Recomendados - São Paulo São

São Paulo São Recomenda


O
Encontro na Mantiqueira - Literatura em Foco - São Francisco Xavier, que será realizado entre os próximos dias 17 e 19, cujas atividades são gratuitas, substitui o Festival da Mantiqueira - Diálogos com a Literatura, que estaria em sua nona edição, mas foi retirado pela Secretaria Estadual de Cultura do Estado de São Paulo neste ano do seu calendário de eventos. A comunidade do distrito de São Francisco Xavier apropriou-se da iniciativa e conta com o trabalho voluntário de moradores e simpatizantes de São Francisco Xavier, assim como de comerciantes, restaurantes e pousadas locais. É apoiado também pela prefeitura de São José dos Campos, Fundação Cultural Cassiano Ricardo e várias entidades. 

Sexta-feira (17)

Abertura

A abertura será conduzida por Marli Portela, da FCCR (Fundação Cultural Cassiano Ricardo), de São José dos Campos, na sexta-feira (17), às 19h30, na tenda principal, na Praça de São Francisco Xavier. Em seguida, haverá show musical com a Orquestra Possível, formada exclusivamente por músicos de São Francisco Xavier. Trabalho comunitário, sob a regência de Daniel Gonçalves.

Sábado (18)

Voz ao silêncio

No sábado (18), na tenda principal, às 10h, terão início as Mesas Literárias. Da primeira rodada de debates, sob o tema “O ofício de dar voz ao silêncio”, participam o ficcionista, poeta e historiador Victor Leonardi, que escreveu e publicou 20 livros, entre contos, poesia e ensaios. Também é autor de uma peça de teatro e roteiros para cinema. Ele vai dividir a mesa com a jornalista e escritora Daniela Arbex, que é reconhecida por seu trabalho como repórter investigativa. É autora do best-seller “Holocausto brasileiro”, eleito Melhor Livro-Reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (2013) e segundo melhor Livro-Reportagem no prêmio Jabuti de 2014. Com mais de 150 mil exemplares vendidos no Brasil e em Portugal, a obra deve ganhar as telas da TV este ano, no documentário produzido com exclusividade para a HBO, com exibição prevista em mais de 20 países. 

Ao lado de Victor Leonardi, ela deve abordar como o trabalho do escritor abre janelas para as dores da humanidade. Leonardi tem uma vasta pesquisa sobre o holocausto armênio. O escritor e psicólogo junguiano Gustavo Barcellos também participará da mesa. Formado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Barcellos foi para os Estados Unidos, onde obteve o grau de Mestre em Psicologia Clínica pela New School for Research, de Nova York. Lá estudou na C. G. Jung Foundation. É analista didata da Associação Junguiana do Brasil e membro da Associação Internacional de Psicologia Analítica. Ele é autor de diversos livros, entre eles, “Jung”, Editora Ática (1991); “Vôos e raízes: ensaios sobre imaginação, arte e psicologia arquetípica”, Editora Ágora (2006); “O irmão: psicologia do arquétipo fraterno”, Editora Vozes (2009); e “Psique & Imagem”, Editora Vozes (2012). Também tem diversos artigos publicados em revistas e coletâneas nacionais e internacionais. 

Liberdade de expressão

No mesmo sábado (18), a partir das 14h até as 16h, é a vez da mesa "Literatura e liberdade de expressão", que terá a participação do jornalista e escritor Audálio Dantas, que é autor de 12livros, entre os quais “As duas guerras de Vlado Herzog” (Grupo Record/Civilização Brasileira, 2012), que recebeu em 2013 o prêmio Jabuti, na Categoria Livro-Reportagem e o Livro do Ano de Não-Ficção (Câmara Brasileira do Livro) e Juca Pato – Intelectual do Ano de 2013 (União Brasileira de Escritores). Em 2014 recebeu, pelo mesmo livro, o Prêmio Brasília de Literatura. Ainda em 2012, também lançou “Tempo de reportagem” (Leya). Entre outros, publicou “O circo do desespero” (Símbolo), “O menino Lula” (Ediouro) e “O Chão de Graciliano” (Tempo d’Imagem), que ganhou o Prêmio APCA 2007. Em 2014 lançou “Céu de Luiz”, sobre a permanência de Luiz Gonzaga na memória do povo do sertão nordestino.

Audálio Dantas vai dividir a mesa com o também jornalista Gabriel Priolli Netto, que trabalhou por muitos anos na “TV Cultura de São Paulo”. Atuou ainda nos principais órgãos de imprensa do país, como “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Carta Capital”, “Época” e “Veja”. Também foi editor do “Jornal Nacional” e editor-chefe do telejornal “São Paulo Já”, da Rede Globo. Trabalhou ainda nas redes de TV “Bandeirantes”, “Record” e “Gazeta”. Atualmente, é consultor de comunicação, editor dos blogs “A Priolli” e “Marqueteiros”, além de assessor da TV Escola (MEC-ACERP). Também é colunista da revista “Imprensa” e presidente de honra da ABTU (Associação Brasileira de Televisão Universitária), entidade que fundou e dirigiu entre 2000 e 2007. Entre outros livros e artigos, publicou “O Campeão de Audiência”, biografia de Walter Clark, e coordenou “A Deusa Ferida”, estudo sobre a queda de audiência da “Rede Globo”. 

Nessa mesma mesa “Literatura e liberdade de expressão” também estará o jornalista e escritor Leão Serva, que assina, hoje, coluna quinzenal no caderno “Cotidiano” da “Folha de S.Paulo”, publicada às segundas-feiras. Ele foi secretário de redação da “Folha” e dirigiu outros jornais como "Diário de S.Paulo", "Jornal da Tarde" e "Lance", e a revista "Placar". Na Prefeitura de São Paulo, trabalhou na implementação da “Lei Cidade Limpa”, que baniu a publicidade externa e reduziu placas indicativas do comércio na cidade. É autor de “Como Viver em São Paulo Sem Carro”, guia anual (Santa Clara Ideias, 2012, 13 e 14); “A Desintegração dos Jornais” (Reflexão, 2015); “Um Tipógrafo na Colônia” (Publifolha, 2014); “#MalditosFios” (Santa Clara Ideias, 2014); “Cidade Limpa – O projeto que mudou a cara de SP” (2008); “Jornalismo e Desinformação” (Senac, 2001); e “A Batalha de Sarajevo” (Scritta, 1994).

Poesia e prosa

Ainda no dia 18, das 16h30 às 18h30, “Poesia e Prosa em Foco” será o tema da mesa da qual estarão presentes Estevão Azevedo, Rita Elisa Seda e Viviana Bosi. O escritor Estevão Azevedo é autor do "Tempo de espalhar pedras" (Cosac Naify), que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2015. 

Rita Elisa Seda é escritora, jornalista, fotógrafa e arqueóloga. Embaixadora da Paz Ordem da Coroa dos Arameus e dos Auranitas; Comendadora Medalha Leão de Judá; Prêmio Carlos Drummond de Andrade; Medalha Cassiano Ricardo. Também é membro da Academia Valeparaibana de Letras e Artes; Academia Joseense de Letras; União Brasileira de Escritores; Confederação Brasileira de Letras e Artes; Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico do Grande ABC. É autora de “[email protected]”; “Troféu”; “Retalhos de Outono”; “Desertos”; “Nhá Chica Mãe dos Pobres” (atualmente está em desenvolvimento filme homônimo); “A Menina dos Vagalumes”; “Pelos ditos e não ditos do Sapucaí”; “Margem Grande”; “Corixo Saudade”; “Pipa Guerreira”; “Fábulas para Seishum”; “Cora Coralina Raízes de Aninha”, que inspirou o filme Cora Coralina todas as Vidas - 2015. Cora Coralina será o principal foco de Rita Elisa no 1º Encontro na Mantiqueira - Literatura em Foco - São Francisco Xavier.

Viviana Bosi é formada em Letras - Português Inglês - pela Universidade de São Paulo (1984), mestrado em Educação pela Universidade de São Paulo (1991) e doutorado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (1997). Fez pesquisa de pós-doutorado na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro (2007) e na Universidade Nova de Lisboa (2014). Atualmente é professora do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. Defendeu sua livre-docência apresentando a tese "Poesia em risco: itinerários a partir dos anos 60" (2011). No 1º Encontro na Mantiqueira, Viviana irá falar sobre a obra da poeta carioca Ana Cristina César (1952-83), que será homenageada na edição da “Flip 2016”, que  acontecerá entre 29 de junho e 3 de julho, em Paraty (RJ). Expoente da geração da poesia marginal, Ana Cristina criou uma escrita atravessada por elementos do cotidiano e aspectos de sua intimidade. Além da poesia, dedicou-se à crítica e à tradução literária, tendo traduzido Emily Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield. 

Comissão da Verdade

A partir das 19h, também na tenda principal, será realizado o lançamento do livro “Comissão da Verdade”, do escritor e sociólogo Moacyr Pinto. Ele elaborou o relatório final Comissão da Verdade e é redator do livro sobre o tema a ser publicado este ano pela FCCR. O livro registra as lições tiradas da experiência de São José dos Campos com a ditadura de 1964/1985, transmitidas pelos 91 depoentes à Comissão da Verdade “Michal Gartenkraut” constituída pela Câmara Municipal, entre os meses de outubro de 2013 e outubro de 2014. Está confirmada a presença de Antonio Acioli de Olivio nessa mesa como mediador.

Leitura e escrita

Paralelamente aos debates na tenda principal, o 1º Encontro na Mantiqueira – Literatura em Foco – São Francisco Xavier terá também programa para professores da rede pública e privada, das 9h às 11h, no Salão Paroquial, sob o tema “Oralidade, leitura e escrita: cultura popular na sala de aula e em casa”. A palestra-oficina será comandada pelo professor livre-docente Claudemir Belintane, da Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação. Ele é autor de dezenas de artigos sobre leitura, alfabetização, literatura, oralidade e cultura popular, além do polêmico livro “Oralidade e alfabetização: uma nova abordagem da alfabetização e do letramento” (Editora Cortez). Na graduação, ele ministra aulas sobre Metodologia de Ensino de Alfabetização, de Leitura e de Escrita; na pós-graduação, orienta os seus alunos a partir do tema “Inconsciente e linguagem”.

Claudemir Belintane promete uma reflexão sobre os potenciais da cultura oral na sala de aula, sobretudo quando relacionados aos da leitura-escrita. A ideia é traçar um esboço das tensões, aproximações e reaproximações entre as modalidades de expressão, para depois explorar estratégias pedagógicas que favoreçam contribuições recíprocas entre a cultura oral do aluno e as demandas de leitura-escrita propostas pela escola. Desde a entrada da criança na língua (período de aquisição) foi testemunhado uma rede de letramento que se sustenta a partir dessas matrizes orais basilares. Distinguir essa diversidade textual, reconhecer sua função, suas possibilidades de uso e traçar estratégias de expansão recíprocas entre o oral e o escrito são três objetivos sobre os quais se pretende deter. Isso será feito abordando um pouco de teoria e, ao mesmo tempo, apresentando estratégias de forma mais prática e direta.

Cinema

O 1º Encontro na Mantiqueira – Literatura em Foco – São Francisco Xavier tem programação recheada. Enquanto os debates ocorrerão, outras atividades serão realizadas pela cidade. No espaço Villa Sonora, por exemplo, haverá sessões de cinema, entre as 10h e 23h, também no sábado (18) com a exibição de “Letras na tela: Super Libris – Curtas do Canal Sesc TV”. A programação é de Piu Dip.

Encadernação

Oficina de encadernação para adultos é outra atividade paralela aos encontros entre escritores e palestrantes. A oficina ocorrerá das 14h30 às 18h, no Salão Paroquial, com Cecília Loeb. Para as crianças também haverá a mesma oficina, das 9h às 11h30, na Biblioteca Solidária.

Teatro e culinária para crianças

Ainda para as crianças, no sábado, das 11h30 às 12h30, a atividade é “Leitura de livro infantil: as aventuras do urso de óculos”, comandado por Ellê Carvalho. Escritor: Rodolfo D’Urso.

Depois, também na Biblioteca Solidária, das 14h às 18h, será realizada “Culinária Infantil”, com Mariângela Schoenacker. Ainda no mesmo horário, acontecerá a FANFIC, atividade para os jovens adolescentes, com Cauana Moraes.

Cordas, sarau e serenata 

Já no coreto da Praça de São Francisco Xavier haverá show musical, das 12h30 às 12h45, “Cordas e Ponteios”, com Wager e Fred Vilela. À noite, entre 20h30 e 22h30, será a vez do “Sarau Poético – Di Versos – Literatura Plural”. Depois da participação livre dos poetas, o Trem da Viração irá percorrer as ruas de São Francisco Xavier com a sua “Serenata”, das 22h30 à 0h.

Domingo (19)

Debates e circulares

Já no domingo (19), o 1º Encontro na Mantiqueira - Literatura em Foco - São Francisco Xavier começa com “Debates Circulares”. Das 10h30 às 11h30, “Como despertar o pequeno leitor”, com mediação de Itamara Moura.  Das 11h45 às 12h45, “Contos, crônicas e romances”, onde Wilson R. será o mediador; e das 13h às 14h, “Caminhos poéticos e contemporaneidade”, com mediação do Poeta Moraes.

Emílias e contação de histórias 

O domingo terá também atividades para a garotada. Das 10h às 10h40, por exemplo, a criançada terá “Teatro infantil na praça”. Serão apresentadas as “Bonecas de pano e bonecas de pau, Emílias de Monteiro Lobato”, com a professora Cristina Monteiro.

A “Contação de história infantil: um reino sem dengue”, com produção da Villa 7 e participação do contador Rodrigo Siqueira, será entre 10h e 11h. Na sequência, entre 11h e 12h, será a vez de “Malas Portam Histórias”, com a Cia. Malas Portam. Também haverá o “Sarau infantil Cecília Meirelles”, com os alunos da professora Sheila Vilela.

Sábado e domingo (18 e 19)

Escritores

 O 1º Encontro na Mantiqueira - Literatura em Foco - São Francisco Xavier, além das palestras, debates, entre outras atividades, também abre espaço para escritores que desejam participar do evento. Entre os mais de 30 autores inscritos está Elisa Band. Ela é performer, atriz, encenadora, pesquisadora e professora do curso de performance no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) e SP Escola de Teatro. Elisa Band  estará presente ao 1º Encontro na Mantiqueira com o seu  livro de contos “Perecíveis”, com narrativas de um cotidiano que mostra o fantástico, o inusitado, o inesperado. Quando o leitor começa a se sentir em uma zona de conforto é sacudido por um tranco no vagão da lógica, das expectativas. De imediato perde o fio condutor que supunha estar seguindo para, aos poucos, entrar no universo cujos fatos se desencontram, colapsam e levam o passageiro a estações inesperadas. O trem conduzido por ela com mãos firmes e seguras não tem ponto de chegada. Convida o leitor a recriar um mundo, utilizando as lentes mágicas que a autora usou para escrever “Perecíveis”.

Outro autor que se aventura pelo mundo da literatura é o jornalista Vinícius Novaes, com o seu primeiro livro “Eu te amo, mas estou bêbado” (Editora Multifoco). A obra é uma coletânea de 19 crônicas sobre o amor, que, em alguns textos, ganha vida e conversa com o autor. O sentimento, às vezes revoltado, questiona o mundo que, segundo ele, ama pouco. Então, o amor se revolta, chora, bebe para afogar as mágoas, mas também sorri quando dois corações se encontram. 

Já Osvaldo Rodrigues é figura conhecida em São Francisco Xavier. Paranaense, paulistano por opção e com segunda residência no distrito, está sempre presente em movimentos culturais, saraus poéticos e carnavais. Esconde em sua figura leve e despojada um escritor de quase 20 livros. A maior parte de poesias. Visões sensíveis da vida, do amor e dos relacionamentos. Com estilo livre, Osvaldo Rodrigues não se prende a escolas ou a temáticas: seu olhar está sempre buscando a poesia em campos inusitados. No 1º Encontro na Mantiqueira - Literatura em Foco - São Francisco Xavier, ele estará presente com dois livros de poemas e o seu primeiro romance: “Exercícios Ilusórios”. 

O “Distopia”, de Kate Williams, é uma ótima oportunidade para se desmistificar a imagem tradicional que se tem do escritor ou escritora. Kate Williams escreveu seu primeiro livro aos 15 anos e publicou o segundo aos 17. Agora, recém-chegada no segundo decênio da vida, lança um volume de fôlego, uma ficção sobre um mundo próximo futuro, cujo sistema repressor de governo começa a ser minado por mentes e corações rebeldes. Linguagem ágil, história em quadrinhos sem desenhos, tramas e personagens saídas de videogames, mas com emoções e sentimentos bem desenhados.

Clóvis Wey também estará no 1º Encontro na Mantiqueira para apresentar “Névoa”. Na Tenda dos Autores ele irá demonstrar aos leitores que um físico, mestre em partículas elementares, pode fazer literatura da melhor qualidade, contrariando os que pensam que literatura é privilégio de seres ungidos por algum deus especial e que devem passar para a eternidade debruçados sobre os labirintos da alma. Clovis Wey, por meio de seu “Névoa” (menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos, da UBE - Academia Brasileira de Letras) mostra-se também um mestre nas partículas elementares da língua: as palavras.

Como toda programação do 1º Encontro na Mantiqueira – Literatura em Foco – São Francisco Xavier, o lançamento de livros também recebeu o apoio solidário da comunidade e a recém-inaugurada Livraria Xica Cultural colocou seu espaço à disposição para mais essa atividade.

Os escritores farão sessões de lançamento e autógrafos, na Tenda dos Autores, que irá funcionar no sábado (18), das 10h às 22h, e no domingo, das 10h às 16h. A democratização das letras também passará pela Tenda do Sebo, composta por doações de apoiadores e simpatizantes, e gerenciada por voluntários. Os livros serão vendidos a preços acessíveis, com renda revertida para as despesas do evento. Os leitores também podem trocar obras. Irá funcionar no sábado, das 10h às 22h, e no domingo, das 10h às 16h, também na praça.

“Litheratrupe” 

O 1º Encontro na Mantiqueira - Literatura em Foco - São Francisco Xavier também terá performances literárias. São atividades contemporâneas e inusitadas. A organização do evento abrirá espaço para o grupo joseense “Litheratrupe”, por exemplo, que respira e transpira livros, que transforma objetos em livros.

“Litheratrupe” nasceu através da oficina “O Poder das Palavras”, ministrada pela escritora Rita Elisa Seda. Hoje é composto por Adriana Ribeiro, Carla Pastori, Lidia Martins Ribeiro, Karina Muller Rufino, Lis Yeda Graminho, Suelen Crístoli, Hamilton Toledo, Ana Lícia Reis, Mariane Helena, Mara Débora, Elizabete de Fátima e Andrey Bugarin. Há dois anos essa turma desenvolve livros-objetos e livros artesanais feitos somente com material reciclado, fomentando o reaproveitamento de várias embalagens que são descartadas no lixo diariamente. A ideia é colocar em prática a “literatura sustentável”, uma tendência em voga na Europa. 

O grupo também elabora livros mimeografados e escritos em máquinas de escrever, o que remete à obra de uma das escritoras que será abordada 1º Encontro na Mantiqueira: Ana Cristina César, que pertenceu à chamada “geração mimeógrafo”. O “Litheratrupe” desenvolve um trabalho de literatura que, embora contemporâneo, foge do digital. O grupo apresentará no evento exemplos desse movimento e pretende incentivar quem quer produzir, de maneira diferente e inusitada, seus próprios livros. 

O maior livro-objeto produzido pelo “Litheratrupe” foi uma banheira de ferro onde estão gravados sonetos de Vinícius de Moraes. Ela estará em exposição no 1º Encontro na Mantiqueira. O grupo criou também um livro minúsculo que exige lente de aumento para ser lido. Há ainda um livro-borboleta e muitos outros livros-objetos. Quem tiver a intenção de participar pode trazer embalagens usadas, papeis velhos e fotografias antigas para fazer livros-objetos. Segundo Rita Elisa Seda, o resgate do livro mimeografado e datilografado será o ponto central do “Litheratrupe”.

O grupo estará em São Francisco Xavier no sábado (18) e domingo (19), e garante interação total. Além de conhecer os livros-objetos, feitos artesanalmente, o visitante pode mimeografar um cartão, datilografar uma carta, escrever com caneta de pena e tinteiro, declamar poemas dentro da banheira Vinícius de Moraes e até fazer uma selfie com Fernando Pessoa.

Máquina cria literatura?

O 1º Encontro na Mantiqueira - Literatura em Foco - São Francisco Xavier também irá receber a “Machina de Fazer Poesia”, de Fernando Lopes, poeta e analista de sistemas, que vai mostrar o computador como um “escritor” de poesias.

Lopes também é joseense, formado pela ETEP em 1969, com passagem posterior pela Université René Descartes (1975-1977), onde não concluiu o curso de psicologia. Iniciou-se na programação de computadores em 1970 e até hoje trabalha e estuda a integração informática com a poesia. Participou da Antologia Poesia em São José dos Campos em 1984. Em 1986 lançou seu primeiro livro "A Torre de Papel". Apresentou, em 1987, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro a primeira versão do poema "Olhares", escrito por computador. Desde então vem se dedicando à conclusão da obra atual: "A machina de fazer poesia". “Eu já trabalhava com a máquina (o computador) e tinha o hábito de escrever. Um dia, ao perceber que eu tinha uma variação de um tema, deu o estalo de fazer um programa capaz de escrever essas variações", explica Lopes.

Ele participou do Festival da Mantiqueira ano passado, em uma sala sobre tendências da poesia, com mediação de Alcemir Palma. Na palestra, ele realizou uma vivência em que a plateia lia e declamava os textos gerados pelo software, a partir da lógica e arranjos do universo de palavras de um determinado tema e título que resultaram em versos e estrofes distintas. A inovação provocou debate intenso sobre a arte gerada por meio da máquina. 

“A machina de fazer poesia” estará no 1º Encontro na Mantiqueira, no sábado (18), das 18h às 22h. E o seu criador, Fernando Lopes, estará na cidade para promover a interação entre a sua “Machina” e os visitantes.

Ele é autor de "Uma máquina pode criar arte?”, que foi criado pelo software desenvolvido por ele. A obra possui 48 poemas, sendo que cada exemplar é único e exclusivo, o número de combinações possíveis para cada poema é enorme e na primeira tiragem foram produzidos apenas 100 exemplares.

Encerramento

No domingo (19), das 14h45 às 16h, no coreto da praça, acontecerá o show de encerramento do 1º Encontro na Mantiqueira - Literatura em Foco - São Francisco Xavier, com as “Violas caipiras: cortas na Mantiqueira”.

***

Assessoria de imprensa - Neusa Spaulucci (11) 9 9641 5148

 
A aposta num novo tipo de colecionismo e comercialização da arte marca a sétima edição da Parte – Feira de Arte Contemporânea, que começou nesta quinta-feira, 9, no Shopping Cidade Jardim, com a participação de 18 galerias, quatro delas operando em plataforma digital. Esta é a segunda edição “pocket” da feira, que, em novembro, terá uma versão maior, com 40 galerias, no clube A Hebraica, que passa a abrigar a Parte, antes montada no Paço das Artes da Cidade Universitária, desativado pela USP. A versão “pocket”, embora menor, tem desde artistas jovens, como a desenhista gaúcha Louise Kanefuku, de 31 anos, até veteranos, como o gravador paulistano Arthur Luiz Piza, de 88 anos, passando pela fotógrafa carioca Claudia Jaguaribe, de 61 anos.

Três empreendedoras estão por trás da Parte: Carmen Schivartche, Lina Wurzman e Tamara Perlman. Elas apostam nessa edição “pocket”, que ocupa uma pequena área do shopping, de 600 m², para atrair um público ainda não familiarizado com a arte contemporânea. “Temos, claro, colecionadores que vêm aqui atrás de novidades, mas a versão menor da feira visa a atrair um novo público, diferente daquele que frequentava o Paço das Artes”, justifica Lina Wurzman. 
 
Outra característica da feira é a participação de galerias do universo digital voltadas para o mercado de arte, como a Cravo Online, plataforma de leilões da Aloisio Cravo Leilões, e Arte Hall, canal de serviços com um portal que veicula entrevistas e a agenda do circuito, além de oferecer obras à venda. “O número de galerias digitais cresceu muito com a recente crise econômica, pois está difícil manter o espaço físico”, revela Tamara Perlman. 
 
Aberta de 9 a 12 de junho, no Shopping Cidade Jardim, a Parte conta com 18 galerias expositoras. Foto: Divulgação.
 

Ainda que a área da Parte no Shopping Cidade Jardim não seja grande, a feira acaba atraindo um público que ainda desconhece, mas pode vir a se interessar por galerias e artistas pouco populares fora do eixo Rio-São Paulo. A gaúcha Louise Kanefuku, representada pela galeria Aura Arte, de Porto Alegre, é um exemplo. Outra é a galeria Via Thorey, de Vitória, que traz de pinturas da catarinense Gabriela Machado a telas da veterana capixaba Regina Chulam, pintora que já viveu e expôs fora do Brasil.

Outro diferencial da Parte é o conteúdo informativo oferecido aos visitantes da feira. A transparência, diz Lina Wurzman, é um dos seus mandamentos. “Pedimos às galerias que mantenham ao lado da obra o nome do autor e uma etiqueta com o preço, o que era considerado tabu em feiras de arte.” E, na Parte, esses preços são modestos: é possível comprar desde serigrafias por R$ 500 até telas de pintores consagrados por R$ 200 mil.

Outro modo alternativo de aquisição de obras é o Clube dos Colecionadores, assinatura mensal do Atelier do Centro comandado pelo artista Rubens Espírito Santos, que permite a aquisição de trabalhos de artistas emergentes por preços módicos. Este ano, as diretoras da Parte encomendaram dois projetos especiais concebidos para o espaço do Shopping Cidade Jardim: esculturas de fibra de vidro de Gilberto Salvador e a pintura de um Impala 1962 por um coletivo de artistas.

Serviço
Parte - Feira de Arte
Shopping Cidade Jardim. Av. Magalhães de Castro, 12.000. 
6ª e sábado, 13h/22h.
Domingo, 13h/20h.

***
Antonio Gonçalves Filho em O Estado de S.Paulo.


O Itaú Cultural homenageia Maria e Herbert Duschenes. Apesar de atuarem em áreas distintas – ela no campo da dança e ele no da arquitetura –, ambos se dedicaram à educação e desenvolveram formas inovadoras de compartilhar o saber.

O programa Ocupação chega à sua 29ª edição e celebra o que o casal Duschenes transformou em arte: a capacidade e a generosidade de dividir experiências. O espaço expositivo revela fotos, planos de aulas, vídeos e outros documentos que contam em parte como era a construção de conhecimento realizada por eles e por seus alunos.

Maria e Herbert – ela húngara e ele alemão – chegaram ao Brasil na mesma data, em 1940, e pelo mesmo motivo – os conflitos gerados pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Influenciada pelos estudos do coreógrafo e teórico da dança Rudolf Laban (1879-1958), Maria desenvolveu aqui um trabalho de dança pioneiro baseado na experimentação, na liberdade e no autoconhecimento.

Família Duschenes e amigos reunidos em Montreal, no Canadá (Foto: acervo família Duschenes/Itaú Cultural).
 

Na década de 1950, a bailarina e professora passou a dar aulas práticas e teóricas em sua casa, em São Paulo (SP), além de ministrar cursos de formação. Os anos seguintes foram marcados por importantes coreografias criadas por ela, como as dos espetáculos O Sacro e o Profano: Muitas São as Faces do Homem (1965), Espetáculo Cinético (1972), Magitex (1978), Origens I (1990) e Origens II (1991).

As ideias vanguardistas de seu companheiro, Herbert, revelam a comunhão não apenas pessoal, mas também profissional de ambos. Na sala de aula de Herbert cabia o mundo. Os vídeos de suas viagens por diferentes culturas convidavam os alunos a enxergar o entorno de forma ampla e autônoma.

Imagem do espetáculo Magitex (1978), que contava com coreografia de Maria Duschenes e participação de bailarinos
como Denilto Gomes, Juliana Carneiro da Cunha e J. C. Violla. Foto: Acervo Centro Cultural São Paulo.

Em 1967, Herbert ingressou como docente no Departamento de Artes Plásticas da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), onde lecionou por cerca de 30 anos. Durante esse período, conhecer outras culturas passou a ser parte importante da profissão de professor. Ao longo de sua atividade docente, Herbert percorreu vários locais da Europa, da Ásia, da África e da América.

Além da exposição, você pode saber mais sobre o casal em uma publicação que o Itaú Cultural preparou para a ocasião e no site do programa Ocupação.

Acesse a aba programação e confira mais informações.

Serviço

Ocupação Maria e Herbert Duschenes.
Visitação quinta 28 de abril a domingo 12 de junho de 2016.
Terça a sexta 9h às 20h (permanência até as 20h30).
Sábado, domingo e feriado 11h às 20h.
Piso térreo.
Entrada gratuita - livre para todos os públicos.

***
Fonte Itaú Cultural.

 


Era uma casa / muito engraçada / mas que pena / foi derrubada". Essa "releitura" dos versos de "A Casa", de Vinicius de Moraes, pode ilustrar a situação de muitas tradicionais e belas construções em São Paulo que dão lugar a grandes prédios, estacionamentos e outros empreendimentos.
 
Com essa realidade de uma metrópole em transformação, em 2015, o artista plástico e antropólogo João Galera, 34, resolveu registrar por meio de desenhos com nanquim casas paulistanas "antes que elas acabem".
 
São mais de 50 desenhos que farão parte da exposição "Antes que Acabe", em cartaz a partir do último sábado (4), no Museu da Casa Brasileira (zona oeste de São Paulo). "Tento ressaltar a beleza que existe na simplicidade de cada uma delas e que acabamos não enxergando no dia a dia.
 
Casinhas e sobrados de Pinheiros, da Vila Mariana, do Bexiga e da Bela Vista são representadas pelo paranaense, que se mudou para São Paulo no fim de 2011. "Andando pelas ruas observei essas casas tão típicas de alguns bairros e percebi uma beleza simples e peculiar, que deixam a cidade mais humana."
 
Durante suas caminhadas, João tira fotos com o celular para depois fazer a arte. "Procuro características peculiares, como determinadas janelas, os jardins e a própria estrutura da construção. Detalhes únicos de cada morador: vasos, plantas, uma janela entreaberta, uma gaiola pendurada", afirma.
 
Por ora, a maioria das construções fotografadas e desenhadas por João ainda estão de pé, mas um caso em Pinheiros chamou a atenção do artista.
 
"Fui fotografar algumas casas da rua Amaro Cavalheiro para fazer o desenho panorâmico e, quando cheguei lá, vi que faltava uma delas. Perguntei para a moradora da casa da frente e ela me falou que tinha sido demolida havia pouco tempo", relembra. A partir dessa cena, ele criou a obra "Essa não deu tempo", que também estará na exposição.
 
 

João Galera desenha em uma das paredes do MCB para a exposição "Antes que Acabe".

Livro e outros lugares
 
Com essa primeira fase de "Antes que Acabe" o artista vai lançar um livro por meio de financiamento coletivo pelo site Partio. A arrecadação terá início junto com a exposição. Para uma segunda edição, ele quer continuar o projeto em outros bairros como Ipiranga, Lapa e Mooca. "As pessoas falam comigo, mandam mensagens no Facebook, com sugestões de lugares para eu desenhar", conta ele. Mas a paisagem urbana de São Paulo não é a única que desperta o interesse de João, que pensa em levar o projeto para cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Londrina. Fora do país, o artista tem o desejo de reproduzir construções típicas em cidades como Buenos Aires (Argentina) e Lima (Peru).
 
Desenhando a cidade

A exposição "Antes que Acabe" abre a série "Desenhando a Cidade" realizada pelo Museu da Casa Brasileira. De acordo com diretor técnico do MCB, a ideia é apresentar ao público diferentes leituras da cidade e mostrar a rica complexidade urbana de São Paulo. Trabalhos de outros artistas como Carla Caffé serão apresentados.

Serviço­
"Antes que Acabe"
Onde: Museu da Casa Brasileira ­ Av. Brig. Faria Lima, 2.705 ­ Jd. Paulistano.
Quando: 4 de junho a 31 de julho.
Horários: 10h às 18h (ter. a. dom.).
Quanto: R$ 7 (Crianças até 10 anos e maiores de 60 anos são isentos) / fim de semana e feriados grátis.
Mais informações: (11) 3032­.3727.

***
Amom Borges na Folha Ilustrada.
 


Em meio às restrições sociais, a vontade de independência. No decorrer da história, desde o império, as mulheres brasileiras lutaram para obter visibilidade pela arte, literatura e educação. O seminário “A Presença Feminina na História Brasileira“, com entrada gratuita, entre os dias 6 e 8 de junho no Unibes Cultural, em São Paulo, discutirá de que maneira as mulheres fizeram valer sua presença artística, à frente das iniciativas de formação cultural.

A escritora Carolina de Jesus, estudada pela professora Elena Pajaro Peres, pós-doutoranda do Instituto de Estudos Brasileiros, é um personagem simbólico a exercer a cidadania. Escritora afro-brasileira, moradora da favela do Canindé, ela chegou a São Paulo, vinda de Minas Gerais, no final da década de 1930, quando começou a produzir literatura.

A persistência em tentar publicar sua obra só pôde ser comparada ao empenho em criar os três filhos sozinha, catando papel para sobreviver. “Carolina sempre procurou ultrapassar o papel que a sociedade lhe havia reservado”, diz a pesquisadora, que fará um painel sobre seu percurso.

Desconhecida do público, mas de ação insistente na formação cultural das crianças nas décadas de 1930 e 1940, Lenyra Fraccaroli implantou e dirigiu a primeira biblioteca infanto-juvenil de São Paulo. De maneira inovadora, como analisa a professora e pós-doutoranda da Universidade de São Paulo Patricia Raffaini, permitiu que o espaço se abrisse à projeção de filmes, à realização de jogos e à promoção de palestras com escritores de renome, como Monteiro Lobato e Malba Tahan, além de ter criado um jornal feito pelas crianças, A Voz da Infância, e um grupo teatral, o Timol.

Nos livros Primeiras Estórias e Tutameia: Terceiras Estórias, a infância surge caracterizada de diversas formas, e Guimarães Rosa personifica a mulher em quatro personagens infantis, como relata a professora Camila Rodrigues, pós-doutoranda da USP.

Nas artes visuais brasileiras, uma múltipla artista como Hilde Weber fez a charge de modo singular, em sintonia com o cartoon, como aquelas que realizou sobre Getúlio Vargas, como narra a pesquisadora Andrea de Araujo Nogueira.

Docente do IEB, Ana Paula Cavalcanti Simioni mostra como, ao longo do século XIX, as mulheres foram excluídas do ensinamento artístico pelas academias de arte. No entanto, no Brasil, duas escultoras se sobressaíram, Julieta de França e Nicolina Vaz de Assis.

Naquele século de profundas disparidades sociais, Jean-Baptiste Debret observou a mulher branca escondida em sua residência e a profusão de escravas nas ruas do Rio, como descreverá a doutora Ana Paola Baptista, curadora dos Museus Castro Maya. Sua palestra desvendará ainda os registos escritos deixados pela princesa austríaca Leopoldina, primeira Imperatriz do Brasil.

Serviço
A Presença Feminina na História Brasileira – Arte, Literatura e Educação.
Na Unibes Cultural (rua Oscar Freire, 2.500, Metrô Sumaré, tel. 11-3065-4333).
De 6 a 8 de junho, entre 9h e 12h30.
Inscrições gratuitas.


***
Da redação de Carta Capital.


São Paulo, 1922. A Semana de Arte Moderna muda o mundo das artes, embora o descendente de espanhóis Francisco Rebolo Gonsales não lhe dê muita atenção. Aos 20 anos, prefere correr atrás da bola na esquadra reserva do Corinthians. Não leva a taça, mas na foto oficial da comemoração do Campeonato Paulista, vestido de gravata e terno, posa entre os titulares. O jovem talvez tivesse seguido como jogador de seu time do coração, para quem até mesmo desenharia o símbolo, se houvesse sentido futuro na carreira futebolística. Em lugar disso, preferiu pintar paredes.

Muito trabalho haveria para ele, que iniciara a formação artística na Escola Profissional Masculina, do Brás. Em 1926, mestre na confecção de frisos e florões, investiu em uma empresa de decoração na Rua São Bento. Os negócios prosperaram e ele quis pintar de verdade. Mas onde montaria seu ateliê? Rebolo mirou no Palacete Santa Helena, inaugurado em 1925 na Praça da Sé. O prédio, que seria derrubado em 1971 para a construção do Metrô, continha então um belo tea­tro e oferecia acomodações confortáveis para escritórios.

Mas decaía em prestígio nos anos 1930, porque aqueles em boa condição financeira começavam a rumar para a Praça da República ou a Avenida Paulista. Em 1933, o pintor detectou a baixa no preço dos aluguéis e tomou para si a sala 231. Ali fixaria seu ateliê e o escritório de decoração. Dois anos depois, o amigo Mário Zanini, decorador e empreiteiro, ocuparia a sala contígua, a de número 233, para idênticos fins. Logo o ateliê se tornaria uma sala só e os potenciais artistas da cidade acorreriam a ela em busca de oportunidades.

Lenhadores, de Rebolo, óleo sobre tela (1950). Imagem: Divulgação.


Sem se autointitular um movimento artístico nem proferir manifestos, o Santa Helena, estabelecido como grupo em 1936, incluiria sete outros pintores, apelidados pelo escritor Mário de Andrade de “proletários”. Durante a semana, no grande ateliê, os artistas, todos do sexo masculino, geriam seus escritórios e representavam naturezas-mortas.

Nos fins de semana, saíam à rua para retratar a cidade e seus arredores. Seus trabalhos começaram a chamar a atenção geral, embora gerassem observações em leve tom irônico. O crítico Geraldo Ferraz, por exemplo, descreveu-os como tradicionalistas, “a morrer de amores pelos processos de Giotto e Cimabue”.

Em 1937, eles seriam convidados a integrar a 1ª Exposição do Grupo de Artistas Plásticos Família Artística Paulista, ao lado dos consagrados Anita Malfatti e Waldemar da Costa. Como Rebolo e Zanini, os italianos Fulvio Pennacchi e Alfredo Volpi, o português Manoel Martins e os filhos de migrantes italianos Clóvis Graciano, Humberto Rosa e Alfredo Rizzotti viviam de colorir paredes, pintar carroças ou vender carnes, sem se dedicar à briga de conceitos que levaria a arte até o concretismo.

Espelhados no movimento Novecento, que na Itália advogava o retorno à técnica da boa pintura, eles negavam os preceitos futuristas, fauvistas ou cubistas, de todo modo anacrônicos na Europa, e exerciam quase sem exceção sua arte figurativa, a ecoar as experiências de um Cézanne, às vezes de um Matisse. 

Palaceta Santa Helena: modernos para os acadêmicos, acadêmicos para os modernos. FotoDivulgação.

“Eles corporificaram o ideal de que a virtude está no meio, nem em um extremo nem em outro da arte. Foram modernos para os acadêmicos e acadêmicos para os modernos”, diz o crítico Enock Sacramento, curador da exposição Grupo Santa Helena – 80 Anos, até 10 de junho na Proarte Galeria, em São Paulo. O fato de a homenagem dar-se em um espaço comercial de características museológicas e não em um museu talvez demonstre a extensão do apreço que a crítica oficial tem devotado ao grupo no decorrer da história. Grande parte das obras agora expostas pertence a colecionadores e herdeiros. E apenas alguns quadros de propriedade da galeria estarão à venda, como os de Volpi, o único entre os artistas do grupo a ter acenado aos concretistas, de quem oportunamente se desligou. 


A exposição divide os pintores por núcleos autorais. Sete obras foram escolhidas para representar cada um dos nove autores, exceto no caso de Humberto Rosa, de quem houve apenas três quadros disponíveis para a exposição, os óleos sobre tela Margem do Tietê,Paisagem com Igreja e Batuque. É rara a oportunidade de conhecê-lo, como a Manoel Martins, cuja arte combativa ecoou as representações surrealistas das pintoras mexicanas, e à obra de Alfredo Rizzotti, que documentou a paisagem e o casario com grossa pincelada impressionista, contrária àquela dos acadêmicos brasileiros, adeptos do uso do pincel fino.

Em cada núcleo desta mostra de apuro histórico observa-se a evolução de estilo de cada autor, cujas obras se enfileiram segundo sua realização no tempo. Assim é que se sabe como Aldo Bonadei, que estudou arte na Itália de seus pais, caminhou da representação figurativa até a expressão abstrata, a partir dos famosos casarios da Rua Abolição. De Clóvis Graciano apreende-se a monumentalidade dos painéis históricos, um deles confeccionado para a sede legislativa municipal. “Você está indo bem, mas é preciso estudar um pouco”, disse Candido Portinari ao deparar com sua produção inicial. O jovem se veria influenciado pelo mestre na representação humana, a menos comum entre os santo-helenistas.

Arcos sobre mulheres, acrílica sobre chapa de Fulvio Pennacchi (1977). Imagem Divulgação.

Graciano começou como pintor de carroças. Depois lutou na Revolução de 1930 e foi parar no presídio de Ilha Grande, onde dividiu a cela com intelectuais. Gostava de estudar e, para viver, tornou-se fiscal. Seguiu representando seu universo telúrico em que havia som e ritmo. Tornou-se diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e ocupou o cargo de adido cultural brasileiro em Paris. Era versado no mundo, assim como Fulvio Pennacchi, que, formado em sua Itália natal, chegou ao Brasil em 1929, certo de que faria a América. O País, contudo, mergulhava em crise, e ele partiu para o ramo das carnes. Seu açougue prosperou na Rua Bela Cintra. “Era muito criativo, um artesão no bom sentido da palavra”, diz o curador Sacramento. Incumbido de dar aulas de pintura às mulheres da família Matarazzo, o artista casou-se com uma delas, Filomena. Eis por que, com algum pesar, abandonou a profissão de açougueiro, pouco indicada para um homem em sua nova condição social.

Cabaré, óleo sobre tela de Manoel Martins (1946). Imagem: Divulgação.

Pennacchi construiu a própria casa de um quarteirão. Desenhou os móveis, compôs afrescos. Pintou a paisagem toscana e a brasileira, fez naturezas-mortas. E representou de modo tão próprio as festas populares, como as de São João, que fez Alfredo Volpi declarar, sobre sua marca na pintura: “Subtraio, do retângulo, o triângulo. Pinto o retângulo. Na verdade, não sou um pintor de bandeirinhas. Quem pinta bandeirinhas é o Pennacchi”. 

***

Por Rosane Pavam. *Reportagem publicada originalmente na edição 902 de CartaCapital, com o título "O esplendor proletário".