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No dia 5 de maio de 2011 o New York Times anunciava, sob a manchete “The Tupperware Party Moves to Social Media”, a decisão da tradicional marca de vasilhames de explorar as novas redes sociais como estratégia de marketing e vendas.

O anúncio provavelmente teria passado despercebido, mas o fato de trazer, no mesmo enunciado, dois universos de convivência tão desconectados no tempo e no espaço me pareceu irônico e, por isso mesmo, merecedor de uma reflexão. Uma reflexão em torno das relações de proximidade estabelecidas nessas novas redes sociais juntamente com um produto ou marca que, a seu tempo, se tornou símbolo de um modelo de vizinhança paradigmático que teria uma grande influência na conformação ainda pouco amadurecida das cidades brasileiras: o subúrbio norte-americano.

Em 1947, Earl Silas Tupper, inventor e químico da DuPont, desenvolveu um sistema de vedação à prova de ar e água, derramamento e deterioração, que seria usado para o armazenamento de comida. A sua invenção, batizada de “Tupper Seal”, passou a ser aplicada a uma linha de vasilhames de polietileno produzida pela empresa nos anos anteriores. Os Tupperware, assim batizados, logo viriam a se tornar um símbolo do american way of life dos anos 50.

O lançamento desse produto no mercado coincidiu com um cenário pós-guerra, pré-feminista e de afirmação dos subúrbios como um modelo de vizinhança, aprovado por grande parte da população norte-americana, que abandonou os centros urbanos em troca da promessa de um ambiente adequado ao cotidiano da família, livre da indesejada convivência com grupos ou indivíduos que não se encaixavam no perfil de normalidade estabelecido pela sociedade.

Earl S. Tupper e Brownie Wise na fábrica da Tupperware em Farnumsville, EUA, em 1951. Cortesia: Tupperware.Earl S. Tupper e Brownie Wise na fábrica da Tupperware em Farnumsville, EUA, em 1951. Cortesia: Tupperware.Os pioneiros Tupperware tiveram uma curta temporada de vendas nos grandes magazines norte-americanos antes de serem retirados do mercado para poderem ser adquiridos apenas em encontros organizados entre as donas de casa de uma mesma comunidade: as Tupperware Parties.

Brownie Wise, uma mãe divorciada vinda do interior e com um estilo de vida um pouco distante do ideal feminino da mulher norte-americana dos anos 50, foi a responsável pela criação da estratégia de marketing da marca, que alcançaria cifras de centenas de milhões de dólares por ano.

Tudo começou com um telefonema à fábrica, no qual a senhora Wise – que costumava vender eletrodomésticos, panelas e vassouras em casa –, irritada com o atraso na entrega de suas encomendas, insistiu em conversar pessoalmente com o Sr. Tupper, presidente da marca. Ao perceber que a insolente reclamante era uma revendedora autônoma que, sozinha, tinha alcançado vendas maiores do que qualquer um dos grandes magazines, o senhor Tupper decidiu contratá-la para uma transformação no modelo de comercialização dos seus produtos. Ms. Wise iniciou então o seu projeto de recrutamento de colaboradoras. A oportunidade de se ter renda própria, trabalhando em casa e com um horário flexível que não prejudicasse as funções de mãe e esposa foi suficientemente atrativa para conquistar adeptas de todo país. 

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Em pouco tempo, Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança, distinta do competitivo e agressivo marketing associado ao tradicional modelo masculino de negócios.

Logo, as Tupperware Parties tomam conta dos subúrbios. Nas animadas tardes só para mulheres, entre receitas, drinks e dicas de como armazenar melhor o jantar do marido, muitas encontraram uma boa remuneração, fato que configurou, segundo estudiosos, o princípio de uma autonomia feminina no mercado de trabalho. 

Alguns anos mais tarde, esse mesmo projeto não ofereceu entusiasmo ao movimento feminista, então latente. Muitas mulheres entenderam que tal modelo de trabalho reforçava estereótipos femininos suburbanos, por representar uma espécie de desvio do propósito que buscava igualar as condições e oportunidades do trabalho feminino às dos homens. Além disso, as feministas argumentaram que a exploração econômica das redes de vizinhança e família era extremamente destrutiva, uma vez que se sustentam pela comercialização das relações afetivas.

As Tupperware Parties tornaram-se bastante populares no mundo todo, assim como o modelo de expansão dos subúrbios, ambiente que parece ter sido perfeito para a organização dessas festas. Em 1963, a empresa chegou à Europa, Japão e Austrália. No Brasil, as primeiras Tupperware Parties datam dos anos 70, época em que também apareceram por aqui os primeiros condomínios horizontais fechados. O AlphaVille Residencial, ícone pioneiro dessa tipologia, foi lançado em 1975.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família e por um déficit habitacional que, a princípio, foi associado às novas famílias formadas pelos jovens veteranos da guerra. A partir de então, a população norte-americana testemunhou uma mudança significativa no conceito de moradia e vizinhança. A crescente demanda por moradia, juntamente com as políticas públicas de incentivo ao mercado imobiliário suburbano, aceleraram a indústria da pré-fabricação e impulsionaram a rápida expansão e afirmação dos subúrbios. A produção em série de subúrbios como Levittown e Park Forest redefiniram os antigos modelos de espaço público com a nova estética da pré-fabricação e da propriedade privada inserida num espaço coletivo contínuo. Em Lewittown, as taxas de produção alcançaram 30 casas por dia em julho de 1948.

Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança. Foto: Hulton Archive / Getty Images.Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança. Foto: Hulton Archive / Getty Images.

Como um modelo de moradia e convivência sem precedentes na história das cidades, o empreendimento suburbano encontrou suporte numa ideologia política e estéticaBrownie Wise em folder de campanha. Imagem: Reprodução.Brownie Wise em folder de campanha. Imagem: Reprodução. associada a conceitos de eficiência e assepsia, não somente no planejamento espacial, como também no plano social.

Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Grupos sociais fora desse perfil não encontrariam as mesmas facilidades ou qualquer tipo de identificação. Os modelos das casas propostos pelo Federal Housing Administration apresentavam uma tipologia única e segregadora, de arquitetura exclusivamente voltada para as famílias nucleares, razão pela qual eram excluídos grupos sociais como os solteiros, casais sem filhos e idosos. Já os mecanismos de controle étnico dos subúrbios eram menos discretos.  Em Levittown, uma cláusula contratual restritiva estipulava que as casas somente poderiam ser vendidas ou alugadas para “membros da raça caucasiana”.

Entre os equipamentos que compunham o convidativo conjunto dos subúrbios estavam as novas escolas públicas aclamadas nacionalmente, a facilidade de conexão com a cidade por um eficiente sistema de trens e railways, os modernos centros comerciais, os playgrounds, igrejas e sinagogas, dispostas sobre os intermináveis jardins coletivos.

Somados à sedução dos baixos impostos, esses fatores configuravam um cenário atrativo o suficiente para justificar a adesão de milhões de famílias norte-americanas nos anos 1950. No entanto, por trás dessa aparente liberdade de escolha, os baixos juros cobrados no financiamento das casas suburbanas e as hipotecas garantidas pelo governo atestavam que o sucesso da empreitada era patrocinado por um projeto político que almejava a liberação das cidades para a implementação dos projetos federais de renovação urbana.

No Brasil, o modelo de expansão periférica das cidades que mais se aproxima dos subúrbios norte-americanos são os já citados condomínios horizontais fechados. Mas, nesse contexto de transposição, há que se considerar o frágil equilíbrio das nossas cidades, assoladas por um conflito social muito mais dramático do que o das cidades norte-americanas.

O conflito vivenciado no Brasil faz com que as palavras violência e segurança funcionem como passe de mágica na construção das arquiteturas mais contraditórias de que se tem notícia. Em essência, os nossos condomínios fechados, “enclaves fortificados”, definem relações de vizinhança bastante diversas do seu modelo de inspiração. Os moradores dos subúrbios norte-americanos compartilham um sentimento coletivo de pertencimento a um grupo social coeso e aparentemente bem integrado, sentimento este que justifica críticas: a aparente monotonia dos padrões e comportamentos dos seus integrantes.

No caso brasileiro, a migração das classes média e alta para os condomínios fechados, em porcentagens muito inferiores, foi motivada principalmente pela busca da segurança prometida pelos muros fortificados. Muitos desses condomínios trazem também a proposta de um isolamento campestre, que garante, no seu projeto de urbanização paisagística, o equivalente aos metros quadrados de jardim coletivo suburbano sob a forma de coeficiente em área de preservação da vegetação nativa.

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Mas a lógica do isolamento fortificado não se limitou apenas aos condomínios periféricos. Podemos verificar, com lamentável frequência, o mesmo princípio de segregação aplicado aos edifícios particulares que inevitavelmente colaboram com a conformação do espaço público das nossas cidades. Dessa maneira, estabelecem-se os princípios de convivência contraditórios que caracterizam as cidades brasileiras e que têm como principal consequência a deterioração qualitativa do espaço das cidades como local de convivência e trocas.

E é nessa esfera das convivências e trocas que o deslocamento das Tupperware Parties para as redes sociais inspira uma reflexão sobre o novo ambiente de vizinhança surgido quase meio século depois da exportação endêmica do modelo suburbano. As redes de convivência no facebook se consolidam sob o argumento promissor de uma cartografia que eliminaria as limitações espaciais e reconfiguraria o território virtual segundo critérios democráticos de afinidades que poderiam ser confortavelmente operados pelo usuário, construtor do seu espaço público. Trata-se, obviamente, de uma categoria bastante particular de espaço público, cuja grande conquista parece ter sido a exclusão do corpo físico e de todas as limitações a ele associadas. Essa exclusão permite estabelecer os novos parâmetros de proximidade e vizinhança.

Diante da metáfora do espaço público aplicada ao espaço virtual seria possível dizer, também metaforicamente, que aos usuários das redes sociais cabe o papel de articuladores de seu próprio espaço público. As ferramentas disponibilizadas pelo sistema permitem selecionar o perfil dos frequentadores do seu círculo de amizades, bem como erradicar da sua porção particular de espaço público qualquer manifestação que não esteja de acordo com os padrões estabelecidos pelo administrador. Esse movimento constante de construção e manutenção do espaço de convivência em seu estado ideal reproduz, ainda que remotamente, as ações dos urbanistas ortodoxos dos subúrbios e dos enclaves condominiais em seu esforço de ordenação asséptica do território.

Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Foto: Getty Images. Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Foto: Getty Images.

Nem os subúrbios e condomínios, nem as inovadoras redes sociais se aproximam do que há de mais instigante no modelo de vizinhança aparentemente caótico das cidades reais: o privilégio do encontro com o outro. Um outro que é em essência diferente de mim, e que me confronta regularmente com uma demanda de reposicionamento, adaptação e afirmação diante do coletivo. Nos dias de hoje, com todos os avanços das telecomunicações, que permitem modos de vida, trabalho e relacionamento desvinculados da condição de proximidade física, viver na cidade deveria ser uma escolha. E, como em toda escolha, há que se entender o que está em jogo antes de realizá-la. Viver na cidade significa conviver com o outro, com a diversidade – e é sob esse paradigma que seus habitantes deveriam optar ou não pelo modelo de moradia e vizinhança urbana.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família. Foto: ZLB Houses / 1950.Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família. Foto: ZLB Houses / 1950.

Condomínios e facebook em coexistência com a metrópole contemporânea poderiam configurar alternativas de vizinhanças diversas, possíveis escapes para a intensidade da convivência urbana, e não o contrário. Não se pode esperar da metrópole a garantia Tupperware de vedação contra vizinhos incovenientes, e nem o acondicionamento perfeito dos seus habitantes em recipientes separados e rotulados numa logística de reconhecimento e identificação que vai um bocado além da cartela de cores disponibilizada à clientela das Tupperware Parties.

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Por Ana Paula Assis. *Artigo publicado originalmente na Piseagrama, a única publicação sobre espaços públicos — “existente, urgentes, imaginários” — no Brasil.  

Nasci no bairro da Mooca. Isto foi no ano de 1951 quando a cidade de São Paulo tinha linhas de bonde que percorriam bairros e mais bairros com mais de 400 km de trilhos. Ainda nem se sonhava com um Parque como o Ibirapuera. Um dia chegou notícia! Vamos andar de papa-fila. Que sucesso!

No Parque Dom Pedro II um lugar para as diversões, estava instalado o Parque Shangai com a roda gigante a girar. Tivemos uma infância nos quintais com terra, sem nada de centros de compra ou lanchonetes rápidas. Ouvíamos canções de muitos países no rádio, do Japão, do Paraguai, da Alemanha, da Itália e também de Pernambuco, Ceará ou Rio Grande do Sul. A pastelaria era uma grande novidade assim como novos objetos incríveis. Lembro daquele copinho de beber água feito de plástico com várias camadas que abriam e fechavam. E ainda se apresentava em várias cores!

O Parque Shangai em 1958. Acervo: São Paulo Antiga.O Parque Shangai em 1958. Acervo: São Paulo Antiga.

Tomei banho entre as pedras naquela água geladinha que foi toda canalizada e hoje se conhece por um lugar chamado Vila Nova Cachoeirinha. Aguardei tantas vezes o trânsito feroz da Avenida Celso Garcia para visitar parentes que moravam na zona leste. Lembro do famoso ônibus Penha-Lapa. O ônibus para o Jardim Pedreira onde morava minha mãe, saia do Vale do Anhangabaú. Lá já estava ficando difícil de atravessar, com trânsito intenso. Na Rua Augusta fui estudar, usava o ônibus elétrico com seu andar silencioso. Era o Ginásio de Aplicação da PUC que foi demolido no atual terreno do pretendente “Parque Augusta”.

Consegui dois empregos e morando na zona sul, mais tarde veio matrícula no curso de magistério na Lapa e a lentidão do trânsito nos anos 1970 porque uma obra viária crescia em nossas cabeças escurecendo a alegre Avenida São João, nosso Champs Elysee. Era em formato de minhoca.

Para as férias uma gostosa viagem com malas se arrastando pela Rodoviária colorida em frente à Estação de trens Sorocabana.

Antiga Rodoviária da Luz, posteriormente convertida em shopping popular, hoje demolida, centro de São Paulo. Foto: Tuca Vieira.Antiga Rodoviária da Luz, posteriormente convertida em shopping popular, hoje demolida, centro de São Paulo. Foto: Tuca Vieira.

Assim muito jovem descobri que a melhor fórmula de ganhar tempo seria trabalhar, estudar e morar no Centro, tudo perto. Ir caminhando com pequenos atrasos apenas se o elevador demorava.

Para a boemia de violões nas madrugadas tínhamos transportes pela noite toda! Em 1979 vem o bebê e morando na Alameda Barão de Limeira quantas vezes o carrinho aguardava manobras para tirar os carros da calçada. Esperava até o proprietário do veículo aparecer e muitas pessoas comentando “tira o carro, a mulher quer passar com o carrinho de bebê!”. Isto acontecia sempre e nas décadas seguintes pouco mudou, ou melhor, acentuou.

O menino cresceu e disse “mãe porque você não volta a estudar”. E voltei, fui para a faculdade e nossos colegas se misturavam nos trabalhos, os dele quando entrou no cursinho e os meus. Era o final dos anos 90 e o turismo me impregnou com suas vertentes. Estudei mais e me tornei guia da cidade. E o caminhar se fez freqüente. Agora com análises e embasamentos históricos. A geografia permeando o olhar para conduzir outros sonhos e descobrir mais e mais. Pesquisei sempre e tentei desvendar as palavras que dizem muito sobre o lugar, são as origens indígenas do chão paulistano “terra dura” Butantã, “caminho de tatus” Tatuapé, riacho vermelho” Ipiranga, “gafanhoto verde” Tucuruvi, “fazer casas” Mooca, “esconderijo de fujões” Jabaquara , “madeira em extinção” Ibirapuera.

Ônibus elétrico na Rua Augusta. Acervo: São Paulo Antiga.Ônibus elétrico na Rua Augusta. Acervo: São Paulo Antiga.

Recordo então as origens, e as mudanças com inúmeros carros por todos os lados, a construção do Metrô, trens e ônibus mais confortáveis e quase sempre lotados.

Os quintais foram sendo cimentados, os copos de papelão viraram de plástico. Quanto plástico! O bonde se foi e nenhum ficou para lembrança como tem Lisboa ou em Santos. Quem sabe salvamos o ônibus elétrico e todos me perguntam “onde está aquele lindo veículo que circula somente no aniversário da cidade?” Não sei responder.

O Anhangabaú virou jardim. O ônibus elétrico da Rua Augusta acabou. A cidade pulou em meio século de 2 para 11 milhões de habitantes. E carros, quantos desde que em 1902 foi chegando o primeiro.

A Rodoviária mudou de lugar e ficou bem grande. E ficou difícil atravessar as ruas e avenidas repletas de veículos. “Teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel”...” Iracema cuidado ao atravessar essa rua, eu falava mas você não escutava não, Iracema você atravessou contramão” .”Olá como vai, eu vou indo e você tudo bem, o sinal vai abrir, vai abrir”, são versos que cantaram Adoniram e Paulinho da Viola. Cada vez mais fica complexo andar pelo nosso lugar que é a calçada. Quando chegamos à maturidade ficamos com receio de atravessar ruas, com medo de motociclistas, andamos mais lentos e com cuidado. Será que vamos ter que ocupar as ruas e deixar que o automóvel durma nas calçadas em berço esplêndido? Temos ainda muito que fazer.

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Vera Lúcia Dias é turismóloga com pós graduação em Globalização e Cultura. Texto originalmente publicado no Jornal GGN.

Na Aclimação era conhecida como vendinha do seu Elias.

Era na Rua Pires da Motta, bem esquina da Conselheiro Furtado, quase em frente ao saudoso Oswaldo Barberis, cirurgião-dentista e palmeirense.

Logo na entrada, sacas de arroz, feijão e batata. Em cada nicho você descobria o óleo, azeite, pimentas, résteas de cebolas, alho. Mas também prateleiras com bebidas baratas, uisquis paraguaios, vinhos em garrafão, conhaque Palhinha, o vinho Precioso, seco e suave. O Fogo Paulista, cigarros, todos...

Agora o que marcou na memória foi o balcão de madeira com vitrine que exibia doces enfileirados por categoria, em harmonia geométrica e de cores.

Eu não sei mas também nunca perguntei onde seu Elias ia buscar aquelas cocadas pretas e brancas no formato de losango, crespas rendadas, carregadas de açúcar, de derreter na boca, adoçadas tanto mas sem perder o sabor do coco que poderia ser encontrado em pedacinhos.

Um olhar cobiçoso também para a maria-mole branca ou com tom de canela uma mistura do coco ralado, do leite condensado e a indispensável gelatina branca que dá o toque de malemolência, de estremelicação, esponjosa e flexível...

Imagem: Doces Bela Vista.Imagem: Doces Bela Vista.O pirulito de açúcar queimado redondo na base afinando na ponta como uma pirâmide era um mistério na sua simplicidade e pobreza, apesar de vestido e enrolado num papel grudento que pedia uma lambida final que era travo de mel..

Do pirulito de chocolate em forma de guarda-chuva nem é bom falar. O coco também era a matéria prima para obras de arte como quindins reluzentes de tão dourados. E não há como menosprezar o doce de abóbora, jeito de cobre, aparência de falsa humildade, porque na boca expandia seu caráter verdadeiro de crosta firme e puro purê de abóbora no recheio.

Não esqueço o pão de mel, mais mel do que pão, lustroso na superfície achocolatada, crocante de esfarelar na boca e meu prêmio quando corria até o seu Elias para comprar Lincoln, os cigarros preferidos de minha tia Maria José.

Imagem: Doceira Dulca.Imagem: Doceira Dulca.
Finalmente a bomba de chocolate que, à certa distância parecia um tanto murcha, vazia e tristonha mas que à primeira mordida explodia como bomba que era, o cacau escorrendo pelos cantos da boca, pelo céu da boca, pelo queixo, pela criança.

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Nelson Porto é redator publicitário com passagens pelas principais agências de propaganda do país.

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) está completando 70 anos. Entre as diversas contribuições à produção de conhecimento no campo da arquitetura, urbanismo e design feitas ao longo de sua história, uma se destaca particularmente ao associar uma escola, no sentido prático de um estabelecimento de ensino, a uma “escola”, uma corrente de pensamento dentro da arquitetura. Trata-se da chamada Escola Paulista de Arquitetura Moderna, grupo de arquitetos e pensadores sobre arquitetura brasileira que constituiu, desde os anos 1950,  um movimento no interior do modernismo.

O próprio prédio da FAU, projetado por Villanova Artigas, no Campus Butantã da USP, é uma das principais expressões e inspirações dessa escola. Mas, talvez uma de suas características mais relevantes seja sua enorme capacidade de renovação e reinvenção no presente. Não se trata, portanto, de um movimento “do passado”, do extinto século XX com suas promessas de modernidade, mas um léxico – e também, eu diria, uma ética, que se reatualiza diante dos desafios do presente.

Dois projetos que acabam de ser inaugurados em São Paulo falam muito sobre o conjunto de valores que caracterizam essa escola. O SESC 24 de Maio, no Centro,  de autoria do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, uma das maiores referências da Escola Paulista, em parceria com o escritório MMBB; e o Instituto Moreira Salles (IMS), na Avenida Paulista, de autoria do escritório Andrade Morettin. Separados por uma década, tanto o MMBB quanto o Andrade Morettin foram formados nos anos 90 por ex-alunos da FAU.

Os dois projetos revelam explicitamente seus processos construtivos: os insumos usados nas obras aparecem o tempo todo; sem forros ou revestimentos a estética que se revela é aquela dos materiais em sua forma bruta, na beleza de suas funções construtivas. Há quem diga que esta característica tem muito a ver com a própria origem da FAU, que surgiu em contraposição a escola de arquitetura do Rio de Janeiro, constituída a partir das Belas Artes. Em São Paulo foi a engenharia, e mais especificamente a Politécnica da USP, que originou a nova faculdade.

Para além de outros elementos construtivos e de linguagem, que certamente colegas arquitetos e críticos de arquitetura muito mais especializados no tema do que eu já apontaram, quero chamar a atenção aqui para outro elemento central da Escola Paulista: a relação da arquitetura com o urbanismo ou do edifício com o lote e a cidade.

Nos dois edifícios as opções de projeto fazem com que a cidade continue para dentro dos prédios, recepcionada em grande estilo e convidada a percorrer os andares superiores. No SESC, o térreo é  para se constituir numa espécie de praça, que pode ser acessada a partir de mais de uma rua. Nos dois casos deste térreo-que-continua-a-cidade, o visitante é conduzido, por rampas no SESC e por escadas rolantes no IMS, até o último dos andares dos edifícios.

Em tempos de privatizações e cercamentos e de edifícios que se pretendem âncoras para operações imobiliárias, a reafirmação dos valores da Escola Paulistana nesses novos centros culturais da cidade é um respiro e um alento.

Resta para as gerações que são hoje os estudantes e arquitetos inspirados pelos valores da escola a disseminação desta posição para além de centros culturais e museus, para os usos corriqueiros da vida cotidiana.

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Raquel Rolnik, urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Artigo publicado originalmente no Blog da Raquel Rolnik em 17 de outubro de 2017. 

Nas prateleiras de dezenas de bibliotecas, livrarias e casas brasileiras existe uma senhora chamada Dona Sofia. Trata-se de uma professora aposentada, que mora no alto de uma entre tantas colinas de uma bucólica região. Os moradores dos arredores não sabem, mas a casa de Dona Sofia é diferente das outras: tem poesias escritas pelas paredes de todos os cômodos! Certo dia, ela se dá conta de que não há mais espaço para escrever e, então, decide criar cartões poéticos para distribuir seus poemas preferidos aos moradores da cidade. Esta é uma já clássica história do autor pernambucano André Neves, narrada no livro A Caligrafia de Dona Sofia, que teve a primeira edição em 1992 e está desde 2007 com a Editora Paulinas.

Ilustração: André Neves.Ilustração: André Neves.É inspirada em uma professora de pintura que ele teve em Recife, a renomada artista plástica Badida, com quem também aprendeu a amar ainda mais poesia. Era, então, simplesmente uma memória que ele quis colocar em livro. Mas uma memória do que, na educação, chama-se “mediação de leitura”, uma prática que pode acontecer de várias maneiras com o intuito de promover o encontro entre livro, leitura e leitor. Não à toa, Dona Sofia vem se tornando um símbolo da “mediadora ideal”, mesmo que a primeira intenção de André não tenha sido esta, por se tratar de uma mulher que tem muito repertório de leitura e quer compartilhar o que ama ler.

Esta poderia ser, no entanto, a premissa do papel do mediador de leitura: gostar de ler e gostar de contagiar o outro com a sua paixão por determinado livro. Mas... como? Primeiro, talvez, entendendo que não há receitas prontas. Desde que nasce, cada pessoa irá descobrir seu caminho leitor. E ambientes e objetivos diferentes pedem atitudes diferentes.

“O professor que tem o objetivo de mediar, de apresentar uma leitura como projeto pedagógico naquele lugar, tem um plano, é uma tarefa educativa, mesmo que seja a de formação literária, formar repertório, observar linguagens. Então é dever do professor preparar esta leitura, ver que recursos são necessários, possibilidades para provocar o diálogo a partir daquele livro”, diz Maria José Nóbrega, assessora pedagógica de projetos sobre leitura em diversas escolas de São Paulo. “Já em situação familiar, o pai ou a mãe, enfim, o adulto não tem que preparar algo como se tivesse um fim pedagógico. Esta mediação tem que ir mais livre, com a possibilidade até de se surpreender com a leitura junto com a criança. Quanto mais espontânea e intuitiva, mais bacana é o encontro”, continua.

Mesmo em um espaço profissional de leitura, como uma biblioteca pública, por exemplo, a mediação pode acontecer de forma muito diversa. Assim como as vitrines e os espaços atrativos (ou não) das livrarias, os espaços físicos das bibliotecas já são mediação. Só que os profissionais dos equipamentos públicos podem encontrar missões, digamos, mais complexas.

Nas bibliotecas dos CEUs em São Paulo, há ainda uma grande parte da população que não se sente legitimada a entrar, principalmente um público jovem e adulto que nunca teve acesso ao livro. “É primeiro um trabalho de convencer aquele leitor tardio de que ele pode, sim, gostar de ler. Tirar o livro deste altar inatingível, que a sociedade instituiu, e trazê-lo como um objeto cotidiano, como água, de direito e de todos”, afirma Carlos Otelac, bibliotecário e contador de histórias do CEU São Mateus. Uma das primeiras ações que eles fazem diante de um usuário novo é uma espécie de entrevista.

“Quando entra uma pessoa que não sabe o que quer, fazemos quase uma ‘psicologia literária’(risos). Vamos tentando entender os interesses dela, seus gostos por determinados assuntos. Às vezes você encontra um autor e começa a seguir tudo dele, ou ele leva a outro, e vai criando repertório, pode se atrair pode determinada linguagem ou gênero. Isso é algo que acontece a todos nós”, completa Carlos. Nestas situações, segundo ele, há muitos mitos que ficam em evidência, como o fato de que ler é algo natural quando, na verdade, requer esforço.

“Para se ter uma ideia, tem gente que não sabe nem que há livros que podem nos fazer rir. Penso que o começo é o ponto sensível de tudo e podemos descobrir que a pessoa ou a criança já tem uma memória ruim de leitura e, assim, rever com ela estes passos e, quem sabe, que descubra que todos podem ler de alguma forma.”

Obstáculos

Todas estas dificuldades independem da classe social. A falta de acesso à leitura toca em outras fragilidades nossas, como a falta de escuta. Colocar-se no lugar do outro é uma das premissas de quem pretende promover o encontro do livro com o leitor. A outra é sua própria bagagem leitora. Seja nas escolas, bibliotecas ou outras instituições – quem é o mediador tem, no entanto, um peso maior do que qualquer tipo de prática de sucesso de algum lugar.

“A mediação mais forte - independente das variáveis ambiente, cultura, número de pessoas envolvidas etc - é o quão leitor é esse mediador, o quanto ele leu. Numa sociedade em que vivemos a ausência do tempo, a leitura muitas vezes fica ameaçada. O mediador pode conhecer técnicas, estratégias, mas o fundamental é ler. Simples assim”, diz o educador e pesquisador Giuliano Tierno, criador do curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias na Contemporaneidade e um dos idealizadores d’ A Casa Tombada – Lugar de Arte, Cultura e Educação, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

Ilustração: Bruna de Assis Brasil.Ilustração: Bruna de Assis Brasil.“Com a prática de dessacralização do livro, de transformá-lo em algo comum, que se pode pegar, montar castelo, pular página, tem de vir a figura de alguém que tem experiência leitora acumulada e que, na hora que está conversando com leitor, traz elementos. Sou de um tempo em que ia à vídeolocadora e escolhia um filme porque o atendente havia contado a história. A gente alugava pela narrativa.”

A mediação em si tem, então, diversos caminhos a percorrer até que ela aconteça. A narração oral ou “contação de histórias” é das mais usadas. Mas todos os envolvidos têm um dilema: se e narração de histórias oralmente é uma prática artística, seria justo o educador ou bibliotecário se sentir obrigado a fazer? E, pelo mesmo motivo, seria dever do contador de histórias a função pedagógica de mediar o livro? Para Giuliano, que pesquisa o papel do narrador em contextos urbanos, há que se diferenciar as intenções das práticas e acolhê-las todas.

“Oralidade e literatura são coisas muito diferentes. Para justificar a oralidade, se criou esse vínculo. De alguma forma, os contadores de história encontraram aí uma possibilidade de trabalho. Tem contadores que fazem efetivamente o trabalho com o livro, com a narração literária. E há contadores que são os que não estão interessados no livro, que querem contar a história. Mas as políticas públicas sempre valorizaram mais a literatura, o livro, e muitas vezes o interesse do contador não é o fim (o livro), mas sim o meio (a narração). E não me vejo sozinho nisso. Eu particularmente me inspiro em muitos livros, mas o livro não é meu fim. Estudo os livros para poder contar as histórias. Acho que contador de história não é mediador de leitura, ele pode contribuir para que o ouvinte vá atrás do livro, mas às vezes ele é apenas um contador de história. E os dois são muito importantes”, afirma.

A contação de histórias também é prática de Carlos Otelac, no CEU São Mateus. Como trabalha com público de todas as idades, a narração é assistida pelos bem pequenos, crianças da escola do ensino fundamental da unidade, bem como os projetos que envolvem alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos).

“Para mim é maravilhoso, boas histórias podem ser contadas para qualquer público. E agora temos mais os projetos com saraus também, que tem o fazer textual, as pessoas desenvolver seu jeito de se expressarem.” Para Carlos, todas estas atividades têm características próprias, valores em separado e até objetivos distintos. “Muitas vezes, acaba sendo também uma mediação da comunidade com o espaco cultural público! Como lugar de exibir seus talentos, como fórum para passar suas mensagens, como um lugar em que todos têm algo a compartilhar em várias artes, com várias linguagens”.

Mostra literária

Ilustração: Daniel Kondo.Ilustração: Daniel Kondo.O autor da história da Dona Sofia, que abre esta reportagem, há cinco anos fez sua primeira “exposição literária”, como ele denomina. Foi com o livro Tom (Ed. Projeto), em que narra de forma poética e emocionante a relação de um menino autista com o mundo. Com Nuno e as Coisas Incríveis (Ed. Jujuba), do ano passado, também surgiu a ideia de se tornar uma mostra visual. Ela nasceu em uma livraria, a NoveSete, especializada em publicações de literatura infantojuvenil, e agora percorre espaços escolares.

A experiente professora de leitura Sílvia Casatle, assim que viu a mostra na livraria foi conversar com a editora sobre a possibilidade de levá-la ao Colégio Santa Cruz, onde está há 15 anos e onde hoje trabalha com crianças de segundo e terceiro do ensino fundamental. Impactada com a obra em si – a história de um menino que se comunica apenas por desenhos e é desprezado por uma menina que “transforma palavras em arte” – ela entendeu que levar o projeto para dentro da escola poderia ser uma maneira diferente de oferecer o encontro deste livro com as crianças.

“Com a chegada destes tipos de livros ilustrados ao nosso mercado, me questionei ainda mais por formas de ler, venho estudando muito”, diz Sílvia que notou, então, que a mediação precisava dar um outro passo: para ler estes livros em que texto e imagens dialogam de uma maneira especial, era necessária outra sensibilização. Durante semanas, fez um trabalho que foi se dando em etapas: primeiro com vários livros ilustrados. Depois, uma degustação do próprio Nuno de várias maneiras diferentes: leu o somente o texto, depois uma vez eles liam só as imagens, depois a leitura dela em voz alta do texto com as imagens que eles já liam, depois foram estimulados a identificar os detalhes do projeto gráfico e, assim, foram se aproximando da complexidade do tema, do direito de cada um ser como quiser ser. As interpretações e até os incômodos apareciam.

“Nessa situação de mediação, ficamos dosando até onde damos a resposta a alguma pergunta, até onde a gente vai esperar para que alguém do grupo traga as questões, para dar liberdade de eles pensarem outras hipóteses. E eu dizia: algumas perguntas podemos guardar para perguntar para o André”, conta. E foi aí que ela notou que o trabalho foi aproximando as crianças não só do texto e da imagem, mas também do autor. “Foram se sentindo cada vez mais à vontade de se colocar na roda de conversa e eu fui notando quanto de repertório cada um já tinha, como elaboravam determinadas questões que o livro provocava”. Eles levaram o livro para a casa, mostraram para a família e quando a exposição foi para a escola, as mesmas crianças levaram os pais e foram mediadoras de tudo: do livro e da mostra. “Ficaram íntimos do livro e da história. Cheguei a ouvir de um pai que a cada leitura que faziam em casa, algo novo aparecia. Uma coisa se ligou à outra.”

Não é raro ouvir André dizer que mais do que ilustrador ou escritor ele é um promotor de leitura. É comum também que ele em encontros com crianças cite outros autores ou até leia com eles diversos tipos de livros, fale sobre suas preferências, aponte caminhos. As exposições, no fim, são uma outra forma de fazer o que ele mais gosta: ler com o outro, a partir do momento que exibe a sua maneira de criar um livro e como aquele livro não termina nunca.

“É como quando você reler um livro e encontrar outras coisas que não tinha percebido. Não termina. Eu sempre penso o livro como um todo e no pensamento do livro ilustrado eu penso na leitura também de uma forma geral: não quero que as pessoas leiam melhor meu livro ilustrado para ler outros meus ou outros livros ilustradros apenas. Quero que as pessoas se desenvolvam e leiam romances, contos, que sejam adultos leitores de vários tipos de livros.”

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Por Bia Reis e Cristiane Rogerio no Especial Edu. em O Estado de S.Paulo.