Em Aglomerado de BH, painéis de pintura em lajes de barracos - São Paulo São


“A imagem é pra quem? Quem vai ver essa imagem?“. Essas foram as questões levantadas pelo artista Dágson Silva, 28, quando, há cerca de oito anos, teve a ideia de pintar as lajes de alguns barracos em frente a sua casa, no Aglomerado do Morro das Pedras, Zona Oeste de BH. A ideia só saiu do papel em julho deste ano, mas, pela ousadia do artista, irá permanecer por muito tempo no cotidiano de quem vive na comunidade.

A inspiração para o grafite em local alternativo surgiu como uma forma de protesto. Dágson sentiu a necessidade de mostrar ao público externo que o aglomerado não era apenas um local de violência.

“Teve uma época que o aglomerado estava em crise. Nessa época, eu estava começando a desenvolver alguns trabalhos de intervenções aqui. Daí, um dia teve um conflito e eu olhei para o céu e vi que tinha dois helicópteros da mídia filmando o aglomerado”.

Desde então, o artista se preparou para desenvolver um trabalho orientado para cima. A ideia era mudar de alguma forma a visão negativa que foi construída sobre a comunidade, que não ilustra a realidade vivida ali. “Eu pensei no ângulo aéreo. Se tiver algum helicóptero da polícia ou da imprensa que vier aqui, agora vai ter um detalhe na paisagem para mostrar“.

As pinturas têm o intuito (e o poder) de atribuir o efeito surpresa a quem fita a vila de um ângulo superior. Assim, as câmeras que pretendem registrar a violência serão surpreendidas por três rostos caricatos olhando para elas.

“Eu discordo dessa abordagem que a mídia faz às vezes do aglomerado, uma visão viciada em resumir o aglomerado como um espaço de conflito, um lugar ruim“, afirmou o artista de rua.

Foto: Starley Kemp.

Diante disso, quando Dágson viu pela TV as imagens transmitidas a partir dos helicópteros, imaginou que as lajes poderiam se tornar grandes painéis a céu aberto. “Como eu trabalho com intervenção urbana, que é fazer uma intervenção na paisagem, eu já comecei a imaginar como se fosse um monte de telas“.

O grafiteiro acredita que essa tenha sido a maior pintura que já realizou. “Você fazer uma pintura estando dentro dela é algo muito ‘doido’, porque ela vai cobrindo você todo e não dá pra olhar de longe, você tem que imaginar como está ficando“. Ao todo, Dágson levou cerca de um mês e meio para concluir o trabalho.

Pesquisa e representação

Inspirado no Morro das Pedras, o grafiteiro está trabalhando em uma pesquisa artística baseada no cotidiano da comunidade. De acordo com o artista, a vila é a matéria prima para o seu projeto.

“Aqui é como se fosse o meu ateliê. O bairro todo é como se fosse um ateliê a céu aberto. Eu produzo as coisas aqui, experimentando assim novos formatos“. Com essa frase o artista descreve o seu trabalho na comunidade. As pinturas nas lajes, por exemplo, foi uma experimentação que deu muito certo.

Foto: Starley Kemp.

“A impressão que os moradores têm daqui acaba influenciando no que eu estou fazendo. E, como eu me proponho a fazer um trabalho que é uma pesquisa, uma certa representação sobre o bairro, acho que é interessante levar em consideração o que os moradores pensam“.

Partindo desse pressuposto, os desenhos escolhidos para as pinturas foram inspirados nos moradores que fizeram parte do surgimento do aglomerado. “A maioria das pessoas era do interior, da zona rural, de comunidade indígena ou quilombola. Na minha infância era marcante as características do lugar de onde a pessoa tinha vindo“.

Assim, o artista quis fazer uma referência a esses personagens. Dágson achou que a melhor forma de representar a comunidade seria ilustrando os seus moradores. “Eu quis colocar isso nas casas para fazer uma homenagem a essas pessoas, que são o público com compõe o aglomerado, que em sua maioria é descendente de negros e índios“.
 

Foto: Starley Kemp.


A Influência da Arte

Dágson vive de arte… Há 11 anos ele se dedica à ocupação. Além da atuação como pintor de telas e muros, ele também faz oficinas e trabalhos de formação artística, atuando em projetos como o Fica Vivo.

A elaboração do projeto de pinturas nas lajes acabou influenciando no gosto pela arte dos moradores do entorno, o que arrematou na possibilidade de propagar a ideia. “As pessoas foram surgindo, batendo na porta e pedindo pra fazer em outros lugares”. Essa procura, além de contribuir para o trabalho do artista, também permitiu a Dágson se aproximar dos moradores.

“Algumas pessoas ficam ‘programadas’ a lidar com a vida de um jeito, quando elas se deparam com um trabalho que elas têm que pensar algo que não é um tipo de pensamento habitual, elas têm que se esforçar para isso fazer sentido”.

Dessa forma, o artista acredita que quem passa por ali tem a tendência de tentar entender a imagem e dar significados para ela. “Vi bastante pessoas passando na rua, reparando e imaginando a imagem. Criando discursos, pensamentos e ideias sobre ela“. Assim, as pinturas alterariam a percepção do espaço daqueles que vivem ali.

Foto: Starley Kemp.

“Eu achei interessante esse poder de uma imagem despertar as pessoas, obrigando elas a pensar no espaço. Porque às vezes você está no lugar, olha pra ele, mas não presta atenção. A arte tem esse poder de fazer as pessoas pensarem“.

Dágson pretende seguir seu projeto de expansão da arte dentro da comunidade. Os planos envolvem pintar mais lajes e paredes que tenham maior campo de visibilidade. Graças a esse trabalho, o objetivo do artista foi alcançado. Agora, o Morro das Pedras tem sido lembrado além dos casos de violência, o aglomerado se tornou referência em trabalhos artísticos na cidade.

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Por Jéssica Munhoz no BH-AZ

 



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