Arqueologia urbana: São Paulo ainda esconde ricas áreas de material histórico enterrado - São Paulo São

Escavação no Sítio Morrinhos. Foto: Centro de Arqueologia de São Paulo.Escavação no Sítio Morrinhos. Foto: Centro de Arqueologia de São Paulo.

A arqueologia urbana tem complicações diversas. Muitas pesquisas de arqueologia bíblica são empacadas pela impossibilidade de escavar em baixo de grandes edifícios religiosos da cidade de Jerusalém, ao mesmo tempo em que até hoje não se sabe a localidade da antiga capital da Acádia, pois o principal palpite é de baixo da atual Bagdá, que complica as escavações para averiguações. O fato das cidades ocuparem de maneira muito mais densa e o costume de endurecimento do solo pelo asfalto fazem do trabalho de prospecção mais complicado -- embora necessário para importantes descobertas.

Isso porque a construção de qualquer obra exige a vistoria de um arqueólogo para checar se não há materiais no espaço em que a obra ocorrerá. Por esse motivo, por exemplo, a Cidade do México é um dos lugares com mais achados arqueológicos do mundo; construída sobre Tenochtitlán, qualquer obra na cidade faz aparecer jardins e vias enterradas há 500 anos.

Descoberta de templo Asteca na região da Cidade do México. Foto: Getty Images.Descoberta de templo Asteca na região da Cidade do México. Foto: Getty Images.

Quando comparado com a média internacional, o Brasil tem pouca prospecção em área urbana. Países como Inglaterra, Japão e Alemanha encontram, comparativamente, muito mais material sob as cidades. Porém, num recorte nacional, o desenvolvimento das instituições acadêmicas e o fortalecimento das Sociedades de Arqueologia fizeram de São Paulo uma das cidades mais escavadas do Brasil.

Também é relevante nessa equação o fato de que a capital paulista é, ao mesmo tempo, uma cidade muito antiga e numa localidade há muito tempo ocupada. Fundada em 1554, São Paulo possui estratigrafias que vão do começo do período colonial, passando pela época dos aldeamentos, o crescimento no período imperial, a Era do café e a República. Ocuparam a cidade jesuítas, bandeirantes, comerciantes, militares, empresários e governantes que construíram muitas obras arquitetônicas e geraram muito “lixo” que, debaixo da terra, é material arqueológico.

Com isso, muitos pontos da cidade encobrem ricas áreas de material enterrado. Levantamentos apontam que, dentro da cidade, é possível achar mais de 180 sítios arqueológicos escaváveis e já catalogados. Contando o potencial de encontrarem-se ainda mais sítios, os números podem aumentar significativamente.

Escavação do Sítio Jaraguá I, em São Paulo. Foto: Centro de Arqueologia de São Paulo.Escavação do Sítio Jaraguá I, em São Paulo. Foto: Centro de Arqueologia de São Paulo.

Os tipos de sítio também são diversos. Encontramos em São Paulo pontos de escavação como, por exemplo, o Sítio Morumbi (localidade ainda não explorada, mas rica em material lítico pré-histórico), sítios de arqueologia histórica como a o Sítio Morrinho (mosteiro beneditino, onde fica atualmente o Centro de Arqueologia de São Paulo), diversos sítios pré-coloniais no complexo do Jaraguá, o Complexo do Morro do Corvo (arqueologia histórica), o Jardim da Luz (séculos XIX e XX), o Pátio do Colégio (jesuitismo colonial), a Penha (aldeias tupis), diversas casas com material prospectável, como a Casa Bandeirista (Butantã), a Casa da Ressaca (Jabaquara), do Tatuapé, do Grito (Ipiranga), do Sertanista (Caxingui), etc.  Além das diversas camadas prospectadas com a construção atual da Linha Lilás do Metrô da cidade, cujo material está em exposição na Estação São Bento.

Amostras de pesquisa no Centro de Arqueologia de São Paulo, Morrinhos. Foto: Divulgação.Amostras de pesquisa no Centro de Arqueologia de São Paulo, Morrinhos. Foto: Divulgação.

Também é relevante apontar que, com o acelerado desenvolvimento da cidade, há também muitos pontos importantes da cidade com material histórico que foram escavados sem o acompanhamento técnico de uma equipe de arqueólogos. Este é o caso, por exemplo, da Praça da Sé (com muito material colonial) e a Liberdade (com diversos achados do Império e do século XX). A descoberta ocasional e a participação de arqueólogos amadores nesse tipo de empreendimento aumentaram significativamente a área abrangida de análise do material no subsolo da cidade.

Ao mesmo tempo, a cidade ainda explorou pouco suas camadas mais profundas. Isso faz com que, ao mesmo tempo, muito material esteja potencialmente conservado debaixo da cidade e que ainda não foi acessado (mas isso faz parte do campo das hipóteses) e as escavações na cidade não exijam grande profundidade. A maioria da ocupação populacional na história de São Paulo realizou fundações estruturais relativamente rasas, o que dispensa grandes empreendimentos caros para escavação.

A casa bandeirista de 1702, sede do Centro de Arqueologia de São Paulo. Foto: Raul Zito.A casa bandeirista de 1702, sede do Centro de Arqueologia de São Paulo. Foto: Raul Zito.

Recomenda-se aos interessados nos sítios da cidade o levantamento de locais e apontamento de diretrizes para a conservação patrimonial da cidade feitos na dissertação de mestrado intitulada Cartas arqueológicas para a cidade de São Paulo, do pesquisador Renato Mangueira pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE USP), orientada pelo professor de Arqueologia Brasileira Astolfo Gomes de Mello Araújo.

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Citação completa do texto recomendado: MANGUEIRA, Renato Silva. Cartas arqueológicas para a cidade de São Paulo: estabelecimento de modelo de potencial para a preservação de bens arqueológicos. 2018. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – MAE, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

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Fonte: Aventuras na História.



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