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São Paulo, 1922. A Semana de Arte Moderna muda o mundo das artes, embora o descendente de espanhóis Francisco Rebolo Gonsales não lhe dê muita atenção. Aos 20 anos, prefere correr atrás da bola na esquadra reserva do Corinthians. Não leva a taça, mas na foto oficial da comemoração do Campeonato Paulista, vestido de gravata e terno, posa entre os titulares. O jovem talvez tivesse seguido como jogador de seu time do coração, para quem até mesmo desenharia o símbolo, se houvesse sentido futuro na carreira futebolística. Em lugar disso, preferiu pintar paredes.

Muito trabalho haveria para ele, que iniciara a formação artística na Escola Profissional Masculina, do Brás. Em 1926, mestre na confecção de frisos e florões, investiu em uma empresa de decoração na Rua São Bento. Os negócios prosperaram e ele quis pintar de verdade. Mas onde montaria seu ateliê? Rebolo mirou no Palacete Santa Helena, inaugurado em 1925 na Praça da Sé. O prédio, que seria derrubado em 1971 para a construção do Metrô, continha então um belo tea­tro e oferecia acomodações confortáveis para escritórios.

Mas decaía em prestígio nos anos 1930, porque aqueles em boa condição financeira começavam a rumar para a Praça da República ou a Avenida Paulista. Em 1933, o pintor detectou a baixa no preço dos aluguéis e tomou para si a sala 231. Ali fixaria seu ateliê e o escritório de decoração. Dois anos depois, o amigo Mário Zanini, decorador e empreiteiro, ocuparia a sala contígua, a de número 233, para idênticos fins. Logo o ateliê se tornaria uma sala só e os potenciais artistas da cidade acorreriam a ela em busca de oportunidades.

Lenhadores, de Rebolo, óleo sobre tela (1950). Imagem: Divulgação.


Sem se autointitular um movimento artístico nem proferir manifestos, o Santa Helena, estabelecido como grupo em 1936, incluiria sete outros pintores, apelidados pelo escritor Mário de Andrade de “proletários”. Durante a semana, no grande ateliê, os artistas, todos do sexo masculino, geriam seus escritórios e representavam naturezas-mortas.

Nos fins de semana, saíam à rua para retratar a cidade e seus arredores. Seus trabalhos começaram a chamar a atenção geral, embora gerassem observações em leve tom irônico. O crítico Geraldo Ferraz, por exemplo, descreveu-os como tradicionalistas, “a morrer de amores pelos processos de Giotto e Cimabue”.

Em 1937, eles seriam convidados a integrar a 1ª Exposição do Grupo de Artistas Plásticos Família Artística Paulista, ao lado dos consagrados Anita Malfatti e Waldemar da Costa. Como Rebolo e Zanini, os italianos Fulvio Pennacchi e Alfredo Volpi, o português Manoel Martins e os filhos de migrantes italianos Clóvis Graciano, Humberto Rosa e Alfredo Rizzotti viviam de colorir paredes, pintar carroças ou vender carnes, sem se dedicar à briga de conceitos que levaria a arte até o concretismo.

Espelhados no movimento Novecento, que na Itália advogava o retorno à técnica da boa pintura, eles negavam os preceitos futuristas, fauvistas ou cubistas, de todo modo anacrônicos na Europa, e exerciam quase sem exceção sua arte figurativa, a ecoar as experiências de um Cézanne, às vezes de um Matisse. 

Palaceta Santa Helena: modernos para os acadêmicos, acadêmicos para os modernos. FotoDivulgação.

“Eles corporificaram o ideal de que a virtude está no meio, nem em um extremo nem em outro da arte. Foram modernos para os acadêmicos e acadêmicos para os modernos”, diz o crítico Enock Sacramento, curador da exposição Grupo Santa Helena – 80 Anos, até 10 de junho na Proarte Galeria, em São Paulo. O fato de a homenagem dar-se em um espaço comercial de características museológicas e não em um museu talvez demonstre a extensão do apreço que a crítica oficial tem devotado ao grupo no decorrer da história. Grande parte das obras agora expostas pertence a colecionadores e herdeiros. E apenas alguns quadros de propriedade da galeria estarão à venda, como os de Volpi, o único entre os artistas do grupo a ter acenado aos concretistas, de quem oportunamente se desligou. 


A exposição divide os pintores por núcleos autorais. Sete obras foram escolhidas para representar cada um dos nove autores, exceto no caso de Humberto Rosa, de quem houve apenas três quadros disponíveis para a exposição, os óleos sobre tela Margem do Tietê,Paisagem com Igreja e Batuque. É rara a oportunidade de conhecê-lo, como a Manoel Martins, cuja arte combativa ecoou as representações surrealistas das pintoras mexicanas, e à obra de Alfredo Rizzotti, que documentou a paisagem e o casario com grossa pincelada impressionista, contrária àquela dos acadêmicos brasileiros, adeptos do uso do pincel fino.

Em cada núcleo desta mostra de apuro histórico observa-se a evolução de estilo de cada autor, cujas obras se enfileiram segundo sua realização no tempo. Assim é que se sabe como Aldo Bonadei, que estudou arte na Itália de seus pais, caminhou da representação figurativa até a expressão abstrata, a partir dos famosos casarios da Rua Abolição. De Clóvis Graciano apreende-se a monumentalidade dos painéis históricos, um deles confeccionado para a sede legislativa municipal. “Você está indo bem, mas é preciso estudar um pouco”, disse Candido Portinari ao deparar com sua produção inicial. O jovem se veria influenciado pelo mestre na representação humana, a menos comum entre os santo-helenistas.

Arcos sobre mulheres, acrílica sobre chapa de Fulvio Pennacchi (1977). Imagem Divulgação.

Graciano começou como pintor de carroças. Depois lutou na Revolução de 1930 e foi parar no presídio de Ilha Grande, onde dividiu a cela com intelectuais. Gostava de estudar e, para viver, tornou-se fiscal. Seguiu representando seu universo telúrico em que havia som e ritmo. Tornou-se diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e ocupou o cargo de adido cultural brasileiro em Paris. Era versado no mundo, assim como Fulvio Pennacchi, que, formado em sua Itália natal, chegou ao Brasil em 1929, certo de que faria a América. O País, contudo, mergulhava em crise, e ele partiu para o ramo das carnes. Seu açougue prosperou na Rua Bela Cintra. “Era muito criativo, um artesão no bom sentido da palavra”, diz o curador Sacramento. Incumbido de dar aulas de pintura às mulheres da família Matarazzo, o artista casou-se com uma delas, Filomena. Eis por que, com algum pesar, abandonou a profissão de açougueiro, pouco indicada para um homem em sua nova condição social.

Cabaré, óleo sobre tela de Manoel Martins (1946). Imagem: Divulgação.

Pennacchi construiu a própria casa de um quarteirão. Desenhou os móveis, compôs afrescos. Pintou a paisagem toscana e a brasileira, fez naturezas-mortas. E representou de modo tão próprio as festas populares, como as de São João, que fez Alfredo Volpi declarar, sobre sua marca na pintura: “Subtraio, do retângulo, o triângulo. Pinto o retângulo. Na verdade, não sou um pintor de bandeirinhas. Quem pinta bandeirinhas é o Pennacchi”. 

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Por Rosane Pavam. *Reportagem publicada originalmente na edição 902 de CartaCapital, com o título "O esplendor proletário".


No próximo domingo, dia 29 de maio, o Parque Ibirapuera será invadido por carteiros/dançarinos! Neste dia, o Grupo Zumb.boys, apresenta sua intervenção “Dança por Correio” dando andamento ao seu atual projeto, contemplado pelo PROAC Circulação de Espetáculo de Dança - 2015. Nesta intervenção, o grupo criará um espaço de interação com a plateia, propondo novas relações entre espaço, dança e musicalidade.

Vestidos como carteiros, os dançarinos vão entregar cartas para o público e, a partir delas, traduzir em dança os sentimentos e as sensações contidas no papel. A ideia é que haja um diálogo não-verbal entre os intérpretes-criadores e os espectadores, interferindo no fluxo cotidiano e na paisagem urbana. O espetáculo é apresentado a partir de improvisos e jogos coreográficos pré-estabelecidos, que surgiram das pesquisas realizadas pelo grupo.

 O Grupo Zumb.Boys surgiu em 2007, com a proposta do diretor Márcio Greyk de criar uma linha de pesquisa nas danças urbanas, transformando a ideia de ser uma dança apresentável apenas nas ruas, para ser levada aos palcos, através de uma estrutura de pesquisa, produção e criação.

O grupo traz em sua formação os bailarinos que possuem diferentes históricos na dança contemporânea, participando inclusive do processo criativo de importantes companhias como OMSTRAB, Cia. de Dança, Teatro Ivaldo Bertazzo e entre outros.

O Grupo Zumb.boys, tem em seu histórico uma aclamada temporada de estreia de seu último espetáculo, realizada em 2015, chamado O que se rouba, passando pelo Teatro Flávio Império, Teatro Alfredo Mesquita e esgotando os ingressos em um local emblemático para a dança em São Paulo: o Centro Cultural São Paulo. Com este trabalho, o grupo apresentou um trabalho inédito na cena do breaking e hip-hop, promovendo o encontro e o diálogo com diferentes linguagens das artes lapidando o espetáculo, expandindo as possibilidades de investigação corporal e corroborando com novas estruturas de pensamento criativo. Dessa forma, o grupo segue valorizando a cultura de danças urbanas, fortalecendo a cena e elevando seu patamar de pesquisas nessa modalidade.

Da necessidade de maior interação com o público, em 2012, em uma produção independente, os Zumb.boys estrearam “Dança por Correio”, seu primeiro espetáculo de intervenção urbana, com caráter performático. Desde então, circulou com a intervenção por diferentes espaços e cidades, se apresentando em unidades do SESC, Galeria Olido, Mostra Tudo Pra Rua (mostra de dança em espaço urbano), diversas unidades do CEU, Circuito Cultural Paulista e importantes festivais.

Convidado pelo Grupo Esparrama, famoso por realizar intervenções na janela de um apartamento em frente ao Minhocão, em 2015, participou da ação Esparrama Amigos pela Janela, adaptou a intervenção e também esparramou sua arte pela janela. A intervenção especial foi chamada “Dança por Correio em: A Casa do Carteiro” e reuniu cerca de 300 pessoas no Minhocão, que interagiram e se divertiram com os carteiros dançarinos.

Agora, contemplado pelo PROAC Circulação de Espetáculo de Dança – 2015, o grupo apresenta novamente a intervenção Dança Por Correio e convida a todos que estiverem aproveitando o domingo no Parque Ibirapuera, a parar por um momento e interagir com os carteiros dançarinos que estarão distribuindo cartas e muita diversão. A intervenção acontecerá às 17h.

É só chegar para receber sua carta e ver o que surge a partir dela! 

Para conhecer mais o trabalho do grupo, acesse a página Grupo Zumb.boys no facebook e o site http://www.zumbboys.com/

Serviço

Intervenção - Dança por Correio Grupo Zumb.boys
Quando: Dia 29 de maio (domingo).
Horário: 17h.
Endereço:  Parque Ibirapuera - Av. Pedro Álvares Cabral - Vila Mariana, São Paulo – SP.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: livre.
QuantoGrátis.

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Assessoria de imprensa: Luciana Gandelini / [email protected] 


Em seu primeiro longa, Vera Egito (roteirista de Serra Pelada) põe em foco personagens que conhece muito bem. Amores Urbanos é sobre os ainda jovens, na faixa dos 30 anos, meio perdidos na urbe. Desorientados, como convém, expressam esse caráter urbanoide da modernidade, um mix de vida charmosa, angustiada e liberada do ponto de vista sexual. Porém, não a ponto de colocá­los a salvo de culpas e repressões. A formação conservadora é mais poderosa do que se supõe. Está inscrita no DNA social.
 
Entre vários personagens, três formam a vanguarda da narrativa, põem­-se à frente do palco, por assim dizer. Júlia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit) e Micaela (Renata Gaspar) dividem apartamento. Júlia é hétero, mas não encontra companheiro fixo. Diego e Micaela são gays. Diego é dado a aventuras noturnas e por isso entra em conflito com o namorado, que deseja uma relação estável. Micaela namora uma diretora de teatro, Eduarda (a cantora Ana Cañas), mas essa recusa­se a assumir a relação. São esses pontos de conflitos que imantam a história. 

O enredo se dá em torno desses personagens, suas aventuras, suas angústias, suas visões de mundo, instáveis como seus relacionamentos. Uma graça da direção é não pedir a nenhum deles demasiada coerência. Comportam­se da maneira errática própria da idade (hoje a adolescência vai longe) e colocam o relacionamento amoroso no ápice das preocupações.
 
Desse modo, quase não há uma história, com muitas reviravoltas e suspense e desfecho, mas o registro a seco dessas vidas jovens tentando se ajustar a um mundo careta. E ajustar­se a si mesmas. Há uma vivacidade, um frescor na filmagem, em seu naturalismo sem exageros. Assistimos a longas conversas entre os membros do trio e de cada um com seus supostos e problemáticos pares. A gíria dá o tom nos diálogos e esses primam pela espontaneidade. 

A contrapartida é o caráter meio raso na construção desses personagens. Pouco sabemos deles no início e pouco descobriremos ao final. Enfim, Julia tem seus problemas com os pais que, donos do dinheiro, deram o apartamento onde mora e que partilha com os amigos. A relação conflituosa que Micaela e Eduarda mantêm talvez seja a mais interessante, porque a mais sofrida. Inclui elementos de gênero e a hesitação em assumir a homossexualidade ou a bissexualidade, mesmo em meios tidos como abertos. Diego reserva prudente distância de uma família que o rejeitou. Uma morte terá o efeito de confrontá­lo com o passado. 

Tudo isso parece promissor em termos de dramaturgia e, de fato, impulsiona a narrativa. Seria possível esperar talvez um pouco mais de profundidade nesses dramas da cidade? Talvez. São dramas pequenos? Bem, para quem os vivem, são imensos. Nem Diego, nem Júlia, nem Micaela sofrem problemas materiais. Uma certa indefinição profissional faz parte da idade e mais ainda em uma etapa de transe da organização social, na qual tudo parece instável, efêmero, prestes a se diluir no ar. 
 
Talvez esse, que parecia um defeito, pode bem ser um mérito por antítese do filme. Como pedir profundidade a vidas que flutuam na superfície? Não por culpa dos personagens, naturalmente, mas porque é assim que as coisas se dão? Como ponto de vista da direção, pode­se dizer que esses personagens não são nem idealizados nem hostilizados. Há empatia com eles, com seus pequenos dramas e problemas, que são os de todos nós. Numa época sem épica, é o que temos para o momento.

Assista o trailer aqui.

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Luiz Zanin Oricchio no Estadão. 
 


O cineasta Ugo Giorgetti (“A Cidade Imaginária“ e “Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos“) chega mais uma vez ao cenário paulistano com a comédia "Uma Noite em Sampa" que narra a história de um grupo de classe média-alta que vai assistir  uma peça no teatro Ruth Escobar, com um ônibus fretado e ao sair do teatro o motorista não está presente no local e o ônibus está trancado. O grupo no entanto, não moram na cidade e, perdidos em São Paulo, começam a ficar deseperados, ao perceberem os moradores de rua e toda escuridão ao seu redor na noite paulistana. 

Apesar de ter om tom dramático por relatar a violência urbana, e a luta de classes, o diretor trata os temas no filme com muita ironia, como mostra no trailer apresentado. O elenco do filme é formado por atores já conhecidos pelo público, Otávio Augusto, Cris Couto, Andréa Tedesco, Flavia Garrafa, Suzana Alves e Roney Facchini estão no elenco da produção.

O filme

Existe um bom número de filmes falando da violência urbana no Brasil. No cinema atual é quase um tema de excelência. Pouco se fala, entretanto, de um segundo tipo de violência, sem dúvida decorrente do primeiro, mas muito mais nefasto: a violência, por assim dizer, imaginária.

Se é inegável que a violência existe nas grandes cidades brasileiras de forma grave e séria, é também verdade que existe um medo difuso, um pânico geral e desmesurado que obriga as pessoas a se fecharem cada vez mais em si mesmas, a buscarem refúgio constante, a não saírem de casa e quando o fazem organizarem-se em grupos, com tudo planejado para retornar o mais rápido possível. Esse tipo de medo, muitas vezes ocorre sem nenhum fundamento, sem nenhuma justificativa nas situações reais. È apenas medo, que faz com se veja ameaças e perigos onde na realidade não existem.

A chamada classe média é a mais atingida por esse fenômeno, certamente alimentada pelos apavorantes relatos diários dos noticiários da televisão. O resultado disso é que S.Paulo, por exemplo, é uma cidade habitada por pessoas á beira do pânico. As grades nos portões são imensas, ainda que o aspecto das casas atrás deles não justifiquem tanto aparato. A maioria dos carros que circulam pelos bairros de classe média ostentam vidros escuros e indevassáveis, pouca gente sai á rua depois de determinada hora, ou mesmo a qualquer hora. Ninguém fala com estranhos. As guaritas de vigilância nos prédios aumentam, um simples entregador de pizza é motivo de alarme geral, há senhas e avisos por toda parte.

O filme não nega a existência da violência, pelo contrario. Mas trata, de maneira sarcástica e em tom de comédia, de colocar luz no seu efeito mais terrível, que é a transformação de todos em marionetes, bonecos, falando e pensando as mesmas coisas, sem vida e sem iniciativa própria, transidos de pavor diante do desconhecido e de qualquer coisa que pareça diferente ou fora dos padrões impostos pelo medo.

O longa chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 26 de maio. Assista o trailer.

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Com informações do Cinéfilos Anônimos e SP Filmes.


Elas jamais olham na direção do pintor. Sobre a areia, sentam-se descalças, resignadas ou inquiridoras, desinteressadas do mar. Estas são as duas mulheres que Paul Gauguin retratou ao chegar ao Taiti, em 1891, depois de abandonar um ambiente artístico considerado extinto. O pintor havia decidido que a ilha da Polinésia Francesa constituiria seu paraíso artístico, ou pelo menos ali estaria a resposta para as aflições presentes. Não mais refletiria na pintura uma realidade externa, como fizera durante o impressionismo. Agora seria seu próprio interior a se ver revelado no quadro, de maneira expressiva. O princípio seria o de libertar a cor, o de torná-la viva e violenta, como aquela a representar a areia da praia. Por esta razão suas anatomias de mãos e pés se tornariam inconclusas, quase desfeitas, em continuidade com o fundo do quadro.

Gauguin pintava o que sentia, um passo além de apenas reproduzir aquilo que via. E suas obras não mais seriam medidas pela capacidade de representar o real. O quadro se tornaria, por si, a realidade a ser apreciada. Da sua angústia descortinou-se o mundo representado em O Triunfo da Cor, a exposição que aporta no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, a prosseguir na unidade do Rio de Janeiro entre julho e outubro. Em 75 telas de 32 artistas, expostas originalmente nos museus d’Orsay e de l’Orangerie, e organizadas pelos curadores do d’Orsay e da Fundação Mapfre por quatro módulos do CCBB de São Paulo, estão descritos os caminhos da arte pós-impressionista até o início dos anos 1920.

'A Italiana' (1887), de Van Gogh. Imagem: divulgação.

Por demais abrangente, mas fiel a seu tempo, o termo pós-impressionismo foi aquele escolhido pelo crítico britânico Roger Fry (1866-1934) para designar essa arte em transformação. Ele o aplicaria a tudo o que se sucedesse a Gauguin: a arte expressionista de Van Gogh, a estrutura revolucionária de Paul Cézanne, os experimentos de autores influenciados pela gravura japonesa, como Félix Vallotton, aqueles inclinados à exposição caricatural, como Paul Sérusier, e também os pontilhistas, que, à moda de Georges Seurat, obcecavam-se pela pincelada minúscula, a evocar os pixels da imagem virtual. 

Fry, um pintor inglês próximo ao grupo Bloomsbury, ao qual pertenciam as irmãs Virginia Woolf e Vanessa Bell, e que um dia revelara seu talento ensaístico ao descrever a arte dos grandes mestres italianos, agora ousadamente entregava sua pena à tradução da modernidade francesa. Não era coisa simples de ser feita. O mundo da arte caminhava pela difícil fronteira da dissolução figurativa. E quanto isto poderia ser entendido como aceitável pelo apreciador? Fry decidiu arriscar e, entre 1910 e 1912, promoveu duas exposições sobre o pós-impressionismo nas galerias Grafton, de Londres. Elas se tornariam as responsáveis por abrir as portas da percepção a um novo mundo. Era o “triunfo da cor” como o quer o título desta exibição brasileira, com a admissão dos nabis, autointitulados “profetas” (a partir da designação hebraica) desse procedimento, entre eles Pierre Bonnard e Maurice Denis.  

Possivelmente os olhos do espectador se voltem, agora, bem mais à novidade pontilhista representada pelo óleo sobre tela de grandes proporções Jovens Provençais no Poço, de Paul Signac, concebido em 1892, ou à recentemente descoberta tela do escultor Aristide Maillol, Perfil de Mulher, de 1896, um belo campo de experimentos sobre a intimidade, do que à verdadeira revolução significada por Odalisca com Calça Vermelha. O óleo sobre tela que Matisse concluiu em 1925 finaliza a exposição, no subsolo do CCBB. O pintor, contudo, completou o sentido da nova procura, em composições perfeitas nas quais expressava o inverso da melancolia romântica. Cada uma de suas cores sustentava e acentuava as outras, e a irradiação cromática se dava em um crescendo efusivo.

Um pontilhista como Signac, enquanto isso, não propunha qualquer novidade sob o aspecto composicional em relação a Matisse, e sua perspectiva vinha banhada numa ingenuidade infantil, os efeitos em detrimento do sentido. Mais brilho há na Modelo de Pé e de Frente(1886), de Georges Seurat. Ou na iluminação à luz de velas do Autorretrato Octogonal (1890), de Edouard Vuillard, que chega ao Brasil após deixar o d’Orsay pela primeira vez. O grande museu alega não ter podido pagar pela obra recém-descoberta. E, para mostrá-la ao público, serviu-se das leis do país. Na França, os proprietários ganham abatimento de impostos pela aquisição quando cedem a obra de arte para a exibição temporária nos museus.

Ao lado dos dois óleos sobre tela de Van Gogh, A Italiana(1887) e Fritilárias Coroa-imperial em Vaso de Cobre (1887), alinham-se obras de rara exibição no País, como O Salgueiro Chorão, de Claude Monet (1920), e A Toilette (1896), de Toulouse-Lautrec. Principalmente, além dos painéis esmaecidos de Maurice Denis, a evocar o Quattrocentoitaliano e originalmente expostos na capela do Colégio Saint-Croix de Vésinet, destacam-se os experimentos de Vallotton (1865-1925). Pintor, artista gráfico, escultor e escritor suíço, ele se estabeleceu em Paris em 1882, tornou- se amigo de Bonnard e Vuillard e expôs várias vezes ao lado dos nabis. Pintou retratos, nus, interiores e paisagens num estilo que, embora naturalista, revelava seu sentimento quase abstrato por formas simplificadas, influenciado pelas gravuras japonesas. Em sua série no CCBB, Vallotton acresce ao realismo quase fotográfico um mistério particular. Nos óleos sobre tela Interior, Mulher de Azul Remexendo em um Armário (1903) ou Misia em Sua Penteadeira (1898), mostra com mordacidade a inquietação da mulher nos lares burgueses onde está confinada. Seu balcão de maquiagem não se difere, em essência, da mesa da cozinha em que produz o pão.

Para o diretor cultural da Fundação Mapfre, Pablo Jiménez Burillo, pintores pós-impressionistas como Seurat ou Signac interessaram-se pelos aspectos científicos da cor segundo um sentido apenas naturalista. Mas, em Van Gogh, Gauguin ou nos “profetas” nabis, o olhar artístico dirigiu-se ao mundo primitivo, à moda do que preconizaram Kandinsky ou Franz Macke. “Não copie o natural demasiadamente”, ensinava Gauguin, conforme Burillo destaca: “A arte é uma abstração. É preciso extraí-la da natureza sonhando diante dela. Pense mais na criação que no resultado”.

Mulher Azul remexendo em um armário (1903), de Félix Vallotton. Imagem: divulgação.

Embora as seções não tragam material expositivo de apoio (livros, fotografias ou recortes de jornal), a edição futura de um catálogo pela Mapfre promete suprir a lacuna documental sobre a produção europeia nos últimos 15 anos do século XIX. Um período crucial para a arte, como a exibição quer assinalar. Uma pena, assim, que se dê a proibição, dentro dela, não apenas do uso de câmera fotográfica, mas também do velho caderno de esboços. Em função da estrutura física do CCBB de São Paulo, é preciso evitar que os visitantes parem no caminho e impeçam a passagem dos demais, argumenta a organização do evento. A proibição, contudo, deve permanecer no Rio de Janeiro, onde a estrutura física do CCBB é maior. Melancólico imaginar que essas medidas se tornem usuais aqui e em instituições estrangeiras. O que teria sido, por exemplo, de uma Anita Malfatti se, além de contemplar as obras clássicas, houvesse sido impedida de esboçá-las nos museus europeus dos anos 1920 onde sofisticou o aprendizado da pintura e do desenho? 

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Rosane Pavam em Carta Capital.

 


O Sesc São Paulo uniu-se ao Museu da Pessoa e ao Musées de la Civilisation, do Quebec, Canadá, para organizar a segunda edição desse Workshop, que irá analisar a forma como as organizações culturais passaram da mediação cultural à inovação social para criar valor social.

Em uma série de palestras baseadas em indagações e oficinas participativas, estudantes e professores examinarão coletivamente ambos os limites e as possibilidades de inovação social para as instituições culturais.

 

 

O workshop irá oferecer novas perspectivas sobre alguns dos temas atuais na prática do engajamento social, ou seja, proporcionará aos alunos um conhecimento teórico e prático de questões como: O que é inovação social? E, mais especificamente, o que é inovação social de acordo com um centro comunitário, um museu nacional, ou uma biblioteca pública? Como as diferentes culturas nacionais e locais influenciam a natureza da inovação social?

As inscrições poderão ser feitas de 27 de abril a 18 de maio, os selecionado serão divulgados no dia 31 de maio e as matrículas deverão ser feitas entre 2 e 15 de junho. O workshop acontece entre 4 a 9 de julho.

Mais informações: https://goo.gl/1pdsj3

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Fonte: Museu da Pessoa.

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