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"A criança é essencialmente um ser sensível à procura de expressão. Não possui ainda a inteligência abstraideira completamente formada. A inteligência dela não prevalece e muito menos não alumbra a totalidade da vida sensível. Por isso ela é muito mais expressivamente total que o adulto. Diante duma dor: chora – o que é muito mais expressivo do que abstrair: “estou sofrendo”. A criança utiliza-se indiferentemente de todos os meios de expressão artística." (Andrade, 1929).

Os primeiros Parques Infantis foram implantados na cidade de São Paulo no ano de 1935, em bairros operários Lapa, Ipiranga e Mooca. Visaram promover atividades educacionais e culturais para as crianças de três a seis anos, com o foco na valorização da cultura nacional, sendo uma das estratégias o levantamento dos costumes e hábitos desse público. As ações assistências também se fizeram presentes com atendimento médico e odontológico e com a distribuição de copos de leites e frutas, conforme o fotografado por Benedito Junqueira Duarte em 1937, no Parque Infantil do Ipiranga.

Crianças brincando em tanques de areia sentadas, realizando jardinagem e se alimentando foram algumas das cenas selecionadas para compor o álbum de fotografias dos Parques Infantis, do Departamento de Cultura. Aliás, muitas dessas imagens foram  fabricadas com a intencionalidade de divulgação de determinadas práticas educacionais promovidas pelas educadoras dos Parques Infantis, o que demonstra uma preocupação dos seus idealizadores no agenciamento de certas ações e, portanto, a construção de certa memória.

Criança, infância, brincadeira e cultura são elementos indissociáveis nessa proposta. De modo que, quando se apresenta a educação infantil na atualidade em São Paulo, o resgate do pioneirismo de Mário de Andrade na proposição dos Parques Infantis e a organização de rotinas de aprendizagem, que tenham como foco o desenvolvimento social da criança, constituem a identidade dessa modalidade de educação. A despeito disso, Faria (FARIA, Ana Lúcia Goulart de. A contribuição dos parques infantis de Mario de Andrade para a construção de uma pedagogia da educação infantil. Educação & Sociedade, ano XX, nº 69, Dezembro/1999. pp. 60-91) tem argumentado em suas pesquisas que a implantação dos Parques Infantis contribuiu decisivamente para se pensar em uma pedagogia da infância, ou seja, tais instituições foram precursoras na organização da educação infantil ao realizarem práticas que consideravam a criança em sua especificidade formativa.

Parque Infantil Dom Pedro II, 1938. Foto: B. J. Duarte / Acervo da SMC.Parque Infantil Dom Pedro II, 1938. Foto: B. J. Duarte / Acervo da SMC.

A autora recupera historicamente a trajetória dos Parques Infantis com a apresentação dos eixos estruturantes dessa proposta expressos na integração entre a recreação, a assistência e a educação no atendimento à criança. Outra questão importante abordada por ela é o diálogo que Mário de Andrade estabeleceu com a cultura produzida nos anos 20 e 30, no Brasil e em outros países a respeito da utilização de jogos para o ensino, o uso da arte, especificamente, o teatro, além do interesse pela preservação da cultura via organização das bibliotecas e acervos documentais. 

Os significados dos Parques Infantis foram objeto de interesse também de Freitas (2001), em seu estudo do pensamento social brasileiro na transição do século XIX para o XX. O autor defende, a partir das considerações de Antônio Cândido (1971), que o Departamento de Cultura e a implantação dos Parques Infantis, sob a responsabilidade de Mário de Andrade se configuravam como iniciativas inovadoras de atendimento às crianças e suas famílias, ao promoveram situações que valorizavam suas experiências e dialogavam com as questões da cidade. Para Cândido apud Freitas (2001:265), essas instituições não realizavam somente a “rotinização” da cultura, mas se constituíam em uma “tentativa consciente de arrancá-la dos grupos privilegiados para transformá-la em fator de humanização da maioria através de instituições planejadas”. 

As crianças de três a doze anos efetivaram sob a supervisão e orientação das educadoras esculturas em argila, marcenaria, danças, teatro, pinturas e desenhos. De acordo com Gobbi apud São Paulo (2010:25), os Parques Infantis promoviam concursos de desenhos, cujos temas eram de livre escolha das crianças. 

 Parque Infantil Dom Pedro II, 1938. Foto: B. J. Duarte / Acervo SMC. Parque Infantil Dom Pedro II, 1938. Foto: B. J. Duarte / Acervo SMC.Havia uma orientação do próprio Mário de Andrade às educadoras de que não houvesse intervenção nos desenhos das crianças. Em um discurso pronunciado na Hora do Brasil no ano de 1935, Mário de Andrade apresenta os propósitos da criação dos Parques Infantis e qual sua relação com o fenômeno da urbanização em São Paulo. Em sua visão, "os grotões transformaram-se em jardins cortados ao meio pelas avenidas e pela sombra dos viadutos. Não há mais sapo. Nos jardins encontrareis recintos fechados com instrutoras, dentistas e educadoras sanitárias dentro. São Parques Infantis onde as crianças proletárias se socializam aprendendo nos brinquedos o cooperatismo e os valores do passado. São crianças tartamudeando em torno de uma Nau Catarineta de vinte, as melodias que seus pais esqueceram, e nos vieram de novo da Paraíba, do rio Grande do Norte e do Ceará. Todas essas iniciativas não poderão pretender jamais a uma gloríola no presente, senão uma fecundidade futura. Tudo é novo, e muito está nascendo. São Paulo é uma cidade num dia, mas já agora os seus caminhos conjuntos vão e vêm.“

A aprendizagem de certos valores como a socialização e o cooperativismo ocorreria a partir da organização de práticas em espaços específicos. Daí a necessidade do planejamento e consequentemente realização de atividades com o foco na manifestação das crianças. 

Nesse sentido, os Parques Infantis eram tidos como lugares privilegiados na transmissão e na produção da cultura infantil. É possível dizer que, as imagens de crianças das  classes operárias brincando em espaços planejados, com a supervisão de adultos capacitados, tendem a indicar os múltiplos sentidos acerca da infância. 
A primeira Biblioteca circulante de São Paulo. Foto: Acervo do Departamento de Patrimônio Histórico da PMSP.A primeira Biblioteca circulante de São Paulo. Foto: Acervo do Departamento de Patrimônio Histórico da PMSP.

Considerações finais 

A experiência dos Parques Infantis nos convida a uma reflexão a respeito do lugar da infância nos anos 30 do século passado nos discursos e ações dos intelectuais brasileiros. Nesse sentido, a análise das intervenções do poder público, por meio da construção de políticas educacionais que abrangeram particularmente os filhos dos operários na cidade de São Paulo, torna-se uma discussão fértil no campo da História da Educação. 

No cotidiano dos Parques Infantis o lúdico, as brincadeiras tradicionais infantis e os jogos constituíam-se em possibilidades de livre manifestação das crianças. Ao promoverem práticas pedagógicas, que objetivaram o desenvolvimento físico, intelectual e social das crianças, tais instituições idealizadas por Mário de Andrade foram responsáveis pela difusão de uma nova concepção de infância e de criança, além de institucionalizarem um conjunto de práticas específicas no campo da educação infantil, incorporadas às escolas municipais de educação infantil de São Paulo transformando-se em saberes necessários à proposição de atividades que visem o desenvolvimento social da criança. 

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Maria Aparecida da Silva Cabral é professora adjunta do Departamento de Ciências Humanas, Curso História, da Faculdade de Formação de Professores da UERJ.

Artigo publicado nos anais do XVI Encontro Regional de História da Anpuh - Rio / Saberes e Práticas Científicas.

Praça Ramos de Azevedo, Rua 24 de Maio, Avenida Ipiranga, Rua 7 de Abril. Nesse quadrilátero aconteceu o de mais importante na cultura brasileira: o encontro entre o novo e o velho mundo.

Em torno do Theatro Municipal, o biscoito fino da música, teatro, dança, artes plásticas e literatura brasileira saiu do forno e alimentou nossa antropofagia e sede de saber.

As grandes livrarias da Barão de Itapetininga, como a Brasiliense, fundada por Monteiro Lobato e Caio Prado, eram o fervilho de troca de ideias, de busca por novidades, de debate político e econômico, atrás de um projeto de Nação.

Não havia outro grande teatro em São Paulo, a não ser o Municipal, da borbulhante e definitiva Semana de Arte Moderna de 1922. Nos cafés ao lado, como a Leiteria Americana, Oswald de Andrade e outros se debruçavam sobre a essência brasileira, casavam o moderno com o folclore.

Até a década de 1970, se o Ballet de Bolshoi viesse ao Brasil, era no Theatro Municipal que iria se apresentar, com a divina montagem de Pássaro de Fogo, de Stravinsky. Astor Piazzolla, o alterego da dor portenha, da tragédia sul-americana, só se apresentava lá. Até Miles Davis, com seu experimentalismo tão profundo e introspectivo, se apresentou lá.

Só depois abriram em São Paulo as grandes casas de show.

Vi esses três espetáculos na minha adolescência. Vi Stravinsky, com a alma incendiada em êxtase, assim que cheguei em São Paulo em 1975. Vi Miles Davis, de costas para a plateia, num show de fusion jazz, em que ignorava a nossa audiência, a fim de não perder a concentração. Quantas vezes não vi Astor Piazzolla tocar Adeus Niño e Balada Para um Louco, as minhas favoritas.

Eu tinha 15, 16, 17 anos, exilado, recém-chegado na cidade, filho de uma genuína paulistana, que me contava das suas peripécias como adolescente por aquelas quadras. Fui atrás dos locais em que ela e meu pai frequentavam na juventude.

Aprendi a tocar violão no conservatório, aprendi a tocar Villa-Lobos, comprava por ali partituras, sim, naquela época comprávamos partitura, dos grandes violonistas. Violão comprado na 24 de Maio, com o dinheiro de anos de economia.

Comprava cordas de náilon na Casa Bevilacqua, ponto de encontro de violonistas, guitarristas, amantes da música clássica e pop. Ouvi lá um senhor tocando no piano Balada Para um Louco e enlouqueci. Pedi para ele me ensinar a versão em violão. Não havia, mas me deu a partitura em piano, com a qual pude eu mesmo fazer uma adaptação e a minha versão.

A meia quadra da loja, uma galeria de varejo, que depois de abrir uma loja de discos, transformou-se na Galeria do Rock, centro de aglutinação de músicos e fãs, polo da transformação da música brasileira dos anos de 1980.

Foi com dor no coração que descobri, anos depois, que as livrarias da Barão de Itapetininga fecharam, inclusive a Brasiliense, que as lojas de música e as livrarias do entorno do Municipal fecharam. Tentei encontrar a Leiteria Americana e vi apenas um prédio degradado, que manteve a sua magnífica porta, transformada agora apenas em uma decoração pichada sem história. Não se compra mais discos, não se debatem mais ideias musicais numa loja de música.

A ideia de restaurar o centro de São Paulo torna-se urgente, quando testemunhamos o empobrecimento da nossa cultura, passado, memória: da nossa história. O novo Sesc 24 de Maio reacende as esperanças de voltarmos a ter o centro da cidade de São Paulo como um vibrante, vanguardista e cativante caldo cultural.

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Marcelo Rubens Paiva é escritor. Artigo publicado originalmente no E Online do Sesc São Paulo.

Entre os desafios enfrentados pelas cidades, o da mobilidade é um dos maiores. As ineficiências nessa questão causam perdas econômicas expressivas, desperdiçam o tempo e energia das pessoas em deslocamentos de rotina e sobrecarregam a atmosfera com poluentes. A tendência das cidades de concentrar população e atividades econômicas apenas reforça a necessidade de se lidar com essa questão. A mobilidade tem que se dar de uma forma digna, rápida, confortável e econômica.

A rua é um local público por onde transita a população das cidades e, como tal, espaço livre essencial para a vida urbana, sendo determinado pela maneira como os lotes são ocupados e utilizados, delimitando a paisagem. Porém, a relação entre os espaços públicos e privados tem sofrido com interferências que grandes condomínios horizontais fechados, com seus muros altos, estão provocando no desenho urbano.

Com a chegada de imigrantes europeus no século passado, a cidade de São Paulo ganhou diversas vilas proletárias. Construídas para abrigar operários de uma mesma construção ou indústria, os bolsões de casinhas coloridas ainda sobrevivem cercados por grandes prédios na metrópole paulistana.