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Um mapeamento realizado pela Coordenação de Direito à Memória e à Verdade (CDMV), pasta ligada à Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo, identificou ao menos 17 logradouros ao menos paulistanos que homenageiam pessoas envolvidas direta ou indiretamente com os crimes de violação de direitos humanos praticados durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Desde o centro até os quatro extremos da cidade, exemplos dessa conduta não faltam: o Minhocão foi batizado com o nome do general Artur Costa e Silva, o segundo presidente do período militar; o derradeiro, João Baptista Figueiredo, dá nome a uma via em Pirituba; o Viaduto 31 de Março, no Brás, remonta à data do golpe; na Vila Leopoldina, a rua Dr. Sergio Fleury relembra um dos torturadores mais conhecidos do período, assim como a Praça General Milton Tavares de Souza, localizada no Parque Novo Mundo.

Como se não bastasse, há ainda ruas e avenidas com nomes de diversos apoiadores das práticas autoritárias e ditatoriais, tais como Filinto Muller (Parque São Rafael), Carlos Lacerda (Campo Limpo) e Golbery do Couto e Silva (Grajaú).

Com a intenção de tirar do papel a Lei Municipal 15-717/2013, que permite a alteração de nomes de logradouros ligados a violadores de direitos humanos, a CDMV lançou o projeto Ruas de Memória, também impulsionado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) e pelo Plano Nacional de Direitos Humanos-3.

Segundo a coordenadora-adjunta da CDMV, Clara Ribeiro Castellano, é preciso desconstruir a ideia recorrente de que é o revanchismo que alimenta essas mudanças, que ainda gerariam gastos desnecessários para o poder público. “Acreditamos que é uma forma de reparação simbólica para as vítimas diretas desses crimes, o Estado reconhecendo que eles foram praticados e as violações ocorreram”, aponta. “É uma forma de reconstruir a memória histórica do país a partir da lógica da valorização dos direitos humanos.”

Para o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) e presidente do Instituto Pólis, Renato Cymbalista, projetos como esse demonstram que finalmente o país está enfrentando a “herança maldita” da ditadura militar. “O nome das ruas tem um significado simbólico muito grande: significa um consenso social de que esta pessoa deve ser homenageada e sua memória perpetuada. Instituir como nomes de ruas  pessoas envolvidas na ditadura significa a legitimação de tais crimes”, observa.

Além de discutir o legado da ditadura, o Ruas de Memória pretende ajudar na construção de uma nova cultura cidadã. “A ditadura trouxe também o esvaziamento do espaço público e, com as perseguições políticas, reforçou a cultura do medo. A cidade ficou vazia. O projeto é uma forma de trazer a ocupação e ressignificação desses espaços”, aponta Clara.

Já Cymbalista recorre à história para lembrar que, em grande parte do Ocidente, as décadas de 1960 e 70 foram marcadas pelo esvaziamento do espaço público, suburbanização, motorização e construção de vias expressas. “No Brasil e na América Latina, esse processo ocorreu junto com as ditaduras, que não tinham nenhum apreço por grandes manifestações públicas.”

O professor sugere que o projeto não apague simplesmente o antigo nome do logradouro. “As ruas devem ser renomeadas, mas não devemos esquecer que elas já tiveram esses nomes por décadas”, observa. “É importante marcarmos que durante décadas a nossa sociedade não se incomodou em dar nomes de ruas, avenidas, aeroportos a personalidades envolvidas com a violação grave de direitos.”

Clara adianta que, se aprovada, a mudança de logradouros contará com placas explicativas sobre o ocorrido. Elas dependem de Projetos de Lei a serem aprovados pela Câmara de Vereadores de São Paulo. “Ao mesmo tempo em que precisamos superar etapas históricas, não devemos nos esquecer do passado”, conclui Cymbalista.

Os primeiros nomes que podem ser alterados são a avenida Golbery do Couto e Silva, no Grajaú, na zona sul, e o viaduto 31 de março, no Centro. 

Encontros com moradores resultaram na elaboração de um projeto de lei participativo que propõe a mudança da avenida Golbery para padre Giuseppe Pegoraro, religioso vinculado à história do bairro. A proposta já tramita na Câmara. 

General do Exército, Golbery foi um dos ideólogos do movimento que resultou nogolpe de 1964 que instalou o regime ditatorial marcado. De 1964 a 1967, chefiou o SNI (Serviço Nacional de Informação), órgão de inteligência que fundamentava perseguições políticas, torturas e execuções. 

O viaduto 31 de março lembra a data da deposição do presidente João Goulart e do início da ditadura que vigorou por 21 anos. O projeto de lei que prevê a mudança do nome do viaduto será enviado à Câmara em 13 de agosto. 

A prefeitura quer que ele passe a se chamar Thereza Zerbini, líder do Movimento Feminino pela Anistia, grupo de defesa de perseguidos pela ditadura. 

No próximo dia 13, a administração municipal também enviará à Câmara um projeto de lei para impedir novas homenagens a figuras relacionadas à violação de direitos humanos. A maioria dos nomes relacionados pela prefeitura foi citada no relatório da Comissão Nacional da Verdade, que investigou violações praticadas na ditadura. 

A iniciativa de mudá- los segue recomendações da comissão e do Programa Nacional de Direitos Humanos. Em todos os casos, a administração municipal pretende buscar o apoio dos moradores das vias e ouvir deles sugestões para os novos nomes. Antes da prefeitura, vereadores propuseram retirar homenagens feitas a figuras relacionadas à ditadura. 

Existem, por exemplo, as propostas de mudar o nome do elevado Costa Silva para Minhocão, como ele é popularmente conhecido, e a rua Sergio Fleury para Frei Tito.

Os nomes das vias que a prefeitura quer mudar

Elevado Costa e Silva
Marechal do Exército, atuou no movimento que instaurou a ditadura em 1964. Foi presidente entre 1967 e 1969. Em 13 de dezembro de 1968, promulgou o AI-5, ato institucional que agravou a repressão e a cassação dos direitos civis e políticos. O elevado fica na zona oeste.

Avenida Presidente Castelo Branco
Atuou no movimento que depôs o presidente João Goulart e foi o primeiro presidente da ditadura, entre 1964 e 1967. Castelo Branco é um dos nomes da marginal Tietê.

Avenida General Golbery Couto e Silva
General do Exército, foi um dos ideólogos do movimento que resultou no golpe de 1964. Daquele ano até 1967, chefiou o SNI(Serviço Nacional de Informação), órgão de inteligência que fundamentava perseguições políticas, torturas e execuções. A via fica no Grajaú, na zona sul.

Praça Augusto Rademaker Grunewald 
Almirante da Marinha, atuou no movimento que instaurou o regime ditatorial em 1964. Foi vice-presidente entre 1969 e 1974, período mais intenso de repressão, censura e cassação de direitos civis e políticos. A praça fica no Itaim Bibi, na zona oeste.

Praça General Milton Tavares de Souza
General do exército, dirigiu a operação Marajoara na fase final de extermínio da Guerrilha do Araguaia, quando houve o desaparecimento forçado e a ocultação dos cadáveres de guerrilheiros. A praça se situa na Vila Maria, na zona norte.

Avenida General Ênio Pimentel da Silveira
General do Exército, foi comandante da 1ª companhia de Polícia do Exército, na Vila Militar do Rio de Janeiro, de maio de 1968 a julho de 1971, período em que morreram na unidade, sob tortura, Severino Viana e Chael Charles Schreier. Serviu no Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) do I Exército de abril de 1972 a junho de 1974. Teve participação comprovada em casos de tortura, execução e desaparecimento forçado. A avenida fica no Campo Limpo, na zona sul.

Rua Délio Jardim de Matos
Comandante da Aeronáutica, foi um dos articuladores do movimento que promoveu o golpe de 1964. Integrou o gabinete militar da Presidência da República entre 1964 e 1967 e foi ministro da Aeronáutica entre 1979 e 1984. A via fica no bairro Campo Grande, na zona sul.

Rua Sérgio Fleury 
Delegado, serviu no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e no Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime). Teve participação comprovada em casos de tortura, execução e outras violações aos Direitos Humanos. Foi acusado pelo Ministério Público de liderar o Esquadrão da Morte, grupo de extermínio. A via fica na Vila Leopoldina, na zona oeste.

Rua Octávio Gonçalves Moreira Junior
Delegado de Polícia, serviu no Dops (Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo) e no Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna). Teve participação em casos de tortura e ocultação de cadáveres. Foi morto em 1973 por opositores da ditadura. A rua fica no Rio Pequeno, bairro da zona oeste.

Rua Alcides Cintra Bueno Filho
Policial e delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo) durante a ditadura, colaborou no encobrimento de casos de tortura, execução e ocultação de cadáveres. A via fica em Santana, na zona norte.

Rua Mário Santalucia
Médico-legista do IML (Instituto Médico Legal) do Estado de São Paulo, teve participação em caso de emissão de laudo necroscópico fraudulento. A via fica no Tucuruvi, na zona norte.

Rua Hely Lopes de Meirelles
Juiz e advogado, comandou a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo durante a ditadura. Conduziu o delegado Sérgio Fleury ao comando do Dops, responsável por torturas e assassinatos de presos políticos. A rua fica no Tatuapé, na zona leste.

Rua Henning Boilesen 
Dinamarquês, dono da Ultragás, foi um dos principais empresários a financiar a Oban (Operação Bandeirantes), aparato de repressão a presos políticos durante a ditadura. Visitava o Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) e foi homenageado por torturados que passaram a chamar um dos mais violentos instrumentos de tortura de "pianola Boilesen". Em 1971, foi morto por opositores do regime. A via fica no Butantã, na zona oeste.

Rua Senador Filinto Müller 
Senador por quatro vezes entre 1947 e 1973, foi Chefe da Polícia Política durante o Estado Novo, instaurado pela ditadura de Getúlio Vargas, quando participou de operações para capturar líderes da oposição, como Luís Carlos Prestes e sua companheira, Olga Benário, extraditada e assassinada pelo regime nazista. Foi presidente da Arena, partido de sustentação da ditadura. A rua fica no Parque São Rafael, na zona leste.

Rua Olímpio Mourão Filho
General do Exército, atuou no movimento que instaurou o regime ditatorial em 1964. De 1967 a 1969, foi presidente do Superior Tribunal Militar, responsável pelo julgamento de presos políticos. É outra rua que fica no Rio Pequeno, zona oeste.

Viaduto 31 de março 
Data da deposição do presidente João Goulart e do início da ditadura que vigorou por 21 anos. O viaduto fica no Centro.

Rua 31 de março 
Data da deposição do presidente João Goulart e do início da ditadura que vigorou por 21 anos. A via fica no Morumbi, na zona oeste.

Danilo Mekari no Portal Aprendiz e Redação UOL. 

 


O Plano Diretor Estratégico de São Paulo (PDE), cuja sanção do prefeito Fernando Haddad completa um ano nesta sexta (31), mostra resultados positivos e aspectos que ainda exigem implementação.

Como relator da lei aprovada pela Câmara, busquei, em sintonia com o Executivo, garantir a autoaplicabilidade dos instrumentos urbanísticos e a explicitação dos objetivos e intervenções estratégicas das políticas urbanas, muitas já em implantação pela prefeitura, para gerar rapidamente os impactos esperados.

Dentre os avanços, está a alteração da lógica de mobilidade, priorizando o transporte coletivo e os modos não motorizados. Com baixo investimento, democratizou-se o espaço viário com a criação de faixas exclusivas de ônibus e de uma rede cicloviária, cujo destaque é a ciclovia da avenida Paulista.

Mas o estímulo à mobilidade sustentável exige uma nova dinâmica imobiliária. O Plano Diretor propôs, e já está valendo, o adensamento ao longo dos eixos de transporte de massa, evitando-se uma verticalização dispersa que estimula o uso do automóvel. Ademais, propôs aproximar a moradia e o emprego, estimulando o uso residencial no centro expandido e a criação de empregos nas áreas carentes.

O debate sobre o zoneamento, já no Legislativo, deve se pautar por esses aspectos, radicalizando as propostas do PDE e deixando em segundo plano a polêmica sobre corredores em zonas exclusivamente residenciais. A verticalização dispersa nos miolos dos bairros pode ser ainda mais restrita enquanto nos eixos de transporte coletivo é necessário conter a especulação.

Nesse sentido, o excelente trabalho que a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano vem fazendo, notificando proprietários de imóveis ociosos e subutilizados a dar função social, deve priorizar os eixos de transporte para conter a valorização excessiva dos terrenos.

A habitação foi prejudicada pela queda do investimento federal e da arrecadação da outorga onerosa –o Plano Diretor exigiu que 30% desses recursos fossem aplicados na compra de áreas bem localizadas.

O quadro econômico requer ações heterodoxas, propostas no PDE, como a utilização ou compartilhamento de áreas públicas subutilizadas, o apoio à autogestão e regulamentação do Serviço Social de Moradia, com formas alternativas de acesso.

A elaboração do Plano da Mata Atlântica, a criação dos parques Chácara do Jóquei e Tietê e as ações na zona rural, como o polo de ecoturismo em Parelheiros e a regulamentação da compra de alimentos orgânicos para a merenda escolar, são avanços no meio ambiente.

Mas há muito a fazer, como implementar o pagamento por serviços ambientais e viabilizar outros 160 parques propostos, que o PDE protegeu transformando-os em zona especial de preservação ambiental. Em curso, a regulamentação do Fundo Municipal de Parques contribuirá para isso. 

A proteção de espaços culturais ameaçados, como os teatros e cinemas de rua, avançou com a isenção de impostos municipais e com a regulamentação da área de proteção cultural. A ocupação e valorização do espaço público para o lazer e a cultura é uma realidade sentida nas praças, nos parklets e no Minhocão. 

Muito foi feito em apenas um ano, mas temos muito pela frente. O horizonte temporal do PDE é de 15 anos, atravessando esta e as próximas três gestões. A continuidade desse processo é essencial para não retroceder no projeto de cidade e de cultura urbana definidos pelo Plano Diretor. 

Nabil Bonduki, 60, professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é secretário municipal de Cultura de São Paulo. Foi o relator do Plano Diretor Estratégico na Câmara Municipal

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Artigo publicado na Folha de S.Paulo.

 


Na última quinta-feira, dia 23, no SESC Consolação, aconteceu a apresentação do estudo IRBEM, Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município, projeto da UNICEF em parceria com os Institutos Alana e C&A, Rede Nossa São Paulo, IBOPE, Instituto Paulo Montenegro, Visão Mundial e o SESC. O evento contou com a presença da Primeira-Dama Ana Estela Haddad e o Secretário Municipal de Direitos Humanos Eduardo Suplicy.

De acordo com Maurício Broinizi Pereira, representante da Rede Nossa São Paulo, “a pesquisa é inédita e surpreendente, tanto no que toca o que foi abordado  quanto as suas respostas.” Com dados sobre educação, cultura, segurança pública, meio-ambiente e outros, a pesquisa IRBEM conversou com 805 crianças e jovens de 10 a 17 anos, entre os dias 13 e 30 de Junho de 2015.

Os indicadores da pesquisa apontaram inúmeras situações nas quais as crianças e jovens de São Paulo se sentem ou não se sentem confortáveis no dia-a-dia. Entre alguns parâmetros, estão: entre os meninos, a principal atividade que realizam é jogar futebol e, entre as meninas, é ajudar nas tarefas da casa; para esses jovens, o que menos os satisfaz é o modo com que as pessoas se relacionam na cidade e o respeito às diferenças de outras pessoas, como cor, credo e raça, e o que mais satisfaz os jovens entrevistados é a relação que têm com seus familiares e seus colegas de escola.

Entre os dados que satisfazem os jovens, também se encontra o nível de conhecimento sobre as coisas ensinadas pelos professores nas escolas e as condições da casa em que vivem. O acesso à internet está em primeiro lugar entre os afazeres satisfatórios entre os jovens, educação em segundo e relações humanas em terceiro.

Segundo Raniere Pontes da Rede Nossa São Paulo, “as crianças e os jovens têm prioridade absoluta e não devem ser enviados para a cadeia (em menção à redução da maioridade penal)”. Isabela Henriques do Instituo Alana também reafirmou a fala de Pontes acrescentando “é responsabilidade de todos assegurarem a proteção das crianças” e nada melhor para fazer isso do que saber o que elas pensam.

Em uma roda de conversa promovida com os jovens Beatriz, Jonathan e Rodrigo da UNICEF, da Viração e da Plataforma de Centros Urbanos, a Primeira-Dama Ana Estela Haddad e o Secretário Suplicy debateram sobre redução da maioridade penal, segurança pública e acesso à internet nas salas de aula. “A pesquisa mostra que o machismo ainda é muito presente”, disse Ana Estela em referência ao fato de que as meninas se atêm mais ao trabalho doméstico do que os meninos.

          

                                                                           Fotos: Cesar Ogata / SECOM.

Ainda sobre os outros temas, a coordenadora da São Paulo Carinhosa afirmou “[a redução da maioridade penal] é um imenso retrocesso ao ECA. O Congresso tem que ouvir o jovem e temos que assegurar e cuidar da infância e da juventude”. Em relação ao acesso à internet nas salas de aula, discutido pelo jovem Rodrigo que alegou não gostar da proibição, a Primeira-Dama pontuou “os professores devem usar a tecnologia a favor do ensino. A população mais velha deve perder o medo da tecnologia uma vez que 76% dos jovens estão conectados. Os professores deveriam romper a barreira para acompanhar a geração internet”. 

 

Marisa Villi do Instituto Paulo Montenegro, criado para executar projetos de responsabilidade social, ressaltou a importância de programas como a São Paulo Carinhosa para o desenvolvimento de uma geração que é o futuro e disse que a política pública exerce “cuidados especiais para mudar o que não conseguimos mudar nas gerações passadas”.


Segundo Silvio Kaloustian, representante da UNICEF em São Paulo, “a escuta de crianças é fundamental para criar elementos para o desenho de políticas públicas. Acompanhamos e reconhecemos o esforço da Prefeitura em priorizar a primeira infância, contemplando as demandas das crianças”.

O evento teve abertura e encerramento com o grupo de rap Matéria Rima.

 Isabela Campos Palhares no São Paulo Carinhosa.

A primeira coisa que o dono de algum estabelecimento pensa quando vê o seu local grafitado é em arrumar os danos. E a primeira coisa que um grafiteiro pensa quando vê uma parede limpa, especialmente as que continham desenhos seus, é em pegar o spray e correr para marcar mais uma vez o seu território.

Em Londres, a “guerra” de gato e rato entre o grafiteiro Mobstr e os responsáveis pelo muro de um provável depósito na Dace Road virou uma série de fotos hilariantes.

Em seu site, o artista conta que da primeira vez que pintou aquele muro, em julho de 2014, percebeu que a solução usada pelo proprietário foi a de pintar de vermelho escuro a parte grafitada. O experimento segue até Mobstr pintar “fora da linha vermelha”, o que obriga uma mudança tática de limpeza da tinta para a lavagem com jato de pressão – e leva o diálogo a um outro nível.

O “diálogo” segue até uma solução mais radical, elogiada até pelo grafiteiro. É possível conferir a conversa, e saber mais no site do Mobstr (http://mobstr.org/home2.html), no Instagram (https://instagram.com/m.obstr/) ou ver a situação atual no Google Mapshttps://goo.gl/ndYs03

Fonte: Inspirad.

Foi o que meu amigo aprendeu com a mãe muitos anos antes de cruzar a África de bicicleta e escrever um belo livro sobre a travessia.

“Você precisa conhecer o Colcci”. Deve ter sido a frase que mais repeti durante os quatro anos de faculdade. Não era por acaso. Colcci era o apelido do meu amigo Alexandre Costa Nascimento, cujos pais eram donos de uma loja da grife homônima em nossa cidade, Araraquara.

Desde muito cedo, talvez entre os 13 e os 14 anos, sabia que na cadeira ao lado, num grupo que um professor de matemática apelidou de "Nata Podre" da sala - nós, os bagunceiros que, ele jurava, jamais chegariam a lugar algum - estava um amigo para toda a vida. Eu já era doido por futebol e ele, por Fórmula 1, e usávamos nossas carteiras de fórmica para desenhar e montar previsões para a escalação ou o grid de largada do fim de semana.

Anos depois, começamos a estudar jornalismo, e sempre citava suas ideias, compartilhadas por e-mail ou nas crônicas e artigos impressos trazidos na bagagem, aos novos colegas de classe. “Você precisa conhecer o cara”. Era uma forma de me conformar com algo que, no fundo, jamais me conformei: desde 1999, quando estávamos no meio do colegial, ele morava em Curitiba. Nosso contato, desde então, eram as visitas a nossa cidade-natal e a São Paulo, para onde me mudei em 2002. Nas boas e não raras viagens até a capital paulista, ele muitas vezes ficava em casa, e praticamente se tornou um integrante da turma paulistana.

Também na mesma época, começamos a trabalhar em jornal diário, e perdi as contas de quantas vezes abri a Gazeta do Povo numa banca de jornal para conferir as manchetes. Sabia quando a reportagem principal tinha a assinatura dele – como quando ele calculou a distância entre “países” de IDH distintos separados em poucos quilômetros pela região metropolitana de Curitiba.

Quando nos reencontrávamos, retomávamos nossas ideias como quem havia se falado todos os dias desde sempre. Era como tirar o pause de uma longa fita K7 (somos desse tempo).

Na escola, na faculdade e na vida adulta, o Colcci era, e ainda é, o amigo das ideias fixas. Uma vez encucou que a capital paranaense era ligada por túneis subterrâneos construídos pela comunidade alemã que, acuada por Getúlio Vargas, temia ser bombardeada durante a Segunda Guerra. Ele pesquisou e cavou fundo, literalmente, para levantar a história. Antes mesmo da faculdade ele já havia encucado de estudar a história da maçonaria e do Subcomandante Marcos, de quem eu jamais tinha ouvido falar até então. Foi o Colcci quem me apresentou também a autores como Marcelo Rubens Paiva e Gabriel Garcia Marquez.

Uma dia ele comprou uma bicicleta e começou a pedalar. No dia seguinte, pedalou um pouco mais. No outro, ainda mais. A cada nova quilometragem ele percebia que pedalar nunca seria só diversão ou deslocamento. Era também ação política. Luta por espaço. Por um direito. Certa vez por pouco não foi atropelado; o motorista do automóvel o derrubou e provocou estragos na bicicleta. Ao chegar em casa, ele lançou as palavras “atropelei” + “ciclista” no Twitter e bingo: o agressor correra às redes para se gabar do feito. Flagrado e “printado”, o autor da barbeiragem teve de pagar os reparos e pedir desculpas, com medo de sofrer um processo.

Com o Colcci é assim: quando encuca, vai até o fim. Em 2012, já conhecido como jornalista e militante do blog Ir e Vir de Bike (http://irevirdebike.com.br/), ele botou na cabeça que atravessaria a África pedalando com outros 50 ciclistas de várias nacionalidades no chamado Tour d’Afrique do ano seguinte. Até então, nenhum brasileiro havia tentado a travessia (saiba mais aqui: http://tourdafrique.com/ )

Como sempre, ouvi e apoiei – como se ele tivesse me falado que iria buscar pão e já voltava. Não sei se por descaso de quem já começa a olhar a vida atrás dos próprios muros ou se por saber, de antemão, que se ele havia botado a ideia na cabeça ele iria até o fim – e, pelo menos para nós, que já o conhecíamos, não havia nada de novo naquela busca dele por novidades – passei os meses seguintes sem jamais me dar conta do que era atravessar um continente inteiro de bicicleta.

Talvez inconscientemente imaginasse que andar de norte a sul da África fosse simplesmente deslizar de cima pra baixo, pela força gravitacional, como numa ladeira – sem jamais imaginar o esforço humano e a profusão de encontros que essa “descida” embutia.

Um dia recebo em mãos o livro “Mais que um leão por dia – A saga do primeiro brasileiro a pedalar 12 mil quilômetros pela África”. O autor: Alexandre Costa Nascimento. O Colcci. “Obrigado por fazer parte dessa história”, ele me escreveu, como se estendesse as mãos para que eu pulasse na garupa.

De saída, eu, que testemunhei de perto a sua maior dor, me fixo na dedicatória que serviria como linha-mestra de toda a narrativa: “À minha mãe, Sônia Beatriz, que me deixou como herança o ensinamento de que as viagens que realizamos e os livros que lemos são os únicos tesouros que não perdem valor com o tempo e que ninguém, jamais, poderá nos roubar”.

Quando abri o livro, não imaginava que começaria, eu também, a pedalar por um continente desconhecido. O que vi, ali, não foram as impressões ou um diário de bordo de alguém já conhecido e que, por ser tão próximo, já não poderia me surpreender. O que encontrei foi um trabalho de descrição e pesquisa - social, política, econômica e geográfica - dignas das grandes reportagens - o que na faculdade chamávamos de jornalismo literário. O Colcci já era repórter desde que desenhava ao meu lado na carteira e, ainda que tivesse lido, até então, muito da sua produção, eu ainda não sabia o quanto ele era capaz de transformar vivência em paixão, e paixão em histórias.  

Não eram quaisquer histórias, mas a história que começa nas pirâmides do Egito, nos hábitos culturais e religiosos do Cairo, passa pela Praça Tahir, pelo Saara e segue rumo. “Na rotina, nada é sempre igual”, escreve.

Conheci de perto, assim, a paranoia militar de uma ditadura de orientação islâmica do Sudão, onde a mutilação genital é recorrente e a hospitalidade, por incrível que pareça, é marcante. Lá, acompanhei o esforço dele para omitir a profissão de jornalista para não correr riscos ao tirar fotos ou se aventurar num garimpo do país.

Atravessei uma ponte de 50 metros sobre um riacho e descobri que é possível encontrar, do outro lado da fronteira, na Etiópia, um mundo de nacionalidade, língua, governos, religiões e costumes completamente diferentes. Conheci Bahir Dar, cidade considerada a Amsterdã da África; passei às pressas pelo Quênia em um momento de tensão pré-eleitoral e risco iminente de conflito; degustei o melhor café do mundo – em um dos capítulos, ele consegue explicar o rombo da balança comercial e parte da situação de miséria do país a partir da história do café e da chegada dos solúveis amargos e importados aos lares quenianos.

Passei pelo Malauí, país de impressionantes 406 bicicletas pra cada mil habitantes, e conhecei o drama dos albinos, marginalizados e caçados, literalmente, por quem acredita que as partes mutiladas de seus corpos são sinais de sorte.

Conheci os estragos da corrupção na economia da Zâmbia e atravessei a menor fronteira do mundo até a Naníbia, a caçula das nações africanas. Visitei por ali cachoeiras, cataratas, vales até finalmente chegar à Cidade do Cabu, na África do Sul, e reconhecer as cicatrizes doapertheid, regime do qual ouvíamos falar na aula de geografia da professora Cláudia. Ao todo foram 11 países, 530 horas sobre a bike, 11.667 quilômetros, 121 dias de expedição e uma série de perrengues no caminho: indisposição gástrica com as iguarias mais exóticas, sede, cansaço, lama, vento, banheiro a céu aberto, tempestade de areia, mosquitos, câmaras e pneus furados, tombos, perdas de equipamento, perda de peso (10 kg, ao todo), desidratação, diarreia, inflamação no tendão, herpes, resfriado, gripe, mordida de filhote de pastor, infecção na pele, corte no pé, picadas, pedradas, pauladas, bosta de burro disparadas por crianças nas ruas, e claro, animais de todas as espécies cruzando a estrada. Não fazia ideia do que era pedalar mais de 150 quilômetros num mesmo dia e o quanto cabia de dor, esforço, solidariedade e superação de uma ponta a outra. Agora sei.

E só soube de tudo porque, diferentemente dos ciclistas competidores, premiados ao fim de cada etapa, o autor foi até a África justamente para perder tempo à beira da estrada, apreciar os passeios, babar na paisagem, anotar e jogar conversa fora com os grandes novos amigos – uma rede de camaradagem formada por ciclistas italianos, holandeses e até um americano fã do Tea Party, cada um com uma forma distinta de ver e encarar a maratona e o mundo (muitos deles são perfilados ao fim de cada capítulo), assim como os personagens encontrados no caminho, como um ciclista amador que pedalava com uma perna só e os garotos que faziam fila para jogarem bola ao verem sua camisa do Brasil. De alguma forma, fiquei amigo deles também.

Ao fim da leitura, percebi que não tinha ideia do que eram os países da África até então. Mais que isso, descobri o quanto eu ainda precisava conhecer e ainda não conhecia o meu amigo. Ao menos com o livro posso agora dizer aos leitores, e não apenas aos amigos de faculdade: vocês precisam conhecer o Colcci. Todos precisamos. Pois ele tem razão quando diz que as viagens e os livros são os únicos tesouros que ninguém nos tira. Os amigos das páginas e das estradas também.

PS: Até as últimas páginas, não sabia se o meu amigo conseguiria ou não o tão sonhado EFI (Every Fabulous Inchi), o certificado concedido pela organização do Tour D’Afrique de que o ciclista percorreu todos os polegares do fabuloso solo africano sem ajuda dos veículos de apoio – muitos, devido a cansaço, doenças e outros incidentes, tiveram de pedir carona e perderam a premiação. A resposta é contada ao fim do livro. Não há spoiler para os amigos.

Matheus Pichonelli em Carta Capital. 

 

Jeffrey Milstein é um dos fotógrafos mais publicados e premiados do mundo. Tem um portifólio vastíssimo com destaque para fotos tiradas do alto de cidades, portos, navios e aeroportos.

Visite a galeria e conheça a sua rica produção, que inclui coleções como Los Angeles vista de cima, os carros antigos de Havana, os trailers de Palm Springs, as ruas no Egito, na Índia e em Cuba etc.

A última coleção são as fotos de Nova Iorque vista de cima, a primeira cidade que ele fotografou há mais de 50 anos, quando ainda era adolescente, voando em um Cesna.

Agora, do alto de um helicóptero e com equipamentos de última geração para fotografias aéreas, Jeffrey produziu imagens incríveis da Big Apple. Confira os detalhes na matéria do DailyMail Online: "New York from 2,000ft: Photographer captures stunning aerial images of the Big Apple as you’ve never seen it before". Aqui: http://goo.gl/2Ta00E

Indo a Nova Iorque, visite a galeria Benrubi, onde ele está expondo até o dia 22 de agosto de 2015.

Jurandir Craveiro em seu Blog do Jura.

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