Airbnb x Hotelaria: casaram-se sem saber - São Paulo São

Fala-se muito das economias colaborativas e o efeito que elas estão provocando em vários setores. Atualmente, em matéria de hospedagem, o case de sucesso indiscutível é Airbnb, startup conhecida no mundo inteiro que teve o maior crescimento no lapso de tempo desde a sua criação, em 2008, chegando a um valor de mercado de US$ 25 bilhões.

Quando o mercado de consumo reage desta forma não há argumento que resista, é um sucesso e ponto! Todo empreendedor sabe que é o consumidor que manda nos negócios e, se eles adotaram a forma de hospedar-se como Airbnb, um motivo tem!

Um mercado imobiliário excedente

Os proprietários dos imóveis em cidades como Paris ou Berlim possuem em média de 1,2 a 1,3 imóveis, registrando assim um número excedente à própria necessidade. Portanto, as cidades de maior fluxo de clientes Airbnb estão usufruindo de um verdadeiro mercado que estava em crise, o mercado do aluguel de imóveis. O maior fluxo de clientes, na realidade, não ocupa a ideia original de Airbnb, que é a de compartilhar sua casa com outros hóspedes, mas um verdadeiro mercado de aluguel de casas particulares. A decisão dos proprietários de entrar neste mercado é simples: garantia de pagamento; ausência de vínculo contratual com o inquilino; possibilidade de reajuste do valor do aluguel quando quiser e, ainda por cima, poder desfrutar de seu próprio imóvel quando necessitar. Quer mais do que isso?!

Estamos no “mundo Disney” dos proprietários de imóveis! O que era um mercado de aluguel temporário, existente e funcionando discretamente na informalidade, agora, funciona em plena luz do dia, sem medo de ninguém. Isso demonstra o poder que as economias colaborativas e disruptivas têm no mundo moderno, derrubam Leis e enfrentam políticos que ficam de mãos atadas, presos na burocracia do sistema administrativo.

Ranking das cidades de Airbnb:

 1) Paris - 78 mil casas.

2) Londres - 47 mil casas.

3) Nova York – 46 mil casas.

4) Rio de Janeiro – 33 mil quartos, casas e apartamentos.

5) Los Angeles - 26 mil.

6) Roma – 23 mil apartamentos e casas.

7) Copenhague – 26 mil casas.

8) Sydney – 26 mil casas.

9) Amsterdã – 17 mil casas.

Deficiência dos serviços hoteleiros, ou público esquecido?

Comparar Airbnb à hotelaria não é tão simples. Talvez a única coisa que eles tenham em comum seja o cliente potencial. Mas no restante, o modelo de negócio é completamente diferente. No caso de Airbnb trata-se de uma forma de “aposta”, oferecendo um serviço em uma determinada cidade, onde o investimento já foi realizado por terceiros, sem ter nenhuma responsabilidade contratual com o valor do imóvel. Se o mercado “vira”, ótimo! Caso contrário, troca-se de cidade sem muitos prejuízos.

Já no caso da hotelaria é o contrário, ele é diretamente ligado ao investimento imobiliário, criando assim, um laço físico com o destino ou a localidade.

O risco do hoteleiro é real, ele depende de projeções de público no tempo que não são flexíveis. Se um determinado bairro perde seu público corporativo, os hotéis ali construídos ficam sem hóspedes. Exemplo semelhante aconteceu no Rio Vermelho, em Salvador, em que até o tradicional Pestana fechou as portas! Se por fatores climáticos, poluição, ou mesmo desastres ambientais tornam uma praia imprópria para banho, os hotéis não conseguirão sustentar-se, como ocorreu no litoral do Espírito Santo, com o caso da lama da Samarco (Mariana). Resumindo, enquanto a hotelaria investe, Airbnb usa gratuitamente capital existente e ganha em mobilidade por não ter patrimônio imobiliário. Jogada de mestre, precisamos admitir!

O lado polêmico

O crescimento do mercado de Airbnb foi possível porque desafiou completamente todo tipo de legislação, seja referente às Leis do inquilinato ou às Leis tributárias e obviamente as regulamentações relacionadas à hospedagem de turismo que inclui controle de identidade dos hóspedes, regras sanitárias e de segurança, entre tantas outras. De forma geral, Airbnbn cresceu de forma tão acelerada que as autoridades nem perceberam, ou pior, não acreditavam no sucesso. Evidentemente, esse curto-circuito cria uma evidente situação de concorrência desleal no mercado.

Durante os jogos do Rio 2016, por exemplo, Airbnb almeja faturar R$ 247 milhões. A mesma receita gerada no ramo da hotelaria implicaria cerca de R$ 40 milhões em impostos. Neste caso, o valor vai ficar nos bolsos dos cariocas que estão felicíssimos! Aliás, vou morar no Rio. Pronto!

Como tentar resolver o imposto

Em grandes cidades, onde Airbnb vem sofrendo ataques mais árduos por parte das administrações locais, foram instituídos acordos, seja sob forma de taxa ou percentual sobre as reservas. A própria Airbnb está pagando para contribuir com a arrecadação de impostos que deveriam ser pagos pelos proprietários dos imóveis. Atualmente, locatários do Airbnb são taxados em uma dúzia de cidades nos Estados Unidos, incluindo uma bolada de 14% na reserva online em São Francisco e Washington DC. Paris e Amsterdã também cobram impostos do site. No Brasil, a proposta teria que ser aprovada pelo Congresso!

Nessa jogada de “toma-lá-dá-cá” o tempo passa e Airbnb virou “too big to fail”, grande demais para cair.

Casaram-se sem saber

Essas realidades econômicas vão ter que conviver juntas. Casaram-se sem saber. É importante que o imposto seja recolhido e que se pense numa forma de regulamentar o setor de locação no formato Aibnbn, porém, isso não vai mudar em nada a existência dessa nova modalidade de viajar. 

A vantagem de Airbnb não possuir imóveis e ser flexível ao decorrer do tempo pode se tornar desvantagem, pois ela não domina o produto que entrega dependendo sempre dos proprietários. Relacionamento esse que, ao logo do tempo, poderá sofrer algum tipo de "resfriado".  Enquanto Airbnb alega que cria um relacionamento de confiança com seus viajantes, vale lembrar que com os proprietários é puramente financeiro.

Os hotéis, por sua vez, deverão fazer um sério dever de casa. Vão precisar justificar o serviço oferecido e trabalhar os ambientes de outras formas. O perigo econômico para os hotéis deriva do fato de Airbnb focar nas estadias de três a sete noites, período esse indispensável a uma receita hoteleira saudável. Pernoites de uma ou duas noites que Airbnb recusa, não são de qualquer forma lucrativas nem para os hotéis. 

O poder público

É aqui que reside a verdadeira espada de Dâmocles. A hotelaria sofre inúmeras dificuldades administrativas enfrentando projetos de Leis que querem regulamentar o setor deixando-o sempre mais engessado. Na Câmara, tramitam projetos que tratam dos mais variados assuntos, tais como: necessidade de salva-vidas nas piscinas, insalubridade dos funcionários,  diária de 24h para o hóspede e assim por diante. São dezenas! Se o poder público continua engessando o segmento hoteleiro com esse constante aumento de regulamentações, os hotéis correm um sério risco de não poder reagir com a devida rapidez! É fato que não somos todos iguais perante a Lei.

Esse assunto é complexo e merece diferentes abordagens, que não cabem em apenas uma matéria. Fiquem ligados!

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Luigi Rotunno CEO do Grupo La Torre (Imoplanet Holding) no Linkedin.



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