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Caminhar por São Paulo sem ver carros e caminhões me deixa com uma felicidade quase real, imaginando por um instante que a cidade deu certo, que o sonho de Jane Jacobs se realizou. E, com sincronia, um outro sentimento estético aflora inevitavelmente, uma sensação de “fim do mundo”. Este segundo impulso, se materializa num pensamento construtivo que não tem nada a ver com o fatalismo moral ou ainda menos a tragédia. Simplesmente é o fim de um mundo no qual a revolução industrial junto ao capitalismo liberal nos “educou” por dois séculos a aceitar. Este foi o mundo dos “recursos” naturais infinitos, do sonho da fartura energética e desejos de consumo voraz. Sonhos que nem eram nossos.

A vida nas grandes cidades, especialmente em Londres, quase sempre provocou espanto em seus visitantes. Voltaire, Bernard de Mandeville e Engels, um francês, um holandês e um alemão, em épocas diferentes, deixaram seu testemunho contraditório sobre aquela experiência, inclusive com visões divergentes sobre o que trazia a prosperidade para  uma megalópole.

A ação em Blade Runner muitas vezes nem ocorre em Los Angeles. Aqui, K se aproxima de Las Vegas. Imagem © 2017 Warner Bros. Entertainment Inc.A ação em Blade Runner muitas vezes nem ocorre em Los Angeles. Aqui, K se aproxima de Las Vegas. Imagem © 2017 Warner Bros. Entertainment Inc.

Deveríamos ter uma palavra específica para esse tipo de filme - um meio termo entre uma sequência e uma releitura - mas não existe, então teremos que chama-lo apenas de Blade Runner 2049. Talvez o filme seja mais sutil na forma como faz referência ao clássico precedente de 1982, o cult distópico dirigido por Ridley Scott, do que outras regravações recentes - Star Wars: The Force Awakens, por exemplo - mas ainda assim há uma série de insinuações bastante óbvias. Por exemplo, é fácil perceber reflexos dos personagens do Blade Runner original em 2049: o detetive particular Rick Deckard transfigura-se aqui no estóico e desiludido "K"; a femme fatale Rachael se revela em Joi, uma personagem em forma de holograma que é algo entre um humano e uma máquina; o espírito do excêntrico Roy Batty, renasce em Luv, o fascínora; para não mencionar a horda de replicantes entre humanos e policiais suspeitos. Na verdade, o principal elemento que não foi substituído é o próprio cenário do filme, a cidade de Los Angeles. Entretanto, sua arquitetura é surpreendentemente abstrata em relação ao primeiro filme. Por isso, a nova versão de Blade Runner parece desprovida de uma atmosfera cívica, provavelmente concebida de forma intencional.

‘tamanho _M‘ revela as caraterísticas de São Paulo como cidade interiorana. © Alberto Simon.‘tamanho _M‘ revela as caraterísticas de São Paulo como cidade interiorana. © Alberto Simon.

Longe dos bairros nobres que frequentemente possuem arquiteturas assinadas por grandes arquitetos, São Paulo possui casas em escalas mais modestas que permeiam a memória afetiva de seus cidadãos devido suas características e detalhes marcantes. Alberto Simon, artista baseado na capital paulista, fotografou alguns exemplares desta arquitetura sem autoria e os agrupou em seu trabalho intitulado "tamanho_M".