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Cinema da Praça / Arquipélago Arquitetos. Foto: Pedro Napolitano Prata.Cinema da Praça / Arquipélago Arquitetos. Foto: Pedro Napolitano Prata.

A ocupação territorial responde a uma série de fatores e é a partir do desenvolvimento econômico e da distribuição de renda, trabalho e serviços no território que vemos cidades crescerem e se espalharem. Bairros e regiões vão sendo transformadas pouco a pouco, como resposta aos modelos econômicos atuais. Essa lógica cria vazios urbanos em forma de construções completas, dotadas de toda infraestrutura, e mesmo assim desocupadas ou subutilizadas. A trajetória dos centros antigos e dos cinemas de rua ilustra essa lógica e nos faz refletir sobre como lidar com esses desafios da cidade contemporânea. 

Cine Marrocos no centro de São Paulo. Foto: Alice Brill Czapski /  IMS.Cine Marrocos no centro de São Paulo. Foto: Alice Brill Czapski / IMS.

Entre as décadas de 1900 e 1930, os cinemas de rua começaram a ser inaugurados nas cidades brasileiras, como a primeira sala de cinema de Belo Horizonte no Teatro Paris, de 1906, e o Cine Art Palácio em São Paulo, de 1936. Territorialmente esses espaços eram localizados nos centros das cidades, em terrenos valorizados e apresentavam uma arquitetura imponente. Existindo nas capitais e também no interior, esses espaços de encontro e de socialização tiveram seu auge durante as décadas de 1930 e 1960.  

Seguindo a mesma toada dos antigos teatros, os cinemas de rua concentravam as pessoas e movimentavam as ruas, sendo uma das principais atividades de lazer da época e definindo territorialidades. Implantados próximos uns dos outros, a grande concentração de cinemas e de outros serviços relacionados a essa atividade, como produtoras, bares e cafés, ganhou o nome de cinelândias, tornando-se os pólos cinematográficos das grandes cidades. Em São Paulo, por exemplo, essa atividade caracterizou por certo período avenidas centrais como São João e Ipiranga, ao mesmo tempo que, respondendo à iminente crise econômica e à desigualdade social latente, definiu também regiões como a Boca do Lixo. 

Shopping Iguatemy., o primeiro shopping center da cidade de São Paulo. Foto: São Paulo em Foco.Shopping Iguatemy., o primeiro shopping center da cidade de São Paulo. Foto: São Paulo em Foco.Historicamente, a Boca do Lixo tem sua origem nas décadas de 1910 e 1920 como uma famosa região degradada e ocupada por prostitutas e outros grupos marginalizados. Com a ascensão do cinema nacional, e da consequente contracultura, essa região atraiu artistas e produtoras, sendo berço de importantes produções audiovisuais nacionais, como o cinema marginal e, posteriormente, as pornochanchadas. A vivência dos cinemas de rua das cinelândias e a contracultura da Boca do Lixo se cruzavam territorialmente e conviviam, até a decadência dos cinemas, quando a degradação se expandiu por todo o centro. 

Com a chegada da televisão e do VHS e o crescimento populacional, relacionado ao consequente crescimento e espalhamento das cidades, os cinemas de rua começam a enfrentar dificuldades. A decadência teve início na década de 1970. Neste momento, cidades como São Paulo passavam por uma transformação em seu território. O centro da cidade ia se esvaziando de comércios e serviços, que migravam para outras regiões ou ainda para os recém chegados shopping centers. 

Manifestação contra o fechamento do Cinema Belas Artes em São Paulo. Foto: Fora do Eixo.Manifestação contra o fechamento do Cinema Belas Artes em São Paulo. Foto: Fora do Eixo.

Dessa forma, os cinemas de rua se transformaram: por um lado a atividade se transportou para dentro dos shoppings centers, transformando-se na tipologia que conhecemos hoje. Por outro, os esvaziados cinemas de rua se tornaram pouco a pouco vazios urbanos. Nas cidades pequenas, muitos desses cinemas foram consumidos pelo mercado imobiliário, sendo demolidos e apagados do território. Nas grandes cidades, algumas dessas estruturas resistiram, ocupadas com cinemas pornô ou vazias e imersas em uma região central degradada. Poucos são aqueles que resistiram e se mantém como cinemas de rua – e quando isso ocorre, é geralmente a partir de investimentos públicos e privados. 

Cineroleum / Assemble. Foto: Cortesia de Assemble.Cineroleum / Assemble. Foto: Cortesia de Assemble.

Considerando que muitos estão localizados em terrenos centrais com acesso a transporte público e infraestrutura, o resultado desse processo nos centros das cidades envolve uma série de edifícios e áreas construídas que não cumprem com sua função social. Essa lógica se expande para comércios, hotéis e todas as atividades que, em parte, foram sendo absorvidas pelos shopping centers e em parte deslocadas para outras regiões. Com um grande contingente construído e sem função social, ao mesmo tempo que observamos a necessidade de se tomar decisões mais conscientes – em termos ambientais, econômicos e sociais – sobre como e o que construir nos próximos anos, é preciso refletir sobre como incorporar esse tipo de vazio urbano ao tecido e à vida da cidade atual.  

Eletroteatro Stanislavsky / Wowhaus. Foto: Ilya Ivanov.Eletroteatro Stanislavsky / Wowhaus. Foto: Ilya Ivanov.

Dessa forma, é importante que consigamos entender cada vez mais a arquitetura como ferramenta de transformação espacial que responde às demandas da sociedade, o que não implica em trabalhar a partir do inexistente, mas sim, do pré-existente, como é o caso de projetos como Cineroleum na Inglaterra, projetado pelo Assemble, que transforma postos de gasolina em cinemas de rua, ou ainda o Cinema da Praça, do Arquipélago Arquitetos, e o Eletroteatro Stanislavsky, deWowhaus, que restauram antigos cinemas de rua.

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Este artigo de Giovana Martino é parte do Tópico Reabilitações publicado originalmente no do ArchDaily.

Um grande paralelepípedo de concreto desperta a atenção de quem passa, é a casa Butantã, uma construção cinquentenária, projetada por Paulo Mendes da Rocha para sua própria residência. Nascido em 1928 e falecido em 2021, o arquiteto ocupou posição de destaque no cenário da arquitetura brasileira e, em 2007, foi o ganhador do prêmio Pritzker, considerado o Oscar da categoria.

Muito do que Mendes da Rocha aplicava em seus projetos está na casa construída entre 1964 e 1967, em São Paulo. Nela, o arquiteto incorporou (quase) todos os princípios que fundamentavam o ideário moderno e transformou-a em um verdadeiro laboratório, onde a franqueza no emprego do concreto armado, deixado sem revestimento, expressa seus atributos de rudeza, austeridade e força.

Mas na Butantã o arquiteto foi além: utilizou o concreto não apenas como estrutura, mas na totalidade da construção das vedações externas ao mobiliário e seu “brutalismo” se manteve intacto. Atualmente em processo de tombamento, a casa encontra-se em perfeito estado de conservação e é moradia de seu filho, o fotógrafo de cinema, Lito Mendes da Rocha.

Forma por forma

Construída em um lote de esquina com 760 m², a residência é uma caixa de concreto elevada do solo sobre pilotis, que cria uma área livre com 250 m², utilizada para o abrigo de carros e dependências de empregados. O número de pilares é reduzido, são apenas quatro, solução que não visava uma “ginástica estrutural”, mas a economia para as fundações que o solo encharcado e arenoso exigiria.

Dois planos sobrepostos definem a empena cega do pavimento superior da casa Butantã.Dois planos sobrepostos definem a empena cega do pavimento superior da casa Butantã.

Todo o programa da casa se desenvolve no pavimento superior. Trata-se de um volume simétrico, com duas faixas contínuas, envidraçadas e protegidas por largos beirais. Estes elementos se destacam nas fachadas: um deles em especial, pelo prolongamento das vigas que formam o pergolado para a proteção, que se converte em elemento dotado de riqueza plástica.

Nas laterais, duas grandes empenas cegas, cada uma com 21 m, foram sobrepostas ao volume inferior e apoiadas laje de cobertura. Uma delas “espia” pela janela assimétrica, um recurso que atrai o olhar de quem espreita a casa.

Totalmente aberta para a rua, a casa tem a altura do térreo dada pelos pilotis. Totalmente aberta para a rua, a casa tem a altura do térreo dada pelos pilotis.

O térreo da casa é uma praça que combina concreto e jardim. O térreo da casa é uma praça que combina concreto e jardim.

A saleta íntima tem decoração despojada, sem qualquer excesso. A saleta íntima tem decoração despojada, sem qualquer excesso.

Na cozinha, assim como em todos os espaços da casa Butantã tudo remete aos anos 60. Na cozinha, assim como em todos os espaços da casa Butantã tudo remete aos anos 60.

O conceito de continuidade espacial aparece nos ambientes que apresentam fechamentos "fluidos". O conceito de continuidade espacial aparece nos ambientes que apresentam fechamentos "fluidos".

A ambientação da suíte principal acompanha a atmosfera e o conceito dos demais espaços da casa Butantã. A ambientação da suíte principal acompanha a atmosfera e o conceito dos demais espaços da casa Butantã.

Vocação moderna

Saudada como “a nova planta do habitat moderno”, a casa Butantã subverte todos os princípios há muito consagrados como componentes da casa tradicional, procurando a “confraternização explícita”. Assim, seus dormitórios são postos no miolo da construção – portanto, sem dispor de insolação direta dada pelas claraboias. As áreas de convívio são periféricas e recebem luz e ventilação diretas.

Há duas varandas: a mais estreita (três metros) é para uso informal e a mais ampla abriga os ambientes de estar com lareira suspensa, refeições e escritório (5,5 m), com seu “mobiliário imprescindível”, em concreto. Tal disposição elimina os corredores que invariavelmente separam as funções íntimas, sociais e de serviço.

Outra premissa básica é a continuidade espacial, caracterizando um modo de vida muito particular. Especialmente na solução dada para os cinco dormitórios (quatro deles com dimensões mínimas de 2,25 m), onde as delgadas divisórias de concreto não encostam no vigamento da cobertura e os fechamentos voltados para a sala de entretenimento são feitos com portas-veneziana de madeira. 

A solução criou uma fresta com a altura da viga. “Lembro que, quando criança, ouvia, do meu quarto, as conversas dos adultos que se reuniam na sala”, conta Lito; referindo-se ao som que passava pelo vazio. Eram vozes não só de familiares, como de intelectuais, artistas, músicos que frequentavam a Casa Butantã e discutiam os rumos da sociedade brasileira.

 

 

A distribuição modernista dos ambientes da casa Butantã, acaba por subverter o jeito tradicional de pensar a casa. Imagem: Arte UOLA distribuição modernista dos ambientes da casa Butantã, acaba por subverter o jeito tradicional de pensar a casa. Imagem: Arte UOL

Ficha técnica

Casa Butantã, São Paulo (SP).

Projeto de Paulo Mendes da Rocha.

  • Área do Terreno 670 m².
  • Início do Projeto 1964.
  • Conclusão da Obra 1967.
  • Projeto Paulo Mendes da Rocha e João De Gennaro.
  • Projeto de Arquitetura Paulo Mendes da Rocha.
Leia também: Documentário ‘Tudo é Projeto‘, sobre a vida e a obra de Paulo Mendes da Rocha.

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 Por Ledy Valporto Leal / Colaboração para o UOL, de São Paulo. Fotos: Leonardo Finotti / UOL.

O Mosteiro da Luz preserva até hoje as características de sua técnica construtiva em taipa de pilão e de sua arquitetura de caráter religioso. Foto: Maíra AcaybaO Mosteiro da Luz preserva até hoje as características de sua técnica construtiva em taipa de pilão e de sua arquitetura de caráter religioso. Foto: Maíra Acayba

Prof. Dr. Benedito Lima de Toledo tem livro inédito e póstumo lançado, que conta a história de um dos conjuntos arquitetônicos mais emblemáticos e bem preservados da Cidade de São Paulo: o Mosteiro da Luz.

Em 2019, após anos de trabalho e pesquisa, o Prof. Dr. Benedito Lima de Toledo, finalizava o livro Mosteiro da Luz, quando, infelizmente, veio a falecer. A obra, que tem o esmero do grande significado desse conjunto artístico e arquitetônico da cidade de São Paulo, evidencia o legado deste importante pesquisador em um livro póstumo e inédito, publicado pela KPMO Cultura e Arte.

Clausura das religiosas. Foto: Maíra  Acayaba.Clausura das religiosas. Foto: Maíra Acayaba.

Benedito Lima de Toledo foi arquiteto, urbanista, acadêmico da APL (Academia Paulista de Letras) – ocupou a cadeira de número 39 que fora de Monteiro Lobato –, Professor Titular de História da Arte e Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, exímio pesquisador e autor de importantes obras publicadas que nos revelam a história da cidade de São Paulo. Unindo-se ao arquiteto e diretor de arte Marcello de Oliveira, seu parceiro na edição de várias outras publicações desde os anos 1990, conseguiu imprimir textos inéditos e reveladores sobre a arquitetura e o urbanismo da cidade, sempre acompanhados por extensa pesquisa iconográfica e curadoria fotográfica primorosa. Suzana Alessio de Toledo, bibliotecária e esposa do professor Benedito, tem papel importante na materialização de sua obra, onde sempre pôde auxiliá-lo na pesquisa e execução de seu trabalho.

O Claustro do Mosteiro da Luz. Foto: Maíra Acayaba.O Claustro do Mosteiro da Luz. Foto: Maíra Acayaba.

Não podia ser diferente, nas mãos de Benedito, um dos conjuntos arquitetônicos coloniais mais emblemáticos e bem preservados da cidade de São Paulo ganhou vida e virou livro. O autor, em sua narrativa, volta ao passado para resgatar os espaços simbólicos da cidade, utilizando-se da iconografia com imagens e registros de viajantes, pintores e fotógrafos que retrataram uma São Paulo de tempos passados. Passeia por largos e ruas, para então chegar ao edifício religioso, onde Frei Galvão, arquiteto e construtor, foi o grande artífice da edificação do Mosteiro. Em sua extensa pesquisa, o autor viaja à Lisboa para narrar, com encanto, a história da imagem de Nossa Senhora da Luz.

No texto, Benedito Lima de Toledo descreve como o convento passa de um lugar de “recolhimento de mulheres, devotas da Divina Providência, para orar continuamente diante do Santíssimo”, até seu fechamento inesperado e a reabertura que inspirou Frei Galvão a edificar uma nova construção, para dar vida ao Mosteiro da Luz que conhecemos hoje.

Cela do Frei Galvão. Crédito: Maíra Acayaba.Cela do Frei Galvão. Crédito: Maíra Acayaba.

O livro narra episódios como o fechamento do local e a clandestinidade de mulheres religiosas que se escondiam por lá para ficarem recolhidas, até que a ordem de fechamento fosse revogada. A partir do porta-voz das boas novas, Frei Galvão, se dedica a edificação do novo conjunto arquitetônico, erguido em taipa de pilão, técnica construtiva aplicada à época e que mantem-se preservada até os dias atuais.

Ao leitor são reveladas as belezas desse riquíssimo patrimônio histórico. O Museu de Arte Sacra de São Paulo ocupa parte do conjunto arquitetônico e abriga uma das mais importantes coleções de obras de arte sacra e religiosa brasileira. Uma grande surpresa ainda é reservada ao visitante: o Presépio Napolitano, também conhecido como o Museu do Presépio, guarda o acervo doado por Francisco Matarazzo Sobrinho.

A fotógrafa Maíra Acayba realizou um inédito ensaio fotográfico na área reservada às freiras que vivem em clausura, onde apenas as mulheres tem acesso.

Além de trazer com maestria toda a história do Mosteiro da Luz, Benedito nos mostra através de sua narrativa detalhes do cotidiano da cidade nesse período colonial, fato que torna ainda mais importante e necessário a preservação de nosso patrimônio e o legado aos paulistas e brasileiros.

Cadeiral do coro das religiosas. Crédito: Maíra Acayaba.Cadeiral do coro das religiosas. Crédito: Maíra Acayaba.

Nesses mais de trinta anos de convivência profissional, somamos esforços em diversas ocasiões e desenhamos mais de uma dezena de publicações, muitas delas ainda inéditas. Um legado único de quem se dedicou à preservação da memória e do patrimônio artístico e arquitetônico da cidade de São Paulo. Do grande mestre Benedito Lima de Toledo temos a sua memória registrada em cuidadosos estudos que desenvolveu ao longo de sua atuação profissional como arquiteto, pesquisador e professor da FAU-USP. Tenho imensa satisfação de ter compartilhado com ele a elaboração desses cuidadosos trabalhos de edição dos livros que registram a história da arquitetura e do urbanismo da cidade de São Paulo. – Marcello de Oliveira

Ficha Técnica:

Edição: KPMO Cultura e Arte.
Autor: Benedito Lima de Toledo.
Coordenação geral: Suzana Alessio de Toledo.
Prefácio: Gabriel Frade.
Orelha: Lúcio Gomes Machado.
Direção de arte: Marcello de Oliveira.
Ensaio fotográfico: Maíra Acayaba.
Apoio cultural: AnimaCasa, Pitá e Refúgios Urbanos.
Ano: 2021.
Número de páginas: 180.
Medidas: 22×25 cm.
Preço: R$ 89,00.

Sobre o autor: Benedito Lima de Toledo, apaixonado pela arquitetura, pelos livros e pela cidade de São Paulo, passou sua vida pesquisando e transmitindo seus conhecimentos através de suas aulas, palestras e publicações de várias obras. Dentre eles, destacamos: São Paulo: três cidades em um século; Álbum iconográfico da Avenida Paulista; Anhangabahú; Prestes Maia e as origens do urbanismo moderno em São Paulo (Prêmio Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo 1996); Esplendor do barroco luso-brasileiro (Prêmio Jabuti 2013), entre muitos outros.

A cidade de São Paulo, como mencionou Benedito Lima de Toledo em seu livro São Paulo: três cidades em um século, (...) “é um palimpsesto – um imenso pergaminho cuja escrita é raspada de tempos em tempos, para receber outra nova (...)”.. Três etapas: taipa, tijolo e concreto. Os edifícios construídos com a taipa de pilão, ou desapareçam ou foram descaracterizados, tendo o Mosteiro da Luz mantido sua taipa de pilão original até hoje. Assim é descrita sua história em 180 páginas nessa obra a ser lançada, com fotos inéditas especialmente do interior do clausura, da horta e tantas outras.

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Fonte: Portal Nacional de Seguros.

 

O governo de São Paulo lançou um chamamento público para estudos de concessão à iniciativa privada do Palacete Joaquim Franco de Mello, última construção ainda em pé da primeira fase residencial da Avenida Paulista, no centro da capital. O objetivo é restaurar o casarão para abrigar o Museu da Gastronomia do Estado de São Paulo. Objeto de litígio entre a família e o governo estadual, o imóvel sofreu processo de deterioração e atualmente está fechado.

O ato de chamamento, pelas secretarias estaduais de Cultura e Economia Criativa, e Projeto, Orçamento e Gestão, foi publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo na sexta-feira, 16. Os interessados podem se inscrever até o dia 2 de agosto e acessar os regulamentos nos sites das secretarias. A concessão será por 35 anos.

Além de restauro e conservação da residência, o estudo prevê a edificação de um anexo à construção atual, que ocupa terreno de 2 mil metros quadrados. O imóvel é tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) e, também, pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (Condephaat) do Estado desde 1992.

Detalhe da arquitetura do Palacete Joaquim Franco de Mello. Imagem: Wikimedia Commons.Detalhe da arquitetura do Palacete Joaquim Franco de Mello. Imagem: Wikimedia Commons.

De acordo com Frederico Mascarenhas, chefe de gabinete da Secretaria de Cultura, o plano é transformar o casarão e seu entorno em uma referência gastronômica. "A cidade de São Paulo é um polo gastronômico nacional e a gastronomia é um dos pilares da economia criativa. A ideia é atrair empreendedores interessados em recuperar e explorar esse espaço, que é um dos mais nobres da capital", disse.

A construção do anexo visa dar a estrutura necessária para a exploração do potencial econômico que deve surgir com a revitalização do palacete. "O terreno é amplo e dá para fazer o anexo preservando o visual do casarão e do entorno. Como são prédios tombados, nós fomos atrás do aval dos patrimônios históricos municipal e estadual", explicou.

Projeto desenvolvido pelo escritório DMDV arquitetos e premiado com o segundo lugar no concurso para o Museu da Diversidade Sexual no casarão da Avenida Paulista. Imagem: Divulgação.Projeto desenvolvido pelo escritório DMDV arquitetos e premiado com o segundo lugar no concurso para o Museu da Diversidade Sexual no casarão da Avenida Paulista. Imagem: Divulgação.

A nova tentativa de restaurar o palacete acontece após o fracasso de uma parceria entre o Estado e o Serviço Social da Indústria (Sesi) de instalar o Museu da Ciência no local. O acordo foi anunciado em novembro de 2019 pelo governo estadual, porém, segundo o chefe de gabinete, o advento da pandemia em 2020 levou o Sesi a desistir do projeto. Antes, havia sido proposta a instalação de um museu LGBT no local.

Mascarenhas lembra que os novos estudos indicaram a concessão como melhor forma de recuperar um patrimônio relevante da capital. O avanço do projeto depende do interesse dos futuros parceiros. "Temos várias experiências bem sucedidas, entre elas a concessão do Zoológico e Jardim Botânico, concluída em fevereiro deste ano."

O número 1919

Número do Palacete Joaquim Franco de Mello. Imagem: Wikimedia Commons Número do Palacete Joaquim Franco de Mello. Imagem: Wikimedia Commons

Localizado no número 1919 da Paulista, o palacete é o único imóvel remanescente da primeira fase residencial da avenida, entre os anos de 1891 e 1937 quando membros da alta sociedade paulistana, formada por fazendeiros do café, donos de indústrias e comerciantes abastados, ali ergueram suas elegantes residências.

O casarão foi construído em 1905, pelo construtor português Antônio Fernandes Pinto, em estilo eclético, com influências da arquitetura europeia. O imóvel de 600 m2 de área construída possui 35 cômodos internos e uma grande área verde, incluindo um jardim lateral, totalizando 4,7 mil m2.

O palacete é considerado de alto valor arquitetônico por reunir exemplos concretos das diferentes formas de construção da época. As torres são no estilo mourisco, os capitéis e frontões de influência provençal e o telhado com mansarda possui detalhes renascentistas. Na entrada, ficam a sala de visitas e o escritório, no centro a sala de jantar e os quartos e, nos fundos, cozinha, despensa e banheiros. Foi uma das primeiras casas paulistanas a ter banheiro com água encanada. O prédio tem ainda uma biblioteca no subsolo.

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Por José Maria Tomazela no Estadão.

Entre 1982 e 1987, a casa noturna Carbono 14 abrigou praticamente tudo que acontecia de novo e interessante em São Paulo. Juntou tribos diversas em clima familiar. Inspirou bandas, movimentos, parcerias. E ficou gravada a ferro na memória afetiva de uma geração. 

Os 'Carbonários' 

Nas matinês de heavy metal do Carbono 14, Castilhão deixava num canto da pista uma pilha de ripas de madeira. As ripas vinham da inacreditável marcenaria que o número 164 da rua 13 de Maio abrigava. Não, uma marcenaria em si não tem nada exatamente de inacreditável, mas é que o Carbono era, no início dos anos 80, o lugar mais moderno para dançar em São Paulo. E ver show. E assistir a vídeo. E ouvir ópera. E ver dança. E jogar fliperama. E conhecer gente.

A marcenaria, no segundo dos quatro andares do prédio na Bela Vista, ficava trancada de noite. Motivo mais do que suficiente para provocar todo tipo de especulação por parte dos frequentadores. O que de tão secreto poderia rolar ali naquela sala fechada? Porque, digamos, as cenas mais ou menos normais de sexo e drogas eram liberadas nas diversas salas e muitas escadas escuras do Carbono.

Talvez a marcenaria fosse simplesmente para aquilo mesmo, cortar as ripas de madeira que viravam guitarras imaginárias nas mãos de garotos de 12, 13 anos enquanto viam vídeos de bandas como Motorhead e Iron Maiden.

Supermercado de Cultura 

 "Muita gente teve sua primeira vez no Carbono 14, metaforicamente ou não." Foto: Marcelo Yellow. "Muita gente teve sua primeira vez no Carbono 14, metaforicamente ou não." Foto: Marcelo Yellow.

Como tudo na história do Carbono 14, as memórias vêm numa espécie de névoa, iluminada aqui e ali por algum tipo de revelação. No “supermercado de cultura” da família Castilho muita gente teve sua primeira vez. Metaforicamente falando ou não.

Nas salas de vídeo ou na de 16 mm, o então radialista e vocalista de uma banda chamada Verminose descobriu Sebastiane, a versão explicitamente gay da vida de São Sebastião feita pelo cineasta inglês Derek Jarman. (À frente de uma nova banda, o Magazine, esse mesmo radialista fincaria o primeiro p é paulistano na porta da new wave brasileira com o hit “Eu sou boy”). “O Castilhão e os filhos viajavam e traziam filmes desse lado mais maldito.”

Ali, no Carbono, um garoto de 14 anos assistiu a Urgh! A Musical War!, espécie de quem é quem do pós-punk inglês. (Depois, inventou um moicano daqueles sustentados por sabão e, como se dizia, à época, passou a “andar no visual” punk 24 horas por dia). “Eu assisti ao filme e pensei: ‘É isso que eu quero ser’.”

A Banda Voluntários de Pátria. Foto: Marcelo Yellow.A Banda Voluntários de Pátria. Foto: Marcelo Yellow.

Um outro punk, então quase um veterano ali por 1983, 1984 (vinha da pioneira Restos de Nada e já estava à frente de sua segunda banda, Inocentes; além disso, era autor de “Pânico em SP”, faixa essencial da coletânea Grito suburbano), passava reto pelas salas de “filme de arte alemão chato pacas” e subia para os shows. Como os dois do Agentss, banda de new wave séria e efêmera, que levava uma montanha de sintetizadores para o palco. Ou os da Gang 90 & Absurdettes, Júlio Barroso à frente e as lindas e moderníssimas Alice Pink Pank e Mae East de backing vocals.

Foi num show, o punk veterano não se lembra qual deles, que Marcelo Nova teve sua sobrevivência garantida por mais alguns anos: “Um daqueles punks treteiros pediu um gole de cerveja para a mulher do Marcelo. Ela deu, mas o punk não quis devolver o copo. O Marcelo resolveu engrossar; daí juntaram uns dez punks para bater nele. Sem pensar, eu disse que ele era meu amigo, mesmo sem nunca ter visto o cara antes. Os caras recuaram e a gente começou a trocar ideia”.

Apesar da atração estética pela transgressão e pelos lados mais escuros da existência, o Carbono era um lugar tranquilo. “Era o único lugar onde podia tudo, sem ninguém para perturbar. Não tinha um segurança e não me lembro de brigas ou encrencas”, lembra Miguel Barella, guitarrista do mesmo Agentss e, depois, dos Voluntários da Pátria (que também tocou lá). 

Medo do Novo

A banda Akira S e as Garotas que Erraram, com Alex Antunes (vocal) e Akira S (baixo). Foto: Marcelo Yellow.A banda Akira S e as Garotas que Erraram, com Alex Antunes (vocal) e Akira S (baixo). Foto: Marcelo Yellow.

Andrez Castilho, o Castilhão, não deixava a polícia entrar, quase como uma declaração de princípios de alguém que foi presidente do grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP nos anos 50 e chegou a ajudar organizações clandestinas de esquerda no imediato pós-68. Eram tempos ainda de confronto, apesar da distensão iniciada pelo processo de abertura política do regime militar. Havia resquícios de censura (Je vous salue, Marie ainda teria sua exibição proibida em 1985, por exemplo) e os comportamentos mais transgressores, os cabelos mais curtos e espetados, as roupas escuras eram olhados com desconfiança.

Imagem: Marcelo Yellow / Acervo Pessoal.Imagem: Marcelo Yellow / Acervo Pessoal.

Mas ali, no Carbono, valia tudo, desde que fosse interessante e tivesse qualquer indício de conter informação nova. Era, na verdade, um empreendimento familiar. Foi concebido durante a temporada europeia da família – Andrez e Maria Helena Varoli, jornalista de moda, mudaram-se para a França em 1.976 com os filhos Andrez Filho, Renata e Theo. No fim dos anos 70, morando em Paris, desencantado com as possibilidades de transformação pela via política e convivendo com a intensidade e a diversidade da vida cultural na Europa, Andrez imagina fazer um centro cultural privado. No início, Rudá de Andrade, filho de Oswald de Andrade e Pagu, também participa das discussões. “Mas o Rudá queria fazer um outro MIS [Museu da Imagem e do Som] e meu pai tinha sacado que a história era fazer uma coisa mais jovem, mais pop”, lembra Andrez Filho.

(...) ali, no Carbono, valia tudo, desde que fosse interessante e tivesse qualquer indício de conter informação nova. Foto: Divulgação.(...) ali, no Carbono, valia tudo, desde que fosse interessante e tivesse qualquer indício de conter informação nova. Foto: Divulgação.Os filhos de Castilho, então com 20 e poucos anos (à época da inauguração, Andrezinho tinha 23, Renata, 22 e Theo, 20), depois de uma adolescência passada na Europa entre viagens meio aventureiras, cinematecas, museus e muita música pop, tinham acesso a essa informação nova e uma rede de amigos. Alguns também com passagens pela Europa, como os críticos Pepe Escobar e Fernando Naporano, que integravam a equipe renovada do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo e faziam barulho a cada evento do Carbono. Outros, ligados ao que estava acontecendo aqui no Brasil em todas as áreas da cultura, desde que contivessem algum tipo de reação ao clima dominante de hippismo tardio, nacionalismo populista de esquerda ou da lixaiada mais comercial.

“Eu cheguei ao Brasil com cabelo supercurto, roupas de brechó e vi aquele bando de bicho-grilo, com camisa xadrez e cabelo comprido. Foi um choque.” Renata, a filha do meio e única mulher, tinha vindo cuidar da programação visual dos folhetos, dos cartazes e da revista mensal que o Carbono editava. Por algum tempo, também cuidou de uma loja no térreo que vendia acessórios e onde as pessoas entravam para perguntar como fazer para, elas também, ficarem modernas. “As pessoas tinham um pouco de medo, mas muita curiosidade.”

As Mercenárias: a baixista Sandra Coutinho, a vocalista Rosália Munhoz e a guitarrista Ana Maria Machado.  Edgard Scandurra era o baterista. Foto: Divulgação.As Mercenárias: a baixista Sandra Coutinho, a vocalista Rosália Munhoz e a guitarrista Ana Maria Machado. Edgard Scandurra era o baterista. Foto: Divulgação.Para muita gente, a curiosidade vencia o medo e, nos cinco anos que durou, o Carbono acabou t ornando-se a força centrípeta para a qual convergiu quase tudo o que foi interessante e novo em São Paulo. Ou quase todos que, daquilo que viram e aprenderam por lá, sairiam fazendo coisas interessantes e novas nas décadas seguintes. O punkinho que andava no visual é Alex Atala. O radialista, Kid Vinil. O punk veterano, Clemente, dos Inocentes (a banda existe e continua tocando por aí). Grupos como Ira!, Mercenárias, Smack, Nau, Cabine C e Violeta de Outono passaram por lá. Alguns volta e meia se reúnem e são redescobertos todo dia pela molecada.

“Arte é datação, arte é datação.” Theo, o filho mais novo da família, insiste nessa ideia. Tem razão. Quase três décadas depois de sua inauguração, alguns anos após as mortes de Castilhão e Maria Helena, o Carbono 14 (nome do elemento químico cujo ritmo de dispersão serve para calcular a idade de qualquer material orgânico) ainda emana suas partículas no ambiente.

Ver música, aliás, era uma das coisas que mais se faziam naquele centro cultural pop e libertário. Isso mesmo: no início dos anos 80, era uma absoluta novidade poder assistir a shows e documentários em vídeo ou 16 mm sobre música. Ou ver cinema alternativo, underground. Ou ver animação adulta, de vanguarda. Ou filmes de surf.

“A sacada foi o vídeo. Àquela época, no Brasil, quem não tinha viajado para fora do país não tinha visto quase nada.” O nada a que Andrez Castilho Filho se refere é tudo: de shows dos Rolling Stones a filmes de Andy Warhol. De videoclipes do pós-punk – Siouxsie, Bauhaus, Cure – a Bob Marley. Alguns clipes de bandas do mainstream rolavam na TV. Cinema tinha mais: o circuito de cineclubes era intenso e já havia a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas não chegavam os filmes mais pop, mais radicais.

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Por Bia Abramo para a Revista TPM.