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Durante mais de quinhentos anos, a legislação urbanística no Brasil baseou-se nos Códigos de Posturas de origem colonial. Somente a partir de 1920, surgiram códigos de obras leis de zoneamento urbano, explica o arquiteto e urbanista Luiz de Pinedo Quinto Júnior. A lógica da reforma urbanística e sua relação com a legislação do início do século XX foram decorrentes da criação, pelo Estado, de leis específicas para cada projeto de reforma e saneamento das cidades portuárias. O mesmo valeu para a concessão para os serviços públicos de transporte, energia e saneamento. No século XIX, autorizações específicas para obras foram dadas à empresas privadas: Guinle e Gaffré, por exemplo obtiveram, por 90 anos, a concessão da Companhia Docas de Santos para administrar operações nos portos e cuidar de melhorias urbanísticas no seu entorno. Porém, as iniciativas reformadoras esbarraram na colcha de retalhos que até então, era a cidade: um emaranhado de ruas onde se misturavam casas de comércio e habitações luxuosas, cortiços ou casas de cômodos.

Porto de Santos, cerca de 1880. Foto: Marc Ferrez / Acervo IMS.Porto de Santos, cerca de 1880. Foto: Marc Ferrez / Acervo IMS.

Alguns meses atrás, manchetes dos noticiários de Londres anunciavam que o popular aplicativo Uber havia perdido sua licença para operar na cidade. A extensa cobertura midiática dada ao fato indicou mais um sinal, se ainda precisamos de mais deles, de que estamos à beira de uma revolução da mobilidade urbana.

Sistemas de navegação, carros e bicicletas compartilhados, aplicativos de planejamento de viagens e outros serviços inovadores que aproveitam os avanços da comunicação móvel, pagamentos sem dinheiro físico e monitoramento remoto estão vendo sua popularidade aumentar no mundo todo. Os usuários prezam – e em muitos lugares passaram a depender – da conveniência e flexibilidade que esses serviços oferecem a uma grande variedade de preços. Ter o mais básico smartphone hoje significa que ir ao trabalho, buscar entretenimento ou ir para o aeroporto às 5h da manhã é tão fácil quando tocar na tela do aparelho.

Diante dessa nova onda de opções de transporte possibilitada pelas tecnologias móveis e de rede, no entanto, muitos governos locais enfrentam dificuldades para se adaptar. Os críticos apontam corretamente que as questões com regulamentações, segurança e congestionamentos estão longe de serem resolvidas. As avaliações multibilionárias ou o potencial massivo de vagas de trabalho possibilitam manchetes empolgantes, mas obscurecem as possibilidades reais da revolução da mobilidade urbana.

Simplificando: a nova mobilidade pode ser empolgante por si mesma, mas é nos pontos em que pode ser combinada às opções de transporte já existentes que seu potencial se torna realmente transformador.

Ilustração: Getty Images.Ilustração: Getty Images.
De fato, existem claras oportunidades para integrar os novos serviços de mobilidade aos já existentes sistemas de transporte urbano tendo em vista serviços mais acessíveis, convenientes e ecologicamente corretos para todos. Mais de 70 cidades já estão formando parcerias com novos serviços privados de mobilidade, em parte para reforçar as ofertas de transporte público, mas também para amenizar as pressões do crescente custo e envelhecimento dos sistemas e o rápido crescimento do número de passageiros.

As cidades e seus habitantes podem se beneficiar dos novos serviços de mobilidade – desde que sejam capazes de entender e evitar os possíveis problemas. Na primeira pesquisa global sobre os novos serviços, liderada pela Coalition for Urban Transitions, as análises mostram como as cidades podem avaliar novas opções de mobilidade e integrá-las em seus sistemas de transporte urbano. São três aplicações específicas que poderiam se beneficiar de tais colaborações.

Aplicativo GoLA.Aplicativo GoLA.Primeiro, a parceria entre os desenvolvedores de aplicativos dinâmicos de planejamento de viagens e de emissão de bilhetes poderiam oferecer aos passageiros uma plataforma totalmente integrada para planejar e pagar pelas viagens. Isso tornaria muito simples para os passageiros acessar o que fosse mais conveniente, atraente ou econômico – tudo através de um dispositivo. O aplicativo chamado GoLA, por exemplo, ajuda os moradores de Los Angeles a compararem o custo, tempo, calorias queimadas e emissões mitigadas para várias opções de transporte que variam de bicicleta a ônibus e carros particulares. Um total de 24 prestadores de serviços de transporte fazem parte do sistema, com alguns já permitindo pagamentos também através do aplicativo.

RideCell, plataforma de gestão de frotas sob demanda.RideCell, plataforma de gestão de frotas sob demanda.Em segundo lugar, a integração de miniônibus elétricos sob demanda operados de forma privada com outras formas de transporte público pode ajudar as cidades a manter ou ampliar a cobertura em áreas desatendidas, reduzindo o custo do serviço. Os miniônibus desempenham um papel importante em muitas cidades de rápido crescimento, e companhias como a RideCell e a TransLoc oferecem plataformas de roteamento que as agências de trânsito podem usar para administrar suas próprias frotas sob demanda. Isso daria às cidades a capacidade de mudar as rotas de acordo com as variações da demanda de passageiros.

Espaço reservado para automóvel compartilhado em Hoboken, Nova Jersey. Foto: NJ.com.Espaço reservado para automóvel compartilhado em Hoboken, Nova Jersey. Foto: NJ.com.Terceiro, subsidiar viagens compartilhadas de e para pontos centrais de transporte em bairros onde os residentes podem ter um bom acesso a opções de transporte, incluindo residentes de baixa renda ou pessoas com deficiência. Vários programas desse tipo já estão funcionando. Uma cidade em Nova Jersey, por exemplo, espera economizar 5 milhões de dólares em 20 anos ao subsidiar viagens compartilhadas em vez de construir mais estacionamentos perto de estações de trem.

Os novos serviços de mobilidade têm o potencial de complementar o transporte público, mas também podem levar a um agravamento dos congestionamentos, mais acidentes de trânsito, mais poluição atmosférica e outros efeitos indesejáveis se não forem gerenciados com cuidado. Mais atenção precisa ser dada para assegurar que os novos serviços de mobilidade atendam às reais necessidades da população. No geral, porém, integrá-los adequadamente aos sistemas de transporte existentes é uma oportunidade que as cidades devem aproveitar. Pode ser que ainda estejamos nos primeiros dias da revolução da nova mobilidade, mas em vez de proibir o futuro devemos ser criativos na forma como o abraçamos.

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Ani Dasgupta é o diretor global do WRI Ross Center, programa do WRI que trabalha para ajudar as cidades a crescerem de forma mais sustentável e a melhorar a qualidade de vida das pessoas em países em desenvolvimento. *Artigo publicado originalmente em inglês no TechCrunch.

Nos vitrais, a pintura complementa o colorido dos vidros, serve para a criação de sombras e tonalidades, para o aprimoramento das formas, para a modulação da luz. A arte do vitral desenvolveu-se enormemente durante o período medieval, momento em que, com a afirmação do gótico como expressão da arquitetura, as composições de vidros coloridos passaram a vedar grandes superfícies das igrejas e, além das funções decorativas, ganharam funções pedagógicas, ensinando aos fiéis, por meio de imagens, a vida de Cristo, dos Santos e passagens da Bíblia.
 
Entre os séculos XIV e XVI, os vitrais passaram a ser utilizados como formas de iluminação dos ambientes e a pintura dos vidros adotou a perspectiva, o que tornava os vitrais semelhantes aos quadros. Sua utilização ampliou-se dos espaços públicos, em especial das igrejas, para os ambientes privados, como palácios e sedes de corporações. As representações neles contidas se estenderam, então, para a heráldica, para as epopeias, para as caçadas e para a mitologia. No Estado de São Paulo, a utilização de vidros coloridos e pintados, montados em perfis de chumbo para decoração e iluminação de ambientes, correspondeu à fase moderna do desenvolvimento da arte de produzir vitrais.
 
Na capital, ampliou-se a partir da virada do século passado, com a expansão de novos bairros, a monumentalização dos edifícios públicos e o requinte arquitetônico das residências. Até hoje vitrais de edifícios públicos paulistanos, como os do Palácio da Justiça e do Mercado Municipal, causam admiração pela proporção, beleza e integração com o projeto arquitetônico. Representando temas históricos ou referentes às funções públicas dos edifícios, as imagens formam um conjunto das representações que, a partir do fim do século anterior, criaram e reafirmaram um perfil de São Paulo diante do Brasil. 
 

Sob esse ponto de vista, os vitrais, além de peças de arte, constituem importantes documentos históricos. Eles nos falam do forjar de ideias que se tornaram referência e moldam nossa relação com o passado e com o presente, justificando papeis e responsabilidades sociais. Produtos materiais de cultura, parte de nosso patrimônio histórico e objetos de fruição de beleza, os vitrais expressam por meio do poder das imagens a tradição, a excelência econômica e cultural de São Paulo, o trabalho, a determinação e o progresso. 

Cenas do cotidiano da vida no campo na década de 30.Cenas do cotidiano da vida no campo na década de 30.
 
 
Plantação de café.Plantação de café.
 
Agricultores trabalhando na lavoura. Agricultores trabalhando na lavoura.
 
 
A colheita e o transporte de bananas.A colheita e o transporte de bananas.
 
Boiadeiro conduzindo a manada de bois através do rio.Boiadeiro conduzindo a manada de bois através do rio.
 

Outras possibilidades de criação do vitral podem ser observadas no Mercado Municipal de São Paulo, 1933, que apresentam um tom quase jornalístico a temática dos vitrais. Ali aparece o homem flagrado no momento de seu trabalho: alimentando animais de criação, colhendo café, transportando bananas, tocando o gado. Cenas da agricultura, avicultura, pecuária, mostrando agricultores trabalhando de forma bem rudimentar, numa época anterior à mecanização. Tudo retratado dentro de um realismo fotográfico no que diz respeito à paisagem, à proporção e à profundidade dos elementos representados, buscando a autenticidade das informações.

Os 5 vitrais que retratam cenas da vida no campo, estes foram criados por Conrado Sorgenicht Filho que já tinha a tradição na família, cuja técnica foi trazida da Alemanha no século XIX pelo seu pai, Conrado Sorgenicht.

Conrado Sorgenicht (filho) andou pelas fazendas do interior do Estado de São Paulo, acompanhado de seu filho Conrado (neto), que já trabalhava no ateliê desde 1922, fotografando lavouras para registrar as ferramentas utilizadas, os meios de transporte, os animais de pequeno porte sendo criados soltos. Inspirados nestas fotos, o vitral foi criado. A criação dos vitrais levou 5 anos. Os vitrais foram restaurados no final dos anos 80 por Conrado Sorgenicht Neto.

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Artigo da Professora Dra. Regina Lara Silveira Mello da ANPAP - Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas.

Fim de ano se aproxima e com ele a vontade de fazer tudo o que não foi feito nos últimos onze meses. Lista de desejos, promessas para o próximo ano, novos projetos… Por isso, resolvi listar 10 coisas que quero para o ano que vem. Não me apeguei ao que quero comprar, ter ou algo desse tipo. Mas, sim, às atitudes que quero ter ou desenvolver em 2018. O objetivo é seguir essa lista para ser uma pessoa um pouquinho melhor. Confere aí!

1- Ter mais paciência

A vida numa grande cidade me deixou mais impaciente do que eu já era. Falta paciência no trânsito, com o pedido que não chega, com a fila que não anda, com tudo. Este primeiro item é um alerta para que no próximo ano, eu pare de tratar 10 minutinhos como 10 horas e desacelerar um pouco.

2- Respeitar quem pensa diferente

A impaciência do tópico 1 interfere muito no que vou chamar de intolerância com quem apresenta um pensamento, postura ou atitude que eu jamais teria. Esse item está aqui para me lembrar de ser uma pessoa mais compreensiva e sempre tentar entender o ponto de vista das outras pessoas. Não preciso concordar, apenas respeitar. Parece ser bem simples, a gente que acaba complicando, não?

3- Me divertir mais

Aqui é procurar fazer coisas e estar perto de pessoas com as quais eu realmente me divirta. Já reparou que, muitas vezes, podemos estar dentro de uma super festa, com uma turma de pessoas legais e mesmo assim não se divertir? O objetivo desse tópico é respeitar mais meus desejos e personalidade e, sim, deixar de ir a lugares ou fazer coisas só porque outras pessoas acham divertido. Se eu não acho, eu não vou.

4- Cuidar do corpo e da alma

Cotswold Allure Magazine Soul Circus Yoga Yogi Health Fitness Wellbeing 77Cotswold Allure Magazine Soul Circus Yoga Yogi Health Fitness Wellbeing 77O item 4 vale tanto para cuidados com meu corpo, quanto com minha mente. Aqui entram bons hábitos alimentares, exercícios físicos, cuidar mais de minha saúde mesmo. Sem deixar de lado a sanidade mental e, por que não, espiritual. Afinal, de nada adianta um corpinho bonito numa cabecinha ruim, né?

5- Conhecer pessoas e lugares novos

Essa é a meta que mais se renova a cada ano. Mas a intenção para 2018 é conhecer de verdade pessoas novas, ter interesse por elas, seus desejos e rotinas. A gente anda tão preocupado com o próprio umbigo que se esquece de formar laços e se interessar pelo que não tem a ver com a gente. Quanto aos novos lugares, pode ser uma nova cidade, país ou até mesmo um bar ou restaurante que fica na esquina de casa e eu ainda não conheço. Qualquer novidade é bem-vinda.

6- Ficar mais perto de pessoas queridas

Esse item da lista é um tanto óbvio, pois o que a gente menos quer nessa vida é ficar perto de gente que não gostamos. Mas, muitas vezes, deixamos ou adiamos isso, com desculpas como falta de tempo, dinheiro, cansaço e por aí vai. Por isso, a meta é ir ao encontro de quem se gosta mesmo sem grana, sem tempo ou morrendo de cansaço. Só vai!

7- Aprender alguma coisa nova

Tem um tempo que venho reclamando que a vida anda no automático. Casa, trabalho, trabalho, casa. Por mais que a vida em sociedade seja um constante aprendizado, o que quero na verdade é aprender algo novo. Pode ser um esporte, uma receita, consertar algo, construir ou montar um móvel, um jogo ou um novo idioma.

8- Não criar expectativas

Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém. Não criar expectativas em relação a nada e ninguém…

9- Não me preocupar tanto com o futuro

O item 8 também pode ser aplicado aqui, mas vou reforçar para deixar bem claro. Viver o momento presente está cada vez mais difícil. Estamos sempre preocupados com o amanhã, com o quanto eu vou ganhar daqui um ano ou com onde eu vou estar e, simplesmente, nos esquecemos de aproveitar as experiências que estamos tendo agora. Deixar rolar é a ordem nesse item.

10- Agradecer por tudo isso

Uma das coisas que mais nos esquecemos de fazer é agradecer pelas coisas. Ficamos felizes quando algo sai como o planejado, mas não agradecemos. E quando sai diferente de como imaginamos aí é que a gente esbraveja, fica triste e arrasado, no lugar de agradecer também por isso. Parece coisa de hippie, gente doida que abraça árvore e fala com planta, mas não é. É importante agradecer também pelo o inesperado e não planejado. Como diria minha avó: “Muitas vezes, é livramento”.

E você, qual a sua lista de desejos para o próximo ano?

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Mayra Sá é jornalista, lá de Minas Gerais. Mente adulta numa alma de criança, por isso não pensa muito antes de falar e fala exatamente o que pensa. Ama fazer piada, principalmente sobre si mesma. *Artigo publicado originalmente no Coletivo We Love

No dia 5 de maio de 2011 o New York Times anunciava, sob a manchete “The Tupperware Party Moves to Social Media”, a decisão da tradicional marca de vasilhames de explorar as novas redes sociais como estratégia de marketing e vendas.

O anúncio provavelmente teria passado despercebido, mas o fato de trazer, no mesmo enunciado, dois universos de convivência tão desconectados no tempo e no espaço me pareceu irônico e, por isso mesmo, merecedor de uma reflexão. Uma reflexão em torno das relações de proximidade estabelecidas nessas novas redes sociais juntamente com um produto ou marca que, a seu tempo, se tornou símbolo de um modelo de vizinhança paradigmático que teria uma grande influência na conformação ainda pouco amadurecida das cidades brasileiras: o subúrbio norte-americano.

Em 1947, Earl Silas Tupper, inventor e químico da DuPont, desenvolveu um sistema de vedação à prova de ar e água, derramamento e deterioração, que seria usado para o armazenamento de comida. A sua invenção, batizada de “Tupper Seal”, passou a ser aplicada a uma linha de vasilhames de polietileno produzida pela empresa nos anos anteriores. Os Tupperware, assim batizados, logo viriam a se tornar um símbolo do american way of life dos anos 50.

O lançamento desse produto no mercado coincidiu com um cenário pós-guerra, pré-feminista e de afirmação dos subúrbios como um modelo de vizinhança, aprovado por grande parte da população norte-americana, que abandonou os centros urbanos em troca da promessa de um ambiente adequado ao cotidiano da família, livre da indesejada convivência com grupos ou indivíduos que não se encaixavam no perfil de normalidade estabelecido pela sociedade.

Earl S. Tupper e Brownie Wise na fábrica da Tupperware em Farnumsville, EUA, em 1951. Cortesia: Tupperware.Earl S. Tupper e Brownie Wise na fábrica da Tupperware em Farnumsville, EUA, em 1951. Cortesia: Tupperware.Os pioneiros Tupperware tiveram uma curta temporada de vendas nos grandes magazines norte-americanos antes de serem retirados do mercado para poderem ser adquiridos apenas em encontros organizados entre as donas de casa de uma mesma comunidade: as Tupperware Parties.

Brownie Wise, uma mãe divorciada vinda do interior e com um estilo de vida um pouco distante do ideal feminino da mulher norte-americana dos anos 50, foi a responsável pela criação da estratégia de marketing da marca, que alcançaria cifras de centenas de milhões de dólares por ano.

Tudo começou com um telefonema à fábrica, no qual a senhora Wise – que costumava vender eletrodomésticos, panelas e vassouras em casa –, irritada com o atraso na entrega de suas encomendas, insistiu em conversar pessoalmente com o Sr. Tupper, presidente da marca. Ao perceber que a insolente reclamante era uma revendedora autônoma que, sozinha, tinha alcançado vendas maiores do que qualquer um dos grandes magazines, o senhor Tupper decidiu contratá-la para uma transformação no modelo de comercialização dos seus produtos. Ms. Wise iniciou então o seu projeto de recrutamento de colaboradoras. A oportunidade de se ter renda própria, trabalhando em casa e com um horário flexível que não prejudicasse as funções de mãe e esposa foi suficientemente atrativa para conquistar adeptas de todo país. 

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Em pouco tempo, Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança, distinta do competitivo e agressivo marketing associado ao tradicional modelo masculino de negócios.

Logo, as Tupperware Parties tomam conta dos subúrbios. Nas animadas tardes só para mulheres, entre receitas, drinks e dicas de como armazenar melhor o jantar do marido, muitas encontraram uma boa remuneração, fato que configurou, segundo estudiosos, o princípio de uma autonomia feminina no mercado de trabalho. 

Alguns anos mais tarde, esse mesmo projeto não ofereceu entusiasmo ao movimento feminista, então latente. Muitas mulheres entenderam que tal modelo de trabalho reforçava estereótipos femininos suburbanos, por representar uma espécie de desvio do propósito que buscava igualar as condições e oportunidades do trabalho feminino às dos homens. Além disso, as feministas argumentaram que a exploração econômica das redes de vizinhança e família era extremamente destrutiva, uma vez que se sustentam pela comercialização das relações afetivas.

As Tupperware Parties tornaram-se bastante populares no mundo todo, assim como o modelo de expansão dos subúrbios, ambiente que parece ter sido perfeito para a organização dessas festas. Em 1963, a empresa chegou à Europa, Japão e Austrália. No Brasil, as primeiras Tupperware Parties datam dos anos 70, época em que também apareceram por aqui os primeiros condomínios horizontais fechados. O AlphaVille Residencial, ícone pioneiro dessa tipologia, foi lançado em 1975.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família e por um déficit habitacional que, a princípio, foi associado às novas famílias formadas pelos jovens veteranos da guerra. A partir de então, a população norte-americana testemunhou uma mudança significativa no conceito de moradia e vizinhança. A crescente demanda por moradia, juntamente com as políticas públicas de incentivo ao mercado imobiliário suburbano, aceleraram a indústria da pré-fabricação e impulsionaram a rápida expansão e afirmação dos subúrbios. A produção em série de subúrbios como Levittown e Park Forest redefiniram os antigos modelos de espaço público com a nova estética da pré-fabricação e da propriedade privada inserida num espaço coletivo contínuo. Em Lewittown, as taxas de produção alcançaram 30 casas por dia em julho de 1948.

Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança. Foto: Hulton Archive / Getty Images.Ms. Wise liderou um crescente exército de vendedoras sustentado por uma rede de cooperação e vizinhança. Foto: Hulton Archive / Getty Images.

Como um modelo de moradia e convivência sem precedentes na história das cidades, o empreendimento suburbano encontrou suporte numa ideologia política e estéticaBrownie Wise em folder de campanha. Imagem: Reprodução.Brownie Wise em folder de campanha. Imagem: Reprodução. associada a conceitos de eficiência e assepsia, não somente no planejamento espacial, como também no plano social.

Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Grupos sociais fora desse perfil não encontrariam as mesmas facilidades ou qualquer tipo de identificação. Os modelos das casas propostos pelo Federal Housing Administration apresentavam uma tipologia única e segregadora, de arquitetura exclusivamente voltada para as famílias nucleares, razão pela qual eram excluídos grupos sociais como os solteiros, casais sem filhos e idosos. Já os mecanismos de controle étnico dos subúrbios eram menos discretos.  Em Levittown, uma cláusula contratual restritiva estipulava que as casas somente poderiam ser vendidas ou alugadas para “membros da raça caucasiana”.

Entre os equipamentos que compunham o convidativo conjunto dos subúrbios estavam as novas escolas públicas aclamadas nacionalmente, a facilidade de conexão com a cidade por um eficiente sistema de trens e railways, os modernos centros comerciais, os playgrounds, igrejas e sinagogas, dispostas sobre os intermináveis jardins coletivos.

Somados à sedução dos baixos impostos, esses fatores configuravam um cenário atrativo o suficiente para justificar a adesão de milhões de famílias norte-americanas nos anos 1950. No entanto, por trás dessa aparente liberdade de escolha, os baixos juros cobrados no financiamento das casas suburbanas e as hipotecas garantidas pelo governo atestavam que o sucesso da empreitada era patrocinado por um projeto político que almejava a liberação das cidades para a implementação dos projetos federais de renovação urbana.

No Brasil, o modelo de expansão periférica das cidades que mais se aproxima dos subúrbios norte-americanos são os já citados condomínios horizontais fechados. Mas, nesse contexto de transposição, há que se considerar o frágil equilíbrio das nossas cidades, assoladas por um conflito social muito mais dramático do que o das cidades norte-americanas.

O conflito vivenciado no Brasil faz com que as palavras violência e segurança funcionem como passe de mágica na construção das arquiteturas mais contraditórias de que se tem notícia. Em essência, os nossos condomínios fechados, “enclaves fortificados”, definem relações de vizinhança bastante diversas do seu modelo de inspiração. Os moradores dos subúrbios norte-americanos compartilham um sentimento coletivo de pertencimento a um grupo social coeso e aparentemente bem integrado, sentimento este que justifica críticas: a aparente monotonia dos padrões e comportamentos dos seus integrantes.

No caso brasileiro, a migração das classes média e alta para os condomínios fechados, em porcentagens muito inferiores, foi motivada principalmente pela busca da segurança prometida pelos muros fortificados. Muitos desses condomínios trazem também a proposta de um isolamento campestre, que garante, no seu projeto de urbanização paisagística, o equivalente aos metros quadrados de jardim coletivo suburbano sob a forma de coeficiente em área de preservação da vegetação nativa.

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Mas a lógica do isolamento fortificado não se limitou apenas aos condomínios periféricos. Podemos verificar, com lamentável frequência, o mesmo princípio de segregação aplicado aos edifícios particulares que inevitavelmente colaboram com a conformação do espaço público das nossas cidades. Dessa maneira, estabelecem-se os princípios de convivência contraditórios que caracterizam as cidades brasileiras e que têm como principal consequência a deterioração qualitativa do espaço das cidades como local de convivência e trocas.

E é nessa esfera das convivências e trocas que o deslocamento das Tupperware Parties para as redes sociais inspira uma reflexão sobre o novo ambiente de vizinhança surgido quase meio século depois da exportação endêmica do modelo suburbano. As redes de convivência no facebook se consolidam sob o argumento promissor de uma cartografia que eliminaria as limitações espaciais e reconfiguraria o território virtual segundo critérios democráticos de afinidades que poderiam ser confortavelmente operados pelo usuário, construtor do seu espaço público. Trata-se, obviamente, de uma categoria bastante particular de espaço público, cuja grande conquista parece ter sido a exclusão do corpo físico e de todas as limitações a ele associadas. Essa exclusão permite estabelecer os novos parâmetros de proximidade e vizinhança.

Diante da metáfora do espaço público aplicada ao espaço virtual seria possível dizer, também metaforicamente, que aos usuários das redes sociais cabe o papel de articuladores de seu próprio espaço público. As ferramentas disponibilizadas pelo sistema permitem selecionar o perfil dos frequentadores do seu círculo de amizades, bem como erradicar da sua porção particular de espaço público qualquer manifestação que não esteja de acordo com os padrões estabelecidos pelo administrador. Esse movimento constante de construção e manutenção do espaço de convivência em seu estado ideal reproduz, ainda que remotamente, as ações dos urbanistas ortodoxos dos subúrbios e dos enclaves condominiais em seu esforço de ordenação asséptica do território.

Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Foto: Getty Images. Os subúrbios parecem ter sido especialmente desenhados para a típica família branca de classe média norte-americana. Foto: Getty Images.

Nem os subúrbios e condomínios, nem as inovadoras redes sociais se aproximam do que há de mais instigante no modelo de vizinhança aparentemente caótico das cidades reais: o privilégio do encontro com o outro. Um outro que é em essência diferente de mim, e que me confronta regularmente com uma demanda de reposicionamento, adaptação e afirmação diante do coletivo. Nos dias de hoje, com todos os avanços das telecomunicações, que permitem modos de vida, trabalho e relacionamento desvinculados da condição de proximidade física, viver na cidade deveria ser uma escolha. E, como em toda escolha, há que se entender o que está em jogo antes de realizá-la. Viver na cidade significa conviver com o outro, com a diversidade – e é sob esse paradigma que seus habitantes deveriam optar ou não pelo modelo de moradia e vizinhança urbana.

Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família. Foto: ZLB Houses / 1950.Os subúrbios norte-americanos surgiram nos anos do pós-guerra, alavancados por um movimento de revisão dos valores e da família. Foto: ZLB Houses / 1950.

Condomínios e facebook em coexistência com a metrópole contemporânea poderiam configurar alternativas de vizinhanças diversas, possíveis escapes para a intensidade da convivência urbana, e não o contrário. Não se pode esperar da metrópole a garantia Tupperware de vedação contra vizinhos incovenientes, e nem o acondicionamento perfeito dos seus habitantes em recipientes separados e rotulados numa logística de reconhecimento e identificação que vai um bocado além da cartela de cores disponibilizada à clientela das Tupperware Parties.

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Por Ana Paula Assis. *Artigo publicado originalmente na Piseagrama, a única publicação sobre espaços públicos — “existente, urgentes, imaginários” — no Brasil.  

Nasci no bairro da Mooca. Isto foi no ano de 1951 quando a cidade de São Paulo tinha linhas de bonde que percorriam bairros e mais bairros com mais de 400 km de trilhos. Ainda nem se sonhava com um Parque como o Ibirapuera. Um dia chegou notícia! Vamos andar de papa-fila. Que sucesso!

No Parque Dom Pedro II um lugar para as diversões, estava instalado o Parque Shangai com a roda gigante a girar. Tivemos uma infância nos quintais com terra, sem nada de centros de compra ou lanchonetes rápidas. Ouvíamos canções de muitos países no rádio, do Japão, do Paraguai, da Alemanha, da Itália e também de Pernambuco, Ceará ou Rio Grande do Sul. A pastelaria era uma grande novidade assim como novos objetos incríveis. Lembro daquele copinho de beber água feito de plástico com várias camadas que abriam e fechavam. E ainda se apresentava em várias cores!

O Parque Shangai em 1958. Acervo: São Paulo Antiga.O Parque Shangai em 1958. Acervo: São Paulo Antiga.

Tomei banho entre as pedras naquela água geladinha que foi toda canalizada e hoje se conhece por um lugar chamado Vila Nova Cachoeirinha. Aguardei tantas vezes o trânsito feroz da Avenida Celso Garcia para visitar parentes que moravam na zona leste. Lembro do famoso ônibus Penha-Lapa. O ônibus para o Jardim Pedreira onde morava minha mãe, saia do Vale do Anhangabaú. Lá já estava ficando difícil de atravessar, com trânsito intenso. Na Rua Augusta fui estudar, usava o ônibus elétrico com seu andar silencioso. Era o Ginásio de Aplicação da PUC que foi demolido no atual terreno do pretendente “Parque Augusta”.

Consegui dois empregos e morando na zona sul, mais tarde veio matrícula no curso de magistério na Lapa e a lentidão do trânsito nos anos 1970 porque uma obra viária crescia em nossas cabeças escurecendo a alegre Avenida São João, nosso Champs Elysee. Era em formato de minhoca.

Para as férias uma gostosa viagem com malas se arrastando pela Rodoviária colorida em frente à Estação de trens Sorocabana.

Antiga Rodoviária da Luz, posteriormente convertida em shopping popular, hoje demolida, centro de São Paulo. Foto: Tuca Vieira.Antiga Rodoviária da Luz, posteriormente convertida em shopping popular, hoje demolida, centro de São Paulo. Foto: Tuca Vieira.

Assim muito jovem descobri que a melhor fórmula de ganhar tempo seria trabalhar, estudar e morar no Centro, tudo perto. Ir caminhando com pequenos atrasos apenas se o elevador demorava.

Para a boemia de violões nas madrugadas tínhamos transportes pela noite toda! Em 1979 vem o bebê e morando na Alameda Barão de Limeira quantas vezes o carrinho aguardava manobras para tirar os carros da calçada. Esperava até o proprietário do veículo aparecer e muitas pessoas comentando “tira o carro, a mulher quer passar com o carrinho de bebê!”. Isto acontecia sempre e nas décadas seguintes pouco mudou, ou melhor, acentuou.

O menino cresceu e disse “mãe porque você não volta a estudar”. E voltei, fui para a faculdade e nossos colegas se misturavam nos trabalhos, os dele quando entrou no cursinho e os meus. Era o final dos anos 90 e o turismo me impregnou com suas vertentes. Estudei mais e me tornei guia da cidade. E o caminhar se fez freqüente. Agora com análises e embasamentos históricos. A geografia permeando o olhar para conduzir outros sonhos e descobrir mais e mais. Pesquisei sempre e tentei desvendar as palavras que dizem muito sobre o lugar, são as origens indígenas do chão paulistano “terra dura” Butantã, “caminho de tatus” Tatuapé, riacho vermelho” Ipiranga, “gafanhoto verde” Tucuruvi, “fazer casas” Mooca, “esconderijo de fujões” Jabaquara , “madeira em extinção” Ibirapuera.

Ônibus elétrico na Rua Augusta. Acervo: São Paulo Antiga.Ônibus elétrico na Rua Augusta. Acervo: São Paulo Antiga.

Recordo então as origens, e as mudanças com inúmeros carros por todos os lados, a construção do Metrô, trens e ônibus mais confortáveis e quase sempre lotados.

Os quintais foram sendo cimentados, os copos de papelão viraram de plástico. Quanto plástico! O bonde se foi e nenhum ficou para lembrança como tem Lisboa ou em Santos. Quem sabe salvamos o ônibus elétrico e todos me perguntam “onde está aquele lindo veículo que circula somente no aniversário da cidade?” Não sei responder.

O Anhangabaú virou jardim. O ônibus elétrico da Rua Augusta acabou. A cidade pulou em meio século de 2 para 11 milhões de habitantes. E carros, quantos desde que em 1902 foi chegando o primeiro.

A Rodoviária mudou de lugar e ficou bem grande. E ficou difícil atravessar as ruas e avenidas repletas de veículos. “Teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel”...” Iracema cuidado ao atravessar essa rua, eu falava mas você não escutava não, Iracema você atravessou contramão” .”Olá como vai, eu vou indo e você tudo bem, o sinal vai abrir, vai abrir”, são versos que cantaram Adoniram e Paulinho da Viola. Cada vez mais fica complexo andar pelo nosso lugar que é a calçada. Quando chegamos à maturidade ficamos com receio de atravessar ruas, com medo de motociclistas, andamos mais lentos e com cuidado. Será que vamos ter que ocupar as ruas e deixar que o automóvel durma nas calçadas em berço esplêndido? Temos ainda muito que fazer.

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Vera Lúcia Dias é turismóloga com pós graduação em Globalização e Cultura. Texto originalmente publicado no Jornal GGN.