Outros - São Paulo São

São Paulo São Outros

Novos achados confirmam que impacto de objeto extraterrestre gerou a cratera de Colônia. Imagem: Victor Velázquez Fernandez.Novos achados confirmam que impacto de objeto extraterrestre gerou a cratera de Colônia. Imagem: Victor Velázquez Fernandez.

Com 3,6 quilômetros de diâmetro, cerca de 300 metros de profundidade e uma borda soerguida de 120 metros, a cratera de Colônia é uma formação geológica situada em Parelheiros, na região Sul de São Paulo, a menos de 40 quilômetros da Praça da Sé. Tendo o interior atulhado por sedimentos e a borda coberta por vegetação, essa estrutura permaneceu escondida até o início da década de 1960, quando fotos aéreas e depois imagens de satélite mostraram sua forma circular quase perfeita.

Sua origem, a partir do impacto de um corpo extraterrestre, só foi confirmada, porém, em 2013, por meio da análise microscópica de sedimentos colhidos em diferentes níveis de profundidade. Esse estudo e outros realizados posteriormente, todos eles conduzidos pelo geólogo Victor Velázquez Fernandez, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), já foram objeto de reportagem da Agência FAPESP.

Nova pesquisa feita por Velázquez trouxe agora evidências ainda mais robustas sobre o impacto que produziu a cratera. Artigo a respeito foi publicado na revista Solid Earth Sciences: “Morphological aspects, textural features and chemical composition of spherules from the Colônia impact crater, São Paulo, Brazil”.

A “cratera de Colônia” foi descoberta na década de 1960, quando imagens aéreas e, futuramente, imagens de satélite, mostraram sua borda circular. IMagem: Reprodução.A “cratera de Colônia” foi descoberta na década de 1960, quando imagens aéreas e, futuramente, imagens de satélite, mostraram sua borda circular. IMagem: Reprodução.“Encontramos esférulas no interior da cratera, em profundidades de 180 a 224 metros, cuja forma só pode ser explicada pelo impacto de um corpo extraterrestre, que gerou temperaturas da ordem de 5 mil graus Celsius e pressões da ordem de 40 quilobars – equivalentes a 40 mil vezes a pressão atmosférica padrão”, conta Velázquez.

Segundo o pesquisador, o fato de as esférulas terem sido achadas no interior da cratera e não fora é bastante raro, porque, normalmente, os impactos ejetam sedimentos para fora. “Nossa explicação é que a energia do impacto transformou as rochas existentes no local em uma nuvem densa e superaquecida. Esse material foi lançado para cima, congelou e voltou a cair na base da recémformada cratera”, diz.

O estudo recente mostrou evidências mais detalhadas sobre a origem da cratera. Foto: Divulgação.O estudo recente mostrou evidências mais detalhadas sobre a origem da cratera. Foto: Divulgação. Os tamanhos das esférulas, em seus eixos de maior comprimento, variam de 0,1 a 0,5 milímetro, com prevalência de 0,4 milímetro. Quanto à forma, 44% são ovais, 30% têm aparência de gota, 18% são esféricas e 8% têm configuração de disco (prolate). As demais não se encaixam nessas classificações. “O fato de elas não serem todas esféricas é importante, porque indica que não podem ser classificadas como micrometeoritos; uma vez que estes, devido ao atrito com a atmosfera, são sempre esféricos. As formas ovais, de disco e gota são especialmente relevantes, porque só podem ser explicadas por meio de nossa hipótese: da nuvem superaquecida, ejeção vertical e posterior solidificação e queda do material”, comenta Velázquez.

Outra informação importante proporcionada pela pesquisa decorre da composição química das esférulas, consistente com aquela esperada para as rochas que compõem a borda da cratera. “Aqui, é oportuno destacar, entre tantos outros elementos, silício, alumínio, crômio e níquel. A falta de evidências de que tenham recebido material do objeto que impactou a área sugere, fortemente, que esse objeto tenha sido um cometa, e não um asteroide metálico ou rochoso”, argumenta o pesquisador. Mas uma afirmação definitiva em relação a isso ainda não pode ser feita. E demandaria outras pesquisas. “Embora desconheçamos o tamanho do objeto, a velocidade e o ângulo de incidência, por comparação com outros impactos, podemos dizer que a colisão gerou uma devastação de 20 quilômetros de raio.
A menos de 40 quilômetros do Centro da capital, o grande buraco fica em Parelheiros, Zona Sul da cidade. Foto: Nelson Kon.A menos de 40 quilômetros do Centro da capital, o grande buraco fica em Parelheiros, Zona Sul da cidade. Foto: Nelson Kon. Outro aspecto que ignoramos também é a data do evento, estimada, por enquanto, em um intervalo de 5 milhões a 36 milhões de anos no passado”, resume Velázquez. O estudo foi apoiado pela FAPESP por meio de dois auxílios regulares: o primeiro sobre o cadastramento de elementos geológicos e geomorfológicos da Cratera de Colônia e o segundo sobre os registros geológicos na região concedidos ao pesquisador.

O artigo “Morphological aspects, textural features and chemical composition of spherules from the Colônia impact crater, São Paulo, Brazil” pode ser lido na íntegra em https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2451912X20300635.

Assista o vídeo: Brasil tem uma das duas crateras de impacto habitadas no mundo. 

***
Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP. Edição São Paulo São.

Estudo da USP, analisou as medidas de higiene, manipulação e armazenamento de alimentos junto a 5 mil pessoas de todos os Estados brasileiros. Foto: Getty Images.Estudo da USP, analisou as medidas de higiene, manipulação e armazenamento de alimentos junto a 5 mil pessoas de todos os Estados brasileiros. Foto: Getty Images.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos cerca de 600 milhões de indivíduos no mundo adoecem e 420 mil morrem em decorrência de doenças transmitidas por alimentos (DTA). No Brasil, entre 2000 e 2018, foram registrados oficialmente 247.570 casos de DTA com 195 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde. E qual foi a origem principal da contaminação apontada pelo estudo? A cozinha da própria casa. 

Diante desses dados, os pesquisadores do Centro de Pesquisas em Alimentos, também chamado Food Research Center (FoRC), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, realizaram um estudo para analisar os hábitos de higiene e práticas relativas à higienização, manipulação e armazenamento dos alimentos nas residências dos brasileiros. Os resultados mostram que uma parcela expressiva da população adota medidas inadequadas. Portanto, está mais exposta às DTA. Feita com 5 mil pessoas de todos os Estados brasileiros (a maioria mulheres entre 25 e 35 anos e com renda entre 4 e 10 salários mínimos), a pesquisa também verificou as temperaturas das geladeiras de 216 residências no Estado de São Paulo. 

Cerca de 46,3% dos participantes disseram ter o hábito de lavar carnes na pia da cozinha. Foto: iStock.Cerca de 46,3% dos participantes disseram ter o hábito de lavar carnes na pia da cozinha. Foto: iStock.

Cerca de 46,3% dos participantes disseram ter o hábito de lavar carnes na pia da cozinha, 24,1% costumam consumir carnes malcozidas e 17,4% consomem ovos crus ou malcozidos em maioneses caseiras e outros pratos. “Lavar carnes, especialmente a de frango, na pia da cozinha pode espalhar potenciais patógenos no ambiente, representando uma prática de risco”, explica o coordenador da pesquisa, Uelinton Manoel Pinto, professor da FCF e integrante do FoRC.  

Segundo ele, o consumo de alimentos de origem animal malcozidos ou crus também apresenta risco microbiológico, já que o recomendado é cozinhar o alimento a uma temperatura mínima de 74°C para garantir a inativação de patógenos que podem estar presentes no produto cru. “Lembrando que nem todo produto cru de origem animal contém micro-organismos patogênicos, mas existe esse risco e o cozimento adequado garante que esses micro-organismos sejam eliminados ou reduzidos a níveis seguros.” 

Com respeito às práticas de higienização de verduras, 31,3% costumam fazer a higienização apenas com água corrente e 18,8%, com água corrente e vinagre. Para higienização de frutas, 35,7% utilizam apenas água corrente e 22,7%, água corrente e detergente. “Para a higienização segura de verduras, legumes e frutas que serão consumidos crus a recomendação é lavar com água corrente e utilizar uma solução clorada com um tempo de contato mínimo de 10 minutos, seguido de novo enxágue em água corrente”, acrescenta. O porcentual de pessoas que usam água com solução clorada, no estudo, foi de 37,7% (para verduras) e 28,5% (para frutas). Vale ressaltar que vegetais que serão cozidos ou frutas que serão consumidas sem a casca não precisam passar pela desinfecção em solução clorada.

Cuidados na refrigeração

Ao fazer compras em supermercados, a maioria dos participantes (81%) não utiliza sacolas térmicas para transportar alimentos refrigerados ou congelados até suas residências. “Em um país como o Brasil, onde as temperaturas chegam facilmente a 30°C em várias cidades durante o ano todo, é fundamental que os produtos perecíveis sejam transportados em condições adequadas, dentro de uma sacola térmica”, destaca Jessica Finger, nutricionista e pesquisadora que conduziu a pesquisa, que teve ainda o envolvimento de um aluno de iniciação científica, Guilherme Silva, graduando de Nutrição da USP.  

Com relação às sobras de alimentos, 11,2% dos participantes relataram armazená-las na geladeira passadas mais de duas horas do preparo, o que representa risco à segurança dos alimentos. “Não é recomendado deixar alimentos prontos por mais de duas horas sem refrigeração, visto que a temperatura ambiente favorece o crescimento microbiano nesses alimentos. Essa é uma das principais práticas responsáveis por surtos de doenças de origem alimentar,” acrescentam os pesquisadores. 

Evidenciou-se também que era comum entre os participantes descongelar os alimentos em temperatura ambiente (39,5%) ou dentro de um recipiente com água (16,9%), o que também não é adequado, visto que os alimentos devem ser mantidos a uma temperatura segura durante o descongelamento, podendo ser realizado na geladeira ou no micro-ondas. 

Armazenamento de carnes

Sobre o armazenamento de carnes na geladeira, a maioria dos participantes (57,2%) relatou armazenar as carnes na própria embalagem que contém o produto. Esta prática é questionável, uma vez que é preciso utilizar um recipiente adequado para evitar o gotejamento do suco da carne e a contaminação de outros alimentos estocados no refrigerador.

A boa notícia é que em relação à temperatura dos refrigeradores, dos 1.944 registros coletados, 91% ficaram entre a faixa de temperatura recomendada, de 0 a 10°C. Este dado é importante, pois pode ser utilizado em estudos de modelagem para prever a multiplicação de micro-organismos nos alimentos refrigerados. 

Baixe gratuitamente a cartilha clicando aqui.

***
Texto da Assessoria de Comunicação da FoRC.

Cinema da Praça / Arquipélago Arquitetos. Foto: Pedro Napolitano Prata.Cinema da Praça / Arquipélago Arquitetos. Foto: Pedro Napolitano Prata.

A ocupação territorial responde a uma série de fatores e é a partir do desenvolvimento econômico e da distribuição de renda, trabalho e serviços no território que vemos cidades crescerem e se espalharem. Bairros e regiões vão sendo transformadas pouco a pouco, como resposta aos modelos econômicos atuais. Essa lógica cria vazios urbanos em forma de construções completas, dotadas de toda infraestrutura, e mesmo assim desocupadas ou subutilizadas. A trajetória dos centros antigos e dos cinemas de rua ilustra essa lógica e nos faz refletir sobre como lidar com esses desafios da cidade contemporânea. 

Cine Marrocos no centro de São Paulo. Foto: Alice Brill Czapski /  IMS.Cine Marrocos no centro de São Paulo. Foto: Alice Brill Czapski / IMS.

Entre as décadas de 1900 e 1930, os cinemas de rua começaram a ser inaugurados nas cidades brasileiras, como a primeira sala de cinema de Belo Horizonte no Teatro Paris, de 1906, e o Cine Art Palácio em São Paulo, de 1936. Territorialmente esses espaços eram localizados nos centros das cidades, em terrenos valorizados e apresentavam uma arquitetura imponente. Existindo nas capitais e também no interior, esses espaços de encontro e de socialização tiveram seu auge durante as décadas de 1930 e 1960.  

Seguindo a mesma toada dos antigos teatros, os cinemas de rua concentravam as pessoas e movimentavam as ruas, sendo uma das principais atividades de lazer da época e definindo territorialidades. Implantados próximos uns dos outros, a grande concentração de cinemas e de outros serviços relacionados a essa atividade, como produtoras, bares e cafés, ganhou o nome de cinelândias, tornando-se os pólos cinematográficos das grandes cidades. Em São Paulo, por exemplo, essa atividade caracterizou por certo período avenidas centrais como São João e Ipiranga, ao mesmo tempo que, respondendo à iminente crise econômica e à desigualdade social latente, definiu também regiões como a Boca do Lixo. 

Shopping Iguatemy., o primeiro shopping center da cidade de São Paulo. Foto: São Paulo em Foco.Shopping Iguatemy., o primeiro shopping center da cidade de São Paulo. Foto: São Paulo em Foco.Historicamente, a Boca do Lixo tem sua origem nas décadas de 1910 e 1920 como uma famosa região degradada e ocupada por prostitutas e outros grupos marginalizados. Com a ascensão do cinema nacional, e da consequente contracultura, essa região atraiu artistas e produtoras, sendo berço de importantes produções audiovisuais nacionais, como o cinema marginal e, posteriormente, as pornochanchadas. A vivência dos cinemas de rua das cinelândias e a contracultura da Boca do Lixo se cruzavam territorialmente e conviviam, até a decadência dos cinemas, quando a degradação se expandiu por todo o centro. 

Com a chegada da televisão e do VHS e o crescimento populacional, relacionado ao consequente crescimento e espalhamento das cidades, os cinemas de rua começam a enfrentar dificuldades. A decadência teve início na década de 1970. Neste momento, cidades como São Paulo passavam por uma transformação em seu território. O centro da cidade ia se esvaziando de comércios e serviços, que migravam para outras regiões ou ainda para os recém chegados shopping centers. 

Manifestação contra o fechamento do Cinema Belas Artes em São Paulo. Foto: Fora do Eixo.Manifestação contra o fechamento do Cinema Belas Artes em São Paulo. Foto: Fora do Eixo.

Dessa forma, os cinemas de rua se transformaram: por um lado a atividade se transportou para dentro dos shoppings centers, transformando-se na tipologia que conhecemos hoje. Por outro, os esvaziados cinemas de rua se tornaram pouco a pouco vazios urbanos. Nas cidades pequenas, muitos desses cinemas foram consumidos pelo mercado imobiliário, sendo demolidos e apagados do território. Nas grandes cidades, algumas dessas estruturas resistiram, ocupadas com cinemas pornô ou vazias e imersas em uma região central degradada. Poucos são aqueles que resistiram e se mantém como cinemas de rua – e quando isso ocorre, é geralmente a partir de investimentos públicos e privados. 

Cineroleum / Assemble. Foto: Cortesia de Assemble.Cineroleum / Assemble. Foto: Cortesia de Assemble.

Considerando que muitos estão localizados em terrenos centrais com acesso a transporte público e infraestrutura, o resultado desse processo nos centros das cidades envolve uma série de edifícios e áreas construídas que não cumprem com sua função social. Essa lógica se expande para comércios, hotéis e todas as atividades que, em parte, foram sendo absorvidas pelos shopping centers e em parte deslocadas para outras regiões. Com um grande contingente construído e sem função social, ao mesmo tempo que observamos a necessidade de se tomar decisões mais conscientes – em termos ambientais, econômicos e sociais – sobre como e o que construir nos próximos anos, é preciso refletir sobre como incorporar esse tipo de vazio urbano ao tecido e à vida da cidade atual.  

Eletroteatro Stanislavsky / Wowhaus. Foto: Ilya Ivanov.Eletroteatro Stanislavsky / Wowhaus. Foto: Ilya Ivanov.

Dessa forma, é importante que consigamos entender cada vez mais a arquitetura como ferramenta de transformação espacial que responde às demandas da sociedade, o que não implica em trabalhar a partir do inexistente, mas sim, do pré-existente, como é o caso de projetos como Cineroleum na Inglaterra, projetado pelo Assemble, que transforma postos de gasolina em cinemas de rua, ou ainda o Cinema da Praça, do Arquipélago Arquitetos, e o Eletroteatro Stanislavsky, deWowhaus, que restauram antigos cinemas de rua.

***
Este artigo de Giovana Martino é parte do Tópico Reabilitações publicado originalmente no do ArchDaily.

Um grande paralelepípedo de concreto desperta a atenção de quem passa, é a casa Butantã, uma construção cinquentenária, projetada por Paulo Mendes da Rocha para sua própria residência. Nascido em 1928 e falecido em 2021, o arquiteto ocupou posição de destaque no cenário da arquitetura brasileira e, em 2007, foi o ganhador do prêmio Pritzker, considerado o Oscar da categoria.

Muito do que Mendes da Rocha aplicava em seus projetos está na casa construída entre 1964 e 1967, em São Paulo. Nela, o arquiteto incorporou (quase) todos os princípios que fundamentavam o ideário moderno e transformou-a em um verdadeiro laboratório, onde a franqueza no emprego do concreto armado, deixado sem revestimento, expressa seus atributos de rudeza, austeridade e força.

Mas na Butantã o arquiteto foi além: utilizou o concreto não apenas como estrutura, mas na totalidade da construção das vedações externas ao mobiliário e seu “brutalismo” se manteve intacto. Atualmente em processo de tombamento, a casa encontra-se em perfeito estado de conservação e é moradia de seu filho, o fotógrafo de cinema, Lito Mendes da Rocha.

Forma por forma

Construída em um lote de esquina com 760 m², a residência é uma caixa de concreto elevada do solo sobre pilotis, que cria uma área livre com 250 m², utilizada para o abrigo de carros e dependências de empregados. O número de pilares é reduzido, são apenas quatro, solução que não visava uma “ginástica estrutural”, mas a economia para as fundações que o solo encharcado e arenoso exigiria.

Dois planos sobrepostos definem a empena cega do pavimento superior da casa Butantã.Dois planos sobrepostos definem a empena cega do pavimento superior da casa Butantã.

Todo o programa da casa se desenvolve no pavimento superior. Trata-se de um volume simétrico, com duas faixas contínuas, envidraçadas e protegidas por largos beirais. Estes elementos se destacam nas fachadas: um deles em especial, pelo prolongamento das vigas que formam o pergolado para a proteção, que se converte em elemento dotado de riqueza plástica.

Nas laterais, duas grandes empenas cegas, cada uma com 21 m, foram sobrepostas ao volume inferior e apoiadas laje de cobertura. Uma delas “espia” pela janela assimétrica, um recurso que atrai o olhar de quem espreita a casa.

Totalmente aberta para a rua, a casa tem a altura do térreo dada pelos pilotis. Totalmente aberta para a rua, a casa tem a altura do térreo dada pelos pilotis.

O térreo da casa é uma praça que combina concreto e jardim. O térreo da casa é uma praça que combina concreto e jardim.

A saleta íntima tem decoração despojada, sem qualquer excesso. A saleta íntima tem decoração despojada, sem qualquer excesso.

Na cozinha, assim como em todos os espaços da casa Butantã tudo remete aos anos 60. Na cozinha, assim como em todos os espaços da casa Butantã tudo remete aos anos 60.

O conceito de continuidade espacial aparece nos ambientes que apresentam fechamentos "fluidos". O conceito de continuidade espacial aparece nos ambientes que apresentam fechamentos "fluidos".

A ambientação da suíte principal acompanha a atmosfera e o conceito dos demais espaços da casa Butantã. A ambientação da suíte principal acompanha a atmosfera e o conceito dos demais espaços da casa Butantã.

Vocação moderna

Saudada como “a nova planta do habitat moderno”, a casa Butantã subverte todos os princípios há muito consagrados como componentes da casa tradicional, procurando a “confraternização explícita”. Assim, seus dormitórios são postos no miolo da construção – portanto, sem dispor de insolação direta dada pelas claraboias. As áreas de convívio são periféricas e recebem luz e ventilação diretas.

Há duas varandas: a mais estreita (três metros) é para uso informal e a mais ampla abriga os ambientes de estar com lareira suspensa, refeições e escritório (5,5 m), com seu “mobiliário imprescindível”, em concreto. Tal disposição elimina os corredores que invariavelmente separam as funções íntimas, sociais e de serviço.

Outra premissa básica é a continuidade espacial, caracterizando um modo de vida muito particular. Especialmente na solução dada para os cinco dormitórios (quatro deles com dimensões mínimas de 2,25 m), onde as delgadas divisórias de concreto não encostam no vigamento da cobertura e os fechamentos voltados para a sala de entretenimento são feitos com portas-veneziana de madeira. 

A solução criou uma fresta com a altura da viga. “Lembro que, quando criança, ouvia, do meu quarto, as conversas dos adultos que se reuniam na sala”, conta Lito; referindo-se ao som que passava pelo vazio. Eram vozes não só de familiares, como de intelectuais, artistas, músicos que frequentavam a Casa Butantã e discutiam os rumos da sociedade brasileira.

 

 

A distribuição modernista dos ambientes da casa Butantã, acaba por subverter o jeito tradicional de pensar a casa. Imagem: Arte UOLA distribuição modernista dos ambientes da casa Butantã, acaba por subverter o jeito tradicional de pensar a casa. Imagem: Arte UOL

Ficha técnica

Casa Butantã, São Paulo (SP).

Projeto de Paulo Mendes da Rocha.

  • Área do Terreno 670 m².
  • Início do Projeto 1964.
  • Conclusão da Obra 1967.
  • Projeto Paulo Mendes da Rocha e João De Gennaro.
  • Projeto de Arquitetura Paulo Mendes da Rocha.
Leia também: Documentário ‘Tudo é Projeto‘, sobre a vida e a obra de Paulo Mendes da Rocha.

***
 Por Ledy Valporto Leal / Colaboração para o UOL, de São Paulo. Fotos: Leonardo Finotti / UOL.

O Mosteiro da Luz preserva até hoje as características de sua técnica construtiva em taipa de pilão e de sua arquitetura de caráter religioso. Foto: Maíra AcaybaO Mosteiro da Luz preserva até hoje as características de sua técnica construtiva em taipa de pilão e de sua arquitetura de caráter religioso. Foto: Maíra Acayba

Prof. Dr. Benedito Lima de Toledo tem livro inédito e póstumo lançado, que conta a história de um dos conjuntos arquitetônicos mais emblemáticos e bem preservados da Cidade de São Paulo: o Mosteiro da Luz.

Em 2019, após anos de trabalho e pesquisa, o Prof. Dr. Benedito Lima de Toledo, finalizava o livro Mosteiro da Luz, quando, infelizmente, veio a falecer. A obra, que tem o esmero do grande significado desse conjunto artístico e arquitetônico da cidade de São Paulo, evidencia o legado deste importante pesquisador em um livro póstumo e inédito, publicado pela KPMO Cultura e Arte.

Clausura das religiosas. Foto: Maíra  Acayaba.Clausura das religiosas. Foto: Maíra Acayaba.

Benedito Lima de Toledo foi arquiteto, urbanista, acadêmico da APL (Academia Paulista de Letras) – ocupou a cadeira de número 39 que fora de Monteiro Lobato –, Professor Titular de História da Arte e Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, exímio pesquisador e autor de importantes obras publicadas que nos revelam a história da cidade de São Paulo. Unindo-se ao arquiteto e diretor de arte Marcello de Oliveira, seu parceiro na edição de várias outras publicações desde os anos 1990, conseguiu imprimir textos inéditos e reveladores sobre a arquitetura e o urbanismo da cidade, sempre acompanhados por extensa pesquisa iconográfica e curadoria fotográfica primorosa. Suzana Alessio de Toledo, bibliotecária e esposa do professor Benedito, tem papel importante na materialização de sua obra, onde sempre pôde auxiliá-lo na pesquisa e execução de seu trabalho.

O Claustro do Mosteiro da Luz. Foto: Maíra Acayaba.O Claustro do Mosteiro da Luz. Foto: Maíra Acayaba.

Não podia ser diferente, nas mãos de Benedito, um dos conjuntos arquitetônicos coloniais mais emblemáticos e bem preservados da cidade de São Paulo ganhou vida e virou livro. O autor, em sua narrativa, volta ao passado para resgatar os espaços simbólicos da cidade, utilizando-se da iconografia com imagens e registros de viajantes, pintores e fotógrafos que retrataram uma São Paulo de tempos passados. Passeia por largos e ruas, para então chegar ao edifício religioso, onde Frei Galvão, arquiteto e construtor, foi o grande artífice da edificação do Mosteiro. Em sua extensa pesquisa, o autor viaja à Lisboa para narrar, com encanto, a história da imagem de Nossa Senhora da Luz.

No texto, Benedito Lima de Toledo descreve como o convento passa de um lugar de “recolhimento de mulheres, devotas da Divina Providência, para orar continuamente diante do Santíssimo”, até seu fechamento inesperado e a reabertura que inspirou Frei Galvão a edificar uma nova construção, para dar vida ao Mosteiro da Luz que conhecemos hoje.

Cela do Frei Galvão. Crédito: Maíra Acayaba.Cela do Frei Galvão. Crédito: Maíra Acayaba.

O livro narra episódios como o fechamento do local e a clandestinidade de mulheres religiosas que se escondiam por lá para ficarem recolhidas, até que a ordem de fechamento fosse revogada. A partir do porta-voz das boas novas, Frei Galvão, se dedica a edificação do novo conjunto arquitetônico, erguido em taipa de pilão, técnica construtiva aplicada à época e que mantem-se preservada até os dias atuais.

Ao leitor são reveladas as belezas desse riquíssimo patrimônio histórico. O Museu de Arte Sacra de São Paulo ocupa parte do conjunto arquitetônico e abriga uma das mais importantes coleções de obras de arte sacra e religiosa brasileira. Uma grande surpresa ainda é reservada ao visitante: o Presépio Napolitano, também conhecido como o Museu do Presépio, guarda o acervo doado por Francisco Matarazzo Sobrinho.

A fotógrafa Maíra Acayba realizou um inédito ensaio fotográfico na área reservada às freiras que vivem em clausura, onde apenas as mulheres tem acesso.

Além de trazer com maestria toda a história do Mosteiro da Luz, Benedito nos mostra através de sua narrativa detalhes do cotidiano da cidade nesse período colonial, fato que torna ainda mais importante e necessário a preservação de nosso patrimônio e o legado aos paulistas e brasileiros.

Cadeiral do coro das religiosas. Crédito: Maíra Acayaba.Cadeiral do coro das religiosas. Crédito: Maíra Acayaba.

Nesses mais de trinta anos de convivência profissional, somamos esforços em diversas ocasiões e desenhamos mais de uma dezena de publicações, muitas delas ainda inéditas. Um legado único de quem se dedicou à preservação da memória e do patrimônio artístico e arquitetônico da cidade de São Paulo. Do grande mestre Benedito Lima de Toledo temos a sua memória registrada em cuidadosos estudos que desenvolveu ao longo de sua atuação profissional como arquiteto, pesquisador e professor da FAU-USP. Tenho imensa satisfação de ter compartilhado com ele a elaboração desses cuidadosos trabalhos de edição dos livros que registram a história da arquitetura e do urbanismo da cidade de São Paulo. – Marcello de Oliveira

Ficha Técnica:

Edição: KPMO Cultura e Arte.
Autor: Benedito Lima de Toledo.
Coordenação geral: Suzana Alessio de Toledo.
Prefácio: Gabriel Frade.
Orelha: Lúcio Gomes Machado.
Direção de arte: Marcello de Oliveira.
Ensaio fotográfico: Maíra Acayaba.
Apoio cultural: AnimaCasa, Pitá e Refúgios Urbanos.
Ano: 2021.
Número de páginas: 180.
Medidas: 22×25 cm.
Preço: R$ 89,00.

Sobre o autor: Benedito Lima de Toledo, apaixonado pela arquitetura, pelos livros e pela cidade de São Paulo, passou sua vida pesquisando e transmitindo seus conhecimentos através de suas aulas, palestras e publicações de várias obras. Dentre eles, destacamos: São Paulo: três cidades em um século; Álbum iconográfico da Avenida Paulista; Anhangabahú; Prestes Maia e as origens do urbanismo moderno em São Paulo (Prêmio Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo 1996); Esplendor do barroco luso-brasileiro (Prêmio Jabuti 2013), entre muitos outros.

A cidade de São Paulo, como mencionou Benedito Lima de Toledo em seu livro São Paulo: três cidades em um século, (...) “é um palimpsesto – um imenso pergaminho cuja escrita é raspada de tempos em tempos, para receber outra nova (...)”.. Três etapas: taipa, tijolo e concreto. Os edifícios construídos com a taipa de pilão, ou desapareçam ou foram descaracterizados, tendo o Mosteiro da Luz mantido sua taipa de pilão original até hoje. Assim é descrita sua história em 180 páginas nessa obra a ser lançada, com fotos inéditas especialmente do interior do clausura, da horta e tantas outras.

***
Fonte: Portal Nacional de Seguros.