Os meninos do Uber vão nos atropelar - São Paulo São


Uma das mais inspiradoras conversas que tive sobre criatividade na semana passada foi com um motorista do Uber. O rapaz era sócio de uma pequena agência de mídia digital, um empreendimento focado no entendimento de padrões e algoritmos do negócio, com grandes chances de decolar. Nos momentos de desaceleração da agência, que afirma serem cíclicos, ele e os sócios desconstroem a experiência do Uber. Monitoram e analisam o serviço como monitoram seus leilões de mídia, sabem a que hora devem sair e onde devem estar na rua em cada dia da semana. Trabalham três horas por dia e fazem mais que qualquer motorista que eu já tenha conhecido. O objetivo do time é entender o ecossistema proposto pela plataforma e criar serviços agregados, o que eles já estão experimentando com algum sucesso.

Alguns dos motoristas que conheci encaram o trabalho de um jeito interessante. Um senhor bem-sucedido, empresário de cantinas italianas mata a saudade do tempo em que era motorista de táxi pilotando um Acura novinho pelas manhãs, enquanto seus negócios estão se preparando para o almoço. Um jovem com corte de cabelo bacana, meia-direita profissional no interior de São Paulo, que dirige um X nas férias, enquanto aguarda a documentação que vai resgatá-lo de volta ao seu antigo clube na Romênia.

Mas o assunto aqui não é o Uber, pelo menos não completamente. É sobre como nossa mente encara a realidade, elabora situações criativas a partir dela e como transformamos imaginação em novas realidades.

Desde criança, fui educado para cultuar a capacidade criativa da nossa gente, um talento sem pares principalmente na hora de encontrar soluções inesperadas e, de certa forma, improvisadas. Embora nosso raciocínio seja sempre meio circular e um tanto longo, somos mestres dos atalhos criativos — eles são como um jogo que dominamos melhor que ninguém e para o qual nos dedicamos com intenso prazer. Assim, nosso destino criativo está traçado desde o berço: numa centelha no momento exato vai nos trazer aquela ideia genial. Somos criativos, pronto.

Os norte-americanos, curiosamente, se enxergam de um ponto de vista ligeiramente diferente. Eles falam de invenção como falamos de criatividade. Parece o mesmo, mas não é. Eles têm um raciocínio mais direto e objetivo (talvez monótono para nosso gosto). Curtem bem mais pensar como suas ideias desdobram em sistemas do que procurar aquele fio solto nas coisas. Depois de criarem as regras, as seguem muito bem até criarem regras novas que mudam tudo, inventando tudo de novo. Um jogo diferente.

John Kao, mestre da inovação da Harvard Business School e consultor em Silicon Valley, falou da cultura de invenção naquele país em uma entrevista para o Smithsonian. Segundo ele, a receita cultural que levou a sucessivas ondas de renovação criativa é baseada em três pilares: o perdão pelo fracasso, a aceitação do risco e um apetite por ideias excêntricas. A avaliação dele é interessante e pode nos ajudar a entender onde a noção de criatividade daquela cultura começa divergir da nossa. Lá existe um sistema inteiro esticando aqueles valores ao máximo, cada parte sendo sustentada por outra numa dança que empurra a economia de invenção para seus limites.

A palavra que eu mais ouvi na época em que trabalhei em San Francisco foi mindset — mentalidade.

Para mim, o conceito se traduz na capacidade de perceber e entender o que está rolando neste processo gigante de transformação. O clique na cabeça que faz a gente perceber a nova ordem onde muitos enxergam o ruído.

É aí que a história dos meninos do Uber faz o maior sentido, na percepção das plataformas de negócio em que operam. Por isso, acredito que a agência deles vai acontecer, enquanto outros negócios aparentemente sólidos vão continuar perdendo energia: eles não querem reinventar o sistema, querem se agregar por um período e continuar aplicando o raciocínio serialmente em outros empreendimentos.

Em algum lugar entre a descoberta do atalho e a invenção das regras, moram milhões de possibilidades criativas, mesmo para aqueles que dirigem no trânsito louco de São Paulo.

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Mauro Cavalletti é head of creative shop do Facebook. *Artigo publicado originalmente no Meio & Mensagem.
 


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