Precisamos falar sobre gentrificação e ecossistemas de inovação - São Paulo São

Não é de hoje que eu falo sobre gentrificação. Porém, na última semana, duas reportagens em especial chamaram minha atenção para como o assunto está dando o que falar em dois lugares bem diferentes: na Califórnia e em Berlim.

O fato curioso é que ambos os casos podem ser resumidos basicamente pelo mesmo motivo: o risco de haver gentrificação nessas cidades se dá, em grande parte, em função do impacto dos ecossistemas de inovação na dinâmica imobiliária local.

Portanto, o objetivo deste post é refletir sobre como americanos e alemães estão enfrentando a questão, cada um à sua maneira.  Além disso: que lições podemos tirar dessas experiências, visto que este pode vir a ser um problema de cidades brasileiras que vem se destacando no cenário nacional de empreendedorismo e inovação?

O lado escuro da ensolarada Califórnia

A primeira reportagem, do The Washington Post, traz um triste relato sobre pessoas em situação de rua na Califórnia, cujo contingente já ultrapassou 134 mil. À primeira vista pode parecer um pouco apressado de minha parte responsabilizar a indústria tecnológica mais famosa do mundo pelo aumento do número de pessoas sem teto. Porém, não é exatamente de transferência de culpa que estou falando.

A reportagem descreve medidas polêmicas tomadas também pelo poder público, como a adotada recentemente pelo prefeito de São Francisco, Mark Farrell, de mandar derrubar tendas de moradores de rua em Mission District.

Uma mulher sem-teto descanda na grama em frente à Biblioteca Pública de Santa Ana, Califórnia. Foto: Philip Cheung / The Washington Post.Uma mulher sem-teto descanda na grama em frente à Biblioteca Pública de Santa Ana, Califórnia. Foto: Philip Cheung / The Washington Post.Sem entrar no mérito político deste imbróglio, convém lembrar que Mission District é um bairro operário historicamente habitado por trabalhadores latinos. Desde o final dos anos 90, sofre processos extremos de valorização imobiliária e aumento abusivo dos preços de aluguéis, em função especificamente da crescente demanda da comunidade tecnológica. Não por acaso o bairro carrega o estigma de “marco zero” da gentrificação em San Francisco.

Mas o quiproquó vai muito além do exemplo isolado de um bairro. A gentrificação em São Francisco é um fenômeno regional, ou seja, engloba não só a cidade como toda sua região metropolitana (a famosa San Francisco Bay Area). Incluindo também o famigerado Vale do Silício.

É o que garantem os pesquisadores do Urban Displacement, projeto que combina estudos sistemáticos sobre este tema. As pesquisas são desenvolvidas em parceria pelas Universidades da Califórnia em Berkeley e Los Angeles, com levantamentos bastante complexos que examinam a gentrificação em praticamente todo o território californiano.

Mural na Sycamore Street, Mission District de São Francisco, Califórnia. Foto: Andreas Weck.Mural na Sycamore Street, Mission District de São Francisco, Califórnia. Foto: Andreas Weck.

Para se ter uma ideia, em 2015, 62% das famílias de baixa renda dos treze condados da região viviam em bairros de risco ou já sofrendo processos efetivos de “expulsão” em função do boom imobiliário. Obviamente, nem tudo é apocalipse na Califórnia. Vale a pena, por exemplo, dar uma olhada neste estudo sobre medidas adotadas pelo poder público em East Palo Alto para conter o avanço da especulação imobiliária, embora a pressão por lá esteja cada vez maior.

Contudo, as sugestões apresentadas pelo Urban Displacement, somadas a reportagens como a do Washington Post, desenham um panorama bastante alarmante para a gentrificação associada ao setor de tecnologia e inovação: são 134 mil pessoas sem teto e duas décadas de gentrificação ocorrendo no estado que, sozinho, detém o 5º maior PIB do mundo.

Entusiastas que me desculpem, mas isso não pode ser exportado como case de sucesso, né?

Lá vem eles de novo… O contra-ataque social alemão

A segunda reportagem, publicada quase ao mesmo tempo pelo inglês The Guardian, fala sobre como os moradores de Kreuzberg, em Berlim, estão unindo forças para impedir que a Google inaugure um campus no bairro.

Protestos em frente ao prédio do futuro quartel general do Google. Foto: Lause 10 / Umbruch Bildarchiv.fuProtestos em frente ao prédio do futuro quartel general do Google. Foto: Lause 10 / Umbruch Bildarchiv.fu

O motivo do Google? Simples: Kreuzberg é tido como um dos bairros mais descolados da capital alemã (e talvez da Europa) por causa de sua riquíssima atmosfera cultural e criativa, constituindo o sítio ideal para a nova empreitada, que já é realidade em São Paulo, Madrid, Londres, Varsóvia, Seul e Tel Aviv.

O argumento dos moradores? Mais simples ainda: eles não querem que a Google torne Kreuzberg uma “Mission District europeia”. Isto é, em relação à expulsão de moradores antigos em função do inevitável aumento dos aluguéis e do custo de vida que a construção do Google Campus traria à região. Além disso, há consenso quanto ao potencial que a cultura empreendedora possui para modificar dinâmicas da própria cultura local que, antes de qualquer coisa, é a principal responsável por ter tornado Kreuzberg o bairro vibrante que é.

Tanta resistência possui embasamento: de acordo com um estudo citado na reportagem, o preço médio dos aluguéis aumentaram 70% no período entre 2004 e 2016 na capital alemã. Pesa contra, também, o fato de empreendimentos do ecossistema de inovação berlinense serem frequentemente associados a bairros onde o boom imobiliário é verificado.

O exemplo de Berlim é curioso porque a própria cidade abriu vanguarda no combate à gentrificação em 2015, quando tornou-se a primeira cidade a ter legislação específica para controle de aluguéis, seguindo uma lei aprovada no parlamento alemão que hoje é praticada em mais de 300 cidades no país. Basicamente, esta lei proíbe os proprietários de imóveis de cobrar aluguéis 10% acima da média local.

Google go home: moradores de Kreuzberg, bairro de Berlim, lutam contra a gigante de tecnologia. Foto: Sean Gallup / Getty Images.Google go home: moradores de Kreuzberg, bairro de Berlim, lutam contra a gigante de tecnologia. Foto: Sean Gallup / Getty Images.

De acordo com outra reportagem, a polêmica lei ainda enfrenta muita resistência e não “pegou” por inteiro, embora a prefeitura berlinense sustente o argumento de que os resultados da medida serão mais visíveis a médio prazo. Por outro lado, um estudo recente descobriu que em bairros onde os aluguéis têm crescido de forma mais drástica, a lei funciona bem.

Assim como São Francisco, Berlim enfrenta problemas para controlar o touro raivoso do mercado imobiliário. Em que pese a gentrificação persistir em ambas, o destaque da experiência alemã está nas tentativas: tanto do poder público em controlar o avanço dos aluguéis, quanto da organização da sociedade em prol de seus interesses.

Que lições podemos tirar dessas experiências?

Florianópolis é a segunda capital mais empreendedora do país segundo um estudo realizado pela Endeavor. Foto: Daniel Wiedemann / Shutterstock.Florianópolis é a segunda capital mais empreendedora do país segundo um estudo realizado pela Endeavor. Foto: Daniel Wiedemann / Shutterstock.

É preciso considerar que somos o 6º mercado mundial de Tecnologias da Informação e Comunicação, tendo movimentado mais de 49 bilhões de dólares neste setor em 2017. Na prática, quero dizer que ecossistemas de inovação já são realidade e ditam a economia local em diversas cidades brasileiras. A começar pela minha querida terra natal, Florianópolis, que em 2015 movimentou R$ 4,3 bilhões neste setor, consolidando-se como a segunda melhor cidade do país para empreender (atrás apenas de São Paulo).

Um primeiro passo desejável neste sentido seria as próprias cidades estarem à frente do problema da gentrificação, pois o conflito é inevitável. Compreendê-lo de maneira ampla e preventiva ajuda a encará-lo com a naturalidade que lhe é intrínseca.

A experiência californiana nos presenteia com trabalhos acadêmicos de fôlego. Os alemães nos inspiram com sua capacidade legislativa e de mobilização social frente às pressões dos grandes interesses. Talvez a grande lição (e desafio) reside exatamente em reproduzir essas potencialidades e construir uma força colaborativa genuinamente capaz de promover desenvolvimento econômico local sem comprometer premissas básicas de uma cidade sustentável, como aluguéis a preço acessíveis. Não pode ser tão difícil, né?

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Por Emannuel Costa no COURB Brasil