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Avenida São João nas proximidades do Vale do Anhangabaú, São Paulo – década de 40. Foto: Acervo IMS.Avenida São João nas proximidades do Vale do Anhangabaú, São Paulo – década de 40. Foto: Acervo IMS.

Na década de 1940, em plena expansão populacional e industrial que transformaria a capital paulista numa metrópole, São Paulo foi documentada pela fotógrafa suíça Hildegard Rosenthal (1913-1990).

Rosenthal chegou ao Brasil em 1937, fugindo do nazismo. Em São Paulo, se tornaria uma das primeiras fotojornalistas da impressa nacional, realizando reportagens para veículos estrangeiros e nacionais, como os jornais O Estado de S. Paulo e Folha da Manhã.

Junto com os fotógrafos Militão Augusto de Azevedo (1837-1905), Guilherme Gaensly (1843-1928) e Aurelio Becherini (1879-1939), Hildegard Rosenthal construiu a memória fotográfica da São Paulo “antiga”. As imagens desta matéria fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles e estão no livro Metrópole (2010).

Edifício Barão de Iguape na praça do Patriarca – década de 40.


Viaduto do Chá e Edifício Mappin ao fundo – década de 40.

 

Rua do Seminário e o Edifício Martinelli ao fundo – década de 40. O Edifício Martinelli, inaugurado em 1929, foi o maior arranha-céu da América Latina e também um dos mais charmosos.

 

Avenida São João com a rua Líbero Badaró, São Paulo – década de 40.

 

Praça do Correio. O quarteirão à esquerda desapareceu com a abertura da avenida Prestes Maia – década de 40.

 

Rua 15 de Novembro e Largo da Sé ao fundo – década de 40.

 

Largo da Sé e a Catedral sendo construída – década de 40.

 

Mercado Municipal – década de 40.

 

Mercado Municipal, São Paulo – década de 40.


Mercado Municipal, São Paulo – década de 40.

 

Café na Estação da Luz – década de 40.

 

Ponto de ônibus no centro da cidade - década de 40.

 

Moradora lê jornal no Centro de São Paulo - década de 40.


Casal no bar - década de 40.


Leitor de jornal - 1939.

 

Confeitaria no bairro da Liberdade, São Paulo – década de 40.

 

Rua Direita com a rua 15 de Novembro, a partir do Largo da Sé, São Paulo – década de 40.

 

Bairro da Liberdade, São Paulo – década de 40.

 

Vendedor de frutas na esquina da ladeira Porto Geral com a rua 25 de Março – década de 40.

 

Criança, homem e vendedor na rua - década de 40.

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Alexandre Belém no blog Sobre Imagens.


Os professores e alunos da escola primária de Bridge Farm em Whitechurch, Bristol, tinham à sua espera uma enorme surpresa quando regressaram, esta segunda-feira, de um período de férias: numa das paredes da escola, Banksy, o célebre artista de rua, deixou-lhes um mural, pintando uma criança que brinca com um pneu em chamas junto a uma pequena casa.

Além do mural, uma mensagem dirigida aos alunos foi deixada no local e posteriormente entregue aos responsáveis da escola, que fica na região de onde o próprio Banksy é natural: "Cara escola primária de Bridge Farm, obrigada pela vossa carta e por darem o meu nome a um dos vossos pavilhões. Por favor, fiquem com esta imagem e, se não gostarem, sintam-se à vontade para acrescentar coisas. Estou certo de que os professores não se irão importar. Lembrem-se, é sempre mais fácil obter perdão do que autorização. Com amor, Banksy".

Segundo a BBC, Banksy decidiu presentear a escola depois de ter conhecimento que os alunos, considerando-o o herói local, tinham decidido dar o seu nome a um pavilhão do estabelecimento. A escola fez questão de enviar aos agentes do artista uma nota informando-o da escolha dos pequenos estudantes, à qual Banksy respondeu com um exemplo da sua arte.

A equipe que trabalha com o artista britânico já confirmou que o trabalho é autêntico e o diretor da escola garante que não vai vender o mural - as obras de Banksy têm sido comercializadas por muitos milhares de euros. "Tenho a certeza de que vai inspirar as crianças. Tivemos de fazer algumas chamadas esta manhã para ter a certeza de que ninguém vai limpar o mural", disse o diretor da escola primária, Geoff Mason, ao Bristol Post. "Julgo que terá sido feito durante o fim de semana e completo na noite passada, mas não temos a certeza", admitiu. Mais uma vez, Bansky conseguiu iludir a vigilância e deixar uma obra inesperada, num local inusitado. Este será o primeiro mural do artista numa escola primária.


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Da redação do Diário de Notícias.


O prefeito Fernando Haddad recebeu na tarde desta quinta-feira (2) 16 representantes da comunidade do samba paulistano para discutir uma política pública que consolide o reconhecimento dessa cultura centenária na cidade de São Paulo. Entre as propostas estão a criação de um roteiro cultural permanente e a promoção de eventos para comemorar os 100 anos da gravação do primeiro samba, que serão completados em dezembro.
 
Além disso, uma das sugestões é criar Clubes do Samba no programa Rua Aberta, que abre uma via por subprefeitura para as pessoas aos domingos. “O programa já é um espaço aberto ao samba. Outro dia eu fui para a Avenida Paulista e tinha uma roda de samba. Nunca tinha visto antes lá”, contou Haddad. O prefeito se comprometeu a analisar formas de viabilizar os dez pontos propostos pelo documento apresentado pelos sambistas. “O que estou vendo aqui não tem nenhum bicho de sete cabeças. Todas as dez agendas propostas são fatíveis. São ações baratas e de reconhecimento. São gestos, mais do que ações. Gestos concretos para mudar a cara da cidade”, disse o prefeito.
 
Para a sambista e deputada estadual Leci Brandão, a reunião representou um momento importante de aproximação da Prefeitura com as reivindicações das comunidades do samba.  “A cidade de São Paulo tem uma vida de samba ativa, legítima, viva, mas que infelizmente nem sempre é mostrada. Nos grandes eventos, o samba mais tradicional, feito de forma mais independente e mais sacrificada, nunca tem um protagonismo”, afirmou.
 
O samba paulistano criou raízes no bairro da Barra Funda, na segunda metade do século 19, com a mistura das manifestações culturais do interior do Estado com o samba carioca, que chegava pelas linhas férreas da região. Hoje, há rodas de samba e artistas em todo o território da cidade.
 
“Queremos ser reconhecidos como entidade cultural. Nós fazemos samba o ano inteiro e não só no Carnaval”, apontou Kaxitu Campos, presidente da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP). As artistas Duda Ribeiro e Tia Cida, ambas da Velha Guarda, engrossaram esse coro e defenderam a importância de dar mais espaço para o samba nas políticas públicas culturais da cidade. “Sou artista da comunidade. Não estou na Globo, mas estou na boca do povo há 40 anos. Tenho muita fé que este encontro de hoje será o marco para ações concretas”, disse Duda Ribeiro.
 
Além deles, participaram do encontro Moisés da Rocha, jornalista; Marquinhos Jaca, presidente da Associação de Sambistas, Terreiros e Comunidades do Samba de São Paulo – ASTECSP; Osmar Costa, empresário da área musical e vice-presidente do GRCES Rosas de Ouro; Alexandre Alves, diretor de carnaval da União das Escolas de Samba Paulistana – UESP;  Daniela Oliveira, representando a Comunidade do Samba da Laje; Reinan Rocha, representando a Comunidade do Samba do Maria Cursi; Julio Marcos, representando a Comunidade do Samba na Feira; Eloisa Dias, representando o Terreiro de Compositores; Fernanda de Paula, diretora cultural da Associação de Sambistas, Terreiros e Comunidades do Samba de São Paulo – ASTECSP; Yvisson Pessoa, cantor e compositor, representando o coletivo de sambistas independentes; e Paulo Henrique - PH, coordenador do Pagode Segunda sem Lei.

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Fonte: Secretaria Executiva de Comunicação / Portal da Prefeitura. 

 


Por três dias (23, 24 e 25 de maio), bares e restaurantes de sete cidades brasileiras – e em 12 outros países – se tornaram cenário de uma atividade pouco comum para esses ambientes: conversar sobre ciência. Sem deixar, claro, de comer e beber. Era o Pint of Science, um festival criado na Inglaterra em 2013 com a intenção de aproximar os pesquisadores de um público mais amplo além da universidade. Nada como o cenário descontraído de um bar à noite.

Realizado pela segunda vez no Brasil, este ano o festival se espalhou. A primeira edição ocorreu em 2015 e apenas São Carlos, no interior paulista, aderiu. Em São Paulo, aconteceram palestras em cinco endereços diferentes, sempre com temas de interesse geral e títulos chamativos e bem-humorados – uma estratégia para atrair o público de fora da universidade, segundo a coordenadora geral do evento no Brasil, a bióloga Natalia Pasternak Taschner. “Queríamos mostrar que a ciência está presente na vida de todos, trazendo o assunto para perto do cotidiano”, explicou. Um exemplo foi a palestra “Como a ciência explica os ups and downs na vida de Amy Winehouse”, ministrada pela farmacologista Rosana Camarini, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), que originalmente se chamava “O mecanismo bioquímico e molecular das drogas”.

Já no primeiro dia, a organização do evento foi surpreendida pelo público numeroso na Cervejaria Nacional, no bairro de Pinheiros. Eram principalmente jovens, interessados nas palestras sobre fotoneuromodulação (tecnologia que usa a luz para combater a dor) e história evolutiva de dinossauros. “Inicialmente, abrimos 40 lugares para reserva, mas lotou rápido. Ocupamos cerca de 80 e, por questão de segurança, algumas pessoas ficaram fora”, contou o biólogo Luiz Gustavo de Almeida, organizador do Pint of Science em São Paulo. Os dinossauros ficaram a cargo do zoólogo Paulo Miranda do Nascimento, que atraiu boa parte do público por meio de seu canal no YouTube, o “canal do Pirula”, seguido por quase 450 mil pessoas. Entre seus fãs presentes na cervejaria estavam três estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que mantêm um canal de ciência na internet, o SciBreak, e vieram de carro no mesmo dia trazendo camisetas com temas científicos para distribuir entre os participantes.

Na pizzaria D. Firmina, a bióloga Marie-Anne Van Sluys falou sobre como bactérias estão em toda parte. Foto: Maria Guimarães.

Outro restaurante que acolheu o evento foi a pizzaria D. Firmina, no bairro de Moema, que no dia 24 recebeu o casal de professores biólogos Marie-Anne Van Sluys, do Instituto de Biociências da USP, e Carlos Menck, do ICB-USP. Falando, respectivamente, sobre como bactérias estão em toda parte, inclusive dentro de cada célula de uma pessoa (na forma de mitocôndrias, as usinas celulares de energia), e sobre as relações entre DNA, envelhecimento e câncer, a dupla conduziu uma conversa informal com cerca de 30 pessoas comendo pizza. “Foi um desafio, não estou acostumada a falar com esse tipo de público”, contou Marie-Anne, satisfeita com a experiência. Embora parte das pessoas parecesse ter alguma formação em biologia, em sua maioria não eram conhecidos dos palestrantes.

Para o biólogo Henrique Neves, esse tipo de evento supre uma lacuna na comunicação da ciência no Brasil. Responsável pela organização das palestras na Laundry Deluxe, no bairro dos Jardins, ele falou sobre mutações genéticas para um público jovem, de formação diversificada e bastante animado. “Estamos acostumados a falar com os nossos pares na universidade”, disse. “Temos que nos aproximar da sociedade para que ela entenda a importância da ciência, no Brasil financiada principalmente com dinheiro público.”

Além de coordenar o evento no país, a bióloga Natalia Taschner falou sobre o método científico para uma plateia numerosa que no dia 25 compareceu ao Tartar & Co, em Pinheiros.  Ela cita o exemplo de uma noite no mesmo restaurante em que a interação entre o público e a ciência claramente se cristalizou. “Durante a palestra sobre zika os garçons serviram normalmente, mas quando a bioquímica Alicia Kowaltowski, da USP, começou a falar de metabolismo, eles pararam para ouvir e implicar uns com os outros sobre os motivos de um deles ser gordo”, contou. “Foi muito divertido ver a ciência chegando no público leigo dessa forma. Era exatamente o que queríamos.” Ela comemora o balanço final: “Conseguimos lotar 22 bares em sete cidades”.

Encontrar estabelecimentos para receber as palestras foi um dos desafios, de acordo com a organização. “Principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde os bares não costumam abrir nas noites de segunda-feira”, conta Luiz Gustavo de Almeida.  Como regra, todas as cidades que realizam o Pint of Science devem seguir o calendário de Londres, onde é comum que os pubs funcionem nessas noites. Com o sucesso da edição, ele espera que a negociação se torne mais fácil no ano que vem e pretende expandir o festival. “A intenção é realizar palestras em locais mais acessíveis tanto geográfica como economicamente”, explica.  E não só em São Paulo: já estão inscritas 26 cidades para 2017. Se tudo correr bem, a ciência será muito brindada.

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Renata Oliveira do Prado e Maria Guimarães na na Edição Online da Revista da FAPESP.

 


Em 1883, Machado de Assis escreveu uma divertida crônica sobre regras de comportamento e convivência dentro do transporte público. Intitulado “Como comportar-se no bonde”, o texto foi republicado no dia 15 de maio pelo jornal “O Globo”.

Os bondes, primeiros veículos coletivos do país, tinham chegado às capitais brasileiras cerca de 20 anos antes de o escritor fazer seu “manual de etiqueta”.

O texto ridiculariza passageiros que abrem a perna e tomam espaço demais, fala do incômodo de sentar perto de alguém resfriado e do constrangimento de cruzar com um desconhecido que insiste em puxar papo. Mostra que algumas situações inconvenientes que vemos hoje no metrô, ônibus ou trem já geravam debate (e risos, ainda que nervosos) há muito tempo.

Hoje, aumentaram as possíveis situações inconvenientes. Comparamos as expectativas e as piadas de Machado sobre o que não fazer dentro do bonde com situações análogas que acontecem todo dia com quem pega ônibus, metrô ou trem - e o que as regras de etiqueta atuais dizem sobre elas:

Sobre ocupar o espaço alheio

“Da posição das pernas:

As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.”

O hábito de sentar-se com as pernas muito abertas ainda é fruto de incômodo, especialmente para mulheres, e já foi tema de campanha em vários lugares do mundo. O chamado ‘manspreading’ tem umTumblr que reúne fotos de homens que ocupam espaço demais nos bancos de trens e foi alvo de uma ação do metrô de Londres para aconselhar os passageiros homens a sentarem com as pernas fechadas.

“Da leitura dos jornais:

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.”

Jornais não costumam mais ser um problema no transporte coletivo. Eles foram substituídos pelo celular, que é pequeno demais para atrapalhar alguém fisicamente - mas pode fazer um estrago na paz alheia quando toca música alta.

Os manuais de etiqueta em transporte público contemporâneos frequentemente fazem referência a inadequação de escutar música alta no celular em público, e há campanhas recorrentes em metrôs do mundo todo para inibir a prática e pedir o uso de fones de ouvido.

Quanto a incomodar os outros fisicamente, como o jornal na crônica de Machado, os vilões do século 21 no ônibus devem ser as mochilas enormes. Os manuais atuais de etiqueta no transporte público pedem cuidado com os outros passageiros ao carregar objetos grandes.

Sobre estar resfriado
 
“Dos encatarroados:


Os encatarroados podem entrar nos bonds com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro.

Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue.

Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

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Dos perdigotos:

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.”

Pouco mudou desde 1883: continua sendo muito desagradável sentir a tosse de alguém na nuca ou tomar contato com qualquer tipo de fluído corporal alheio. A regra de etiqueta atualizada, aqui, vale para qualquer situação em que você pretende tossir ou espirrar em público: cobrir a boca e usar lenços. Há quem prefira as máscaras cirúrgicas.

Sobre cheiros desagradáveis

Dos quebra-queixos [cigarros ou charutos de má qualidade]:

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: a primeira quando não for ninguém no bond, e a segunda ao descer.”

Cigarros e charutos são proibidos dentro de transporte coletivo no Brasil inteiro e em muitas outras partes do mundo. Não estão proibidos, no entanto, passar desodorante spray dentro do vagão, comer comidas com cheiro forte, e usar perfumes muito carregados. Essas coisas continuam sendo um problema em manuais de etiquetahoje em dia.

Das pessoas com morrinha[mau-cheiro]

As pessoas com morrinha podem participar do bonds indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-lo mesmo da janela.”

Elas já eram um problema em 1883 - e seguem sendo mencionadas nos manuais de etiqueta, que recomendam incisivamente o uso de desodorante sem perfume antes de pegar o ônibus. Um manual até sugere, se você estiver sofrendo de bromidrose axilar, - o mau-cheiro nas axilas - que evite usar as barras no corredor.

Sobre conversar no transporte coletivo

Dos amoladores:
 

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. 
 
Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repelindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.”

Esta aversão ao bate-papo com estranhos narrada por Machado é uma regra de etiqueta que varia de cultura para cultura. Em lugares como Londres e Berlim, puxar conversa com desconhecidos no transporte público pode ser bastante malvisto.

No Brasil, de maneira geral, não é considerado falta de educação - mas convém ficar atento para a maneira como o outro responde à sua tentativa de interação. Todo mundo tem dias de mau humor.

Sobre cortesia e gentileza, a maioria dos manuais contemporâneosrecomenda evitar o confronto com passageiros mal educados ou rudes, se lembrar de pedir desculpas e licença sempre que necessário e sorrir para outros que demonstrem gestos de boa vontade sempre que possível.

“Das conversas:

Quando duas pessoas, sentadas a distância; quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.”

Nada mudou quanto a esta recomendação: todos os manuais de etiqueta contemporâneos sugerem que conversas em qualquer espaço público, especialmente em lugares fechados, devem ser discretas - que durem pouco ou que sejam feitas em baixo volume.

Isso vale, em 2016, para conversas pelo celular.

Sobre ceder o lugar

Da passagem às senhoras:

Quando alguma senhora entrar o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas como porque é uma grande má-criação.”

Em 2016, as regras de etiqueta rejeitam a necessidade mencionada por Machado de ceder o assento às mulheres. No entanto, permanece parte da boa educação, e é mesmo lei, que qualquer pessoa dê o lugar - não apenas o assento reservado - a mulheres grávidas e pessoas idosas ou deficientes de qualquer gênero.

Manuais falam também da necessidade de demonstrar gentileza e cortesia de maneira geral, com qualquer um, e não apenas com mulheres - o cavalheirismo não faz parte da etiqueta do transporte público em 2016.

No entanto, embora a recomendação de Machado para não ser ‘mal criado com as senhoras’ pareça antiquada, ela ainda vale quando trata-se de incentivar o respeito dos homens para as mulheres no transporte público.

Os números de abuso de mulheres nesses espaços não são altos apenas no Brasil, mas no mundo todo: os abusos sexuais contra mulheres são alvos de campanhas nos metrôs de São Paulo e Londres, por exemplo.

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Ana Freitas no Jornal NEXO.


Foi no ano de 1986 que o indigenista e cineasta Vincent Carelli realizou sua primeira experiência de produção audiovisual com os índios nambikwara, em Mato Grosso. Ao filmar a vida daquela população, ele poderia fazer apenas o que já era prática corrente no País havia décadas, ou seja, registrar os costumes de povos considerados “exóticos” e apresentar o resultado na TV, cinema ou em ambientes acadêmicos. O interesse do documentarista, no entanto, era outro. “A ideia era ver como os índios reagiriam ao se confrontar com a própria imagem, e ao se apropriar dela”, conta Carelli, que passou a exibir e debater o que filmava com os habitantes locais, e não com os “homens brancos”. Mais do que isso, a vontade era que a prática se tornasse coletiva, e o cineasta logo passou a câmera para as mãos dos próprios índios.

Hoje, 30 anos depois e consagrado, o projeto Vídeo nas Aldeias (VNA) já ajudou a formar dezenas de diretores indígenas pelo País e, junto a isso, a criar uma nova gramática cinematográfica. Um tanto surpreendente para o circuito da arte contemporânea – por ser visto por alguns como um projeto mais ligado ao meio acadêmico do que artístico –, o VNA é um dos escolhidos para expor na 32ª edição da Bienal Internacional de São Paulo, intitulada Incerteza Viva, dentro de uma proposta da curadoria de apresentar produções criadas em diálogo estreito com comunidades, povos e grupos culturais populares de diversos cantos do mundo.

Projeção de filme realizado pelos índios na aldeia Panara de Nasipotiti, em mato Grosso. Foto: Vincent Carelli.

Não se trata de arte política e engajada, no sentido tradicional, nem de trabalhos que procurem documentar a realidade, mas de práticas colaborativas que revelam outros modos de fazer arte, como explica o curador Jochen Volz. “Se alguns anos atrás existia a tendência do ‘artista antropólogo’, que queria mostrar outras culturas, acho que hoje é forte essa ideia de realmente participar. Não mostrar, mas estar junto, fazer junto”, diz Volz, referindo-se a uma série de trabalhos que estarão na Bienal – como os dos artistas Bárbara Wagner, Felipe Mujica e Cecilia Bengolea, entrevistados pela ARTE!Brasileiros.

Nesse sentido, o Vídeo nas Aldeias é um dos casos mais radicais, já que, mesmo que coordenado por Carelli e uma equipe, foi apropriado pelos índios e se tornou um cinema feito por eles mesmos. Segundo Carelli, a entrega da câmera subverteu a lógica tradicional, na qual o homem branco é quem vai estudar e falar sobre “o outro”. E ao mudar o ponto de vista, mudam também simbologias e temáticas: “No começo, eu fui com a ideia de fazer um trabalho de denúncia, político, mas os índios demonstraram um outro interesse, e se entusiasmaram em apresentar o que interessa a eles, as belas coisas, os seus tesouros culturais. Imediatamente eu entendi que a grande questão política de toda minoria é a questão identitária, que é cultural, de afirmação”.

Ao se apropriar da câmera e criar narrativas próprias, em geral construídas coletivamente nas aldeias, os índios passaram a desenvolver linguagens – de modo principalmente intuitivo, apesar das oficinas de formação comandadas por Carelli – e a fazer sua própria arte. “Mesmo que esses vídeos sejam peças de interesse etnográfico, acho que são essencialmente cinematográficas, no plano artístico. Não é um vídeo relatório, de panfleto. É cinema”, diz Carelli. “E, quando eles assistem aos próprios filmes, superam finalmente aquela decepção que todo povo indígena enfrenta com o audiovisual, que é o da expropriação, da manipulação, da TV que omite o que era o mais importante para eles”.

Do brega ao dancehall

Também discutindo processos de apropriação, colaboração, documentação e experimentação, a fotógrafa e artista visual Bárbara Wagner tem chamado a atenção por suas pesquisas centradas em grupos e manifestações culturais aparentemente marginalizadas e em suas estratégias de visibilidade e subversão dentro da indústria cultural e de consumo. Em séries de fotos como Brasília Teimosa (2005-2007) – que adentra o universo “cafona” e “vulgar” dos frequentadores de uma praia recifense – e Estrela Brilhante (2008-2010) – que investiga o mundo do maracatu em Nazaré da Mata (PE) –, Wagner transita em ambientes e estabelece diálogos na busca de não folclorizar ou exotizar “o outro”. Mostra, também, que muitas dessas culturas ditas “periféricas” não buscam mais a aprovação dos “centros” e que, subvertendo velhas dicotomias, chegam sem pedir passagem.

Competição internacional Dancehall Queen (2013), em Montego Bay (Jamaica), que será tema do trabalho de Cecilia Bengolea e Jeremy Deller.

Para a 32ª Bienal, a artista deve aprofundar sua pesquisa mais recente, em torno dos MCs de brega do Recife, e apresentar o inédito Estás Vendo Coisas, feito em parceria com Benjamin de Burca. Assim como no caso do Vídeo nas Aldeias, a ideia não é apenas documentar ou se apropriar de uma cultura alheia: “O que eu quero é estar dentro, conversar, entrar em acordos. Não se trata de ir lá, tirar um produto deles e deslocar para a Bienal”, diz Wagner. Nesse sentido, a artista relativiza uma ideia presente em diversos campos do conhecimento – das artes à antropologia, da arquitetura à política – de que se deve “dar voz aos marginalizados” e às suas manifestações culturais. “Eles têm controle da própria imagem e da própria voz, então para nós deve haver um processo de escuta e observação. E eu sempre me pergunto que contribuição eu posso dar para a documentação da produção cultural desses grupos, mas que seja de forma colaborativa”, conclui a artista.

“É melhor dar voz do que esconder”, brinca Volz. “Mas acho que já podemos partir de outro patamar de discussão, sem essa ideia da cultura central ou periférica. É muito mais interessante pensar em uma rede que é horizontal, que permite que as coisas aconteçam em algum lugar e reverberem para toda a rede. Então se trata mais de ouvir, interagir e entender que a cultura engloba tudo isso”. Engloba, por exemplo, as competições de dancehall queen, na Jamaica, onde a dançarina argentina Cecilia Bengolea e o artista Jeremy Deller produzirão um vídeo para a Bienal. Coreógrafa e bailarina, Bengolea pesquisa e participa há anos da popular competição de dança jamaicana. Este ano, além de competir, produzirá com Deller um vídeo sobre o evento, uma mistura de documentário e ficção feita em diálogo com os dançarinos e outros personagens locais.

Cortinas e costuras 

Ao apresentar projetos produzidos em diálogo estreito com comunidades e com questões da realidade concreta, a 32ª Bienal de São Paulo, que acontece entre 10 de setembro e 11 de dezembro, busca também – “através da poética da arte”, segundo Volz – contribuir para discussões globais sobre economia, política, condições sociais e climáticas, entre outras. O título, Incerteza Viva, surge nesta linha, partindo da constatação de que “a incerteza é a condição em que todos nós vivemos”. Quem melhor do que os índios, por exemplo, para falar de incerteza? “Eles vivem a incerteza permanente”, diz Carelli. “A cada década há um redimensionamento de suas terras. É um ciclo neocolonial perpétuo.”

Com a proposta de se aproximar dessas questões contemporâneas, a mostra procura também trazer o público para perto do pavilhão da Bienal. “Essa arte feita em diálogo com as populações aproxima as pessoas da arte contemporânea, muitas vezes vista como algo tão longínquo”, diz o artista chileno Felipe Mujica, que participa da edição com uma série de cortinas que serão produzidas com as bordadeiras do Jardim Conceição, de Osasco, e os designers e estilistas Alex Cassimiro e Valentina Soares, de São Paulo. Assim como fez na Bienal de Cuenca (Equador) de 2014, quando criou seus trabalhos com as bordadeiras de uma oficina familiar de costura da cidade, Mujica quer, aqui, produzir em diálogo com agentes locais. Apesar de conhecido por suas cortinas – feitas com diferentes tecidos e desenhos geométricos –, o chileno não domina todo o processo de produção de sua obra, e faz disso não uma falta, mas uma possibilidade. “Eu não costuro, então me interessa também aprender com a pessoa que costura as cortinas. E aí sempre se produz um diálogo entre o que eu pretendo fazer e o que a pessoa propõe e diz que é possível”, explica.

As bordadeiras equatorianas que costuraram as cortinas desenhadas por Felipe Mujica para a Bienal de Cuenca (2014).

Em São Paulo serão cerca de 30 cortinas penduradas no pavilhão que, segundo Mujica, estarão posicionadas de modo a criar novos espaços e relações com a arquitetura do local. Ao dialogar com comunidades e ao chamar seus trabalhos artísticos de “cortinas”, o chileno procura, justamente, se aproximar da vida real: “Tem gente que quer chamar de banners ou bandeiras, mas eu prefiro chamar de cortinas, porque me interessa que se mantenha essa noção doméstica, que se relaciona com a vida das pessoas”. Para se relacionar mais concretamente com a realidade que pretende debater, a 32ª Bienal está promovendo também os Dias de Estudo – em Cuiabá (Brasil), Santiago (Chile), Acra (Gana) e na Amazônia Peruana – nos quais curadores, artistas e outros envolvidos na produção do evento visitam comunidades locais, reservas ecológicas, centros culturais e estúdios de artistas.

Comissionando os trabalhos criados em diálogo com grupos culturais diversos, a Bienal mostra também coerência com o conceito que a norteia, de “incerteza viva”, não só nos debates e temáticas que promove, mas nos próprios processos de produção das obras. Um trabalho feito em constante negociação com terceiros é também fruto do improviso e da experimentação, e não pode ter um resultado final preestabelecido, como explica Mujica. “Ao se trabalhar nesse diálogo com as pessoas, o resultado também é sempre incerto”, afirma. Incerto, segundo Volz, pois criado em relação com a vida concreta, ela mesma imprevisível: “A arte nos permite criar narrativas, provocar questionamentos e reflexões, mas na verdade são reflexões que partem da vida real em suas várias dimensões”. E ele conclui: “Isso tem a ver com entender que os níveis de conhecimento e abstração são múltiplos. E a polifonia entre comunidades indígenas, jamaicanas de dancehall, de artesãos e bordadeiras, de MCs de bregas e assim por diante, isso é o que nos interessa muito”.  

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Marcos Grinspum Ferraz na Revista Brasileiros.