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São Paulo São Ensaios


Essa engenhoca conhecida como carro, grande protagonista do crescimento urbano, da livre circulação e do status social, parece que precisa passar por uma revisão geral. A crise do setor, junto com a preocupação, cada vez maior, de seu impacto ambiental deram origem a propostas inusitadas: carros de uso público compartilhados, proprietários de veículos que oferecem a outros passageiros a divisão de despesas em suas rotas habituais, ou particulares que se oferecem como motoristas a baixo preço. Estas novas práticas já estão entre nós com nomes como carsharing, Blablacar ou Uber, respectivamente.

Acrescente a isso o aumento da bicicleta como meio de transporte urbano. Seu crescimento — com pior ou melhor sinalização — entre o trânsito foi acompanhado de subsídios para promover o aluguel para trajetos na cidade. Tudo isso pinta um panorama no qual o carro particular poderia ser visto não mais como um luxo, mas como um incômodo.

A ideia de que o uso do carro seja limitado nas cidades pode soar tão incrível quanto parecia impossível há duas décadas que o tabaco acabasse sendo banido dos lugares públicos. Mas a cidade sem carros já está entre nós. Ou melhor: sempre esteve aqui, desde o início. Há cidades que foram construídas em espaços com topografias inacessíveis, com a densidade de uma cidade medieval, cidades nas montanhas, cidades fortaleza, cidades proibidas, na qual os carros nunca entraram. Também foram fundadas cidades isoladas ou em arquipélagos que só tinham comunicação pelo mar; eram cidades ilhas e cidades mar. Nesses lugares não havia o barulho, a poluição e o perigo inerentes ao transporte por carro.

Tudo isso pinta um panorama no qual o carro particular poderia ser visto não mais como um luxo, mas como um incômodo.
 

Imaginemos agora uma cidade visível, real, contemporânea, onde, exceto em casos de necessidade, as pessoas se movem sem o auxílio de qualquer força motriz artificial. Um lugar onde a rua seja em si mesma um meio de transporte, ruas pavimentadas ou canais de Veneza.

Paradoxalmente, o lugar de onde parte o narrador de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, é hoje, por incrível que pareça, um modelo de futuro. Essa ideia é impensável para as pessoas de uma cidade histórica invadida e mutilada pelos automóveis. Também poderia ser uma utopia para quem vive na cidade do século XX, construída por e para o carro, e onde não possuir um pode quase relegá-lo a ser um cidadão de segunda classe.

Mas o declínio do carro particular e seu impacto é uma questão multidisciplinar. Seus benefícios em termos de saúde, ambiente, energia e justiça social estão começando a passar por uma discussão mais profunda. Para que a cidade sem carros seja algo real, só precisamos resolver o fator econômico, ou seja, o impacto sobre o setor, mas não a viabilidade da ideia.

Temos a tendência a ver a cidade como algo que é construído, quando também é uma sucessão de quedas. Quanto mais bem-sucedida, de longa duração e vital é uma cidade, maior é o número de transformações que experimentou. A restrição a estacionar veículos de não residentes no centro de Madri, implementada por Manuela Carmena há algumas semanas, mostrou que o tema de limitar o uso do carro na cidade não é algo visionário, complexo ou de ficção científica, é na verdade uma questão de mudança de mentalidade.

O nascimento dos Estados-nação derrubou as muralhas e o desenvolvimento industrial solucionou o problema do saneamento, agora chega a hora da derrubada dos veículos particulares na cidade. Começa o tempo para refletir sobre este novo espaço público.

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Luis Feduchi é arquiteto e decano da Faculdade de Arquitetura da Universidade Camilo José Cela. Colabora com a Universidade Humboldt de Berlim. *Artigo publicado originalmente no El País Brasil.

 


Considerada “a melhor cantora do milênio” pela BBC, descrita como “uma mistura explosiva de Tina Turner e Celia Cruz” pela Time Out, e conhecida no mundo todo como A Rainha do Samba. Nascida na favela da Moça Bonita, passava a infância “rodando pião e brigando com os meninos”. Casou pela primeira vez aos 12 anos, teve seu primeiro filho aos 13, ficou viúva aos 21, e se tornou sensação internacional aos 30. Elza Soares não é apenas um ícone como artista, é também um ícone como pessoa, e um exemplo de superação. A vida não deu trégua pra essa mulher: teve que ser forte pra lidar com inúmeras dificuldades, e ainda assim, nunca deixou de subir no palco com um belo sorriso no rosto e contagiar a plateia com a alegria do samba.
 

Mané Garrincha e Elza Soares posam para foto em 1969. Acervo UH / Folhapress. 
 
Foi chamada de “vadia” pelo país, ao se envolver com o jogador de futebol Garrincha, que largou a esposa pra se casar com Elza. Era xingada de “bruxa” pelos amigos do marido, que não gostavam dela por proibi-lo de sair pra beber, tentando protegê-lo de seu alcoolismo. Em 1969, Garrincha dirigia bêbado, com Elza, sua filha Sara, e a mãe de Elza, Rosária Maria Gomes, no carro. Sofreram um acidente, e Dona Rosária faleceu. Mas a morte não era uma estranha pra Elza: a moça já havia perdido um marido e dois filhos, e, mais tarde, viria a perder outros três. Também sofreu com a morte do próprio Garrincha, que faleceu após um ano de divórcio, quando Elza ainda sentia muito carinho pelo ex-marido.

Nada é doce e suave quando se trata de Elza Soares. Desde sua expressão dura, emoldurada por seu afro volumoso coroado com flores ou um turbante, até sua voz metálica, suas feições felinas, seu sorriso largo e rasgado, sobrancelhas desenhadas altas e arqueadas, e sua eloquência curta e grossa, aquilo que Elza transmite mais que tudo é força. Hoje, tem 60 anos de carreira musical. Seu samba alegrou e inspirou três gerações, e continuará a alegrar e inspirar as próximas. Elza Soares é um clássico, e não apenas um daqueles clássicos antigos, tipo aquela galera que fez músicas geniais e se aposentam, ficando presas no passado. Ela é um clássico que provou que enquanto estiver viva vai continuar se adaptando às novas gerações e aos novos mundos, sempre dando um jeitinho de adaptar seu talento.

Em Outubro, surpreendeu os fãs, já acostumados a ouvir sua voz entre os batuques e aranhas do samba de raiz e da bossa tradicional, ao lançar um álbum, sem muito estardalhaço ou promoção prévia. Sim, Dona Elza fez a linha Beyoncé e surpreendeu os fãs com um álbum quando ninguém esperava, e como se não bastasse: o primeiro álbum inteiramente composto de músicas inéditas, depois de sua longa discografia recheada de interpretações de músicas muito bem conhecidas pelo Brasil. A princípio, é difícil de acreditar que uma senhora de 78 anos tenha lançado onze faixas tão contemporâneas, e tão relevantes em 2015. Os principais temas do “A Mulher do Fim do Mundo” é a violência contra a mulher, negritude, morte, e sexo.

Abrindo o álbum, a belíssima faixa “Coração do Mar” é um poema de Oswald de Andrade cantado acapella, um ode a uma terra imaginária, “terra que ninguém conhece”. “É um navio humano / Quente e negreiro / Do mangue”. Conforme a voz de Elza desaparece, surge um quarteto de cordas anunciando a próxima faixa, e talvez a mais bela do álbum, que rendeu seu título: “A Mulher do Fim do Mundo”. Em contraponto às cordas, aparece a percussão típica do samba, acompanhada da voz ríspida de Elza: “Meu choro não é nada além de Carnaval / É lágrima de samba na ponta dos pés”.

“Na chuva de confetes deixo a minha dor
Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida, dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou – e vou – até o fim cantar”

Eu fico arrepiada só de lembrar dessa música. É incrível como o trabalho de Elza pode soar tão familiar, tão tradicional, tão samba, e ainda assim, tão diferente e inovador. Sua voz nesse álbum, suja, pesada, carrega seus 60 anos de carreira, bem como seus 78 anos de dor – desde sua infância difícil até a recente morte de seu quinto filho. E ainda assim, Elza se mostra mais empoderada do que nunca, o que fica bem claro na terceira faixa do álbum: “Maria da Vila Matilde – Porque Se a da Penha é Brava, Imagine a da Vila Matilde”, faixa que mistura um samba sujo com rock.

“Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180
Vou entregar teu nome e explicar meu endereço
Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço

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Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”

Empoderamento de encher os olhos d’água, né? O melhor é o deboche que permeia essa faixa – Elza diz que quando o servidor público chegar ela oferece um cafezinho e mostra o roxo no seu braço, e que quando a mãe do agressor ligar, ”Eu capricho no esculacho / Digo que é mimado, que é cheio de dengo / Mal acostumado, tem nada no quengo”. Em entrevista, disse “Amor com pancada não existe. Mulher só deve gritar quando for de prazer”. E como coisa do destino, esse álbum foi lançado três semanas antes da prova do ENEM, cuja redação era justamente sobre a violência contra a mulher. Não é à toa que eu digo que a Elza é um clássico que continua relevante.

Seguem duas faixas agressivas e pós-apocalípticas: “Luz Vermelha” e “Pra Fuder”. A primeira é a descrição de um Rio de Janeiro após o fim do mundo, por onde Elza vaga, sobrevivente. A segunda é sobre uma experiência sexual em que Elza se sente como uma espécie de entidade nativa do fogo. Em entrevista para O Globo, Elza explica: “A mulher do fim do mundo é a que vai ficar. O fim do mundo é a eternidade. Sou espírita, dentro do espiritismo existe uma entidade que se chama Iansã. Ela é o fogo, a lava. Eu me vejo como essa entidade maravilhosa se incendiando, mas viva, viva eternamente”. Pra TV Carta, ainda completou: “Pra Fuder não é só sobre cama, não. É a mulher que bota pra fuder de verdade”.

Já tá sem fôlego depois de tanto samba (literalmente)? Pois segura esse tamborim aí que tem mais: a sexta faixa do CD é sobre “Benedita”, uma travesti traficante.

“Ele que surge naquela esquina
É bem mais que uma menina
Benedita é sua alcunha
E da muda não tem testemunha
Ela leva o cartucho na teta
Ela abre a navalha na boca
Ela tem uma dupla caceta
A traveca é tera chefona”

Talvez a faixa mais agressiva do álbum, ela transparece a realidade violenta da travesti no Brasil, e podemos sentir a adrenalina da perseguição policial às que traficam ou se prostituem. Ao longo da música, fica claro o porquê de Elza ter inserido essa faixa no álbum: ela se enxerga na travesti – violentada, injustiçada, forte, persistente e guerreira, Benedita é uma verdadeira “mulher do fim do mundo”, como a própria Elza. E Elza não simplesmente largou essa faixa e saiu correndo: em entrevistas sobre o álbum, quando questionada sobre a faixa, ela não deixa de falar sobre a situação da comunidade trans no nosso país, revoltada com a violência que sofremos. Rainha mesmo, né? Isso sim que é sororidade. Em entrevista à TV Carta, disse “A mulher não tomou ainda o conhecimento que uma mulher ajuda a outra, que a gente precisa ter mulheres do nosso lado. Precisamos de amigas.”

A faixa “Firmeza” é uma conversa descontraída entre jovens amigos que “se trombaram” na rua, provando o quão contemporânea Dona Elza realmente pode ser, simulando naturalmente um diálogo cheio de “qualés” e “firmezas”. “Beleza mano, fica com Deus / Quando der a gente se tromba, beleza? / Você é mermão muleque”. Em “Dança”, faixa mais tranquila que as cinco anteriores, que dialoga com o tango, Elza retorna a questões existenciais e espirituais. “Daria a minha vida a quem me desse o tempo / Soprava nesse vento a minha despedida / … / E se eu me levantar, ninguém vai saber / E o que me fez morrer, vai me fazer voltar”.

Se o álbum abriu com duas músicas belíssimas, ele também encerra com três faixas tão belas quanto. A instrumentação de “O Canal” tem forte influência da música africana, que acompanha o tema da letra: uma jornada espiritual. “Solto” é a única faixa sem distorções, fora o prelúdio acapella do álbum, “Coração do Mar”. Descreve o processo de morrer: a alma se desprendendo do corpo. E, finalmente, fechando o álbum com chave de ouro, “Comigo” começa num crescendo de ruídos e distorções, construindo a tensão do ouvinte. Ao chegar na metade da faixa, o ruído de repente cessa, e a voz de Elza surge novamente num acapella belo e singelo, que encerra o álbum:

“Levo minha mãe comigo
Embora já se tenha ido
Levo minha mãe comigo
Talvez por sermos tão parecidos
Levo minha mãe comigo
De um modo que não sei dizer
Levo minha mãe comigo
Pois deu-me seu próprio ser”

O novo álbum de Elza é fogo, é melancolia, é sofrimento e é liberdade, como há de ser o samba, como é Elza Soares, e como é a mulher brasileira. Empodera, toca na ferida, é aquele tapa na cara que dói, mas nos faz acordar. Trata de racismo, de misoginia, de transfobia. A voz de Elza está rouca, rasgada, e sempre prestes a falhar, e exatamente por isso, mais bela do que nunca. É uma cicatriz que mostra a força que ela precisou pra enfrentar o que enfrentou, e é bela, como as marcas da idade no seu rosto. “Boto o passado todo num cantinho, guardadinho em mim, mas sabendo que o now está aqui. Ontem já foi, amanhã não sei. Então, tem que ser agora”.

Elza Soares é o olhar misterioso de Capitu, a casca grossa de Maria da Penha, o sorriso alegre de Carmen Miranda, o braço forte de Dandara, tudo junto. É daquelas mulheres que fazem História pra lembrar às mulheres do Brasil que esse país é nosso.

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Aria Rita em Capitolinas.

 


Na esteira dos movimentos dos moradores de São Paulo por mais e melhores espaços públicos, crescem também as mobilizações pela criação de novos parques e manutenção de áreas ameaçadas, resultando inclusive na criação de uma articulação, a Rede Novos Parques SP.

São organizações de moradores em todas as regiões da cidade, desde a Zona Leste (Parque da Vila Ema e da Mooca), à Zona Oeste (Parque Linear Água Podre), passando pela zona Zona Sul (Parque dos Búfalos) e Zona Norte (Parque da Brasilândia), só para dar alguns exemplos.

É verdade que alguns casos chamaram mais atenção da mídia, como o do Parque Augusta, localizado na região da Consolação, área central da cidade. Mas as lutas pelos parques estão presentes em áreas muito distintas da cidade, do ponto de vista da renda, da história e perfil social de seus moradores.

No processo de discussão da lei do zoneamento, a Rede Novos Parques está lutando pela demarcação de Zonas Especiais de Preservação Ambiental (Zepam) nas áreas objeto da mobilização. Gravar uma área como Zepam no zoneamento significa dizer que as condições ambientais dessa área deverão ser preservadas, mas não significa que a área se transformará imediatamente em um parque, muito menos público.

O caso do Parque Augusta é emblemático do que acabo de afirmar: trata-se de um terreno privado, dentro do qual se encontra uma área de Mata Atlântica tombada, e onde os proprietários desejam construir um conjunto de torres. Em 2014, com a aprovação do novo  Plano Diretor, a área foi gravada como Zepam.

Entretanto, a luta pela implementação de um parque 100% público continua! Neste momento, embora o projeto proposto pelas construtoras Setin e Cyrella para a área ainda não esteja aprovado, o terreno está cercado por tapumes, mesmo após uma decisão judicial ter definido que a área remanescente de Mata Atlântica que existe ali deve ser aberta e franqueada ao público.

Inclusive, o Organismo Parque Augusta, movimento que luta pela implementação do parque sem edifícios e 100% público, lançou uma campanha pela cobrança das multas devidas pelas construtoras pelo não cumprimento da decisão judicial.

Inúmeras vezes me manifestei assinalando a possibilidade que a Zepam oferece – nesta e em outras zonas semelhantes da cidade – de o proprietário doar o terreno para o poder público e transferir o potencial construtivo, em dobro, para outro local, o que constitui uma alternativa à desapropriação da área pela prefeitura. Trata-se de uma solução que não onera os cofres públicos e, ao mesmo tempo, compensa o proprietário.

Por essa razão, marcar uma área como Zepam é apenas o começo, e não o fim de uma luta por áreas verdes e parques. Mesmo equacionando o caráter público da área (via transferência, permuta ou desapropriação), ainda é necessário também investir em recursos para implementar o equipamento propriamente dito.

Além disso, é importantíssimo pensar a forma de gestão, se esta ficará totalmente a cargo do poder público ou se é possível desenvolver formas comunitárias e compartilhadas de gestão, envolvendo e comprometendo a comunidade que frequenta e utiliza o espaço.

O conjunto de questões, desafios e etapas aqui elencados apenas sinaliza que esses movimentos têm um longo caminho pela frente em suas lutas. Mas, como em outras mobilizações que estamos vendo pela cidade, esta só tende a crescer em número, força e densidade política, já que, de fato, a maior parte da cidade se constituiu sem espaços públicos e muito menos sem qualquer presença forte do poder público na sua implantação e manutenção.

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Raquel Rolnik, urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Artigo de seu blog, publicado originalmente no portal Yahoo!

 


Ao assumir a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da cidade de São Paulo, no início da gestão do prefeito Fernando Haddad, havia dois desafios eleitos pelos meios de comunicação para a pasta: Bolsa Família e população em situação de rua. Só nos questionavam sobre isso.

O primeiro deles foi resolvido com planejamento e estratégia. Em um estudo trabalhoso, mas muito eficiente, distritalizamos a pobreza e a extrema pobreza da cidade e iniciamos a busca ativa das pessoas. O resultado desta ação é que nossa meta de inserção de 228 mil famílias no programa Bolsa Família foi atingida em dois anos e meio, com 269.650 novas famílias, sendo que 194.148 delas estavam na linha da extrema pobreza, ou seja, renda per capita abaixo de R$ 74. Queríamos encontrar as famílias cuja vulnerabilidade era tão grande, que nem chegavam até nós, e conseguimos.

O segundo desafio, apesar dos significativos avanços, continua a ser imenso. Ampliamos a rede de acolhimento de oito para dez mil vagas, o que significa que há dez mil pessoas dormindo, comendo e sendo assistidas pelo poder público todos os dias. Mas mais importante que a quantidade é a qualidade destas novas vagas. Desde que assumimos, nossa preocupação foi criar espaços que atendessem a diversidade existente na rua. Afinal, temos pessoas com graves comprometimentos mentais, problemas de dependência química, egressos do sistema prisional, imigrantes, famílias recém-chegadas à rua e outras que já estão na terceira geração de rua.

Para as famílias, por exemplo, não havia oferta de saída a não ser de forma a separá-las.  Buscando atendê-las com dignidade, aprovamos, junto ao Conselho Municipal de Assistência Social, duas novas modalidades de acolhimento: o Família em Foco –para famílias muito comprometidas socialmente– e o Autonomia em Foco –para famílias ou pessoas sozinhas mais estabilizadas, mas que precisam de uma ajuda para conseguir sair da rede sócio assistencial de acolhimento.

Paralelamente, construímos com a Secretaria de Educação uma portaria que garante prioridade nas vagas de creches para as crianças cujas famílias estejam na linha da extrema pobreza do Bolsa Família. Com isso, conseguimos inserir as crianças filhas de famílias acolhidas, além de outras profundamente necessitadas. Vale aqui abrir parênteses para comentar uma triste, porém óbvia, realidade: ao cruzarmos a lista das famílias em extrema pobreza com a lista de espera de vagas da educação, o resultado foi que as crianças que mais precisam nem sequer estavam na lista de espera. A vulnerabilidade social dos pais é tão grande que a imensa maioria nem busca vaga na creche.

Quanto aos imigrantes, o recente fenômeno de chegada em massa à cidade nos levou a criar, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos, o primeiro acolhimento específico do Brasil. Trata-se de um acolhimento com alta rotatividade, para aqueles que chegam sem referência, mas que, com algum suporte, conseguem trabalho e moradia.

Outra preocupação foi com a população LGBT, que precisa ser incluída e aceita, mas que se queixava constantemente de discriminação e falta de privacidade nos acolhimentos. Para este grupo criamos espaços preservados e, para travestis e transexuais, inauguraremos até o final do ano um acolhimento exclusivo.

Por fim, visando atrair homens mais resistentes aos vínculos com a assistência social, criamos um complexo de três acolhimentos. O primeiro deles é de baixíssima exigência. Na medida em que a pessoa vai se comprometendo (e isto realmente acontece) e acha que está no tempo de assumir responsabilidades, passa para o segundo acolhimento, no qual se exige tratamento de saúde e capacitação para o trabalho e geração de renda. Uma vez cumprida esta etapa, a pessoa passa para o terceiro acolhimento, no qual é então preparado para sua saída da rede.

Mas o programa mais ousado e inovador foi, sem sombra de dúvida, o De Braços Abertos, que envolve diretamente as secretarias de Assistência Social, Saúde, Trabalho, Direitos Humanos e Segurança Urbana, com foco no cuidado com as pessoas em situação de rua com graves problemas de drogadição.  Na região da Luz, conhecida como cracolândia, a Prefeitura de São Paulo iniciou a oferta de acolhimento para as pessoas em hotéis, alimentação, atendimento de saúde e assistência social, capacitação e remuneração por 4 horas diárias de trabalho. Dentre as ações da Assistência Social no programa, podemos contar a emissão de mais de 500 documentos novos (RG e CPF), além do retorno familiar de 49 pessoas que refizeram os vínculos e voltaram para casa.

O último censo de população em situação de rua, contratado pela Prefeitura e realizado pela Fipe, foi divulgado em março deste ano e aponta a existência de 15.905 pessoas, isso contando os que estão efetivamente na rua e os acolhidos na rede sócio assistencial. Comparativamente aos censos anteriores, verifica-se que não houve um aumento desta população em relação ao número total de habitantes da cidade, sendo que a proporção de 0,1% se mantém.

A verdade é que a questão é muito complexa e precisamos pensar em caminhos preventivos, em soluções que envolvam direito à moradia e geração de renda. Cuidar das pessoas antes delas estarem em condição de rua é muito mais eficiente e barato do que cuidar delas depois desta situação consolidada, quando o resgate social fica mais difícil a cada dia que passam na rua.

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Luciana Temer é secretária de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo, doutora em direito pela PUC-SP e professora assistente doutora da Faculdade de Direito da PUC-SP. 

*Artigo publicado originalmente no UOL.

 


O ano de 2015 conseguiu juntar tanta notícia ruim, mas tanta notícia ruim, que a melhor coisa a fazer é esquecer dele e rezar para que 2016 seja um pouco “menos pior”. Essa é a média do que andamos vendo por aí nas conversas, na imprensa e nas redes sociais. Pessimismo, desencanto, abatimento, frustração. Todos torcendo para o ano acabar logo e coisas do tipo, como se o calendário gregoriano tivesse alguma culpa disso. 

Realmente não foi um ano fácil e a tal da crise veio mesmo – e olha que nem ele, o ano, ou ela, a crise, acabaram. Um olhar um pouco mais isento, no entanto, fará você perceber que muita coisa bacana e interessante também aconteceu durante o ano. É olhar o lado meio cheio do copo, sem por isso ser acusado de ser um alienado que não enxerga problemas ou um otimista irrecuperável. 

Houve uma série de notícias incríveis em 2015 no Brasil e no mundo: a prisão de “intocáveis” da República, o fim do financiamento privado nas eleições, a consolidação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), os avanços na COP-21, a Encíclica Papal da sustentabilidade, entre tantas outras. 

A lista abaixo, no entanto, colhida a partir de uma série de conversas informais, tem a ver com as novidades da nossa querida São Paulo. Sabendo que muita coisa vai ficar de fora e sem citar os nomes de vários grupos e projetos sensacionais (pelo simples fato de que daria uma Bíblia), vão aqui 10 razões para acreditar que 2015 foi um ano incrível para a nossa cidade:

1. Avenida Paulista aberta aos domingos.
 
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Ciclovia da Av. Paulista. Foto: Marcio Fernandes / Estadão.
 
Pode fazer o teste: quem diz que não gosta da Paulista fechada para os carros aos domingos muito provavelmente nunca passou por lá. A teoria dos hospitais (a de que o fechamento prejudicaria os acessos e as emergências) caiu por terra, o trânsito no entorno registrou impacto muito menor do que o esperado, o clima é de festa de parque no fim de semana e os comerciantes locais começam, finalmente, a perceber que a Paulista aberta ao público é um ótimo negócio. Até alguns agentes mais resistentes, como o Ministério Público, começam a ceder nesse sentido. A cidade ganhou uma nova e peculiar área de lazer. E olha que não é só a Paulista. Em breve, teremos avenidas abertas para o lazer da população, aos domingos, em cada canto da cidade.
 
2. Escolas ocupadas e a nova política 
 
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O rapper Criolo na Virada Ocupação. Foto: Bruno Santos / Folhapress.
 
Impossível não constar dessa lista o fato de um movimento de ocupação que começou pequeno, restrito a algumas poucas escolas estaduais, ter ganhado tamanha escala e acabar gerando a reversão de uma decisão do governo estadual, além da queda de seu secretário de Educação. Não importa se a decisão de reorganizar as escolas fazia, tecnicamente, sentido ou não (eu, pessoalmente, acho que fazia), ou da participação de movimentos políticos no meio desse barco, mas sim de impor decisões para a população sem a devida comunicação e debate, especialmente os diretamente afetados. Estamos assistindo a um novo modelo de democracia, que é participativa. E temos que nos acostumar com ela, gostemos ou não. 
 
3. Ocupações criativas do espaço público

AUAU

 Mutirão do Acupuntura Urbana no Glicério. Imagem: Acervo Acupuntura Urbana.

Nunca houve tanta ocupação do espaço público paulistano por movimentos, coletivos e projetos como em 2015. Em todas as regiões da cidade, da periferia ao centro, vimos uma verdadeira “invasão cidadã” (sim, porque ela melhora os espaços) nas ruas, praças e até nas vagas antes reservadas aos carros, tornando a cidade melhor e reforçando as diversas redes colaborativas que vêm transformando a cara de São Paulo. São revitalizações de espaços abandonados, intervenções artísticas e educativas, mobiliários urbanos temporários e permanentes, food-trucks, food-bikes, shows abertos, gente na rua. A cidade percebida como um espaço comum, não apenas um lugar de passagem.  
 
4. Ciclovias e redução de velocidade
 
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Ciclista na Av. da Liberdade. Foto: Willian Cruz / Vá de Bike.
 
Você acha que a implementação de ciclovias por toda a cidade foi feita apenas para atender demandas dos ciclistas? Errado. Elas também tornam as ruas mais seguras, silenciosas e convidativas, com diversas externalidades positivas, inclusive no comércio local. O mesmo vale para as reduções de velocidade nas principais vias da cidade, algo que as estatísticas sobre acidentes já começam a apontar como uma medida mais do que necessária (e atrasada). Houve falhas no processo? Ok. A Prefeitura é ruim em se comunicar? Ok. Mas não há mais como negar que a combinação de bikes e menos velocidade nas vias, combinadas a uma série de outras ações, deixaram o trânsito melhor e mais seguro em São Paulo. E que os paulistanos começam a descobrir, finalmente, que deixar o carro em casa em determinadas situações pode ser uma bela e saudável experiência. 
 
5. Alimentos orgânicos bombando
 
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Produção orgânica em Parelheiros. Foto: Blog Horta Orgânica em Casa.
 
Você já deve ter percebido que os alimentos orgânicos estão mais baratos e acessíveis. Isso não aconteceu por acaso. Houve uma proliferação das feiras e pontos de venda de orgânicos na cidade, impulsionados por uma maior demanda (as pessoas estão mais conscientes de sua alimentação) e pelo estímulo à produção familiar, que vem transformando o cenário da agricultura no Extremo Sul da cidade. Além, é claro, da tendência agora “cool” de cultivar diferentes tipos de hortaliças e frutas, em casa ou em hortas comunitárias nos espaços públicos, utilizando a compostagem (uma utilização quase “óbvia” para nossos resíduos orgânicos) de maneira efetiva. Quem planta, seus males espanta.  
 
6. A cor do graffiti
 
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O.bra Festival 2015. Foto: Brunella Nunes / Hypeness.
 
Há poucos anos, quem passava pelas avenidas 23 de maio, Cruzeiro do Sul, pelo Minhocão, notava apenas “outdoors” e placas e mais placas de anúncios publicitários. Em 2007, veio a lei Cidade Limpa (que certamente constaria na lista Top 10 daquele ano) e começamos a enxergar um mar de empenas e muros opacos, reforçando a aridez do concreto e do cinza paulistano. O que vemos agora – e 2015 foi um marco nesse movimento, com o maior número de projetos e obras realizadas – é a transformação da cidade incolor em cidade colorida, ocupada pelo graffiti e seus artistas. O chamado “graffiti art” transformou São Paulo, embelezando suas empenas, muros e paredes, em todos os bairros. E colocou a cidade entre as principais do mundo quando o assunto é arte urbana. Não notou? Olhe para cima.
 
7. Água e consciência
 
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Manifestação sobre a crise hídrica. Foto: Estadão
 
Muita gente vai discordar, alegando que bastou chover nessas últimas semanas e muita gente já relaxou na consciência de que a água é um recurso finito, que deve ser usado com cuidado. Não é bem assim: apesar do relaxamento em novembro e possivelmente em dezembro, o consumo de água por habitante consolidou o ano num patamar bem abaixo do registrado na época das vacas gordas, ou melhor, das represas cheias. Ainda estamos no cheque especial, muita coisa há de ser feita e a confiança nos gestores anda baixa, mas não há como negar que 2015 foi o ano em que a relação da população paulistana com a água definitivamente mudou. Conseguimos entender que usar a água de maneira irresponsável pode resultar na sua falta, é o ensinamento que a crise hídrica nos deixou. Infelizmente, não pelo amor, mas pela dor.
 
8. Novas 'viradas' pela cidade
 
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Virada da Saúde. Foto: Secom / PMSP.

A cidade que criou a Virada Cultural é um verdadeiro berço de novas “viradas”, caracterizadas pela coparticipação, gratuidade e diversidade de público e atrações. Não vou falar aqui – seria um arranhão ético imperdoável – da Virada Sustentável, que coordeno, ou da Virada Esportiva, já consolidada no calendário paulistano, mas de outras lindas viradas que surgiram em 2015: a Virada da Saúde, que agrupa projetos e pessoas com o objetivo de promover a saúde e o bem estar na cidade; a Virada Educação, já em sua segunda edição, trazendo às escolas o conceito de integralidade na prática; a recente Virada Ocupação, com shows de grandes nomes da música abrindo mão de seus cachês para apoiar as escolas ocupadas; e a própria Virada Cultural, mais descentralizada em 2015 e sem dúvida a melhor dos últimos anos. Só não vale “Virada Imobiliária”, uma ideia absurda de uma construtora que não tem nada a ver com essa tecnologia social genuinamente paulistana.
 
 9. Minhocão com fim de semana
 
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Minhocão. Foto: Felipe Morozini.
 
A notícia veio no começo de julho e pegou muita gente de surpresa: o Elevado Costa e Silva, popularmente conhecido como Minhocão, seria fechado também aos sábados para os carros, criando na prática uma área de lazer de fim de semana para o entorno de uma região que até hoje guarda cicatrizes expostas por tamanha intervenção urbana. Próximo da efervescência dos movimentos culturais e dos coletivos, o Minhocão foi logo ocupado com atividades e atrações (como um grupo de teatro que se apresenta nas janelas de um edifício para o público sentado na via, tamanha a proximidade) e é hoje um dos pontos mais modernex da cidade. Sem falar das incríveis empenas ocupadas pelo grafitti e paredes verdes. Os grupos que atuam na defesa do “Parque Minhocão” agora aguardam a possibilidade de um fechamento definitivo, criando um parque suspenso nos moldes do High Line Park de Nova Iorque.

10. Tecnologia para o cidadão
 
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Aplicativo SP Sem Carro. Imagem: reprodução / Facebook.

É claro que, nesse quesito, 2015 foi melhor do que 2014 e provavelmente será pior do que 2016, e assim sucessivamente, pelo simples fato de que cada vez mais usamos a tecnologia em nosso favor, especialmente nos aplicativos que levamos em celulares e outros portáteis. Agora começamos a usá-los também em favor das cidades. E 2015 trouxe novidades interessantes na área: aplicativos 12/12/2015 10 razões para afirmar que 2015 foi um ano incrível em São Paulo http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/andre-palhano/10-razoes-para-afirmar-que-2015-foi-um-ano-incrivel-em-sao-paulo/ 6/6 que orientam o cidadão a escolher o modal mais adequado de transporte para se deslocar sem carro em São Paulo, que indicam onde está faltando água ou que reconhecem e indicam as árvores frutíferas na cidade; plataformas de economia compartilhada que promovem trocas de produtos e serviços; ferramentas de pressão popular sobre os gestores públicos; mapas oficiais com informações em camadas permitindo maior transparência e controle social, entre tantas outras. O futuro chegou. 
 
E você, o que acrescentaria nessa lista?

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André Palhano é jornalista e fundador da Virada Sustentável. Artigo publicado em seu blog no Estadão.
 


Em 25 de maio de 2015, ouvi o locutor do rádio comemorando que São Paulo havia batido a marca dos 8 milhões de carros. 8 milhões – MILHÕES – de carros. Para você ter uma ideia de quanto carro é isso, existem 101 países no mundo que têm população (de pessoas) total inferior a isso. É carro pra caramba e, obviamente, trânsito para caramba. O recorde de trânsito em São Paulo foi de 293km – mais do que a distância daqui até Ubatuba. Cidades que priorizam o transporte individual sofrem com engarrafamento, poluição e stress. São Paulo logo logo vai parar.
 

Na capital mais dependente de transporte individual do mundo, pensar em formas alternativas de transporte é uma necessidade. Em uma cidade pensada para carros, andar de bicicleta é um ato político. Além de ser mais rápido (não acredita? Olha aqui, ó), menos estressante, não poluente e mais saudável, é mais responsável com a cidade e com o planeta.

Claro que ser ciclista em uma cidade voltada para o tráfico motorizado não é fácil. Os carros acham que você atrapalha o trânsito, os pedestres acham que você é parte do trânsito, o busão passa dando ventinho… Mas, ainda assim, cada vez mais pessoas vem acreditando que vale a pena usar a bicicleta como meio de transporte, e o número total de ciclistas tem crescido em diversas cidades do Brasil.

Contudo, em SP, as mulheres são menos de 6% do total das pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte – abaixo da (já baixíssima) média nacional, que é 7%. Ou seja: ser ciclista e mulher em São Paulo é integrar a minoria da minoria. Mas por que as mulheres não pedalam?

Acredito que existam diversos motivos, todos perpassando questões de gênero.Desde pequenas, as mulheres são ensinadas a evitar ruas escuras, a não andar sozinhas à noite, a não passear por aí sem companhia – na verdade, mais que isso: sem companhia masculina (por que um grupo de mulheres é entendido também como um grupo vulnerável).

Em cima da bicicleta, a situação não muda – talvez até piore. Se o ciclista homem já se sente vulnerável frente ao trânsito agressivo, a mulher tem que enfrentar ainda as violências específicas de gênero. Além das fechadas propositais, o assédio verbal, empurrões e xingamentos fazem parte do repertório da ciclista que se aventura pelas ruas e ciclovias da cidade. Se no imaginário do machista “dirigir não é coisa de mulher”, pedalar é pedalar é dar carta branca para a misoginia.

Mas não devemos ceder! Quanto mais mulheres pedalarem, mais a sociedade machista vai ter que entender que lugar de mulher é, sim, onde ela quiser – inclusive em cima da bicicleta. Pensando nisso, redigi esse manualzinho de sobrevivência da ciclista, baseado na minha experiência em SP – mas que pode servir para qualquer cidade. São dicas bem básicas que podem dar uma esclarecida sobre o cotidiano de uma mulher ciclista em um ambiente urbano, e dar aquele empurrãozinho em quem tem vontade de começar a pedalar:

Com a cara e com a coragem
A primeira dica é bem simples: VAI. Devido ao cenário que descrevi acima, muitas mulheres têm receio de se aventurar pela cidade em cima de uma bicicleta. Mas existe um dado básico sobre urbanismo e segurança pública que muitas vezes é esquecido: quanto mais pessoas na rua, mais segura esta rua se torna. Ou seja: quanto mais mulheres enfrentarem os medos e os tabus e subirem numa bicicleta, mais mulheres vão se sentir seguras a fazerem o mesmo. Então, vamos às ruas!

Se proteja
Sim, nós temos que juntar coragem e sair de bicicleta por aí – preferencialmente na ciclovia, e na ausência desta, ocupando a faixa de rolamento (e não, nunca, a calçada – mais pra frente eu explico por quê). Mas não se esqueça que ainda morre mais gente no trânsito do que por homicídio em SP. A cultura da bicicleta ainda está sendo construída no Brasil e, neste período de transição, muitos motoristas acreditam que as pessoas em cima da bicicleta são as responsáveis pelo trânsito caótico (de carros) que está atrasando a sua vida. Isso pode ser traduzido em acelerações desnecessárias perto de você, uma ultrapassagem apertada só para parar no farol ali na frente ou mesmo uma fechada “para essa ciclista aprender aonde é o lugar dela”. Mesmo que o carro em questão não te atinja fisicamente, o desconforto por se sentir em situação de perigo pode te desconcentrar e pode causar uma queda. Ou seja: use sempre – SEMPRE – capacete.

Pessoalmente, acho mais confortável o tipo casco de tartaruga, muitas vezes vendido como capacete de skate. Mas isso vai de gosto. Ajuste todas as paradas direitinho e tenha certeza que ele está bem fixo em sua cabeça. É sério. Se você perder o controle e cair no chão, ele pode salvar tua vida.

Além disso, invista alguma grana para pimpar sua segurança na bicicleta:sinetinha, luzinhas na frente, atrás e no capacete (as mais baratinhas custam cerca de 20 reais, tem capinha de silicone e funcionam com bateria tipo de relógio). Se possível, use um colete reflexivo. Luvinhas são boas para dias de chuva, por que evitam que sua mão escorregue no guidão.

Outra coisa importante: mantenha-se atenta. Pedalar ouvindo música é uma delícia, mas lembre-se que é extremamente importante manter a atenção no trânsito. Ouvindo música, a chance de você não ouvir um caminhão buzinando enquanto se prepara para te ultrapassar loucamente aumenta. Lembre-se que você é o elo mais frágil do trânsito sobre rodas. Se cuida.

Escolha sua bike com amor 
Escolher uma bike não é fácil. Existem milhões de modelos, faixas de preço, cores, acessórios, etc. Para não ficar muito louca e não se arrepender, é importante fazer uma boa pesquisa antes de comprar a tua companheira de pedal.

Nessa pesquisa, você vai descobrir que existem “bikes” e “bikes femininas” – que é simplesmente um nome idiota para bicicletas com o cano central mais baixo. O cano mais baixo é ótimo por que facilita subir e descer da bicicleta – coisa que você vai precisar fazer e muito se estiver pedalando numa cidade que não tem estrutura viária decente, te obrigando a descer para cruzar semáforos, subir na calçada e empurrar a bicicleta quando a rua ficar treta demais, entre outros milhões de obstáculos.

Para iniciantes pedalando em cidades com muitos desníveis – como SP – eu recomendo uma bicicleta de 27 marchas. As marchas vão te ajudar e muito a vencer subidas. Ame suas marchas.

É importante regular bem a altura do banco. Para descobrir a altura boa para você, fique de pé do lado da sua bicicleta: o banco deve estar encostando na sua cintura, bem ali no famoso pneuzinho. Por muito tempo, usei o banco super baixo, mas me ensinaram que era isso que causava as dores no joelho e na lombar. Se você nunca pedalou na vida, tente se acostumar desde o começo com o banco alto. Se você já se acostumou com ele baixo, vá subindo aos pouquinhos até chegar na altura correta.

Conheça as Leis de trânsito
Em que faixa você tem que ficar? De quem é a preferência? Como sinalizar uma virada? Para garantir sua segurança e a dos outros, é fundamental que você saiba qual deve ser a sua conduta no trânsito. O Vá de Bike fez um texto ótimo explicando como é que você deve se comportar.

Recomendo a todas que leiam, releiam e leiam de novo esse artigo. Conhecendo bem seus direitos, você está muito mais segura e preparada para enfrentar eventuais conflitos com motoristas.

Tente o diálogo. Se não der, reclame
Este ano eu comecei o longo processo de tirar uma carta de motorista (ainda não rolou nem começar as aulas práticas, mas um dia chego lá!). Durante todas as 20 aulas teóricas, em NENHUM momento o instrutor mencionou normas de conduta de e para ciclistas. Quando fui perguntar, ele disse que simplesmente não havia tempo hábil para abordar o assunto.

Na prática, isso significa que 100% dos motoristas NÃO TIVERAM nenhuma formação sobre como lidar com ciclistas na rua. Sendo assim, tenha paciência. Infelizmente, é sua função conhecer o código de trânsito e, quando necessário, tentar ensinar e dialogar com as pessoas que cometem infrações.

Por exemplo: você está atrasada para o trabalho, descendo uma ciclovia em uma ladeira de mão única que sobe. Bem perto de uma curva, você dá de cara com um moço na sua 4×4 estacionado na ciclovia sem o pisca alerta ligado, falando no celular.

O que fazer? Respire fundo, desça da bicicleta e vá falar com o cidadão. Explique calmamente que ao parar ali “por um minutinho só”, ele te força e sair da ciclovia e entrar em alta velocidade na contramão, colocando sua vida e a dos outros em risco. Se ele for uma pessoa razoável, vai pedir desculpas e sair de fininho, envergonhado de sua má conduta.

Contudo, sabemos que a maioria dos habitantes dessa maravilhosa cidade chamada São Paulo não são razoáveis. A situação descrita acima é baseada em fatos reais acontecidos com a minha pessoa: após abordar o cara calmamente e  sorrindo, recebi a seguinte resposta: “SUA PUTA MAL EDUCADA NÃO TÁ VENDO QUE EU ESTOU NO CELULAR? VAI INCOMODAR OUTRA PESSOA”.Ou seja: o cara está cometendo não uma, não duas, mas três infrações de trânsito e a “mal educada” é você – e o machista ainda te qualifica como “puta”, simplesmente por estar enfrentando ele.

Nesta situação, eu coloquei o meu melhor sorriso sarcástico na cara e disse “não se preocupe, ~senhor~, eu vou incomodar a agente da CET então, tá?”. Em seguida, me coloquei na frente do carro e comecei a tirar fotos da placa, de vários ângulos.

Ao fotografar o carro e o motorista, você a) está criando provas da infração e b) está expondo o motorista. Com as fotos em mãos, ligue 1188 – um canal da CET para emergências no trânsito (interferências na via, semáforos quebrados, rotas alternativas, veículos estacionados irregularmente) e faça a denúncia. Se possível, faça na frente do motorista (sempre tomando cuidado com a sua própria segurança. Não esqueça que vivemos numa cidade louca em tempos loucos). Mesmo que ele continue te xingando, ao te ver fazendo a denúncia, ele provavelmente será obrigado a ceder.

Ciclosolidariedade
Uma das coisas mais legais de ser ciclista é que as outras pessoas em cima de bicicletas são maravilhosamente simpáticas com você. Por se saberem minoria na cidade, as ciclistas tendem a reconhecer e se solidarizar. Não sei exatamente de onde surgiu isso, mas existe uma cultura de dar bom-dia para quem cruza com você na ciclovia – e tem coisa mais bacana do que começar o dia com um bom dia sincero de alguém que você não conhece?

Então, aceite ajuda e ajude as outras (e os outros também). Ciclistas mais experientes conseguem reconhecer ciclistas iniciantes e estão super disponíveis para dar dicas que possam te proteger e te ajudar a chegar sem perrengue aonde você precisa. Ao contrário dos motoristas, que pensam nos outros motoristas como trânsito, ciclistas se reconhecem como parceria de luta. Aceite os toques e agradeça, por que a pessoa a) provavelmente já passou por isso antes e  b) está realmente muito feliz de dividir o espaço com você.

Essa solidariedade ciclística é tão grande e bem organizada que existe até um site para isso: o Bike Anjo. Bike anjo é alguém que vai te acompanhar nas primeiras pedaladas pela cidade. Enfrentar a cidade sozinha pode parecer aterrorizante das primeiras vezes, e ter alguém experiente do seu lado pode te ajudar a segurar a onda até conseguir criar uma intimidade com sua bicicleta e com os seus trajetos.

Pedestres são amigos, não comida 
Na faixa de rolamento, você vai sentir na pele como é ser a base da cadeia alimentar. Mas não esqueça que existem pessoas mais frágeis que você: pedestres. Muitas vezes você ficará tentada a dar uma pedaladinha na calçada por conta do MonsterTruck que está ocupando a faixa da direita, mas seja educada e faça direitinho: se a rua ficar assustadora demais, desça da bike e retorne à posição de pedestre. Muitos pedestres reclamam que ciclistas “não levam multa então não respeitam nada”, e se sentem irritados de ter que dividir o já exíguo espaço das calçadas. Pense assim: como você se sente quando um carro invade a ciclovia? É a mesma coisa. Então, respeite a calçada como um espaço para pessoas a pé.

Pode saia, sim
Uma das mentiras mais disseminadas no mundo é: você não pode andar de bicicleta de saia. Existem inúmeras soluções para este problema. O mais simples de todos é: ande com um shorts ou uma legging na mochila. Vista ela antes de sair de casa e tire quando chegar no lugar. Pronto.

Caso você tenha preguiça de ficar carregando uma muda de roupa o dia todo, existe um truque ótimo com uma MOEDA e um ELÁSTICO DE CABELO para facilitar tua vida em duas rodas (em inglês, mas dá para entender pelas imagens).

No começo, eu me preocupava bastante com a minha roupa, preocupada com possíveis assédios. Com o tempo fui começando a me sentir mais segura em cima da bicicleta e hoje em dia pedalo com a roupa que estou, calça, short, saia ou o que for. A bicicleta se tornou para mim um meio de transporte como qualquer outro, onde eu uso roupas que usaria em qualquer outro. O corpo é meu, as pernas são minhas, e eu pedalo de saia se eu quiser. Ponto.

Banho de gato
Se você pretende usar a bicicleta como meio de transporte, vai suar. É fato. Mas com o tempo você vai perceber que isso não é tão dramático assim. Leve uma muda de roupa na mochila, faça paradas, beba água e assuma que sim, você é ciclista!

Aqui um videozinho (de novo, em inglês, desculpa!) explicando alguns truques para se manter apresentável depois de uma pedalada (mas, basicamente: tenha uma troca de camiseta – use lencinhos umedecidos – coloque uma bandana – se troque em um café)

A arte da gambiarra: carregando coisas
Um problema comum da ciclista: onde carrego todas as minhas tralhas????? Eu sou uma estudante de artes que está sempre, sempre e sempre carregando todo o tipo de tralha para cima e para baixo. Por um tempo, considerava impossível usar a bicicleta como meio de transporte por causa da quantidade de objetos que eu tenho que carregar no meu dia a dia.

Contudo, um dia, resolvi tentar e vi que para cada problema técnico existem milhões de gambiarras. Na minha bicicleta, eu tenho uma cestinha e umbagageiro, além de uma bolsinha de guidão para colocar o celular. Me incomoda um pouco pedalar com a mochila nas costas, então comprei um alforje – uma bolsa de um ou dois bolsos que você pendura no bagageiro, deixando as costas livres. A Alforjaria faz umas lindas <3

Para além disso, use sua criatividade: veja o que você tem ao seu redor e pense como aquilo pode ser usado para amarrar e carregar coisas. Cordas, barbantes, correntes, carrinhos de feira, caixa de feira, ganchos, gavetas…

Para se inspirar, você pode dar uma olhada no site Bike Hack (em inglês), ou no video “What Defines Duth Cycling”, que traz vários exemplos de pessoas pedalando com objetos grandes e enormes (só, por favor, IGNORE a parte em que eles não usam capacete. Você deve usar um capacete. Sempre. Use. Capacete.).

Importante: Sempre respeite o seu limite e se cuide. Lembre-se que Amsterdan é a capital da bicicleta, e em São Paulo pessoas jogam tachinhas nas ciclovias só por que sim. Ou seja, tenha bom senso. Também é importante fazer pequenos trajetos para testar a funcionalidade da sua gambiarra antes de encarar uma avenidona movimentada.

Espero que estas dicas esclareçam alguns pontos e dêem um empurrãozinho para as minas que estão querendo se aventurar pelo pedal. Como mulheres, temos que lutar diariamente para termos nossos direitos respeitados, e em cima da bicicleta não é diferente.

No início, eu sentia muito medo do assédio dos motoristas, chegando até a desistir de usar a bicicleta como meio de transporte em alguns trajetos (por ser escuro, por eu estar de saia, por não estar com disposição para ouvir agressões verbais caso cruzasse com um motorista desrespeitoso…).

Com o tempo, fui me apropriando da rua e, quando rola um perrengue, tento me focar naquilo que disse lá em cima: mais gente na rua significa uma rua mais segura. Mais mulheres na rua, significa uma rua mais segura para as mulheres. Ou seja: vamos pedalar de saia por ai!  A participação das mulheres no cicloativismo ainda é pequena, mas, juntas, podemos mudar este quadro.

Caso queira saber mais sobre o assunto, a ONG Ciclocidade montou um Grupo de Trabalho chamado GT Gênero, que se reúne ao segundo sábado de cada mês na para levantar mais dados sobre o assunto. E tem também o livro The Common Sense of Bicycling (também em inglês).

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Lidia Ganhito, 23 anos, é paulistana. Estudou Artes Visuais no Instituto de Artes da UNESP, aonde desenvolve a Oficina Colaborativa de Modelo Vivo. Blog: Eu, Tu, Elas.

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