Lisboa já sofre as consequências dos impactos do turismo por ser charmosa - São Paulo São

O charme nostálgico de Lisboa pode acabar se tornando sua própria ruína. Recentemente, o turismo virou a principal atividade econômica da capital portuguesa.

Os atrativos turísticos de Lisboa se diferenciam daqueles das outras capitais europeias. Em vez de grandes monumentos e praças que concentraram eventos históricos, a capital portuguesa atrai turistas pelo charme de suas ruas estreitas, casarões e lojas antigas e pela atmosfera melancólica e nostálgica.

Foram quatro milhões de visitantes estrangeiros só em 2015, contra os quase 500 mil moradores da cidade. O fluxo de turistas só tem aumentado nos últimos anos.

E embora o dinheiro gasto por esses turistas seja muito bem-vindo em um país que passou por uma crise econômica recentemente, ele também traz preocupações: o aumento do custo de vida para os moradores locais e as mudanças que isso pode trazer para a cidade.

Como o turismo pode impactar negativamente a cidade

O boom imobiliário é a primeira consequência direta do aumento drástico do turismo no país. Só na primeira metade de 2015, o valor das diárias no setor hoteleiro subiram quase 12% em Lisboa.

Os aluguéis também subiram em razão do aumento da procura, especialmente em sites de temporada, como o Airbnb. O setor imobiliário estima que o aumento tenha sido de 30% a 40% desde 2014.

O aumento tem gerado gentrificação nos bairros históricos. Isso significa que moradores dessas regiões se veem incapazes de pagar os altos preços do custo de vida, enquanto os inquilinos fazem pressão para esvaziar os imóveis a fim de alugá-los a turistas por preços maiores. A consequência é que moradores locais que vivem há dezenas de anos no mesmo lugar acabam se mudando para bairros periféricos, mais baratos.

Em Lisboa, arquitetura e mobiliário das lojas antigas fazem parte do charme de cidade. Foto: Ralmonline ALM.Em Lisboa, arquitetura e mobiliário das lojas antigas fazem parte do charme de cidade. Foto: Ralmonline ALM.

E o mesmo vale para os estabelecimentos. Uma das características irresistíveis das cidades portuguesas são as pequenas bodegas, estabelecimentos antigos especializados que mantêm mobiliário, decoração e hábitos de venda há centenas de anos. Entre eles estão tradicionais lojas de flores, tabacarias, peixarias, lojas de armarinhos, cafés, bares e restaurantes.

Esses lugares, que vendem tecidos em gavetas de madeira e bebidas em louça tradicional, ajudam a contar a história da cidade e também estão ameaçados pela sobrecarga de clientes e pelo aumento dos preços.

Eles estão entre os elementos mais marcantes do charme lisboeta. A atmosfera da cidade atrai tantos turistas justamente porque conserva lugares como esses, mas a gentrificação os está substituindo por lojas de presentes fabricados na China e redes de fast-food.

“Não tenho nada contra os turistas, mas, dentro de alguns anos, eles vêm cá e o que verão será, sobretudo, hotéis e lojas feitas para turistas. Não restará nada de autêntico.” Joana Nogueira, moradora do bairro da Baixa, em Lisboa, em entrevista ao site ‘O Corvo’.

Até os famosos bondinhos lisboetas - os elétricos - foram afetados pela gentrificação. A Linha 24, retirada de circulação na década de 1990, voltou a circular. Era um pedido antigo dos moradores da cidade. No entanto, como é destinada a turistas, o valor do bilhete é de 6 euros, contra 2,85 euros das outras linhas.

Lojas históricas de Lisboa ganharão status especial. Foto: João Sena Ribeiro.Lojas históricas de Lisboa ganharão status especial. Foto: João Sena Ribeiro.
Moradores querem regulação

O jornal Renascença compilou um mapa dos estabelecimentos comerciais da cidade que já fecharam.

Há 34 lugares, entre tabacarias, lanchonetes, galerias de arte, armazéns e alfaiatarias. Outro veículo português, “O Observador”, fez uma matéria especial falando das lojas que vão “deixar saudade”.

Os moradores de Lisboa têm se organizado para protestar contra as mudanças provocadas pelo turismo na cidade. Há uma petição contra o alto preço do elétrico da Linha 24, enquanto outros movimentos pedem regulação para conter o impacto do turismo da cidade, como controle de preços de diárias de hotéis e de aluguel em certos bairros, por exemplo.

Por enquanto, a única medida anunciada pela administração da cidade tem como objetivo conservar a autenticidade dos estabelecimentos comerciais dos bairros turísticos.

programa permite que lojas, restaurantes, bares e bodegas tradicionais da cidade possam fazer parte de uma lista selecionada de"lojas históricas". Esses lugares terão possibilidade de solicitar fundos públicos para restauração arquitetônica, por exemplo.

Até agora, foram escolhidos 63 estabelecimentos, mas a lista deve chegar a 100 até o fim do ano. Quanto ao aumento de preços de aluguel para os moradores de bairros históricos, a visão da administração lisboeta não parece estar apontando para uma possível regulação.

Em abril de 2016, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, disse ao jornal “Diário de Notícias” que “seria descabido” impedir que alguém compre uma casa em Alfama [bairro histórico de Lisboa] e que esse investidor seja uma pessoa de maiores rendimentos ou, até, de outra nacionalidade”.

Medina destacou também que o arrendamento de casas locais para estrangeiros não seria desencorajado. “Este tipo de alojamento teve uma importância muito grande em suportar a cidade durante a crise”, disse.

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Por Ana Freitas no Jornal NEXO.



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