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São Paulo São Ensaios

Praça Ramos de Azevedo, Rua 24 de Maio, Avenida Ipiranga, Rua 7 de Abril. Nesse quadrilátero aconteceu o de mais importante na cultura brasileira: o encontro entre o novo e o velho mundo.

Entre os desafios enfrentados pelas cidades, o da mobilidade é um dos maiores. As ineficiências nessa questão causam perdas econômicas expressivas, desperdiçam o tempo e energia das pessoas em deslocamentos de rotina e sobrecarregam a atmosfera com poluentes. A tendência das cidades de concentrar população e atividades econômicas apenas reforça a necessidade de se lidar com essa questão. A mobilidade tem que se dar de uma forma digna, rápida, confortável e econômica.

A rua é um local público por onde transita a população das cidades e, como tal, espaço livre essencial para a vida urbana, sendo determinado pela maneira como os lotes são ocupados e utilizados, delimitando a paisagem. Porém, a relação entre os espaços públicos e privados tem sofrido com interferências que grandes condomínios horizontais fechados, com seus muros altos, estão provocando no desenho urbano.

Você já parou para se perguntar por que será que os pedestres muitas vezes atravessam fora da faixa ou atravessam antes que fique verde para eles?  Seria ousadia? Folga? Por que, afinal? Sobre isso, cabem aqui algumas ponderações, pois como costumo dizer, nosso olhar atento sobre a cidade e o comportamento das pessoas ao se deslocar nos ensina bastante.  Pena que óbvias constatações demoram para guiar a efetiva construção de uma mobilidade urbana mais democrática.

Um detalhe importante: estou ainda falando de um universo no qual cabem faixas de travessia e semáforos (um luxo, não?).  Tais elementos, em geral, estão mais presentes na área central da cidade – caracterizada por ser mais adensada e ter maior circulação de modais - porque basta nos afastarmos um pouco para subitamente concluirmos que os pedestres precisam driblar traçados que os ignoram por completo e, lógico, andar sempre rápido - muito rápido –de uma calçada para outra porque os motores têm pressa!

Mas, voltemos à pergunta que abre o texto: a verdade é que muitas das faixas de pedestre (falo daquelas sem semáforo) estão bem distantes umas das outras e isso, naturalmente, é desestimulante. Assim, com o próprio dinamismo que envolve o pedestrianismo, a pessoa tende a atravessar fora da faixa para não ter que caminhar até aquela... tão distante. Sobre os semáforos (refiro-me àqueles acionados pela própria pessoa, ou seja, as botoeiras): em geral, vai um tempo longo (eu diria até mesmo desonesto) para que o vermelho se transforme em verde, não? A pessoa a pé, portanto, ao observar que veículos não estão vindo, tenderá a realizar a sua travessia ainda no vermelho por, definitivamente, saber que se cansará de tanto esperar sua vez!

Não defendo a pressa de forma alguma – aliás, um grande mal da atualidade e que cria problemas para além da mobilidade – mas, o fato é que a pé, de bike, moto ou carro todos estão apressados.  No entanto, já faz tempo que a pressa mais ouvida e “ditadora” é a que vem daqueles movidos a álcool, diesel, gás ou gasolina – estes é que prioritariamente têm, na cidade, a garantia de seu ir e vir com o máximo de fluidez, legitimada pelo próprio Estado visto que o espaço urbano traz desenhos e aparatos que os privilegiam.

Em resumo: quem segue movido à propulsão humana que vá com calma! Muita calma até mesmo para esperar a sociedade finalmente entender, inclusive, como funciona uma faixa de pedestre pintada no chão (aquelas sem semáforo no caso). Se ela está ali e, no meio-fio, uma pessoa, isso é o suficiente para que um motorista desacelere e pare. Certo? Mas, como ouvi dia desses: “olha, na faixa, você precisa dar um sinal, viu? Avisar que quer passar...”.

Seria uma invisibilidade urbana ou humana? Em terras onde a maior parte da população acelera diante de um sinal amarelo - em vez de recuar - posso afirmar que se trata de uma dupla invisibilidade.

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Federica Fochesato é educadora e jornalista. Artigo publicado originalmente no site Meon.

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