Bebedouros públicos entram na lista de espécies ameaçadas de extinção - São Paulo São

Sede? Sempre tinha um bebedeouro por perto. Ou uma torneira. Em último caso, bastava bater na porta e pedir que ninguém negava um copo d’água.

Não estou falando de um país comunista ou de alguma comunidade hippie. Isso acontecia aqui mesmo, quando ecologia era uma palavra que só aparecia no Globo Repórter.

Acho que esse desastre ambiental de engarrafar água, ao menos no Brasil, começou no meio dos anos 80. Até então, se você pedia água num restaurante, vinha uma jarrinha com água e gelo. Grátis. Eis que o garçom começou a responder “com ou sem gás?”

E lá fomos nós.

Os bebedouros também começaram a sumir. Quer água? Toma essa garrafinha de plástico xexelenta cujo lacre é motivo de piada. Ah, ela custa dez cruzeiros.

Surgiram várias marcas. Todas sem gosto, sem cheiro e sem cor. Exatamente como a água do bebedouro.

Toda uma indústria se criou para captar, engarrafar e transportar o líquido sem gosto, sem cheiro e sem cor. Por uma estranha coincidência, começou uma campanha para dizer que a água da torneira, até então potável, na verdade era potencialmente nociva e quiçá venenosa. Um caldo de micróbios e bactérias. Nem os cachorros deveriam tomar algo assim. Já a água engarrafada, essa sim deveria ser tomada a toda hora e em grande quantidade.

O marketing tomou conta. Surgiram várias marcas. Todas sem gosto, sem cheiro e sem cor. Foto: Getty Images.O marketing tomou conta. Surgiram várias marcas. Todas sem gosto, sem cheiro e sem cor. Foto: Getty Images.O marketing tomou conta. A água X vinha do degelo dos Alpes. A Y de uma fonte usada pelo próprio Leonardo da Vinci. Todas elas tinham uma pureza tão grande que seriam capazes de nos ofertar um bem estar divino, quando não curar as doenças mais incuráveis.

E os bebedouros cada vez mais raros.

Quando nem os Alpes davam conta da gourmetização, ainda tinha o subsolo de uma ilha no meio do Pacífico. Tudo para matar a sede do sujeito sem-noção com dinheiro sobrando.

Chegamos ao supra-sumo do capitalismo selvagem: cobrar caro por algo que pode ser obtido praticamente de graça. E mais: fazer com que as pessoas paguem para fazer uma garrafa de água vir do outro lado do mundo.

Chegamos ao supra-sumo do capitalismo selvagem: cobrar caro por algo que pode ser obtido praticamente de graça. Foto: Getty Images,Chegamos ao supra-sumo do capitalismo selvagem: cobrar caro por algo que pode ser obtido praticamente de graça. Foto: Getty Images,

Até que uma empresa americana foi multada pelo governo: pegava a água da bica, fervia, colocava uns sais minerais e vendia ao respeitável público como sendo o néctar dos Deuses. Até os sem-noção com dinheiro sobrando começaram a se sentir um pouco otários. Também começaram a se dar conta de que a água da bica era testada pelo governo mas as águas minerais eram testadas pelos próprios fabricantes. E ninguém sabia nada sobre o efeito do engarrafamento em plástico, ainda mais que a garrafa viajava centenas de quilômetros no baú de uma caminhão ou até mesmo de avião e navio. Toda essa informação corria por conta do fabricante ou mais precisamente do seu departamento de marketing.

Em muitos lugares, a água engarrafada começou a ser mal vista. Ficou claro que todo o marketing de saúde e pureza não combinavam com caminhões, navios e aviões cruzando o planeta e queimando combustível para levar água onde não falta. O marketing bateu de frente com a lógica.

Por aqui, onde a lógica apanha de todos os lados, o máximo a que chegamos foi a uma lei que obriga os restaurantes a oferecer água filtrada de graça. (Experimente fazer isso e observe a boa vontade dos garçons.)

Talvez a solução seja colocar os bebedouros públicos sob a guarda do Ibama, junto com o mico-leão-dourado e a ararinha azul.

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Por Leo Aversa no Projeto Colabora.



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