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MAM transforma Projeto Parede em museu de história natural com obra de Walmor Corrêa sobre a passagem dos jesuítas pelo estado de São Paulo.

No corredor de acesso, o artista interpreta a fauna paulista com animais taxidermizados, recriando a cena pelo olhar do Padre José de Anchieta no Brasil do século XVI. A instalação já conversa com o tema do próximo Panorama que foca em artefatos arqueológicos, estreitando a relação entre história, ciência e arte Para ocupar o Projeto Parede do segundo semestre de 2015, o MAM convidou o artista Walmor Corrêa que apresenta a obra Metamorfoses e Heterogonia, feita especialmente para o corredor de acesso entre o saguão de entrada e a Grande Sala do museu.

Metamorfoses e Heterogonia parte de um estudo de anotações sobre a fauna e flora brasileiras encontradas em cartas escritas pelo padre José de Anchieta (1534-1597), que identificavam espécies de pássaros inexistentes, cuja preciosa descrição refletia o pioneirismo da observação de Anchieta, que era um exímio pesquisador. Ao invés de censurar os equívocos, Walmor Corrêa propõe um desdobramento imersivo, dando a eles sustentação. “Desta forma, crio seres empalhados e dioramas que atestam as descrições do século XVI, com pássaros que se alimentam de orvalho e outros que são ratos com asas”, descreve o artista. A obra constitui um recorte fictício de um museu de história natural e, ao mesmo tempo, dá embasamento sobre a história real dos jesuítas no Brasil ao reproduzir o caminho percorrido por Anchieta no estado de São Paulo.

A produção do artista destaca-se pela profunda pesquisa sobre temas históricos e científicos e envolve o olhar do estrangeiro (através de cartas ou desenhos)sobre o novo mundo. Assim, Walmor aproxima a relação entre arte e ciência e atribui verossimilhança às narrativas fantásticas em solo brasileiro. Com diferentes técnicas e linguagens como desenhos, dioramas, animais empalhados e emulações de enciclopédias, cartazes e documentos, Corrêa recria histórias que vão dos mitos populares brasileiros (como Curupira e sereias) até os relatos dos primeiros naturalistas viajantes dos trópicos.

Para o MAM, o projeto consiste numa interferência arquitetônica que dá acesso a uma nova seção fictícia dentro do museu sob o termo Setor de Taxidermia. Na sequência, é encontrado um grande diorama que representa o mapa do estado de São Paulo, com destaque para o planalto, a serra e o litoral sul - locais por onde os jesuítas passaram, e que registra, sobretudo, o caminho por onde o Padre José de Anchieta passou e, possivelmente, encontrou os animais descritos e resignificados pelo artista.

O mapa conta com cerca de 15 animais empalhados dispostos sobre as possíveis áreas de localização, confeccionados pelo artista por processo de metamorfose, unindo cabeças de roedores a corpos de aves. É importante frisar que nenhum animal foi sacrificado para a obra. Os corpos dos bichos estrangeiros foram comprados em lojas autorizadas para este fim.

“No mês de outubro, o MAM apresenta o 34º Panorama da Arte Brasileira que dá destaque a artefatos arqueológicos pré-coloniais cujos significados são enigmáticos e referências históricas. Para criar um diálogo maior entre as mostras, o MAM nos pediu a indicação de artistas para ocuparem o corredor. Pensando nisso, é fortuito que tal projeto prepare uma zona indistinta entre ciência e arte, pesquisa e narrativa, história e ficção, e o trabalho do Walmor Corrêa oferece uma relação tênue com a exposição de outubro”, afirma Paulo Miyada, um dos curadores ao lado de Aracy Amaral.

Bio Natural de Florianópolis, Walmor Corrêa cursou as faculdades de Arquitetura e de Publicidade e Propaganda na UNISINOS (Universidade do Vale do Rio dos Sinos - São Leopoldo). Atualmente, vive e trabalha em São Paulo. Participou da Bienal de São Paulo, em 2004; além da Bienal do Mercosul e do Panorama de Arte Brasileira, do MAM, em 2005; foi recentemente laureado com uma bolsa de pesquisa e produção pelo Smithsonian Institution nos Estados Unidos; dentre outras exposições nacionais e internacionais.

Serviço: Projeto Parede - Metamorfoses e Heterogonia

Artista: Walmor Corrêa Local: corredor de acesso entre o saguão de entrada e a Grande Sala
Abertura: 7 de julho (terça-feira), a partir das 20h
Visitação: até 11 de setembro
Entrada gratuita Museu de Arte Moderna de São Paulo
Endereço: Parque do Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº - Portão 3)
Horários: Terça a domingo, das 10h às 17h30 (com permanência até as 18h)
Tel.: (11) 5085-1300
www.mam.org.br

F
onte: MAM.

Mostra inclui 'Agora Você É Um Homem' e 'Caminhos Mal Traçados' Todo Coppola - bem, quase todo. Com exceção de Captain EO, que ele fez com e para Michael Jackson, a totalidade da obra de Francis Ford Coppola será revisada de hoje até 27 no CCBB e de 23 a 30 no Cinesesc.

Voltam as raridades do começo da carreira do diretor, seus clássicos dos anos 1970, as experimentações dos 80 e 90 e os filmes bissextos dos anos 2000, que estão vendo a produção de Coppola se reduzir em função do prazer cada vez maior que ele experimenta produzindo vinhos.

A revista de bordo da American do mês passado mostrou um retrato de família - Coppola, a mulher e os filhos, incluindo a filha Sofia, brindando o novo vinho com o selo do ‘chefão’.

Coppola está fazendo vinho artesanal, e gostando.

O cinema, ele diz, está cada vez mais industrial - virou Coca-Cola. Coppola gosta de citar F.W. Murnau, que dizia que o som chegou cedo demais, quando o cinema engatinhava e os diretores ainda estavam aprendendo a fazer filmes. Com o som, os filmes viraram ‘peças’. Existem exceções, claro. A própria obra de Coppola.

Sempre valerá a pena rever a trilogia do Chefão, e Apocalypse Now, e O Fundo do Coração. Mas, assim como o diretor diz que a indústria detesta investir no novo - porque carrega sempre um componente de risco -, o espectador, jovem principalmente, deve arriscar e ver alguns Coppola ‘diferentes’. Agora Você É Um Homem, A Conversação, Peggy Sue - Seu Passado a Espera, Jardins de Pedra. O release do evento define Francis Ford Coppola como ‘cronista da América’. O Poderoso Chefão, que ele adaptou do best-seller de Mario Puzo, com roteiro do escritor, é sobre a luta pelo poder numa democracia étnica. Cuba no 2 e o Vaticano no 3 ampliam a crítica dos EUA no mundo. E o 3 é o melhor de todos, sorry.

Agora Você É Um Homem é sobre a juventude sonhadora dos anos 1960. Jardins de Pedra é sobre o enterro da ‘América’ sacrificada no Vietnã - em Apocalipse Now. A Conversação é sobre o atoleiro de Watergate. O Selvagem da Motocicleta, sobre a juventude delinquente, e Tetro, sobre a juventude que se reinventa. Virginia, em 3-D, é a reinvenção do terror - de Demência 13, no começo da carreira de Coppola, com produção de Roger Corman. Finalmente, será possível tirar a dúvida - O Caminho do Arco-Íris, com Fred Astaire e Petula Clark, é mesmo tão bom como sustentam os que o cultuam? E Caminhos Mal Traçados é mesmo a pérola do road movie por volta de 1970? Tucker, sobre o criador do automóvel, é, na verdade, sobre o processo de criação no cinema. Ao rever Coppola, o cinéfilo deve se preparar para (re)descobertas.

Luiz Carlos Merten no Estadão.

Serviço:

Francis Ford Coppola: O Cronista da América 

CCBB - Rua Álvares Penteado 112. R$ 4. De 1º a 29/7.

Cinesesc - Rua Augusta, 2.075. R$ 12/ R$ 20. De 23 a 29/7.

Composta por 120 fotografias, a exposição apresenta um panorama dos hábitos e costumes dos brasileiros nos últimos 100 anos, com ênfase na moda feminina cotidiana.

Durante amplo período de pesquisa iconográfica, feita por Goya Cruz, foram resgatadas fotografias – oriundas de álbuns de família, instituições, museus e acervos particulares – que traçam uma análise social e histórica da sociedade brasileira, ao longo dos últimos 100 anos. Além de fotógrafos anônimos, que registraram o dia a dia de suas famílias, a pesquisa inclui imagens de nomes consagrados, como Augusto Malta, Jean Manzon e Marcio Scavone. Com este material, e partindo do pressuposto de que “Tudo o que acontece na sociedade se reflete na forma de vestir”, surgiu o projeto Arquivo Urbano, composto por um livro (lançado em 2013, pela Luste Editores), e pela presente exposição. O livro – indicado do Prêmio Jabuti 2014 na categoria Arte e Fotografia -, traz as imagens acompanhadas por um texto de autoria de Mario Mendes, e relatam comportamentos difundidos por fontes como cinema, rádio, jornais, revistas e televisão, desvendando o país antes e depois do advento da indústria da moda.

Agora, as fotografias mais interessantes e emblemáticas ocupam o espaço Senac Lapa Faustolo em SP com ampliações e reproduções - as imagens que contam a história até os anos 2000 são impressas em tecido e exibidas em móbiles espalhados pelo museu; as mais recentes são mostradas em vídeo representando um novo tempo, a tecnologia e a velocidade que a comunicação atinge o público.

Ocorridas do início do século XX para o XXI, grandes transformações na sociedade geraram diversas mudanças nos hábitos e costumes da população. “A moda, o lazer, a alimentação: tudo mudou de forma extraordinária”, comenta Jussara Romão. A exposição Arquivo Urbano: 100 anos de Fotografia e Moda no Brasil apresenta o cotidiano dos brasileiros nos últimos 100 anos, enfatizando os aspectos da moda com imagens que provêm de acervos de diversas regiões, o que possibilita uma análise não restrita aos tradicionais centros políticos e financeiros do país.

Com isso, é contada uma história do Brasil. Não a história oficial de políticos e homens importantes para o país, mas a vida cotidiana dos brasileiros e sua evolução - um tema de interesse para os mais diversos públicos. A exposição representa, desta forma, um importante registro não apenas para historiadores e estudantes, mas também para o público em geral, uma vez que traz imagens curiosas, que contam a trajetória do país de modo pouco usual.

O Livro: Arquivo Urbano.

A Luste Editores lança Arquivo Urbano, da editora de moda, artista plástica e designer de jóias Jussara Romão, com texto escrito por Mário Mendes, curadoria fotográfica de Goya Cruz. e direção de arte de Guilherme Rex. O livro é um registro das mudanças no modo de vestir dos brasileiros, através de fotografias que contam a história do século XX no país.

Ao realizar algumas pesquisas, Jussara chegou à conclusão de que os acontecimentos históricos, econômicos e artísticos estão fortemente ligados à criação da moda, como objeto de desejo aos consumidores. “Tudo o que acontece na sociedade se reflete na forma de vestir.”, comenta a autora. A partir deste tema, veio a ideia de resgatar fotos de pessoas comuns em instituições, álbuns de família e acervos particulares, acompanhadas por um texto que resumisse a História do Brasil em cada década.

Tomando como ponto de partida o modo de vestir das pessoas, mostrado por meio de imagens, a autora traça uma análise social e histórica da sociedade brasileira, revelando fatos e acontecimentos que influenciaram fortemente o país.  Ao longo de 11 capítulos, Jussara relata comportamentos difundidos por fontes como cinema, rádio, jornais, revistas e televisão, desvendando o país antes e depois do advento da indústria da moda, sem estabelecer uma cronologia rígida.

Com o processo de criação do livro, Jussara destaca a noção de que a entrega de nossas fotos de família às instituições que preservam acervos fotográficos permite que a história de uma cidade, de um Estado, de um país seja contada. “Terá valido a pena ter registrado cada momento. Por isso minha gratidão a todas as famílias e pessoas que me ajudaram a contar como através da moda é possível conhecer e entender uma época.”

Serviço

Bate-papo:
Data 30/06  das 19h30 às 20h30. 
Capacidade - 100 pessoas que farão inscrições através do site.  
www.sp.senac.br/lapafaustolo

Exposição:
Data 30/06  à partir das 21h30.

Local: Senac Lapa Faustolo - Rua Faustolo, 1347.
A exposição ficará aberta ao público até o dia 24/07, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 21h30, e aos sábados, das 8h às 14h30.

 

O vídeo: “Architectura modernista em S. Paulo” mostra a inauguração da Casa da Rua Itápolis de Gregori Warchavchik.

Pesquisadores do acervo da FAU/USP acabam de recuperar o documentário “Architectura modernista em S. Paulo”, em que Mário de Andrade aparece. O curta em preto e branco, silencioso, apresenta a inauguração da Casa Modernista da Rua Itápolis, do arquiteto Gregori Warchavchik, em 1930.

O registro audiovisual é um documento importante para a história da arquitetura moderna brasileira, bem como um pequeno retrato da elite cultural paulistana da década de 30. Entre as personalidades mostradas no filme, vemos o escritor Mário de Andrade: algo raro pois, apesar de existir uma grande coleção de fotografias do artista, não há outro registro de imagem em movimento do poeta.

O filme pertence ao acervo da Biblioteca da FAU/USP e o processamento foi realizado pelo VIDEOFAU.

Assista: https://vimeo.com/128624346

Fonte: ArchDaily

 

'Minhoca na Cabeça' reflete sobre os medos que a cidade moderna causa em seus moradores. Peça será encenada aos domingos, de 14 deste mês a 26 de julho, às 10h e às 16h.

Uma menina está de mudança. Ela vem para uma cidade gigantesca, barulhenta e assustadora: multidões, prédios, engarrafamentos e violência fazem nascer uma minhoca em sua cabeça e ela fica com tanto medo que não quer mais sair de casa. É esta a história de Minhoca na Cabeça, o novo espetáculo que o grupo Esparrama encena semanalmente, entre o próximo domingo (14) e 26 de julho, em uma janela de frente para o elevado Costa e Silva, viaduto conhecido como Minhocão, na região central de São Paulo.

Desde novembro de 2013, a companhia vem se apresentando na janela do terceiro andar do edifício São Benedito, entre as alças de acesso do metrô Santa Cecília e a rua da Consolação. A primeira peça, Esparrama Pela Janela, foi vista por milhares de espectadores. A intenção da trupe é reforçar o movimento de transformação do Minhocão em local permanente de arte e cultura.

Desta vez, a história usa o humor para fazer com que as pessoas reflitam sobre os medos que a cidade moderna causa em seus moradores e as consequências sociais que eles ocasionam. São esses sentimentos ruins que alimentam a Minhoca na cabeça da Menina e fazem tudo parecer difícil.

Ela saiu de uma cidade pequena com muito espaço e veio para outra enorme onde, lhe parece, não cabe quase nada: nos bairros não cabem praças, as praças não têm espaço para árvores nem para crianças. A Menina só encontra espaço para seus sonhos e brincadeiras em sua própria cabeça. O problema é que ali também há lugar de sobra para o medo.

Mas nem tudo está perdido: ela terá o apoio de seus atrapalhados amigos Haroldo e Heraldo, que vão ajudá-la a descobrir novas e fantásticas formas de ver e navegar pela cidade. Mas, para isso, a personagem terá de enfrentar seus medos e decidir o que vai fazer com a Minhoca folgada.

“Quando propomos que o público venha até a frente da nossa janela, sente no asfalto e aprecie arte durante 45 minutos, nós estamos propondo um novo imaginário para a cidade, propondo novas relações com a rua, discutindo a noção de pertencimento e demostrando de forma prática que a arte sempre engloba uma dimensão política. Neste novo espetáculo quisemos tratar exatamente desta questão: o medo da cidade. A história fala de uma menina que tem vontade de ir para a rua, mas que ao mesmo tempo tem muito medo de enfrentá-la. No fim, ela descobre que nem todos os monstros que ela imaginou existem. Nós, enquanto população, precisamos reaprender o poder que tem a ocupação das ruas”, afirma Iarlei Rangel, diretor de Minhoca na Cabeça.

Se no primeiro espetáculo o grupo mostrava a realidade que invadia o apartamento de um morador do Minhocão, desta vez Esparrama extrapola os limites da janela e lança o olhar para a cidade. Esta inversão de perspectiva fará com que os atores ocupem – literalmente – o Minhocão e não apenas a janela que fica a poucos metros acima da altura do elevado.

Para Iarlei, levar arte para a rua provoca mudanças importantes para a construção de uma cidade melhor. “Parece que os últimos anos construíram uma noção de que a cidade não é lugar para estar, é lugar apenas para o trânsito, lugar de passagem. De várias formas nos incutiram que o lugar seguro para 'estar' é a nossa casa ou os locais privados, pelos quais temos de pagar de alguma forma (cinemas, shoppings etc.). A arte feita na rua nos devolve a noção de que a cidade é nossa e de que quanto mais a ocupamos mais ela fica segura e interessante”, declara o diretor.

Minhoca na Cabeça será encenada aos domingos, às 10h e às 16h, nos dias 14, 21 e 28 de junho e 5, 12, 19 e 26 de julho. Em caso de chuva, o espetáculo será cancelado. Mais sobre o Grupo na página dele no Facebook: https://goo.gl/PYOjPa

Xandra Stefanel, especial para RBA.

 

No filme de Leonardo Lacca, Irandhir Santos, o maior ator da atualidade, em São Paulo, a maior cidade do Brasil.

Era questão de tempo para que a “loucura” da metrópole que “nunca para” e “tem quatro estações num mesmo dia”, como definem os personagens de Permanência, estreia na quinta-feira 28, inspirasse o protagonista a rasgar a blusa emprestada pela amiga e ex-namorada e saísse declamando poesia no teto de um automóvel, contivesse uma rebelião no presídio, pulasse da senzala para assaltar a casa-grande, incorporasse a mulher para cantar Esse Cara ou o doido a dublar Ney Matogrosso no meio da rua.

Mas não. Tanto seu personagem, Ivo, como a cidade das efervescências parecem sob controle no filme de Leonardo Lacca. Parecem.

Ao chegar de Recife para sua primeira exposição individual de fotos em uma galeria, Ivo é questionado o tempo todo sobre o sol da capital pernambucana. Recife é o exotismo possível em uma metrópole mergulhada no (enganoso) recalque de um dia frio.

“Ali só chove”, avisa o personagem.

Dali em diante, os diálogos entre ele e a ex-namorada, Rita (Rita Carelli), e as pessoas com quem esbarra pela cidade são quase sempre banais. Os temas variam entre o clima, a hospitalidade, o trânsito, viagens, pequenos projetos, as ruas e seus perigos. Ironia das ironias, o fotógrafo circula em uma cidade adormecida. Todos parecem estar dormindo quando ele sai de casa ou quando volta.

Em vez de multidões, o vazio, como quando caminha em dupla pelo bairro ou observa sozinho o túnel da Linha 4 do Metrô. Nessa cidade silenciosa, é possível ouvir a máquina de espremer laranja, de selecionar os grãos do café ou de cortar papeis.

Ao diretor interessam os detalhes dos espaços desocupados. A fala é uma delas. No filme, não importa o que é dito, e sim o que não é dito. Os personagens falam o tempo todo para que o silêncio não delate uma tensão e essa tensão não delate o que realmente querem dizer: medo, desejo, pulsão. É mais ou menos como a São Paulo que os recebe. Dela espera-se ruídos, berros, explosões, descaminhos, mas ela se revela tanto no silêncio de suas ruas das manhãs e das madrugadas como nos espaços diminutos - um apartamento, uma galeria, a claustrofobia de um elevador. Essa solidão ilhada numa multidão é o que permite topar com a gente mesmo – daí o pânico.

Nesses encontros inevitáveis dos vazios que se expressam por si, resvalamos em uma pretensa naturalidade organizada pelo pensamento. Mas elas não dizem o inevitável: que as relações humanas, formais ou desmanchadas, são também um discurso. Nesse discurso, o que é o acolhimento? O que se dissipa? O que engendra? O que permanece?

“Eu não tenho mais o que falar. A gente perdeu o assunto”, admite o personagem, entre o desapontamento e a serenidade, após o reencontro com Rita, agora casada, agora responsável, agora contida.

Permanência é a história não só do que foi, mas do que poderia ter sido e do que ainda é. É a foto em preto e branco na parede. É o que se esquece e o que se registra. É o não-dito. É o que permanece e reaparece nas novas pessoas que, como na música de Caetano Veloso, engendramos em nós e de nós. A travessia da ponte-aérea não é só o retorno, mas a continuação revelada. Rita, como Recife ou São Paulo, é tudo, menos uma foto dolorosa pendurada – e estática – na parede.

Matheus Pichonelli em Carta Capital




 

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