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A Pinacoteca de São Paulo recebe uma centena de paisagens britânicas do acervo da Tate Gallery.

As duas freiras estão diante da morte. Ou do morto, que pode ser o observador do quadro. A jovem à esquerda retira a terra com uma pá, em um esforço raro que faz movimentar seu capuz, enquanto aquela à direita contempla com gélida resignação quem a vê. O rosário ornado por uma caveira pende de suas mãos em oração, enquanto a luz faz supor que o dia termina, embora ainda banhe intensamente os rostos, as vestes e as árvores do cemitério. Tudo inquieta nesse cenário, até mesmo a nuvem roxa que, a seguir uma simbologia escocesa, representa um esquife no ar. Sir John Everett Millais ainda não tinha 30 anos, em 1858, quando pintou o óleo sobre tela O Vale do Descanso, título de uma canção homônima de Felix Mendelssohn, como a prenunciar outras mortes. Com a obra, ele talvez não apenas decretasse o fim do observador, mas de toda a arte de então, da fé romântica e de sua própria futura carreira como grande pintor.

Um grande quadro reproduz além do instante. Sua luz, a composição e a cor concorrem para enriquecer um argumento poético no decorrer do tempo. Ou, pelo menos, eram assim os óleos que dos séculos XVIII ao XX descreveram as paisagens britânicas. O campo se tornara um refúgio depois que a Reforma protestante impedira a representação das figuras religiosas. A vida ao ar livre significava, porém, algo mais naqueles quadros, situado entre o belo e o sublime, conforme descreve a exposição gratuita A Paisagem na Arte: 1690-1998 - Artistas britânicos da coleção da Tate, até 18 de setembro, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em comemoração aos seus 110 anos. Nas nove seções sob a curadoria de Richard Humphreys (Descobrindo a Grã-Bretanha, Sonhos Pastorais, A Visão Clássica, Romantismo, Fidelidade à Natureza, Impressionismo,Redescobrindo a Grã-Bretanha, Um Novo Romantismo e Novas Paisagens, Velhas Paisagens), essa modalidade vem representada por grandes artífices, do insuperável John Mallard William Turner ao surrealista Paul Nash.

Millais, portanto, não seria o único, tampouco o maior britânico a pintar um tempo de mudanças, enquanto parecia apenas representar nos quadros as pradarias, as montanhas, o pôr do sol ou uma tempestade no mar. Contudo, um dia fora o mais promissor. Aos 11 anos, em 1840, ele adentrara a Royal Academy of Arts para tudo aprender e de tudo discordar. E, em 1848, enquanto as movimentações de massa anunciavam uma nova era a pensadores como Karl Marx, ele, na companhia dos amigos Holman Hunt e Dante Gabriel Rossetti, fundava uma irmandade secreta para desancar Rafael. Autointitulados pré-rafaelitas, esses pintores enxergavam artificialidade no artista essencial da Alta Renascença e se voltavam à Itália precedente, onde as formas, a seu ver, surgiam desafiadoras de tão puras.

Os pré-rafaelitas olhavam para o passado como qualquer um faria então. Desencantados com as promessas revolucionárias burguesas, desaguadas em cidades fétidas, os pintores do período voltavam-se a ideais campestres. O inglês John Martin (1789-1854), alguns anos antes, descobrira até mesmo um segredo no céu. Mais do que belo, pensou, ele era a face do terror, a representação, portanto, do sublime. Seu óleo sobre tela A Destruição de Pompeia e Herculano, de 1822, indica, na exposição da Pinacoteca, aquele pressentimento de que algo invisível aos homens determina seu cotidiano. Um céu avermelhado está prestes a engolir tudo e todos. A seguir o romantismo de então, no qual acima de tudo era exigida a expressão pessoal, o pintor conquistou enorme público. Nos museus, seus quadros vinham separados da multidão de admiradores por cordões.

Epítome de um período, Martin caiu de altura elevada, contudo, quando os tempos mudaram, entre outras razões porque John Ruskin desautorizara seu pincel cataclísmico. O aquarelista e crítico detestava o exagero sem pudor deste e de outros românticos. Eis por que admirara os pré-rafaelitas, rejeitados, contudo, por grandes pensadores da época, como o escritor Charles Dickens. Tal defesa custara a Ruskin a própria esposa, que, preterida em favor dos debates, acabaria nos braços de Millais. Em pouco tempo, transferido à Escócia onde ela morava, o pré-rafaelita abandonaria o movimento. “Não posso mais passar um dia inteiro a pintar uma área do tamanho de uma moeda de cinco xelins”, disse sobre sua antiga arte detalhista, que, transformada em fórmula ornamental, tornara-se objeto de cobiça dos mercadores.

Millais sumiu para que John Mallord William Turner (1775-1851) jamais perecesse. Emblema dos paisagistas, ele arrebatava admiradores por intuir a luz de forma inteiramente nova. Turner começou na pintura como um pitoresco, de uma escola de bucólicos que admitira, para elevar-se, a mitologia de origem grega, em uma representação algo próxima do óleo sobre tela Dido e Eneias (1814), um de seus quatro quadros expostos agora na Pinacoteca. Contudo, mais do que tudo isso, representou o romantismo de maneira duradoura. Viajou pela Europa por 40 anos. E anotou rápidos esboços a lápis de seus quadros para depois usá-los como pontos de partida em composições criadas pela imaginação. “Evanescente e aéreo, ele parece pintar com vapor colorido”, disse do artista um de seus contemporâneos, John Constable (1776-1837), autor do óleo sobre tela Chain Pier, Brighton, de 1826, em que resplandecem suas famosas nuvens. Ao contrário de Turner, Constable nunca deixou a Inglaterra. Mas advogava, para sua pintura, a verdade em primeira mão. “Não há dois dias iguais, nem mesmo duas horas”, escreveu. “E nunca houve duas folhas de árvore idênticas desde a criação do mundo.”

Os testemunhos de época garantem que Turner se amarrou ao mastro de um navio para experimentar a tempestade, de modo a pintá-la apropriadamente. Ou talvez, em razão do enorme talento, apenas lhe tivesse sido natural reproduzir o que estivesse à vista. Sua arte levaria à dos impressionistas, que, contudo, jamais teriam ultrapassado aquele seu tormento, a sua organização abstrata da luminosidade. Para Turner, a paisagem descrevia não somente um fenômeno físico, mas espiritual, algo facilmente perceptível em seus 300 óleos e quase 20 mil desenhos e aquarelas legados ao British Museum e à Tate Gallery. John Ruskin o adorava e o fez aceito em seu tempo. Mas ao crítico a história creditaria outra responsabilidade, dessa vez terrível. Após a morte de Turner, Ruskin destruiu seus desenhos eróticos, aqueles que, a seu ver, teriam manchado a memória de um grande herói. 

Rosane Pavam em Carta Capital. 

 


Entre os dias 6 e 9 de agosto, a Fundação Bienal será palco do "Percussion Show", evento inédito de cultura e negócios, em São Paulo, voltado para o universo da Bateria e Percussão. Diversas atividades estão programadas. Dentre elas, exposição, pocket shows,  performances de bateristas consagrados e outras atrações culturais. O evento ocorrerá diariamente em dois períodos distintos, um com foco em negócios, exclusivamente para os fabricantes, importadores e lojistas do setor e o outro aberto para receber o grande público.

Uma grande exibição de instrumentos e acessórios de percussão será realizada no lounge do Pavilhão Ciccillo Matarazzo do prédio da Bienal. São mais de 500 itens, entre equipamentos de ponta para uso em percussão popular (congas, bongos, timbales), percussão marcial (bumbos,  tenors e caixas), percussão sinfônica (tímpanos, marimbas, caixas), baterias espetaculares, pratos e acessórios (peles, baquetas, ferragens) de grandes marcas nacionais e internacionais. O ingresso (para visitação do grande público) custa R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia-entrada).

No anfiteatro do Pavilhão, ocorrerão pocket shows e performances de bateristas consagrados. Cuca Teixeira, Bruno Valverde, Alexandre Aposan, Vera Figueiredo, Ivan Busic, Rodrigo Oliveira, entre outros, vão se revezar em apresentações, sempre nos horários abertos ao público. O valor do ingresso permite o visitante participar de todas as atividads realizadas no Lounge e Anfiteatro (R$ 10,00, valor inteiro, R$ 5,00, meia-entrada).

No dia 9 de agosto, domingo, Dia dos Pais, às 11h, na Arena de Eventos do Parque do Ibirapuera, o Percussion Show apresentará uma versão especial do consagrado “Bateras 100% Brasil”, tradicional encontro de bateristas com seus equipamentos para apresentações coletivas, comandado pelo músico Dino Verdade. A expectativa é bater o recorde de participantes, com mais de 350 bateristas. A atividade terá duração de aproximadamente 1 hora e 15 minutos. Para participar, os interessados devem fazer a inscrição pelo site: www.baterasbrasil.com.br

O “Bateras 100% Brasil” contará com as participação confirmada de bateristas como Paulinho Fonseca (Jota Quest), Bacalhau (Ultraje a Rigor), Andre Jung (ex-Ira! e Titãs), Rodrigo Oliveira (Korzus), Amilcar Christófaro (Torture Squad), Xande Tamietti (Pato Fu, Preto Massa) e Naná Aragão (Alma Djem).  A Orquestra executa clássicos do Rock, Pop Nacional e Internacional, músicas instrumentais e peças compostas por Dino.

Para fechar o evento com chave de ouro, às 17h, também na Arena de Eventos, sob o comando do músico Paulo Campos, será formado um grande "Círculo de Tambores”, uma mandala rítmicana na qual os interessados poderão integrar a roda numa ação de convívio e harmonia em prol do bem comum.

O evento é voltado para os amantes da música, fabricantes, importadores, lojistas, bateristas e entusiastas,  e promovido por dez importantes empresas que atuam no segmento de importação e distribuição e de marcas consagradas de instrumentos musicais. São elas: Pearl Drums, Latin Percussion, Evans, Pro Mark, Orion Cymbals,Odery Drums, Alesis, Paiste, Ludwig, Musser, Quasar, Aquarian, Gibraltar, Mapex, Liverpool, Meinl, Octagon.

'Percussion Show' - Serviço:

Exclusivo para fabricantes, importadores e lojistas

Dias: 6/08 (quinta-feira) e 7/08 (sexta-feira), das 10h às 16h;
Dias: 8/08 (sábado) e 9/08 (domingo), das 10h às 12h.

Aberto ao público em geral

Dias: 6/08 (quinta-feira) e 7/08 (sexta-feira), das 16h às 22h;
Dias: 8/08 (Sábado), das 12h às 22h; 9/08 (Domingo): das 12h às 19h  

Preço: R$ 10,00 (valor inteiro), R$ 5,00 (meia-entrada).
*O valor do ingresso permite o visitante participar de todas as atividads realizadas no Lounge e Anfiteatro.

Local: Fundação Bienal de São Paulo - Lounge e Anfiteatro do Pavilhão Ciccillo Matarazzo – Portão 3.
Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral s/n
Estacionamento no Parque: Zona Azul

Atividade cultural

Local: Arena de Eventos do Parque Ibirapuera.
Entrada franca.

Bateras 100% Brasil.
Dia: 9/08 – Domingo (Dia dos Pais).
Horário:11h.

Círculo de Tambores
Dia 9/08 - Domingo.
Horário às 17h.

Mais informações: Simone Vieten - Assessora de Imprensa ([email protected])

O São Paulo São apoia o evento.

 


Na contracapa do álbum “Som do Bando” (lançamento do selo Sonora), uma lista de músicos e arranjadores do primeiro time da música popular brasileira – André Mehmari, Dori Caymmi, Edson José Alves, Fernando Corrêa, Gilson Peranzzetta, Laércio de Freitas e Nailor Proveta, Renato Borghetti e Tiago Costa – já indica que se trata de um projeto muito especial. 

O bandolinista Ronen Altman não deixou por menos ao planejar seu primeiro disco como solista: para as gravações convidou mais de 30 músicos com muitos dos quais já tocou ou gravou durante as últimas décadas. A produção também foi entregue a dois antigos parceiros na música: o violonista Swami Jr. e o irmão Helton Altman.

“Os momentos mágicos vividos ao lado de tantos artistas é que me incentivaram a realizar este disco. Ele é uma reverência que faço ao bandolim e ao bando de pessoas que me fizeram amar a música de maneira incondicional”, escreve Altman, no encarte do CD, que também inclui participações de Yamandu Costa (violão), Benjamim Taubkin (piano), Celsinho Silva (tamborins), Fábio Torres (piano), Sérgio Reze (bateria), Sylvinho Mazzuca Jr. e Pedro Gadelha (contrabaixo), entre outros.  

Diferentemente do que se poderia esperar, essa multidão de instrumentistas e arranjadores, com diferentes concepções musicais, jamais compromete a unidade musical do álbum. Presente em quase todas as faixas, um quinteto de sopros garante certa uniformidade sonora.

Altman não é um daqueles músicos exibicionistas, ansiosos por demonstrar sua destreza técnica ao ouvinte. Ao dedilhar seu bandolim, costuma privilegiar o sentimento, as emoções embutidas nas melodias e harmonias do original repertório que escolheu. 

Do contagiante samba-choro “Esperando a Feijoada” – com participação do próprio compositor, o guitarrista Heraldo do Monte – à versão instrumental da sensível canção “Fim do Ano” (de Swami Jr. e José Miguel Wisnik), Altman desfia a cada faixa diversas parcerias e ligações musicais, compondo assim um panorama de sua própria história.

Arranjada pelo pianista Laércio de Freitas, “Turma Toda”, do baixista Arismar do Espírito Santo”, revela influências jazzísticas e conta com improvisos de ambos. Em arranjo de Hermeto Pascoal, o “Choro de Amor Vivido”, de Eduardo Gudin, também destaca o violão do compositor. 

Outro craque dos arranjos e composições, o violonista Dori Caymmi comparece com seu vozeirão e suas cordas, em faixa que une “Obsession” (parceria com Gilson Peranzzetta) e “Rio Amazonas”, ao lado do flautista Teco Cardoso.  

Altman também inclui cinco composições próprias: da valsante “Nanai” (parceria com Celso Viáfora), que destaca a sanfona de Lulinha Alencar, à envolvente “Parafuso”, em arranjo do pianista André Mehmari.

Em tempos de vaidades e individualismos extremados, ao reunir tantos parceiros e amigos em seu belo disco de estreia, Altman dá uma lição de humildade e amor pela música.

Conheça o "Som do Bando": https://youtu.be/ASYowEi6Y_g


Carlos Calado em seu blog Música de Alma Negra. Resenha publicada parcialmente no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 23/09/2014.



O projeto Jazz na Fábrica chega à sua terceira edição com mais de 30 grupos e solistas confirmados.

Acontece entre 1º de agosto e 1º de setembro no Sesc. Segundo os curadores, a proposta de programação da edição de 2013 é ilustrar um caminho entre o jazz produzido na África e na América Latina, daí a presença de nomes como Afrikhanita (Angola), Richard Bona (Camarões), Christian Galvez (Chile), Edsel Gomez (Porto Rico) e Álvaro Montenegro (Bolívia) na escalação deste ano.

Segundo os curadores, a proposta de programação da edição de 2013 é ilustrar um caminho entre o jazz produzido na África e na América Latina, daí a presença de nomes como Afrikhanita (Angola), Richard Bona (Camarões), Christian Galvez (Chile), Edsel Gomez (Porto Rico) e Álvaro Montenegro (Bolívia) na escalação deste ano.

Entre as estrelas norte-americanas, destaca-se o pianista McCoy Tyner, de 75 anos (ex-pianista de John Coltrane), que já veio sete vezes ao Brasil, a mais recente em maio do ano passado, quando excursionou pelo País com um quarteto. Virão também as cantoras Cassandra Wilson (que veio pela última vez em 2009, e cantou no Bourbon Street Music Club) e a soul singer Macy Gray (que volta acompanhada de uma big band liderada pelo saxofonista David Murray), além do organista Dr. Lonnie Smith (esteve aqui em 2008, no Citibank Hall), todos americanos, e o trompetista, pianista e compositor franco-libanês Ibrahim Maalouf. O trio Sun Rooms, de Jason Adasiewcz, entra numa programação de vertente mais experimental, que terá Rabotinik, Ivo Perelman e Duo Nazário (brasileiros) e Roscoe Mitchel (Estados Unidos), Et Hop (França) e No Square (Suíça). 

J.M. no Estadao.

Confira a programação completa: http://goo.gl/m6ldHh


A produção cinematográfica mais recente da América Latina e do Caribe é o destaque da 10ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, de 30 de julho a 5 de agosto. São cerca de 100 filmes, de 17 países, 21 deles ainda inéditos no Brasil.

Em entrevista à Agência Brasil, Francisco Cesar Filho, um dos diretores do festival, fez um balanço dos dez anos do evento. “O festival foi criado em 2006 com uma proposta de mapear a produção de forma expressiva do que é feito na América Latina e Caribe e, ao mesmo tempo, apontar futuros caminhos da cinematografia da região”, disse. “A ideia do festival sempre foi olhar para o cinema latino-americano de uma forma generosa e ampla e discutir o seu futuro”, acrescentou.

No início, lembrou ele, vários destes países tinham uma produção ainda incipiente, mas agora contam “com uma produção exuberante”, que não se restringe mais ao Brasil, Argentina e México, responsáveis por quase 400 longas por ano. “Hoje, Costa Rica, Peru, Uruguai e Venezuela exibem obras premiadas em festivais do mundo inteiro”, disse.

Os homenageados do festival este ano são os cineastas Hector Babenco, do qual serão exibidos O Beijo da Mulher Aranha (que rendeu o Oscar de melhor ator a William Hurt, além das indicações de melhor filme e diretor) e O Passado, seu último filme; e Lírio Ferreira, que terá seus filmes Baile Perfumado, Árido Movie, Cartola-Música para os Olhos, O Homem que Engarrafava Nuvens e Sangue Azul exibidos no evento.

Um dos destaques do festival é a pré-estreia de Ato, Atalho e Vento, de Marcelo Masagão, que utiliza trechos de 143 filmes em sua montagem. Entre os estrangeiros estão o chileno Mar, de Dominga Sotomayor, exibido nos festivais de Berlim e de Buenos Aires; e Ragazzi, do argentino Raúl Perrone, que foi exibido nos festivais de Buenos Aires, Roma e Cartagena.

Não há uma temática única no festival, mas Cesar Filho lembra que os filmes latino-americanos caracterizam-se, em geral, pela escolha de temas sociais e econômicos como pano de fundo. Segundo ele, os filmes "sempre deixam a gente deslumbrar a sociedade nas quais eles foram feitos", e no festival deste ano "há muitas questões pessoais colocadas diante de um fundo social”.

Além dos filmes, haverá também o seminário Caminhos do Audiovisual Latino-Americano no Século 21, entre os dias 3 e 5 de agosto, no Centro de Pesquisa e Formação do Serviço Social do Comércio (Sesc), para discutir as possibilidades e experiências com as novas plataformas digitais de circulação de produtos audiovisuais, além da coprodução internacional.

César Filho disse que o setor cinematográfico sempre discute o que está acontecendo e questiona os caminhos futuros. "Isso se traduziu nessa década de existência do evento, em laboratórios e encontros de coprodução, mesas de seminário e debates. E neste ano, vamos fazer um grande seminário internacional, com cinco mesas discutindo plataformas digitais, coprodução internacional e novas temáticas estéticas”, ressaltou.

A programação ocorrerá nas salas de cinema do Memorial da América Latina, Cinesesc, Cine Olido, Centro Cultural São Paulo, Cinusp Paulo Emílio, Cinusp Maria Antonia, Reserva Cultural, Espaço Itaú de Cinema e Cinemateca Brasileira. A entrada é gratuita, exceto no Cinesesc, que cobra ingressos de R$ 3,50 a R$ 12.

O site do Festival: http://www.festlatinosp.com.br/2015/

Por Elaine Patricia Cruz da Agência Brasil

 

O Centro Cultural Banco do Brasil mostra, em São Paulo, as obras nas quais o artista russo promoveu uma revolução.

Wassily kandinsky tinha 30 anos de idade e uma carreira promissora como professor de direito quando, em 1896, durante uma exposição de impressionistas na capital russa, avistou os montes de feno pintados por Claude Monet. O que o artista francês representava, o chão e o sol de arder, o russo quase poderia sentir. E se Monet havia reunido coragem para pintar seu pequeno grande universo, todas as emoções provenientes da terra, o vento e a cor, por que um moscovita não poderia fazer o mesmo com seus pincéis? Kandinsky se sentia renascer. Ele pertencia a uma aldeia também, aquela de sua origem familiar, e conhecera a expressão primitiva nos rituais siberianos. Ainda que a pintura representasse um luxo impensável para qualquer russo como ele, dedicaria a vida a concretizá-la, inspirado pelas revoluções que o precederam.

Em viagem à Alemanha, naquele ano, liberto do emprego que lhe roubava o ímpeto, sentiu na pele a efervescência das mudanças. E começou a procurar uma maneira própria de dizer as coisas. “Cada época tem sua meta interna e sua beleza externa. Não se deve mensurar a beleza que nasce agora com o medidor do passado”, escreveu. Entre a ruptura figurativa e a reverência à cor, entre a espiritualidade e a razão, durante cinco décadas de errância a partir desse evento, ele percorreu cidades europeias, movimentos e escolas para produzir os 153 trabalhos que a exposição Kandinsky: Tudo começa num ponto recupera agora. 

Depois de uma bem-sucedida passagem por Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a mostra finaliza a temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, entre 8 de julho e 28 de setembro, sem deixar de expor os objetos primitivos e xamânicos que ele fez representar desde o início figurativo. Especialmente, ali estarão suas telas em diversos suportes, da madeira ao vidro, além de xilogravuras que, embora possam indicar uma forte abstração, nunca estiveram tão distantes assim das figurações ligadas à terra natal.

O que exatamente Kandinsky procurava é a pergunta inquietante. Era um pensador, em primeiro lugar, movido a expor suas descobertas em ensaios e livros. E, principalmente, um artista que, ao pintar, recusava a ajuda dos pensamentos. Sua busca era a mesma de muitos músicos, dramaturgos e escritores daquele período. Por meio da arte, ele desejava descobrir o espírito, o elemento escondido a determinar todos os acontecimentos em nossas vidas. OGeist universal que os filósofos então lamentavam somente ser possível descobrir no futuro, ao olhar a história para trás. 

Era um futurista? Não, porque tal escola vanguardista, em lugar de procurar nosso íntimo, exaltava nosso exterior, o maquinário industrial, as ilusões do capital. Um cubista? Jamais, porque, ao redimensionar o espaço, os cubistas apenas renovavam a paisagem burguesa, não extrapolavam um estado paralisante de contemplação, não faziam com que o espectador entrasse no quadro em si. Kandinsky queria expressar o íntimo por acreditar que isso o uniria ao mundo. E esperava, enquanto isso, mudar o mundo.

“Prefiro definir a intenção de Kandinsky como uma busca positiva e não antirracionalista”, diz Eugênia Petrova, diretora científica do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, que, após empreender a exposição Vanguardas Russas, em 2009, organizou esta mostra a partir da trabalhosa reunião de 12 acervos. “Ele é revolucionário porque se empenhou em sintetizar a forma expressiva sem se amarrar a padrões racionais da representação. O importante para ele era o mundo espiritual, a transmissão de sensações a partir da força de elementos básicos como cor e composição.”

Em 1901, como um primeiro passo rumo a afinar seu ideário, ele fundou na Alemanha a Nova Associação Artística e, quatro anos depois, com Franz Marc, o grupo Der Blaue Reiter, título de uma de suas telas (O Cavaleiro Azul). Ainda nos moldes da arte figurativa, Kandinsky e os vanguardistas russos na Europa propunham diluir o objeto pintado na tela, enquanto cor e forma se tornavam protagonistas do quadro. Depois de ensinar na Bauhaus, a escola internacionalista em que os saberes de música, teatro, pintura e arquitetura se cruzavam, escreveu Ponto, linha e superfície, em 1925, para defender uma teoria da pintura. Segundo ele, o ponto era ao mesmo tempo o zero e o momento de intervalo entre o falar e o calar. Se uma força externa o deslocasse na superfície, nascia a linha. A superfície poderia ser movida no espaço, sobretudo por meio da cor. Um quadro presente na exposição intuiu a descoberta. No Branco, de 1919, propõe esse giro no espaço, uma experiência de libertação.

Era também uma teoria que Kandinsky desejava aplicada à música, pois ele ainda se lembrava do efeito que lhe causara Lohengrin, tão impactante como as telas de Monet. O fortíssimo acorde final daquela ópera de Richard Wagner, executado por uma enorme orquestra, equivalia para ele a uma “mancha vermelha”, facilmente associada aos poentes de Moscou. Depois de Lohengrin, Kandinsky passou a advogar a busca de um “som colorido”. Em outro livro, Do Espiritual na Arte, de 1912, comparou a pintura ao piano: “A cor é a tecla. O olhar, o martelo. A alma, o piano com inúmeras cordas”.

Tratava-se de uma busca adiante de todo o conhecido e praticado. Em São Jorge, de 1911, a energia do pincel via-se expressa por manchas de cor e um triângulo comprido e agudo. Havia desordem nos seus quadros, nunca confusão. São Jorge, um cavaleiro tantos vezes lembrado pela arte popular, deveria representar o espírito a mover o mundo. “A arte é o auge exclusivamente da área dos sentimentos, não do raciocínio”, passou a dizer.

Ele conta que sua compreensão do poder da arte não figurativa adveio de uma noite em que, ao entrar no ateliê em Munique, não conseguiu reconhecer uma de suas próprias pinturas. De cabeça para baixo, contudo, ela era uma obra “de extraordinária beleza, brilhando com um íntimo resplendor”. Contudo, não necessariamente buscava a abstração enquanto afinava o ouvido pictórico. As cúpulas das igrejas, o casario, os animais, as árvores e os contornos de Moscou poderiam quase sempre ser perceptíveis nos seus quadros. Mais importante do que isso, contudo, era compreender a dinâmica da cor. O amarelo, cor quente, irradia-se na direção do espectador, deslumbrando-o, enquanto o azul, frio, chama o homem ao infinito, despertando uma saudade da pureza, do suprassensível. Kandinsky mudou o mundo? Parece bastante constatar que o tornou profundamente bonito.

Por Rosane Pavam em CartaCapital.

 

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