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Desde 2001, o Indie Festival traz para o país algumas dezenas de importantes filmes produzidos mundo afora. A mostra é, muitas vezes, uma das poucas oportunidades para assistir a essas produções, que levam o status de independentes e raramente entram no circuito comercial brasileiro. 
 
Neste ano, o festival, que começa nesta quarta (16) e vai até 30/9, vai exibir no CineSesc 45 filmes de 20 países. Integram a programação longas de diretores renomados como "Cemitério do Esplendor", de Apichatpong Weerasethakul, o romeno "O Tesouro", de Corneliu Porumboiu, e "Eu Sou Ingrid Bergman", de Stig Bjorkman, lançado no ano do centenário do nascimento da atriz. 
 
As retrospectivas trazem dois cineastas nascidos na antiga União Soviética — Kira Muratova e Sharunas Bartas. Muratova, nascida na Moldávia (região anterior da Romênia), estará presente com 11 filmes. O premiado diretor lituano Sharunas Bartas apresenta oito longas, entre eles "Paz para Nós em Nossos Sonhos", lançado no Festival de Cannes. 
 
Indie Festival 2015 no CineSESC - Rua Augusta, 2075. Os ingressos para as sessões custam R$ 12.

Fonte: Guia Folha.


Representante do Japão na 56.ª Bienal de Arte de Veneza, a artista Chiharu Shiota faz sua primeira exposição na América Latina, com curadoria da historiadora Teresa Arruda, a partir do dia 12, no Sesc Pinheiros. A exemplo da sala veneziana, ela ocupa com suas instalações um andar inteiro na unidade do Sesc, além do teto sobre as escadas rolantes e a parede externa da fachada do prédio.
 
Em Veneza, ela construiu uma instalação labiríntica imersiva com 50 mil chaves que pendem de uma teia de fios vermelhos. Em São Paulo, ela usa os fios da mesma cor para sustentar 300 pares de sapatos (na fachada) e 200 malas (sobre as escadas rolantes). Os fios pretos ela reservou para tecer uma teia na terceira instalação, formada por 6 mil cartas manuscritas por voluntários brasileiros, que também doaram sapatos. As malas vieram de Berlim, de navio. São usadas e foram compradas pela artista em feiras populares. 
 
Pelo título escolhido por Chiharu não é difícil concluir que sua primeira individual brasileira, Buscando o Destino, fala de viagem, embora de uma viagem interior. A primeira das três instalações, Além dos Continentes, é uma representação metafórica da trajetória pessoal de cada um dos doadores brasileiros que enviaram pares de sapatos gastos com as marcas de passagem pelo mundo, caso também das malas usadas (o título da instalação dá nome à mostra).
 
A terceira e última instalação, Cartas de Agradecimento, como sugere o título, são mensagens escritas por voluntários, que expressam gratidão. Elas podem ser lidas pelo público e têm um apelo emocional comumente ausente nesse gênero de arte, incorporado ao vocabulário contemporâneo nos anos 1960 para definir obras ambientais de vida efêmera. “Nunca pretendi oferecer ao público uma mensagem racional”, observa a artista. “Antes, sempre desejei criar uma impressão emocional, permitindo às pessoas que sintam primeiro o impacto visual para depois refletir sobre a obra.” 
 
O direito à interpretação é livre e legítimo. Alguém poderá, por exemplo, ver nas duas centenas de malas uma parábola sobre a onda migratória que sacode a Europa, embora Chiharu, ao contrário dos artistas conceituais, não use as peças de suas instalações como objetos indutores de conceitos. Eles são reais, não representações. Quando ela montou a instalação Além dos Continentes em Osaka, pediu aos doadores que enviassem junto aos pares de sapatos uma história qualquer que justificasse a doação, recebendo de um deles um depoimento forte: o calçado já não tinha mais utilidade para o homem; ele perdera a esperança de se livrar da cadeira de rodas. 

Foto:Rudy Ricciotti.
 
Nascida em Osaka há 43 anos, Chiharu Shiota começou sua carreira como pintora, mas logo descobriu que o espaço bidimensional era limitado para sua ambição. Aos 24 foi para Hamburgo, estudando primeiro na Hochschule für Bildende Künste e, depois, na mesma escola, só que em Braunschweig. Aprendeu performance com Marina Abramovic, mas, como não é tão liberada como a professora sérvia, arranjou um jeito de lidar com gestos expansivos por meio das teias de fios que sustentam objetos em suas instalações monumentais. Elas lembram vagamente o trabalho da brasileira Edith Derdyk, com uma diferença: a última, efetivamente, faz desenhos no espaço com suas linhas, enquanto Chiharu traça uma trama que enreda o visitante numa narração poética sobre objetos ordinários.
 
Os objetos não são simples objetos nessas instalações, eles desenvolvem histórias ligadas por fios.” Tanto nas artes visuais como na literatura, o fio – é só lembrar de Ariadne e Teseu – é um elemento de conexão entre os seres. No caso da obra da japonesa, o fio vermelho se diferencia do preto porque o último, na tradição oriental, está ligado à tinta com que os calígrafos desenham, unindo pontos no espaço. 
 
As chaves sustentadas pelos fios vermelhos sobre dois barcos rústicos, na Bienal de Veneza, evocam tragédias pessoais e coletivas de parentes da artista mortos em tsunamis e terremotos. “Mesmo no teatro, esses fios podem sugerir a exclusão de corpos que antes estiveram ligados aos objetos”, conclui a artista, que executou há dois para a ópera Tristão e Isolda, de Wagner, em Kiel, na Alemanha, um dramático cenário em que os cantores eram enredados como moscas numa teia. Não sem razão, ela já foi chamada de “mulher aranha”. Discreta, ela não comenta o apelido. 
 
Serviço
'Em Busca do Destino'.
Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195; 3095-9400.
3ª a sáb., 10/21h. Dom., 10/18h.
Abre 12/9.

Antônio Gonçalves Filho / O Estado de S.Paulo.
 


Neste sábado, a partir das 22 horas, três filmes premiados de suspense serão exibidos no Cemitério da Consolação. O evento faz parte da programação do Mês da Cultura Independente e é gratuito, porém há necessidade de retirar ingressos no dia anterior no Cine Olido, localizado no centro de São Paulo.

As sessões começam com “Amantes Eternos”, de Jim Jarmusch, com direito a trilha ao vivo do compositor holandês Josef Van Wissem – pela qual ele recebeu o prêmio de Melhor Trilha Sonora no Festival de Cannes de 2013. A produção tem como personagens principais dois vampiros, Eve e Adam, cansados da sociedade atual e profundamente incomodados com a evolução da humanidade.

Em seguida, o público verá o sueco “Deixa Ela Entrar”, dirigido por Tomas Alfredson. Na trama, o jovem Oskar, de 12 anos, tem problemas de relacionamento na escola e sonha em ter um amigo. Quando aparece uma nova garota da sua idade na vizinhança, Eli, o garoto enfim encontra alguém em quem pode confiar. Porém, logo depois da chegada da menina e seu pai, uma série de crimes começa a ocorrer.

Por fim, a noite se encerrará com o austríaco “Boa Noite, Mamãe”, de Severin Fiala e Veronika Franz, um filme de terror psicológico que já está sendo considerado por muitos um novo clássico do gênero. Em um lugar isolado, a mãe de dois gêmeos volta para casa depois de uma cirurgia facial, no entanto começa a ter um comportamento estranho e agressivo. Isso faz com que os irmãos desconfiem de que esta não é sua mãe.

Serviço
Data e horário: sábado, dia 12, às 22h.
Endereço: R. da Consolação, 1660, Consolação.
Entrada: gratuita – ingressos devem ser retirados um dia antes na Av. São João, 473, Centro.
Classificação: 16 anos.
Capacidade: 150 pessoas.

Dica: Indicas.


Esse ano de 2015 marca uma data importante para a fotografia nacional: os 50 anos de atividade como fotógrafo, teórico e historiador do professor Boris Kossoy.

Em 1965, após se graduar como arquiteto pelo Mackenzie, Boris Kossoy abre o Estúdio Ampliart, na rua Marquês de Itu, no bairro de Santa Cecília, São Paulo. Para ele, o começo de tudo.

O curioso e por outro lado gratificante, é que a grande homenagem venha de longe: da Suíça. Em 10 de setembro, abre a exposição IMAGO: Sobre o aparente e o oculto. Boris Kossoy – 50 anos de fotografia, na Fundação Brasileia, em Basel.

Na ocasião, Kossoy fará sessão de autógrafos da edição alemã do seu livro Hercule Florence, que acaba de ser lançado pela editora LIT Verlag. Vale lembrar que, recentemente, Kossoy teve um de seus livros publicados na Espanha. Lo Efímero y lo Perpetuo en la Imagen Fotográfica (Ediciones Cátedra, 2014), foi lançado no Museu Reina Sofia, em Madri, na Espanha.

As obras de Kossoy ocuparão dois andares do prédio com 88 fotografias da sua carreira. Muitas inéditas. No começo da exposição, 21 fotos do ensaio Viagem ao Fantástico, de 1971. Depois, tudo transcorre para uma edição formada por grupos e sub-grupos sem preocupações cronólogicas.

Kossoy se encarregou da edição, curadoria e expografia. Numa conversa, semana passada, deixou claro que a exposição tem um forte trabalho de edição e criação de narrativas num corpo fotográfico com várias vertentes, e enfatizou: “Quis produzir sentido na edição. Essa exposição fala da persistência de um olhar e de um modo de pensar e ver a vida”.

Sem parar, Kossoy terá uma agenda cheia em Basel: abertura da exposição, visita guiada, lançamento do novo livro, workshop e palestra para alunos de ensino superior de fotografia.

No último dia 19 de agosto, Dia da Fotografia, durante seminário na USP, Kossoy foi homenageado com a presença dos diretores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e da ECA. Recebeu um diploma pelos 50 anos de atividade.

Conheça o site do Boris: http://boriskossoy.com/
Saiba mais sobre a exposição: http://goo.gl/c04isd

Fonte: Olhavê.


Havia a expectativa – o medo? – de que a 39.ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo se ressentisse da crise que assola o País. No pior dos quadros alarmistas, a Mostra teria de ser muito pequena, ou nem se realizar. O horror, o horror! Renata de Almeida pode ter perdido algumas parcerias (a Faap) e, num quadro realista, trabalha com uma redução de 30% a 40% do seu orçamento, mas apoiadores tradicionais – Petrobrás, Itaú, BNDES, Prefeitura, Governo do Estado (através da Sabesp) e Sesc –, mesmo que os recursos ainda não tenham sido liberados, permitem que ela respire aliviada. Sim, teremos Mostra. A boa nova, uma das tantas, é que a Mostra de 2015 voltará até a um de seus espaços tradicionais – à sala de cinema do Maksoud, que há tempos não abriga mais aquelas sessões de pré­estreias. O Maksoud reintegra­se ao evento. Aleluia!
 
Como sempre, Renata de Almeida trabalha com um orçamento ideal – R$ 6 milhões – que nunca é atingido. O importante é que você já pode ir­se preparando. A maratona deste ano ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro. Vamos repassar algumas informações. O cartaz deste ano – e, consequentemente, a vinheta – terão a assinatura de Martin Scorsese e a Mostra vai homenagear a organização não lucrativa que ele criou para garantir a preservação de clássicos do cinema, a Film Foundation.
 
A retrospectiva da Film Foundationserá formada por 23 títulos, todos restaurados e exibidos em cópias digitais. São filmes de várias procedências. Pense num banquete de (grandes) filmes. Comece a salivar pensando nesses, de diversas procedências – Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, e O Bandido Giuliano, de Francesco Rosi, da Itália; A Cor da Romã, de Sergei Paradjanov, da antiga URSS; Rashomon, de Akira Kurosawa, do Japão; Jian, de Edward Young, de Taiwan; Maynila, de Lino Brocka, das Filipinas; Al Mummia, de Shadi Abdal Salam, do Egito. 
 
Não faltarão clássicos de Hollywood – Como Era Verde Meu Vale, de John Ford; Juventude Transviada, de Nicholas Ray; Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan; Bom­ Dia, Tristeza, de Otto Preminger; Um Caminho para Dois, de Stanley Donen. Até um do próprio Scorsese, O Rei da Comédia. E, claro, como o ex­ seminarista Scorsese é devoto de ‘são’ Michael Powell (e Emeric Pressburger), nenhuma retrospectiva estaria completa sem um filme deles, e será Coronel Blimp.

Cena do filme 'Arabian Nights', de Miguel Gomes, que estará na Mostra. Foto: Divulgação.

Pergunte a dez críticos que tenham estado presentes no Festival de Cannes, em maio, e vai ser difícil achar um que discorde – um dos programas mais importantes deste ano, todas as seções reunidas, foi o tríptico do português Miguel Gomes baseado nas 1001 Noites. O autor de Tabu reconta a saga de Xerezade e busca inspiração em suas histórias para refletir sobre a crise portuguesa, e europeia. A Mostra traz os três filmes. Traz o próprio Miguel Gomes para destacar, mais uma vez, a vitalidade do cinema autoral que se produz em Portugal. Não é o caso de promover nova retrospectiva de Manoel de Oliveira, já homenageado pela Mostra, para lembrar o mestre centenário que morreu em abril. “Mas o Manoel sempre muito querido pelo público da Mostra e não será esquecido. Vamos trazer seu filme testamento, que ele havia feito em 1982 e ficou todo esse tempo depositado na Cinemateca Portuguesa, para só ser exibido após sua morte. Visita ou Memórias e Confissões passou em Cannes Classics e agora vem a São Paulo como o nosso tributo a um grande artista e um ser humano tão imenso que Manoel nos honrou recebendo o prêmio Humanidades.” 
 
Justamente o prêmio Humanidades. A Mostra este ano outorga dois prêmios – ao chileno Patricio Guzmán, que traz seu Botón de Názcar, e ao italiano Ermanno Olmi, que apresentou, fora de concurso, talvez o melhor filme de Berlim, em fevereiro – Torneronno i Prati. Ambos já confirmaram presença – e Olmi, com 84 anos, pode muito bem vir a ser o sucessor de Oliveira como mais velho diretor do mundo em atividade. Tudo isso é muito bacana e deixa o cinéfilo embalado, à espera de que chegue outubro. Mas vamos atiçar ainda mais a fome por grande cinema do público. Veja o quadro. Não há crise que derrube a Mostra, um dos maiores e mais importantes eventos culturais, não só de cinema, da cidade (e do País).
 
Cine Paradiso vai ser o charme do evento
 
O grande charme da 39ª Mostra Internacional de Cinema vai se chamar Cine Paradiso – trata­-se de um espaço localizado no subsolo do hotel Maksoud Plaza onde antes já recebeu filmes da Mostra e agora será um local que vai abrigar cinema, música e gastronomia. Em janeiro, o empresário Facundo Guerra intermediou a parceira entre os responsáveis pelo hotel e o grupo francês MK2, que vinha buscando um espaço em São Paulo fazia cinco anos. “Trata­-se de um conceito já existente em Paris e que eles pretendem espalhar pelo mundo, começando por São Paulo”, conta Facundo. “A ideia é ter um cinema mais aberto, envolvendo música ao vivo e um serviço gastronômico. Assim, além da exibição de um filme mudo, por exemplo, a programação incluiria também a apresentação de bailarinas ou mesmo de uma banda de jazz.” 
 
Segundo Nathanael Karmitz, um dos diretores da MK2, a ideia é transformar o espaço em um polo cultural. O Cine Paradiso deve abrir oficialmente apenas em janeiro, mas, por causa da Mostra, o espaço vai funcionar em período de pré­estreia. “Eles pretendiam comprar um projetor apenas no próximo ano, mas, com a Mostra, decidiram antecipar a aquisição para agora”, completa Facundo. 
 
Fundada em 1967, a MK2 tornou­se referência mundial de filmes de arte graças especialmente ao trabalho do produtor e diretor Marin Karmitz que, ao longo dos anos, manteve encontros com gênios criadores, de Godard a Kielowski e Kiarostami. Seu catálogo de mais de 400 filmes inclui os direitos de Charles Chaplin, François Truffaut, Claude Chabrol, Gus Van Sant. As salas da MK2 contabilizam 17% do mercado da França, com cerca de 5 milhões de espectadores/ano. Nelas, há espaço também para a produção de Hollywood. 
 

'Storyboards' utilizados pela equipe de Ridley Scott para a filmagem de BladeRunner no início dos anos 80. Arquivo MK2.
 
No ano passado, a Mostra realizou uma homenagem aos 40 anos da abertura da primeira sala da MK2 em Paris, com exibição de alguns filmes que fizeram a glória da companhia. Marin era esperado, mas, como não pode vir, seu filho Nathanael recebeu por ele o prêmio Humanidades.

Luiz Carlos Merten e Ubiratan Brasil em O Estado de S.Paulo.

Acompanhe a página da Mostra no Facebook: https://goo.gl/h9QQgz

Assista a vinheta: https://youtu.be/ymWz5MGsYzU



"O problema não é crescer, mas esquecer", ensina o Pequeno Príncipe. Quando tinha oito anos, sofri a primeira grande perda em minha vida. Meu primo mais novo, na época com três anos, foi levado por uma doença comum na infância, mas que para ele foi fatal. 

A catapora não marcou e feriu somente sua pele, mas toda a história de nossa família. Pedro nos deixou sem palavras e com saudades. Tinha personalidade forte, como todas as crianças da família, os cabelos de um loiro quase branco e uma risada tão contagiante como a do Pequeno Príncipe – personagem que me acolheu nesse momento de dor e me guiou em profundos ensinamentos baseados em valores humanos e não materialistas. Hoje, posso olhar para o céu e ouvir as estrelas para não esquecer de Pedro, do seu sorriso e da infância que compartilhamos.

O livro O Pequeno Príncipe, do francês Antonine Saint-Exupéry, emociona e ajuda as pessoas a entender a essência da vida há mais de 70 anos. Foi traduzido para cerca de 250 idiomas e dialetos, e vendeu mais de 150 milhões de cópias em todo o globo. É há meio século o livro infantil mais vendido no Brasil, e somente no ano passado vendeu mais de 140 mil exemplares. Seu autor faleceu um ano após o seu lançamento, em 1943, numa missão da Segunda Guerra Mundial, sem poder dimensionar o alcance da obra.

O livro conta a singela história de amizade vivida por um aviador e um principezinho que mora no longínquo asteroide B612 e ama uma rosa. Quando o príncipe sai em viagem pela Terra, esbarra com o aviador encalhado num deserto e ali compartilham histórias e ensinamentos sobre as dores e as delícias de ser humano.

Seus ensinamentos tratam do que é realmente importante nessa vida fugaz que levamos na Terra. Contemplar as estrelas, cativar amigos, amar e respeitar animais e plantas, cooperar mais do que competir, olhar e escutar mais do que assistir, trocar mais do que acumular. Bem diferente do que a sociedade de consumo quer nos fazer crer.

A animação homônima ao livro chegou às telas esse mês, dirigida pelo americano Mark Osbourne, e traz uma nova e igualmente bela narrativa para esse clássico da literatura infanto-juvenil.

Desta vez, quem fica amiga do Aviador, hoje um velhinho, é uma garotinha de olhos curiosos, abandonada pelo pai e confinada pela mãe numa casa cinza. Com tarefas obsessivamente calculadas por uma mãe ausente, a menina tem uma rotina espartana durante as férias de verão, para conseguir vaga numa escola de renome que promete futuro de sucesso.

Sem tempo para dedicar-se ao ócio, aos amigos, ao contato com a natureza ou ao exercício de sua criatividade, a menina experimenta os dias sozinha e assim vai perdendo a essência da infância, até ser resgatada pelo vizinho excêntrico – um velhinho aviador que lhe conta a história do Pequeno Príncipe e com quem acaba por passar suas férias.

Seus pais não têm tempo de cuidar dela – como muitos, atualmente, que terceirizam os cuidados dos filhos para babás, creches ou tablets. O pai da protagonista vive longe, trabalha muito e mantém contato com ela somente no aniversário – por meio de um mesmo presente que envia todo ano, com um cartão que nada diz e ela tristemente coleciona. A mãe também trabalha demais e não a escuta, "adultizando" essa menina para ser seu par – e dizendo que faz isso para lhe garantir o futuro, sem perceber que assim lhe arranca o presente.

A trama principal do 'Pequeno Príncipe' de Osbourne gira em torno da pequena garota de infância cinza (Foto: Divulgação)


Triste retrato da infância de hoje, abandonada e afastada de sua essência em meio a tantas atribuições do universo adulto.
Fui assistir ao filme em família e fiquei feliz ao perceber que a amizade e os ensinamentos compartilhados entre o adulto e a criança ainda emocionam todas as gerações. A meu lado um pai com a filha no colo derramavam lágrimas que mostram haver saída para a vida cinza e planejada que a maioria de nós experimenta nos grandes centros urbanos.

O filme emociona e faz refletir sobre os valores que aprisionam as crianças contemporâneas numa infância igualmente cinza e solitária, com a agenda repleta de atividades supostamente desempenhadas para lhes garantir um bom lugar na Terra – a mesma que estamos destruindo pelos padrões de consumo e produção que adotamos.

Aparentemente perdidos na árdua e deliciosa tarefa de cuidar dos filhos, pais e mães da atualidade acabam recorrendo às promessas que o mercado lhes oferece. Tenho sido com frequência chamada a falar nas escolas sobre o tema da desaceleração na rotina das crianças, e minha fala debruça-se sobre a importância de respeitarmos a infância e seu tempo: de encantamento e conexão, em que contemplar e imaginar são atividades essenciais na construção de significados para o mundo real.

É preciso desacelerar e desconectar para entrar em contato com a criança que fomos e com as que estão ao nosso lado. Rever nossas urgências e o que é realmente importante para promover uma infância plena. Crianças não são feitas para ser criadas em bolhas. Elas precisam se relacionar, cair para aprender a levantar, perder para aprender a sonhar e elaborar. Precisam de histórias vividas e narradas para se lembrar. E não precisam, para ser felizes, de objetos e atividades que as cansem para desligar-se à noite. Não precisam de um coach para aprender a brincar – sim, parece que estes personagens existem!

Crianças precisam de muito pouco para crescer de forma saudável e se tornar adultos melhores. Precisam de tempo e espaço para brincar e se relacionar entre pares, com adultos e com a natureza. E nós, adultos, temos o dever e a responsabilidade de oferecer a elas o que é realmente essencial – embora invisível aos olhos.

Lais Fontenelle no Outras Palavras.