gente jogando alimento no lixo, se tem quem precisa dele? A partir disso já são quinze anos trabalhando com projetos na área social ou na área ambiental e com a certeza de que a gente precisa agir em conjunto com o meio ambiente e não como soberano dele.”

No meio do caminho, Gabanyi, que já frequentava horta comunitária e cultivava em casa, entrou para a formação do MudaSP, organização sem fins lucrativos voltada para a agroecologia em espaços urbanos. “Cada pessoa tem, por enquanto, um outro emprego e é voluntário na organização. Atualmente, cerca de quarenta participantes têm alguma ligação com o movimento. Desses, catorze formam o grupo gestor, cuidando do planejamento e da gestão de projetos no dia a dia. Tem arquiteto, biólogo, administrador, gestor ambiental, permacultor e pessoas de marketing, comunicação, jornalismo e design. Não temos gastos, não há despesa fixa.” 

Por onde começar e o que fazer
Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress. Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress. – As hortas comunitárias são um ponto de partida para projetos de agricultura urbana e relacionamentos mais saudáveis com os espaços públicos. Além disso, cada profissional pode direcionar as atividades, em sua própria área de atuação, nesse sentido. Ao erguer um prédio, o arquiteto e o engenheiro vão pensar em um pomar vertical, no uso da ventilação cruzada para promover mais conforto térmico e usar menos o ar condicionado, na luz natural e nos telhados. “A quantidade de telhado que temos em São Paulo para fazer hortas é enorme. São metros e metros quadrados de área que podem ser plantados. Os próprios urbanistas, as pessoas que fazem o planejamento da cidade têm que começar a levar isso cada vez mais em questão, aumentar o número de áreas verdes, porque cidades mais sadias têm população mais saudável. A indústria têm de entender seus impactos ambientais e a própria população têm de incorporar os conceitos de sustentabilidade”, diz Gabanyi. 

Educar para a sustentabilidade

– Levar hortas e educação ambiental para as escolas é outro gesto fundamental para promover a agricultura urbana. E surge como área de atuação importante. A dificuldade é conseguir apoio para essas ações. “O paulistano está muito desconexo não só dos ciclos da natureza, mas da questão do alimento. Como é o plantio, o preparo, de onde vem, para onde vai, qual é o impacto disso. Ele chega, come, joga fora e vai embora”, avalia Gabanyi. 

“Hoje em dia, ainda se fala em profissional da área de sustentabilidade como uma função específica. O certo seria que todos os profissionais de todas as áreas tivessem conhecimento de sustentabilidade. A primeira área da empresa que sofre cortes é essa. Não é prioridade, sobretudo na crise. Enquanto todas as profissões não incorporarem essa questão de sustentabilidade, a necessidade de levar em conta o meio ambiente e seus processos naturais e o lado social, estamos fadados ao caos. A mudança acontece quando a sustentabilidade estiver incorporada em tudo.”

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Viviane Zandonadi especial para o blog Educação em O Estado de S.Paulo.