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Enclave de Mata Atlântica na zona sul da capital é analisado por especialistas, que identificaram nos últimos anos 157 espécies de aves, 25 de répteis e anfíbios e 29 de mamíferos; convivência com vida urbana exige construção de mais pontes. Foto: USP Imagens.Enclave de Mata Atlântica na zona sul da capital é analisado por especialistas, que identificaram nos últimos anos 157 espécies de aves, 25 de répteis e anfíbios e 29 de mamíferos; convivência com vida urbana exige construção de mais pontes. Foto: USP Imagens.

Uma ilha verde, cercada de concreto e asfalto por todos os lados. No entorno do Zoológico de São Paulo, na zona sul paulistana, um resquício de Mata Atlântica é o lar de 236 espécies de animais. 

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.Nesta quinta, acontece o lançamento do livro Mbaé Kaá (Dantes Editora), de João Barbosa Rodrigues (1842-1909), com ilustrações de jovens Guarani, do Parque Jaraguá, na Casa do Povo, a partir das 19h30. O livro, que foi publicado pela primeira vez em 1905, conta com novas notas e traduções, além de novas ilustrações.  No evento, acontece também uma conversa aberta conduzida por Ailton Krenak sobre os saberes indígenas. 


A publicação é uma defesa do conhecimento nativo diante do meio científico. Mesmo com o vocabulário da época e das perspectivas do inicio do século portanto, defasadas, é um livro fundamental que reconhece a sabedoria indígena no Brasil e no mundo.

João Barbosa Rodrigues nasceu em 1842 durante o Império, no Rio de Janeiro. Foi professor de desenho no ColégioImagem: Reprodução.Imagem: Reprodução. Pedro II, diretor do Museu Botânico do Amazonas, em Manaus, e diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde trabalhou até morrer em 1909. Realizou diversas expedições, entre elas uma no vale do Rio Amazonas, de 1872 a 1874, com o objetivo de complementar os estudos sobre palmeiras de von Martius. A pesquisa de campo era tão importante em sua carreira que criou no Jardim Botânico, o cargo de naturalista viajante. 

Publicou Sertum Palmarum Brasiliensium, em 1903, uma obra impressionante em dois volumes contendo 389 espécies de palmeiras ilustradas e seus usos descritos. Falante do tupi antigo, do nheengatu e do guarani, em 1905 publica Mbaé Kaá, Tapyiyetá Enoyndaua.

Barbosa Rodrigues  teve rica experiência entre diferentes sociedades. Fez estudos e ilustrações detalhados de plantas e dos ambientes onde ocorriam. Aliando essas experiências às leituras, experimentos em laboratórios e trocas com seus pares, defendeu a hipótese de que as denominações das plantas não eram fruto da união arbitrária de características, mas de uma lógica apoiada em observações aceitas e legitimadas pelos nativos, que seguiam um método para classificação das plantas. O tema é detalhado no seu livro Mbáe Kaá-Tapyiyetá Enoyndaua. No cenário de afirmação de uma ciência brasileira, ele defendia a importância da classificação botânica indígena, cujo entendimento só seria possível pela convivência com os índios, com o entendimento da língua e conhecimentos botânicos.

O livro

Imagem: Dantes Editora / Reprodução.Imagem: Dantes Editora / Reprodução.

Mesmo dentro do vocabulário da época e das perspectivas do início do século é um livro fundamental para apoiar o reconhecimento da sabedoria indígena no Brasil e no mundo. A Dantes, buscou atualizar essa memória, e esticá-la aos dias de hoje, ao epicentro que é o Jaraguá, uma aldeia urbana do povo Guarani em plena cidade de São Paulo. A nova edição livro foi ilustrada por crianças, jovens e adultos Guarani durante uma oficina em setembro de 2018 na aldeia Pyau. Foram também elaboradas novas notas. A apresentação é assinada por Sergio Besserman e a introdução por Fabio Rubio Scarano.

Independentemente de onde você mora ou trabalha e com quem você interage, você geralmente passa pelos mesmos bairros e ruas da sua cidade. Seja em Santiago, Madri, Xangai ou Nova York, certamente há bairros onde você nunca esteve, não importa o quanto você tenha vivido toda a sua vida na mesma cidade. Você realmente já pensou em quantas cidades existem na sua cidade?

Villa Savoye, projeto de Le Corbusier, tombado pela Unesco, em Poissy (Yvelines), 1928. Foto: Cemal Emden. Villa Savoye, projeto de Le Corbusier, tombado pela Unesco, em Poissy (Yvelines), 1928. Foto: Cemal Emden.

"Quais foram os primeiros marcos do trabalho de Le Corbusier? Como Jane Jacobs influenciou outros urbanistas a partir da década de 1960? Quais as mudanças que o Brasil teve nas cidades com a chegada da Família Real portuguesa em 1808? Essas e várias outras perguntas sobre a história do urbanismo mundial são respondidas na plataforma “Cronologia do Pensamento Urbanístico“, criada por pesquisadores brasileiros.

Criado em 2003 por duas equipes de pesquisa, uma na Universidade Federal do Rio de Janeiro e outra na Universidade Federal da Bahia, o site Cronologia do Pensamento Urbanístico reúne eventos históricos, publicações, projetos e fatos relevantes na história do urbanismo no Brasil e no exterior.
Visão do Rio de Janeiro colonial de Debret. Imagem: Reprodução.Visão do Rio de Janeiro colonial de Debret. Imagem: Reprodução.

“A pesquisa completou quinze anos de desenvolvimento contínuo. Nosso foco principal é a formação de jovens pesquisadores (iniciação científica, mestrado e doutorado) no campo da história das cidades e do urbanismo, e nosso principal produto de divulgação é o site. Estamos na quinta versão desta plataforma digital que tem se convertido, cada vez mais, em importante fonte de informações sobre o campo do urbanismo no Brasil e no exterior”, disse a coordenadora da equipe da UFBA e cofundadora do projeto Paola Berenstein Jacques.

Pensado inicialmente como uma ferramenta pedagógica e de trabalho utilizada no processo de formação de jovens pesquisadores, o site se tornou um instrumento mais amplo de sistematização e divulgação de informações sobre o urbanismo.

Imagem: Reprodução / Cronologia do Pensamento Urbanístico.Imagem: Reprodução / Cronologia do Pensamento Urbanístico.

De acordo com Paola Berenstein Jacques, a plataforma recebe cerca de 8.000 visitantes por mês, o que perfaz uma média de 95 mil visitas por ano. “A cada mês, o número de acessos cresce 30%, sem qualquer divulgação além de nossas apresentações em eventos de nosso campo de estudos”, disse.

Desde a sua criação, o projeto recebeu auxílio financeiro do CNPq por meio de editais. A rede de pesquisa envolvida no site conta atualmente com equipes em cinco grandes instituições públicas de ensino superior no país: UFBA, UFRJ, UnB, UFMG e Unicamp.

Como navegar

Na página inicial, uma série de pontos coloridos interligados – chamados pelos pesquisadores de “nebulosas do pensamento urbanístico” – constitui a primeira forma de se explorar os verbetes da base de dados.

Imagem: Reprodução / Cronologia do Pensamento Urbanístico.Imagem: Reprodução / Cronologia do Pensamento Urbanístico.

As cores diferenciam o tipo de conteúdo (os pontos azuis são projetos, os amarelos, publicações, os vermelhos são eventos e os verdes, fatos relevantes) e as linhas unem elementos que possuem algum tipo de correlação. A página exibe três itens em destaque por vez.

“Desse modo, por exemplo, ao avizinharmos a publicação do livro ‘Precisões’, por Le Corbusier em 1930, com a inauguração de Brasília, em 1960, com a publicação do livro ‘Morte e vida das grandes cidades’, em 1961, pela Jane Jacobs, nos foi possível a construção de um nexo a partir dos próprios documentos históricos que desse sentido a essas aproximações”, explica ao Nexo o pesquisador da equipe da UFBA dedicada ao site, Dilton Lopes.

Para Lopes, “as nebulosas oferecem ao usuário a possibilidade de construírem seus próprios nexos e encontrarem novas questões e sentidos”.

Para ser remetido a um conteúdo específico, basta passar o mouse sobre os pontos e clicar naquele que interessar, selecionando, na janela que abre em seguida, o quadrado verde com uma letra “v”, usado para abrir o verbete. Também pode-se clicar nos ícones dos destaques da página para acessar seus respectivos verbetes.

A construção de Brasilia no final da década de 1950. Foto: Thomas Farkas.A construção de Brasilia no final da década de 1950. Foto: Thomas Farkas.

É possível, ainda, navegar pelas informações do site por século e década, dispostos em uma linha do tempo. Para isso, deve-se clicar em um dos quadrados da página inicial que contêm datas. Eles dão acesso a uma tabela cronológica preenchida com os registros do período, e pode-se rolar a página para os lados, avançando no tempo, ou para baixo, passando por diferentes regiões brasileiras e continentes.

O projeto foi concebido como um portal em que cada dado inserido leva, por meio de páginas secundárias e links, a vários outros tipos de informações correlatas. Essas informações podem ser imagens, no caso de projetos; resenhas, no caso de livros, ou até mesmo outros sites ou textos cedidos por pesquisadores ou profissionais da área que contenham informações relevantes para o aprofundamento dos saberes e da crítica sobre o saber urbanístico.

A disposição dos dados em uma linha do tempo permite confrontar informações, identificar as temáticas dominantes em diferentes períodos e visualizar a circulação de conceitos, ideias e pessoas – como artistas ou técnicos – de uma região a outra, redes complexas que construíram e ainda constroem o pensamento urbanístico.

Em 5 destaques

Cronologicamente, as primeiras inscrições do site datam de 1808. É o ano da Abertura dos Portos Brasileiros ao comércio com as “nações amigas” e da publicação de um livro, na Itália, chamado “Su l’architettura e su la nettezza delle città. Idee” (“Sobre a arquitetura e a limpeza das cidades. Ideias”), do autor Vincenzo Marulli. A pedido do Nexo, o professor e pesquisador da UFBA e moderador do site, Leandro Cruz, indica e comenta, abaixo, alguns verbetes do site:

1955 - Admar Guimarães publica “A Carta de Atenas (Urbanismo dos C.I.A.M.)

Imagem: Reprodução.Imagem: Reprodução.

“Por dar visibilidade a uma versão pouco conhecida do documento dos CIAM [Congresso Internacional da Arquitetura Moderna], produzida por um professor.” Tratava-se de uma declaração de princípios do urbanismo moderno, de autoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier, ainda inédita no Brasil.

1957 - Concurso para o Plano Piloto de Brasília - Joaquim Guedes

“Por dar visibilidade a uma proposta menos conhecida dentre as demais que foram submetidas ao concurso do Plano Piloto da nova capital.”

1966 - Projeto do Previ (Proyecto Experimental de Vivienda)

Proyecto Experimental de Vivienda. Fonte: The John Turner Archive.Proyecto Experimental de Vivienda. Fonte: The John Turner Archive.

“Pela relevância da proposta, de alcance mundial. Esforço de aproximar as atividades da cronologia com a produção no território latino-americano.” Idealizado em 1966 pelo então presidente do Peru, o arquiteto Fernando Belaunde Terry, o Previ (Proyecto Experimental de Vivienda) “foi, e ainda é, um marco no debate de moradia popular na América Latina”, segundo o site.

1972 - Complexo Gallaratese em Milão. Autores: Carlo Aymonino, Aldo Rossi e outros

“Pelo levantamento extenso em periódicos da época, buscando material pouco conhecido sobre a obra em questão; por evidenciar a ocupação do prédio, recém-inaugurado, pelo movimento de luta por moradia na Itália (um dado, em geral, negligenciado pela historiografia).” O Complexo Residencial Monte Amiata – mais conhecido como Gallaratese, por conta do bairro onde foi implantado – teve suas obras finalizadas em 1972. 

Conjunto habitacional Gallaratese". Foto: Gili Merin.Conjunto habitacional Gallaratese". Foto: Gili Merin.

Realizado a partir de um acordo entre a Prefeitura de Milão e a empresa Monte Amiata Società Mineraria per Azioni, com o objetivo de urbanizar e habitar uma zona da periferia de Milão, teve seu projeto iniciado ainda em 1967, coordenado pelo Studio Ayde (Carlo Aymonino e Alessandro De Rossi), que convidou o arquiteto Aldo Rossi para a elaboração de um dos cinco blocos do complexo.

1979 - Dinah Guimaraens e Lauro Cavalcanti publicam “Arquitetura Kitsch Suburbana e Rural

Páginas do livro "Arquitetura Kitsch Suburbana e Rural". Imagem: Reprodução.Páginas do livro "Arquitetura Kitsch Suburbana e Rural". Imagem: Reprodução.

“Por se tratar de importante produção teórica nacional que tensiona o cânone estabelecido da arquitetura moderna e se aproxima dos debates da Antropologia, Semiótica e das Artes Visuais”. Em "Arquitetura Kitsch Suburbana e Rural", os autores constroem uma leitura sobre o Kitsch a partir da autoconstrução encontrada no Estado do Rio de Janeiro. Mostram que esta produção sem arquitetos tanto lida com os padrões da "arquitetura oficial" quanto consegue também impor um universo próprio de referências.

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Por Juliana Domingues de Lima no Nexo Jornal. Edição: São Paulo São. © 2018 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.