'Jardins alagados' podem acabar com enchentes, dizem especialistas - São Paulo São

Arquitetos, paisagistas, urbanistas e engenheiros têm apostado na utilização de uma ferramenta ainda pouco conhecida no Brasil, capaz de acabar com enchentes, filtrar as águas dos rios, melhorar a qualidade do ar e ainda deixar as cidades mais bonitas.

Jardim de chuva 'funcionando', alagado, em frente à Casa Cor, no bairro do Morumbi, Zona Sul de São Paulo, Foto: Divulgação/Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design.Jardim de chuva 'funcionando', alagado, em frente à Casa Cor, no bairro do Morumbi, Zona Sul de São Paulo, Foto: Divulgação/Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design.

Um jardim de chuva é parecido com um jardim convencional, com a diferença de que ele deve ficar necessariamente em uma parte mais baixa do terreno, com pelo menos 10 centímetros de profundidade, pois ele será alagado pela chuva, explica o engenheiro civil Guilherme Castagna.

Os profissionais instalam os chamados jardins de chuva para apresentar o conceito à sociedade, mas defendem a sua adesão em larga escala pelos governantes como política pública.

O G1 conversou com quatro especialistas que, desde 2012, têm empreendido o método na cidade de São Paulo, onde construíram pelo menos 30 desses canteiros multifuncionais.

Confira abaixo como funciona um jardim de chuva, qual sua finalidade, os benefícios secundários, os locais mais indicados para sua implantação e como o mundo tem enxergado essa ferramenta.

Como funciona?

“A gente quebra o concreto, faz a escavação, prepara a terra e planta o jardim. Serragem e folhas secas ajudam a proteger o solo. O importante é que ele tenha um ponto para entrada da água da chuva, que vai infiltrar nesse jardim”, explica Castagna. “Se no local instalado houver um fluxo mais forte, colocamos pedras na entrada do jardim para reduzir a velocidade da água”, continua.

Jardim de chuva é ferramenta ainda inovadora no Brasil e capaz de acabar com enchentes, filtrar as águas dos rios, melhorar a qualidade do ar e ainda embelezar as cidades, segundo especialistas. Foto: Marcelo Brandt/G1.Jardim de chuva é ferramenta ainda inovadora no Brasil e capaz de acabar com enchentes, filtrar as águas dos rios, melhorar a qualidade do ar e ainda embelezar as cidades, segundo especialistas. Foto: Marcelo Brandt/G1.Para que serve?

O africano Zephaniah Phiri Maseko foi um dos pais do jardim de chuva. Ele sofria com a seca no Zimbábue e decidiu “plantar chuva” por meio da técnica, cuja função principal é a captação e a absorção da água.

Zephaniah Phiri Maseko: o africano do Zimbábue que ensinou o mundo a plantar chuva. Foto: Ken Wilson.Zephaniah Phiri Maseko: o africano do Zimbábue que ensinou o mundo a plantar chuva. Foto: Ken Wilson.

O resultado para ele foi a melhoria da sua colheita, mas, de acordo com arquitetos, o procedimento é versátil, trazendo umidade para regiões áridas e reduzindo enchentes em locais úmidos.

Imagem do livro "Rainwater Harvesting for Drylands and Beyond."Imagem do livro "Rainwater Harvesting for Drylands and Beyond."

“Nas cidades, o jardim de chuva promove uma drenagem sustentável, captando a água das ruas e calçadas. Isso significa que ele é capaz de evitar enchentes em áreas mais baixas de um bairro”, explica o arquiteto e paisagista alemão Ulrich Zens, o Uli, expert em sistemas multifuncionais de vegetação.

De acordo com o profissional, outros benefícios possíveis estão:

  • Rios mais limpos, pois toda a água suja da rua e da calçada é filtrada nas camadas do canteiro e chega mais limpa ao lençol freático, caso o rio não esteja canalizado. “Acontece como um filtro de café, que segura a borra. A umidade entra e se espalha muito devagar por meio das raízes”, diz Uli.
  • Melhora a qualidade do ar, já que as plantas do jardim deixam o clima mais úmido, absorvem o gás carbônico e liberam oxigênio. “Além disso, os ventos também carregam poeira, sujeira, que acaba se aglomerando e se depositando no jardim úmido”, continua o arquiteto.
  • Promove biodiversidade, já que o jardim atrai passarinhos, insetos, borboletas, e abelhas.
  • Deixa a cidade mais bonita.

As plantas utilizadas podem ser dos mais variados tipos, como chás, temperos e ornamentais, mas é importante que resistam ao alagamento do jardim e também aos períodos mais secos, de acordo com o engenheiro.

Onde há jardins de chuva em São Paulo?

O empresário Nik Sabey construiu dois canteiros em antigas vagas de carro na Rua Fiandeiras, no Itaim Bibi; outro grande no Largo da Batata, com o engenheiro Guilherme Castagna e o arquiteto Ricardo Cardim, que contou com canos para captação de água da sarjeta; um na Cidade Tiradentes; cinco na região da Mooca; e quatro na Vila Madalena, sendo alguns deles em rotatórias; e outros três na calçada da Casa Cor, na região do Morumbi, que são os trabalhos mais recentes.

“Na cidade, os locais mais indicados para instalar um jardim são áreas que naturalmente receberiam água da chuva, mas que não tem onde infiltrar, vai para galeria e pode causar inundações”, explica Sabey.

O engenheiro Guilherme Castagna construiu outros dois canteiros – um no Parque Ibirapuera a pedido da Prefeitura de São Paulo, e outro no Butantã, junto à nascente do rio Iquiririm. O arquiteto e paisagista Ulrich Zens fez mais um na Vila Jataí. O professor da FAU-USP Paulo Pellegrino projetou outro para a Praça das Corujas, em Pinheiros, e há informações de outro jardim de chuva no Beco do Batman.

Qual o lugar ideal para implantar um jardim de chuva?

De acordo com os especialistas, o jardim de chuva é uma ferramenta versátil, que pode ser implantada tanto em um quintal, quanto em uma praça, com ou sem projeto arquitetônico, com alto ou baixo investimento, mas o principal benefício oferecido por ele, de drenagem sustentável da água, é mais significativo em locais com relevo irregular.

Detalhe do projeto da calçada da Casa Cor. Jardim de chuva ainda é técnica inovadora no Brasil. Foto: Marcelo Brandt/G1.Detalhe do projeto da calçada da Casa Cor. Jardim de chuva ainda é técnica inovadora no Brasil. Foto: Marcelo Brandt/G1.“Ele seria muito útil em bairros como a Lapa ou a Vila Madalena - super inclinados, com sobe e desce, água se acumulando nas partes baixas. Porque o jardim reduziria a velocidade da água, que seria absorvida pelo canteiro, e as partes mais baixas teriam tempo para lidar com aquele volume todo”, explica o empresário Nik Sabey. “Outros lugares possíveis são alças de acesso de pontes e rodovias. Imagina - aquilo podia ser uma grande bacia de captação de água”, sugere Sabey.

Qual o potencial de um jardim de chuva?

Questionado se os jardins de chuva são capazes de acabar com graves problemas da cidade, como enchentes, o engenheiro civil Guilherme Castagna não hesitou.

“Sem a menor dúvida. O problema em São Paulo é que as gestões não têm dinheiro, mas insistem na visão de que obra grande é que funciona. O jardim de chuva é política pública em várias cidades do mundo, como Portland, nos Estados Unidos, e a cidade-Estado de Singapura. Pontualmente, o efeito é pequeno, mas há potencial de ser usado em grande escala. Na soma dos pequenos benefícios, o impacto é grande”, afirma.

O empresário e paisagista Nik Sabey citou o exemplo das políticas implementadas em Sidney, na Austrália, na Alemanha e pelo governo chinês em locais que chamou de “cidades-esponja”, e concordou com o colega.

Detalhe do jardim de chuva mais recente da cidade de São Paulo encontrado pelo G1, no bairro do Morumbi. Foto: Marcelo Brandt/G1.Detalhe do jardim de chuva mais recente da cidade de São Paulo encontrado pelo G1, no bairro do Morumbi. Foto: Marcelo Brandt/G1.“Os jardins de chuva realmente podem fazer uma revolução. Por um lado, temos um pensamento antigo, que trabalha contra a natureza, impermeabilizando as áreas, passando com carro em cima e poluindo. Depois de tudo, constrói um piscinão para concentrar água com lixo e gasta uma fortuna para tentar limpar essa água”, avalia o empresário Nik Sabey, que abandonou uma carreira de dez anos na publicidade para se dedicar a tornar São Paulo mais verde.

“Basicamente, o que o jardim de chuva faz é propor que a gente volte a olhar para a água como o recurso super valioso que é”, complementa Nik, que defende a ferramenta como alternativa aos piscinões. “Para fazer isso você precisa pessoas dispostas a criar cidades-esponja, encarar o jardim como política pública, repensar os espaços. Não é um jardim aqui e outro ali que resolve. É grande. Mas é possível. Não é porque é difícil que a gente não pode pensar”, conclui.

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Por Vivian Reis, G1 SP, São Paulo.