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Se você sofre da mesma síndrome do gato Garfield, personagem dos quadrinhos de Jim Davis, que vive “miando” a frase “I hate mondays” (eu odeio segundas-feiras), saiba que há solução para isso. Para quem odeia este dia, porque sabe que vai começar tudo de novo (compromissos, trabalho, estudos, trânsito, entre outras perturbações) e acaba entrando em um looping que aparenta ser perene, os shows do músico Roberto Sion, que acontecem nesse mal-afamado dia da semana, na Central das Artes, sempre às 21h, garantem a cura contra o tédio.

Sion, recebeu o Música em Letras em seu apartamento no bairro do Sumaré, em São Paulo, para uma entrevista seguida de um ensaio na Casinha, estúdio do contrabaixista Itamar Collaço, no bairro Vila Gomes, zona oeste da capital.

Leia a seguir trechos dessa entrevista e assista, no final do texto, aos vídeos que o Música em Letras captou durante o ensaio do saxofonista com o grupo que irá tocar com ele na próxima segunda-feira (15).

Primeiros sopros

Roberto Sion, 69, toca desde 11 anos de idade. Estudava piano em Santos, litoral de São Paulo, onde nasceu. O saxofonista contou que, com apenas 14 anos, tocou com o regional do violonista Antonio Rago (1916-2008) em uma rádio de Santos. No mesmo ano, subiu a serra e fez seu primeiro show de jazz em São Paulo no prédio da Folha de S. Paulo, onde havia um auditório, no lugar em que hoje se encontra uma pequena parte do parque gráfico do jornal. “Toquei com uma rapaziada de Santos. Subimos para São Paulo exclusivamente para isso. Foi meu primeiro show de jazz. Lembro direitinho.”

Psicólogo formado pela Unicamp aos 25 anos, Sion enveredou pela música quando se mudou para Boston, nos Estados Unidos. A razão? Estudar na Berklee College of Music. Lá, teve aulas com Joseph Viola (1920-2001), fundador do departamento de sopro da renomada escola, instrumentista excelente, e professor de vários saxofonistas reconhecidos mundialmente.

Entre outros professores de Sion, figuram o japonês Ryo Noda, 68, exímio saxofonista que escreveu várias obras para o saxofone clássico; o norte-americano Lee Konitz, 88, saxofonista do estilo cool e post-bop; e Joseph Allard (1910- 1991), norte-americano, professor de sax e clarinete da Juilliard School, New England Conservatory e da Manhattan School of Music, entre outras instituições de ensino.

Sion voltou para São Paulo e estudou mais música ainda, especialmente composição, análise e arranjo. Os professores, só feras: Damiano Cozzella (arranjador), Olivier Toni (maestro) e o músico e esteta H. J. Koellreutter (1915-2005). Tocou e gravou com Deus e o mundo. Entre tantos, acompanhou Toquinho e Vinicius de Moraes (1913-1980) em vários shows dentro e fora do país.

Entre os anos 1980 e 1990, Sion se dedicou ao grupo Pau Brasil. Um projeto que envolveu uma longa pesquisa aliada a muitos ensaios em busca de uma linguagem musical brasileira bem estruturada. Uma proposta nova que fugia da forma tema-improvisação-tema. Os temas eram mais voltados para a rítmica brasileira, com mais arranjos elaborados e menos solos improvisados. Uma espécie de jazz brasileiro de câmara. Um sucesso até hoje. Quando o grupo se reúne, os shows ficam lotados.

Na discografia de Sion há 11 “bolachas”. Todas ainda excelentes para serem consumidas, pois seus prazos de validade nunca expiram.

O músico Roberto Sion e o baterista Vitor Cabral ensaiando no estúdio Casinha, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)O músico Roberto Sion e o baterista Vitor Cabral ensaiando no estúdio Casinha, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O músico Roberto Sion e o baterista Vitor Cabral ensaiando no estúdio Casinha, em São Paulo. Foto: Carlos Bozzo Junior.

Orquestra Jovem Tom Jobim

A partir de 2001, Sion abarcou e cuidou da Orquestra Jovem Tom Jobim da EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo), como maestro titular até 2014. “Houve uma mudança muito grande na escola e me desliguei”, disse o maestro afirmando que essa mudança favoreceu uma nova etapa em sua vida. “Da orquestra trago a sensação do dever cumprido, com muito orgulho”, falou Sion que durante esse período desenvolveu um trabalho profundo e sério com relação a repertório, arranjos sinfônicos e artistas convidados. Entre os que “atacaram” com a orquestra estão Elza Soares, Rosa Passos, Mônica Salmaso, Chico Pinheiro, Germano Mathias, Dominguinhos e Hermeto Pascoal.

Sion reconhece que também se desenvolveu musicalmente enquanto liderava a orquestra. “Quando você doa, você recebe, né? Escrevi muito arranjo em situações de urgência, em vários estilos. Mas, em termos pedagógicos, praticamente dei prosseguimento a um trabalho que eu já fazia em big bands, transposto para orquestra”, disse o músico que nesse período estudou com mais afinco as cordas, embora já soubesse escrever para elas. “Fui aprender principalmente como trabalhar as cordas que são os instrumentos mais difíceis da afinação. Por exemplo, fazer transposições de corais de Bach para a orquestra toda te traz harmonias muito puras e muito bonitas. Você é quem dá o senso tonal para isso. Aprendi bastante nesse aspecto”, disse o maestro que com a orquestra também trabalhava a improvisação, além de ter levado seus integrantes a conhecerem vários outros maestros.

Sion é compositor, flautista, saxofonista, clarinetista, arranjador, e tem o título de doutor em música pela UNICAMP (Universidade de Campinas). “Fiz esse doutorado durante quatro anos pensando em um dia, talvez, me colocar em uma universidade”, falou o músico que disponibiliza para o internauta do Música em Letras a gravação de seu arranjo sinfônico para canto e orquestra da música “Estrada Branca”, de Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes, apresentado em seu doutorado: https://goo.gl/c30aZ6

Shows das segundas-feiras

Sion e o contrabaixista (acústico e elétrico de seis cordas) paulistano Itamar Collaço, 57, se conhecem há quase 30 anos. Foram companheiros tocando na noite de São Paulo, em muitas casas. A Baiúca foi uma delas. Quando Sion foi diretor de música popular do festival de Campos de Jordão, Collaço era professor no evento. Tocaram juntos várias vezes, mostrando aos alunos a que vieram. “Temos uma cumplicidade tocando”, falou Sion.

Por abarcarem o mesmo nível musical e terem uma amizade sólida, o duo é perfeito. “Sinto um imenso prazer de tocar com o Collaço”, disse Sion, que sempre contribui com a música por meio de trabalhos estruturados e bem arranjados. Haja vista o duo que Sion registrou com o sanfoneiro Toninho Ferragutti em “Oferenda”, um primor de disco.

“O lance agora é só tocar”, falou o maestro que nesta segunda-feira (15), promete muito improviso em cima de temas autorais como “J.T. Meireles” e “Terra Natal”, o primeiro feito em homenagem ao saxofonista e amigo carioca, João Theodoro Meirelles (1940-2008).

O maestro convidou o trompetista Daniel D’Alcântara e o baterista Vitor Cabral para aliarem seus sons aos dele e aos do contrabaixo de Collaço. Do trompetista, tocam a maravilhosa “Maestrina”. (Veja vídeo no final do texto)

Sion aproveita para destacar no show o belo som e a admirável musicalidade de Daniel D´Alcântara, 41, tocando o tema “I Remember Clifford”, do saxofonista tenor Benny Golson, 86, escrito em memória ao espetacular trompetista Clifford Brown (1930-1956), morto precocemente em um acidente de carro. “Nessa música vou para o piano. Quero ouvir o Dani”, falou Sion. (Assista o vídeo aqui).

O baixista Itamar Collaço e o maestro Roberto Sion, que se apresentam na Central das Artes (Foto: Carlos Bozzo Junior)O baixista Itamar Collaço e o maestro Roberto Sion, que se apresentam na Central das Artes (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O baixista Itamar Collaço e o maestro Roberto Sion, que se apresentam na Central das Artes. Foto: Carlos Bozzo Junior.

Surpresa

Uma surpresa no show da noite do dia 15: Sion apresentará uma de suas alunas de improvisação e harmonia, uma cantora de Bauru, interior do Estado, que segundo ele é um verdadeiro talento. Luciana Nobrega, 23, é amante de “scat singing” (cantar vocalizando sílabas) e obviamente do jazz. Dela se ouvirá “What a Difference a Day Makes”, popularizada por Dinah Washington (1924-1963); “Dindi”, de Tom Jobim (1927-1994) e Aloysio de Oliveira (1914-1995); além de “Estamos Aí”, de Durval Ferreira (1935-2007) e Maurício Einhorn.

Na noite de 22 de fevereiro, o saxofonista Sion se apresenta ao lado do guitarrista Marcus Teixeira, autor do tema “Bluelelli”, escrito em homenagem ao contrabaixista Paulo Paulelli, integrante do Trio Corrente. Além deste tema, ambos tocam a valsa “Nadana”, composta por Sion em 1972, nos Estados Unidos. “O Marcus é um tremendo improvisador”, falou Sion.

Na noite de 29, em que o maestro toca com o pianista Nelson Ayres, estão garantidos alguns hits já gravados por ambos, como “Conversa de Botequim”, de Noel Rosa (1910-1937) e Oswaldo Gogliano,o Vadico (1910-1962), além de “”All the Things You Are”, de Jerome Kern (1885-1945) e Oscar Hammerstein II (1895-1960), entre outras. De autoria de Ayres, “Mantiqueira” e “Caminho de Casa” devem deixar a sala repleta de boa música. “Eu e o Nelson beiramos os 70 anos, mas cheios de vontade de viver para tocar. Não desistimos”, falou o músico que se apresentará tocando flauta e sax soprano.

Esta é uma ótima oportunidade de ouvir um som com muita cancha. Um som que não é careta, porque Sion e todos os músicos dos shows arriscam. Todos gostam de tocar o que “pinta” na hora, mas com consciência de quem estuda e respeita bastante a música. Um som maduro. Excelente para quem está cansado de ouvir apenas um monte de notas emitidas a esmo. Bom para limpar a mente e deixá-la com a alma plena de música da mais alta qualidade. “Estou nessa fase de tocar o meu melhor”, disse Sion. Aproveite!

Ah, uma dica. Segunda-feira é o dia em que Sion se dedica a dar aulas. “Gosto de segunda-feira. É dia de aulas e gosto de dar aulas. Aprendi a não ficar grilado com essa coisa de segunda-feira. Isso é mais um condicionamento. Para mim, o dia também é bom por lembrar coisas boas. Segunda-feira era o dia em que tocava com a big band que eu tinha com o Nelson Ayres, no Opus 2004”, disse o professor que atende a solicitações de aulas de flauta, saxofone, arranjos ou improvisação por e-mail.

Serviço
Shows de Roberto Sion 
Quando: dia 15 de fevereiro, segunda-feira, com o trompetista Daniel D’Alcântara; dia 22, com o guitarrista Marcus Teixeira; dia 29, com o pianista Nelson Ayres.
Horário: Sempre às 21h.
Onde: Central das Artes, r. Apinagés, 1081, Sumaré, São Paulo, tel. (11) 3865-4165
Quanto: R$ 30.

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Carlos Bozzo Junior em seu Música e Letras.

 


O Grupo Esparrama, famoso por realizar intervenções cênicas na janela de um apartamento em frente ao Minhocão, se apresenta pela primeira vez na Avenida Paulista, outro espaço fechado para os carros e aberto para a população aos domingos. A apresentação do espetáculo ‘2POR4’, que trás a divertida disputa entre dois palhaços pela regência de um quarteto de cordas, acontecerá em frente ao prédio da FIESP/SESI-SP, dentro da programação do projeto Domingo na Paulista, que visa oferecer uma programação variada para o público paulistano que frequenta a Avenida Paulista, aos domingos.

Após essa apresentação, o grupo inicia uma temporada em diversas cidades, que integram o projeto Viagem Teatral 2016, do SESI-SP, passando por Rio Claro, Santos, Mogi das Cruzes, Marília, Franca, Osasco, Mauá, Sorocaba, São José do Rio Preto, Birigui e encerrando a sua jornada na cidade de Campinas.
 

O projeto propõe uma aproximação da criança com o universo da música instrumental e suas características básicas, buscando sensibilizá-la para uma melhor apreciação da música erudita, ampliando sua escuta, a partir de um repertório já conhecido (cancioneiro folclórico e trechos de obras de compositores clássicos como Mozart, Beethoven e Vivaldi).

Junto com os palhaços/maestros que competem pela regência, o espetáculo conta com a participação de um quarteto de cordas (dois violinos, uma viola e um violoncelo) que é um grupo de instrumentos que carrega na sua formação a síntese de uma orquestra.

O espetáculo utiliza canções da herança cultural popular, como “Marcha soldado” e direciona o público a conhecer e relembrar esse legado musical que carrega um valor histórico, sociológico e educacional. Além de trazer toda essa ação para o universo lúdico, com os palhaços como mediadores e uma inusitada performance de um deles como cantora lírica, que promete surpreender o público.

Em 2015, o espetáculo 2POR4 recebeu duas indicações e foi contemplado com um dos principais prêmios de teatro infantil e jovem da América Latina: 
Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem. A maestrina Ester Freirerecebeu uma indicação como “Melhor Trilha Sonora Adaptada” e o diretor Kleber Brianez, foi premiado na categoria “Revelação”.

Criado em 2012, o Grupo Esparrama tem como base de pesquisa o estudo do palhaço e das estruturas cômicas em suas variadas expressões nas artes cênicas (rua, palco convencional, intervenções, etc.). Fazem parte da trupe Iarlei Rangel, Kleber Brianez, Ligia Campos, Luciana Gandelini e Rani Guerra.

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Fonte: Grupo Esparrama e Quarteto 2POR4.

 


Era o melhor e o pior dos mundos. Em 1917, a Revolução Soviética prometia ensejar uma sociedade justa, enquanto a violenta Primeira Guerra Mundial, iniciada três anos antes, enterrava as esperanças em uma nova humanidade.

O pintor Pietr Mondrian recusava-se a sucumbir. Embora tivesse desistido dos estudos impressionistas em Paris tão logo o conflito eclodira, insistia ainda nas ideias de mudança na Holanda natal, país cuja luz ele mostrara divergente nas paisagens escuras.

Aos 45 anos de idade, junto a expoentes locais da arquitetura e da arte como Theo van Doesburg, Piet Zwart, Thomas Gerrit Rietveld ou César Domela, decidia operar a revolução dentro da cultura envelhecida.

Ele inseriria a arte na normalidade de seus dias, no desenho dos objetos cotidianos. Com isso, diria não à violência e sim à razão, esta que entendia situada no caminho oposto ao da guerra. 

Piet Mondrian em seu ateliê (1933). Foto: Charles Karsten. Acervo: Gemeentemuseum Den Haag.

Seu ímpeto racional quase se assemelhava a uma espiritualidade. Naquele ano, ao lado de  Doesburg, e distante do marxismo dos soviéticos, fundaria o movimento O Estilo (De Stijl em holandês) para debater e aprofundar esses preceitos.

Os colaboradores da revista homônima, que durou até 1928, declaravam-se neoplasticistas. Lidavam  com as linhas a basear todo o desenho dos objetos e com suas cores básicas, o vermelho, o amarelo  e o azul. E, ao buscar esse desenho universal da vida, desejavam imunizar a cultura de qualquer  impureza.

Abominavam o nacionalismo, que faziam equivaler a uma infecção, e admiravam a arquitetura do americano Frank Lloyd Wright, que com ele idealizara uma nova geometria do espaço. Dois anos depois surgiria na Alemanha a escola Bauhaus, em semelhantes moldes vanguardistas, mas a reivindicar o fim do mercado da arte.

Os neoplasticistas não se entendiam revolucionários nesta medida, nem mesmo professores como os da Bauhaus, escola fechada em 1933     pelos nazistas. Muito distantes dos organizados alemães,  contudo, os fluidos holandeses trabalhavam incessantemente

Uma centena de suas obras cujos conceitos basearam o design industrial contemporâneo estará exposta no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, a partir do dia 25, até 4 de abril.

Pintura número 4, composição 3 (1913). Imagem: divulgação.

O curador Pietr Tjabbes, holandês há três décadas no Brasil, responsável por curadorias internacionais da Bienal Internacional de Arte de           São Paulo e por retrospectivas como a do artista M. C. Escher há quatro anos, fez a seleção das peças. Em Haia, Tjabbes morava a poucas     quadras do Museu Mondrian, o Gemeentemuseum Den Haag, de onde elas partiram.

Nesta exposição paulistana, Mondrian e o movimento de Stijl, 30 obras são de autoria do artista, desde suas sombrias paisagens holandesas até as primeiras experiências que, mesmo geométricas, sugeriam as figuras ao fundo. O autorretrato de 1918 cita-o de modo algo irônico diante de um de seus quadros.

Nesta exposição, entende-se Mondrian por meio do jazz, colocado como trilha ao fundo. O gênero musical maravilhou o artista desde que, em 1938, deixou novamente Paris à véspera da guerra, rumo aos Estados Unidos.  Em Nova York, descobriu o charleston e o elegeu de sua predileção. Não era músico, mas precisava de música para viver.

Parecia ser aquele que mais se divertia durante os bailes, e de um estranho modo. Os amigos batizavam seu estilo de Madona Dançante, por conta dos passos encenados com cálculo. Assim como na arte planejava desenhar a essência das figuras, nos salões seus passos seguiam uma ordem preestabelecida, de difícil assimilação pelas mulheres que o acompanhavam.

Composição-de-MondrianComposição-de-Mondrian

Composição com grande plano vermelho, amarelo, preto, cinza e azul (1921). Imagem: divulgação.

Obsessivo, calejava as mãos durante a concepção de seus arranjos geométricos, refeitos por tardes, dias e noites inteiros. Enquanto montava sua última obra, Victory Boogie-Woogie, em 1944, desenvolveu pneumonia e morreu, aos 71 anos de idade. Era, ao fim, ainda mais pleno de ambições que no início, dando mostras de apenas ter iniciado a construção de uma ideia original.

Victory Boogie-Woogie não está exposta no CCBB, obra que raramente deixa a Holanda por conta de sua extrema delicadeza, mas um fac-símile permanecerá disponível em uma espécie de oficina, durante a qual os visitantes poderão remontá-la. 

 

MondrianMondrian

Página da brochura, por Pietr Zwart (1931). Imagem: divulgação.

A geometria de Mondrian era também uma experiência, um modo de encenar a vida. Como seus colegas de movimento, ele chegou a acreditar que o princípio da forma, congênito, poderia ser adquirido por qualquer um. Mas, pessoalmente, não reduziu a técnica ao mínimo necessário e prosseguiu no caminho de elaborar sua pintura.

A rigor, nem mesmo seus colegas dispensaram a extrema elaboração. Iniciado na carpintaria, Rietveld foi o responsável por conceber um dos objetos-símbolo do movimento, a poltrona de encaixes baseada em ângulos retos, de encosto moldável à coluna, sem estofamentos.

Ele primeiro a construiu em madeira laqueada preta, em 1917, depois aplicou-lhe as cores básicas do movimento, simulando a continuação de suas linhas ao infinito. E avançou pela arquitetura, ao erguer sete anos depois, em Utrecht, a Casa Schröder modular e plena de varandas, quase inteiramente vista em seu interior a partir de fora. 

 

Poltrona Vermelha e Azul, de Rietvel (1923). Imagem: divulgação.

O De Stijl andou por muitas áreas, como a confecção de cartazes, à moda daqueles de Pietr Zwart, que se assemelhavam ao formalismo russo e acolhiam as tipografias em cores básicas. Houve também experiências no campo da fotografia, como as de César Domela, que a partir de um fundo geométrico retratou o perfil de sua esposa.

Os neoplasticistas conceberam restaurantes e cinemas-restaurantes, mas não desenharam roupas, embora em 1965 o estilista Yves Saint Laurent tenha confeccionado vestidos calcados nas pinturas de Mondrian. O artista holandês talvez os tivesse apreciado.

O objetivo de sua obra era o de libertar o mundo do trágico e devolvê-lo à sacralidade abstrata. Sua concepção espacial exerceu uma profunda influência sobre os projetos arquitetônicos, sobre a funcionalidade dos espaços.

O historiador Giulio Carlo Argan dele disse: “Não obstante a deliberada frieza de sua pintura, ou justamente devido a ela, Mondrian foi, depois de Cézanne, a consciência mais elevada, mais lúcida, mais civilizada na história da arte moderna”.  

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Rosane Pavan em Carta Capital.


Com grade de dez peças, a terceira edição da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), que começa no dia 4 de março, retorna às questões sobre a construção de narrativas, como se quisesse nos dizer que não, esse não é uma velho problema.
 
O diretor artístico da mostra, Antonio Araújo, exemplifica a abordagem, considerada por ele um dos pilares de sua curadoria neste ano: o espetáculo "Cinderela", que abre o festival no Auditório Ibirapuera, retoma a conhecida fábula dos irmãos Grimm para reconstruí-la linearmente de forma "toda estranha".
 
A peça tem pássaros que se estatelam em uma casa de vidro. "O espectador percebe a colisão, mas em nenhum momento a montagem materializa isso visualmente", adianta.
 
Em destaque este ano, o autor e diretor francês Joël Pommerat traz para o festival duas montagens: "Ça Ira", ficção política contemporânea inspirada na Revolução Francesa e desenrolada com menções à direita em ascensão na Europa; e "Cinderela", adaptação da conhecida fábula dos irmãos Grimm.
 
Do Congo, virá a peça "A Carga". Com direção e interpretação de Faustin Linyekula, a montagem tem traços coreográficos, e o artista também faz uso de textos que abordam situações políticas de seu país de origem. 
 
Questões sobre a opressão vividas pelos negros também tingem o espetáculo Revolting Music, que tem trilha sonora desenvolvida a partir de pesquisa sobre canções de protestos e situações vividas por movimentos estudantis na África do Sul. O espetáculo é assinado pelo músico e performer Neo Muyanga. 
 
Os ingressos para "Natureza Morta", do grego Dimitris Papaioannou, também podem se esgotar rapidamente, devido ao sucesso do artista em festivais europeus e também pela popularidade dos vídeos que reproduzem trechos de seus espetáculos na internet. Papaioannou tem domínio na criação de imagens em cena que mais parecem pinturas, razão do título de seu espetáculo.
 
Da Alemanha, o festival traz o experimento "100% City", projeto encabeçado por Helgard Haug, Daniel Wetzel e Stefan Kaegi, da companhia Rimini Protokoll. 
 
O grupo recruta não-atores nas cidades por onde passa. Ao vivo, as pessoas chamadas respondem a uma espécie de pesquisa de opinião -não espere nada convencional. O projeto foi realizado em 23 cidades, incluindo Amsterdã e Tóquio. Na MITsp, o projeto vai se chamar "100% São Paulo". 
 
A companhia Teatro de Narradores e o grupo Ultralíricos, dirigido por Felipe Hirsch, compõem a representação nacional. O primeiro vai apresentar trabalho desenvolvido junto a haitianos que vivem em São Paulo, "Cidade Vodu"; o segundo encena trechos ou adaptações de textos latino-americanos.

Serviço
MITSP
Quando: 4 a 13 de março.
Quanto: grátis a R$ 20 (à venda a partir de 18/2 pelo ingressorapido.com.br e pelo sescsp.org.br). 
Onde: vários locais (a programação em breve será divulgada no site).

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Gustavo Fioratti - colaboração para a Folha de S.Paulo.
 
 


A tão aguardada exposição O Mundo de Tim Burton chega ao MIS na próxima semana. Para celebrar a primeira parada na America Latina, Tim Burton estará presente para um bate-papo com o público no dia 11 de fevereiro. Antes do bate-papo, o público assiste a um filme do cineasta que será escolhido por meio de votação livre.

Para participar do evento, os fãs devem responder a enquete (clique aqui para acessá-la) e escolher seu longa de Tim Burton preferido. Após o encerramento da votação e contabilizado o filme vencedor, serão sorteadas 30 pessoas dentre aquelas que votaram no longa número um.

Os sorteados participarão de uma sessão exclusiva no dia 11 de fevereiro, em que será exibido o filme escolhido, e, após a sessão, Tim Burton estará presente para um bate-papo com o público. Além dos sorteados, no sábado, 30 de janeiro, o MIS abrirá venda exclusiva de ingressos para a mais especial exibição de filme já ocorrida no museu. As entradas para o evento serão vendidas por R$ 300,00 - apenas na bilheteria do MIS - e dão direito a um catálogo da exposição O Mundo de Tim Burton, além de ingresso para a exposição (válido para o dia 11.2), ingresso para a sessão do filme escolhido e para o bate-papo com Tim Burton e, ainda, um certificado de participação. 

Sorteio acessar a enquete e votar em seu filme preferido. Das 12h do dia 29/1 às 12h do 1/2. Os sorteados participam de uma sessão exclusiva do filme escolhido e de um bate-papo com o diretor. Ingressos R$ 300,00 à venda na recepção do MIS a partir das 12h do dia 30/1

Este ingresso dá direito a um catálogo da exposição O mundo de Tim Burton, ingresso para a exposição (válido para o dia 11/2), ingresso para a sessão do filme escolhido e para obate-papo com Tim Burton, além de um certificado de participação.

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Fonte: MIS.


Claudia (Emanuela Fontes) é uma descendente de bolivianos moradores na periferia da capital paulista. O desejo de se tornar uma pianista nasceu quando conheceu o instrumento em um programa de musicalização para jovens sem recursos. Com ótimas notas, ela passou a receber uma bolsa para estudar em um cursinho popular, onde foi estimulada a lutar pelo seu sonho.

O problema é que para ser aceita no curso de Música da Universidade de São Paulo, Claudia tem de estudar para a prova de aptidão. Precisa ter acesso a um piano. Esse é o mote do longa-metragem Invasores, de Marcelo Toledo, que estreou nesta quinta-feira (21), no Cine Caixa Belas Artes

Vinda de uma família de origem pobre, Claudia não conhece ninguém que tenha em casa um piano, por isso decide pedir emprestada a sala da instituição cultural da qual fazia parte. O diálogo entre a jovem e a responsável pela área de música é uma das cenas mais desconcertantes e desconfortáveis do filme. Quando a menina conta que vai prestar vestibular para Música na USP, a reação de Priscila é positiva, mas quando diz que precisa de um piano para estudar para a prova prática, recebe um banho de água fria:

Priscila: “Claudinha, como é que eu vou te explicar isso? Você fez uma escolha complicada…”

Claudia: “Eu fiz uma escolha complicada? Sério?”

Priscila: “Você não acha?”

Claudia: “É, mais complicada do que a sua. Quer dizer, você vive disso, né, de música. Eu adoraria ter um emprego como o seu, fixo, e roupinha cara”.

O que Priscila quer dizer é que estudar Música em uma universidade como a USP não é para pessoas pobres como Claudia, que não tem piano em casa, não conhece ninguém que tenha e tampouco pode pagar para fazer aulas e treinar. Por isso, a escolha é complicada. Não haveria estranhamento caso a garota decidisse trabalhar em uma tecelagem, como sua mãe sugeriu.

O conflito de 'Invasores' poderia até lembrar o do premiado 'Que Horas Ela Volta', de Anna Muylaerte, em que a filha da faxineira pobre conquista uma vaga na disputada Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP. Mas não. Nessa ficção de Toledo, além do preconceito de classe, a protagonista também enfrenta o julgamento de seus amigos e da família. É como se o simples fato de querer se dedicar à música fizesse de Claudia uma pessoa esnobe, que se acha melhor do que os outros.

O gesto de apoio só vem de seu namorado Nilson (Maxwell Nascimento), que faz parte de um grupo que invade prédios públicos para pichar, numa espécie de protesto contra a sociedade burguesa. É, aliás, dessa maneira que ele passa a ajudar sua namorada: sempre à noite ou aos finais de semana, eles invadem escolas de música e centros culturais onde Claudia pode tocar piano. Um tipo arriscado de ajuda, que pode trazer novos problemas.

O filme provoca a questão: quem é invasor nesta história, o grupo de pichadores ou Claudia? Em comum, personagens obstinados em ocupar espaços para os quais não foram convidados.

Assista o trailer do filme aqui.

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Xandra Stefanel, especial para a RBA.

 

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