Recomendados - São Paulo São

São Paulo São Recomenda


Procurando resgatar traumas da Ditadura Militar brasileira (1964-1985) através da amálgama entre ficção e documentário, o drama Trago Comigo, originário da série homônima de 2009 da TV Cultura, disseca as memórias pessoais de Telmo Marinicov, um diretor de teatro que se vê diariamente assombrado por espectros do passado. Dirigido pela renomada cineasta Tata Amaral, o longa foi uma das atrações do  10º Festival de Cinema-Latino Americano de Sâo Paulo, que aconteceu na capital.

O filme começa explanando os anseios pessoais do protagonista, interpretado por Carlos Alberto Riccelli, que, em seu passado, integrou um movimento de luta armada contra o regime militar. Sua devoção à guerrilha era equivalente a seu amor por Lia, também integrante do movimento e que acabou tendo a vida tomada pelos militares. No contexto temporal do longa, Telmo se vê em um limpo espiritual, afastado de sua atividade artística como diretor teatral e em um relacionamento conturbado com uma jovem atriz. 

Apesar de baseado na série, o Trago Comigo abrange outras facetas do protagonista, como conta a diretora Tata Amaral em entrevista concedida à Brasileiros: “ O foco da série tinha mais a ver com uma superação do Telmo e a relação dele com a jovem atriz. Já no filme, a ideia é muito mais voltada para o trauma do protagonista com a Ditadura Militar”, conta a diretora, que também esteve a frente de Hoje (2011), Antônia (2006), Através da Janela (2000) e Um Céu de Estrelas (1996)

A luz no fim do túnel de Telmo é acendida quando um amigo o procura para ajudar a reerguer um antigo teatro. Para isso, pede ao personagem principal para elaborar um espetáculo a fim de lotar o estabelecimento e recolocá-lo no alto patamar das casas artísticas. O diretor aceita, colocando como condição sua completa autonomia para decidir o tema da peça, a produção do texto e a seleção dos atores.

O diretor então elabora um espetáculo quase que autobiográfico, encarando de frente seus temores passados e revirando as entranhas da luta armada no período da repressão militar. Juntamente ao terror dos anos de chumbo, Telmo descreve na peça como se deu sua relação com Lia e os desdobramentos e circunstâncias de sua morte. 

A peça elaborada por Telmo suscita diversas questões em torno do regime político que vigorava na época, além de uma reflexão ética sobre o papel das células guerrilheiras contra os militares. Em certo momento dos ensaios, os atores questionam uma cena de um assalto a banco, retratado como uma vitória pelo diretor. “Eu quis contar para as pessoas que, naquela época, era outra coisa. Eles tinham uma justificativa maior que era construir uma sociedade mais justa. Mas também questiono totalmente a guerrilha”, explica Tata.

Durante o desenvolvimento da trama são intercalados relatos verdadeiros de pessoas que sofreram com a perseguição militar durante o regime, contextualizando historicamente o espectador e dando um tom documental ao longa. Em um dos depoimentos mais marcantes, um ex-militante conta como seu pai foi torturado até a morte pelos militares enquanto sua mãe ouvia todos os seus gritos em um cômodo instalado propositalmente abaixo da sala onde seu marido agonizava.

As declarações expostas no filme são fundamentais para entender as circunstâncias que submergiam a sociedade brasileira na época. Perseguição ideológica, sequestro, prisões ilegais, tortura, ‘desaparecimentos’ forçados, entre outros vícios cruéis eram fatores cotidianos durante o governo militar, principalmente após o Ato Institucional nº 5, que intensificou ainda mais a violência.

Para a diretora do filme, o Brasil possui certa resistência em relembrar de forma crítica o passado, e obras como Trago Comigo contribuem para uma reconstrução das memórias, justamente para que elas não se repitam mais. “Nós temos dificuldade em falar desse passado traumático, principalmente de uma maneira ética e não como espetáculo.”

Vale ressaltar que, durante os relatos dos perseguidos políticos, Tata Amaral se viu obrigada a censurar os nomes verdadeiros dos torturadores citados por se tratar de uma obra que possui em sua essência a ficção. “Isso interferiu diretamente no meu filme. Não existe um governo censurando, mas existe um judiciário me censurando. Foi aí que eu comecei a compreender que, o fato de nunca termos julgado e condenado os torturadores é o que determina a violência de fato que é praticada até hoje.”, concluiu. O cinema já o fez, agora resta à Justiça fazer o seu papel e condenar os anônimos de farda.

O trailer: https://youtu.be/vGLG0qWasf8

Elenco: Carlos Alberto Riccelli, Emílio Di Biasi, Felipe Rocha, Georgina Castro, Gustavo Brandão.

Alex Tajra na Revista Brasileiros.


Doze anos depois de publicar seu último livro de poesias, Augusto de Campos retorna com o novo e inédito 'Outro' (2015) que terá lançamento no dia 3 de agosto, às 19h, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, museu que pertence a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e é gerenciado pela POIESIS Instituto de Apoio à Cultura.  

O último dos escritores vivos do grupo Noigandres, do qual atuava juntamente com seu irmão Haroldo de Campos e o amigo Décio Pignatari, lança o livro em que dá continuidade às experimentações poéticas que muito influenciaram tanto músicos como Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Walter Franco e Tom Zé, quanto artistas plásticos e poetas de todo o mundo. 

No prefácio, que o poeta chamou de OUTRONÃO, ele diz que há quem diga que exagera quando afirma que produz pouca poesia, mas o próprio Campos afirma “Faço poesia porque não sei fazer outra coisa. Preferi sempre a dos outros, além de outras artes. E é por isso que a minha produção de poeta-tradutor é tão mais extensa que a de meus próprios poemas.”

O lançamento do livro, na Casa das Rosas, prova que mesmo com seu reconhecimento de tradutor, sua criação poética sempre inspirou e trouxe inovações para a literatura, por isso, o evento contará com a participação de diversos amigos e admiradores de Augusto de Campos. Trata-se de um encontro importante e raro: um dos mais influentes poetas do mundo lançando uma coletânea de poemas depois de 12 anos de silêncio.

O livro Outro, com texto, capa, projeto e execução gráfica do próprio autor, sairá pela Editora Perspectiva, com cerca de 120 páginas de poemas visuais e indicações de clip-poemas, que podem ser vistos na internet. O lançamento é aberto ao público, e quem comprar um exemplar terá a chance única de conhecer as criações de um dos poetas mais importantes do Brasil.

Sobre Augusto de Campos

Já em 1953, Augusto de Campos, aos 22 anos, havia composto uma série de poemas coloridos e dispostos de maneira original na página. Inspirados na música de vanguarda de Anton Webern, os textos de Poetamenos podem ser considerados os primeiros exemplos da poesia concreta. No final de 1956, Augusto de Campos organiza, com artistas plásticos e outros poetas que aderem ao movimento, uma exposição em São Paulo, transposta no início de 1957 para o Rio de Janeiro, em que a Poesia Concreta é lançada para o Brasil e para o mundo. Nascendo na mesma época da bossa nova e do rock n’roll, a poesia concreta é o primeiro estilo literário a surgir, senão antes, ao menos ao mesmo tempo, no Brasil e no resto do mundo. Numa literatura que sempre se viu atrelada às modas que vieram de fora, este é um fenômeno único. 

Ainda hoje o radicalismo da experimentação, como a destruição do verso, as experiências de disposição original das palavras na página, a desintegração da própria palavra ou a recusa à poesia discursiva assustam e afastam leitores conservadores, gerando polêmicas acaloradas ou, pior ainda, uma estratégia de rasura bastante evidente: no Brasil, muitos fingem que nada aconteceu, enquanto os seus criadores são homenageados e celebrados nas mais prestigiosas universidades dos Estados Unidos e da Europa.

O mais radical dos inventores da poesia concreta, Augusto de Campos, mantém-se até hoje, aos 84 anos, absolutamente fiel às propostas iniciais de uma poesia antidiscursiva, sintética, visual e contundente. Publicou seu primeiro livro, O Rei Menos o Reino, em 1951. Durante a década de 1970, em colaboração com o artista plástico Julio Plaza, lançou dois volumes de “poemas-objeto”, contendo textos tridimensionais, Poemóbiles (1974) e Caixa Preta(1975).

Três livros apresentam o básico de sua obra: Viva Vaia – Poesia 1949-1979 (1979), Despoesia (1994) eNão (2003). Tem publicado vários livros de ensaios críticos. Atuante crítico de música na década de 1960, foi um dos primeiros a reconhecer o talento poético de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em ensaios reunidos no livro No Balanço da Bossa (1968). Atualmente, dedica-se a investigar novos meios para a poesia, como a holografia e a computação gráfica, e lançou, em parceria com seu filho, o músico Cid Campos, um CD com leituras criativas de seus poemas e traduções,Poesia é Risco (1994).

Serviço:
Lançamento do livro “Outro” de Augusto de Campos.
Segunda-feira, 3 de agosto, às 19h.
Entrada gratuita.
Haverá venda do livro no local – Aceita cartões e dinheiro.

Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.
Avenida Paulista, 37 – próximo à Estação Brigadeiro do Metrô.
Horário de funcionamento: de terça-feira a sábado, das 10h às 22h;
Domingos e feriados, das 10h às 18h.
Convênio com o estacionamento Parkimetro: Alameda Santos, 74 (exceto domingos e feriados).
Tel.: (11) 3285-6986 / (11) 3288-9447.

Site: www.casadasrosas.org.br
Twitter: www.twitter.com/casadasrosas
Facebook: www.facebook.com/casadasrosas
Instagram: www.instagram.com/casadasrosas

Fonte: Livre Opinião.


Dizer que "Tudo Por Amor ao Cinema", de Aurelio Michiles, é um documentário sobre um preservador de filmes pode dar a ideia de que se trata de uma obra aborrecida e de interesse restrito. Nada mais falso. Mais que uma justa homenagem a uma figura central de nossa cultura cinematográfica, o que vemos na tela é uma ode ao próprio cinema como instrumento de preservação da memória e de cultivo da fantasia.

Cosme Alves Netto (1937-96), o retratado, foi durante décadas o responsável pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Sua importância no setor só pode ser comparada à do crítico Paulo Emilio Salles Gomes, fundador da Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Mas se Paulo Emilio era um intelectual refinado, um mestre das letras, Cosme, embora também muito culto e articulado, era sobretudo um homem de ação. Seu fascinante percurso pessoal se confunde com boa parte da história cultural e política brasileira da segunda metade do século 20.

Contra a censura e a destruição

Nascido em Manaus, filho de um político e grande empresário, Cosme passou a adolescência no Rio, mas teve de voltar ao Amazonas para ajudar a tocar os negócios do pai. Só o que fez foi desviar recursos das empresas paternas para a formação de um cineclube, aluguel de filmes, impressão de folhetos etc. Trocou a fortuna material da família pela fortuna imaginária e afetiva do cinema. Voltou ao Rio, envolveu-se com a esquerda católica, foi preso e torturado pela ditadura e desenvolveu no MAM uma arriscada estratégia dupla para salvar filmes da censura e da destruição.

Por um lado, Cosme guardava sob nomes falsos os rolos de filmes visados pelo regime. As latas de Cabra marcado para morrer, por exemplo, receberam o rótulo insuspeito de Rosas do campo. Por outro lado, percorria as distribuidoras cinematográficas para ficar clandestinamente com uma cópia de cada um dos filmes condenados à destruição depois de vencida a validade do certificado de censura. Salvou assim grandes clássicos da cinematografia mundial.

A trajetória fascinante dessa generosa figura humana é evocada vividamente no documentário por meio de um rico material de arquivo e de depoimentos de gente que conviveu com o biografado. Mais que isso: são os próprios filmes – brasileiros, russos, franceses, americanos – que dão vida à história de Cosme.

Alguns exemplos ao acaso. Um entrevistado (o cineasta Geraldo Moraes) conta que Cosme estava prestes a embarcar num ônibus para fugir do Rio, na época da ditadura, quando apalpou o bolso e viu que estava com uma inconveniente agenda de contatos. O que vemos na tela é o protagonista de Pickpocket, de Robert Bresson, fazendo um gesto idêntico. Quando alguém diz que Cantando na chuva era o filme favorito do retratado, o que se vê, ao som de uma bela versão acústica do célebre tema do musical, é uma cena de Aviso aos navegantes, de Watson Macedo, em que um dançarino executa graciosos passos de frevo com um guarda-chuva na mão. Cenas de Encouraçado Potemkin ilustram uma evocação da revolta de marinheiros brasileiros às vésperas do golpe de 64.

O mundo como um filme

A par dessa sua porosidade à memória cinematográfica do mundo, dessa reconstrução de nosso imaginário a partir dos filmes, o documentário também potencializa e multiplica os sentidos de cada momento narrado. A escolha inspirada das imagens, bem como sua organização na montagem e sua articulação com a trilha sonora, criam efeitos de suspense, drama, épico ou comédia, como se o mundo só pudesse ser decifrado e reconstituído por meio do cinema, desse fabuloso alfabeto que aprendemos a amar.

Mas não há redundância ou previsibilidade nessa operação, como nos documentários (ou “reportagens” televisivas) em que o drama de uma pessoa é intensificado pela música melosa, pelo close na lágrima etc. Longe disso. Muitas vezes o que se produz aqui é um contraste inesperado, um atrito criativo. Quando a viúva de Cosme, Gloria Barbosa, relembra que ele, já perto da morte, lhe falou do sonho de estar no grande relógio de uma igreja, segurando o ponteiro para o tempo parar, o que vemos é Harold Lloyd pendurado comicamente nos ponteiros de um relógio no alto de um arranha-céu, numa comédia muda. O cinema não apenas retrata as dores do mundo, mas às vezes as atenua, sublima, consola. Enaltecer Cosme Alves Netto é enaltecer o cinema, e vice-versa.

O trailer: https://youtu.be/BT1zsUnREoI

José Geraldo Couto no Blog do Instituto Moreira Salles.  

 


Entre as luas nova de julho e crescente de agosto de 2015, o universo do músico Elomar Figueira Mello transforma o Itaú Cultural em uma casa de fazenda. A 25ª edição do programa Ocupação torna-se morada para registros, objetos e memórias que revelam de onde surgem as referências que, para além da música, habitam romances, poesias e peças de teatro compostas pelo artista. A mostra é gratuita e pode ser visitada a partir do dia 18 de julho.

Visite o hotsite da Ocupação Elomar

O espaço expositivo faz menção ao local em que hoje vive Elomar – a Casa dos Carneiros, fazenda que fica em Vitória da Conquista (BA). Elementos como a aridez do solo, cercas, bodes, grandes janelas da fazenda e narrativas presentes na música de Elomar convidam o público a adentrar um espaço de contemplação e deixar-se levar pelos encantamentos do sertão profundo.

Música e linguagem

Arquiteto por formação e músico por destino, Elomar ainda criança se fascinou. “As primeiríssimas peças que compus eu tinha 9, 10 anos – no violão, sem texto. A música Deus mandou para mim muito cedo. Com 7, 8 anos já chegou o despertar, o grande encantamento”, diz o compositor. Elomar conta que o texto, a poética, chegou um pouco mais tarde.

Ainda garoto percebeu a existência de duas linguagens: a culta, que estava nos livros e no falar do pessoal das cidades; e a dos roçalianos, que ele só conhecia oralmente. E assim desde o primeiro trabalho explora uma expressão própria da língua portuguesa – grafia e termos – que reproduz a fala do sertanejo e foi batizada pelo criador de dialeto sertanezo. “Todo texto meu que se refere a discurso de vaqueiro, de retirante, de camponês ou de habitante do sertão versa em sertanez”, conta. Pelos registros da oralidade dos próprios habitantes do sertão transita o português castiço.

Carreira

O estudo de música era paralelo ao curso de arquitetura, realizado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1959. Elomar frequentava os Seminários Livres de Música dos regentes e professores Ernst Widmer e H. J. Koellreutter.

Na década de 1960, o músico voltou a Vitória da Conquista, onde se casou e teve três filhos. Depois disso lançou seu primeiro compacto simples, em 1968, com as composições “Violeiro” e “Canções da Catingueira”. Em 1972 publicou o primeiro álbum, Das Barrancas do Rio Gavião, em que agrega elementos e influências do romanceiro medieval ibérico e do cancioneiro popular nordestino. São desse período os trabalhos Parcelada Malunga e Fantasia Leiga para um Rio Seco, entre outros. Em 1981 estreou em São Paulo o prestigiado espetáculo ConSertão, com participação de Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte.

Em 1984, ano do show Cantoria – com Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai –, passou a trabalhar sua obra erudita e adentrar o universo das óperas, dos concertos, das antífonas e da escrita orquestral. Com o filho e parceiro João Omar, transita com desenvoltura pelos espaços da tradução cultural desses elementos de origem europeia. O disco Árias Sertânicas, de 1992, registrou os fragmentos de seu trabalho operístico Lançou álbuns pelos emblemáticos selos Kuarup e Marcus Pereira e também crio sua própria gravadora, a Rio do Gavião, responsável por quatro de seus 16 discos.

Manto Cantado

Educadores e visitantes embarcam em uma viagem para o sertão imaginário das canções de Elomar na produção coletiva de um manto de cavaleiro. Durante a mostra, aos sábados e domingos, o grupo produzirá – a partir do mote de canções – imagem e/ou texto com os materiais e técnicas de bordado e desenho em tecido e feltro. O manto do cavaleiro, ao final, será oferecido ao homenageado.

Até domingo 23 de agosto, às 17h (duração aproximada 60 minutos).
Itaú cultural – piso térreo (mais bem aproveitado por crianças acima de 9 anos).
Mais informações pelo telefone 2168-1876, de terça a sexta, das 9h às 20h, ou no balcão de atendimento ao público.

Confira as demais atividades paralelas à exposição na aba programação.

Ocupação Elomar

Visitação
Sábado 1a domingo até 23 agosto de 2015.
Terça a sexta, das 9h às 20h (permanência até as 20h30).
Sábado, domingo e feriado, das 11h às 20h.
Itaú Cultural – Piso Paulista.
Gratuito.

Fonte: Instituto Cultural Itaú.

 


S
ão Paulo ganha a primeira Leica Gallery da América Latina. Será a 14ª galeria no mundo, especializada em imagens, que leva o nome da marca alemã de equipamentos fotográficos.

Para inaugurar o espaço no dia 5, na rua Maranhão, no bairro paulistano de Higienópolis, a arquiteta Valéria Blay e o fotógrafo Luiz Marinho recebem a mostra "Del Mondo", com 42 registros em preto e branco. Feitas entre 1978 e 2014, as fotografias são assinadas pelo inglês Andy Summers, conhecido no mundo como guitarrista e ex-integrante da banda The Police. "O que a maioria não sabe é que ele é um fotógrafo talentoso e documenta suas experiências ao redor do planeta desde os anos 1970", diz Valéria.                                 

Ela conheceu Marinho graças à paixão pelas lentes fotográficas. "Eu uso um equipamento Leica e o Luiz é o representante da marca no Brasil", diz a diretora-executiva da Leica Gallery São Paulo. Como responsável no país pelas ações relacionadas à fabricante desde 2001, Marinho será também membro do conselho executivo da galeria. O empreendedor mantém uma loja de equipamentos desde 1996, com itens profissionais e amadores, de fornecedores como Fuji e Lomography, além da Leica.

"Tínhamos um projeto para a abertura de uma galeria de fotos desde 2010, mas procurávamos os parceiros certos", diz Valéria, que, como arquiteta, também assessora clientes interessados em adquirir imagens. A negociação para trazer o empreendimento ao Brasil durou um ano. O modelo de negócio é semelhante a uma franquia, mas não envolve relação comercial entre as partes. "Temos os direitos de utilização do nome Leica Gallery no país e seguimos os padrões e diretrizes determinados para os espaços."

Construída em um edifício da década de 30 em processo de tombamento, a galeria tem 200 m2 de área expositiva coberta, dividida em dois blocos, além de um vão ao ar livre, com 120 m2 . Com as exibições, a proposta é promover seminários e lançamentos de livros. No mesmo prédio, funcionam ainda "startups" e "venture builders" como a KiiK e a incube (com minúscula), que já selaram uma parceria tecnológica com os galeristas. "Por meio de aplicativos, vamos inovar na maneira como os visitantes interagem com as obras. Será possível obter informações sobre a fotografia que eles estão vendo e até comprá-la pelo 'smartphone'." O local também ganhou uma loja com produtos e suvenires da Leica. 

O apelo em torno da marca começou em 1925, data do primeiro lançamento comercial, a Leica I, em Leipzig, na Alemanha. Estudiosos da fotografia afirmam que, naquela época, o equipamento já era muito sofisticado para os padrões vigentes, pelo tamanho reduzido, visor óptico embutido e velocidades de obturador que iam até 1/500 de segundo. Foram produzidas menos de 60 mil unidades da Leica I, vista hoje como uma pepita de ouro entre os colecionadores. Há três anos, durante um leilão em Viena, um protótipo da máquina, datado de 1923, atingiu US$ 2,7 milhões, recorde de venda para um aparelho fotográfico. 

O preço se justificou pela raridade. Só há 12 peças conhecidas no mundo e o dispositivo ainda funcionava perfeitamente, segundo a casa de leilões austríaca WestLicht Photographica. O nome do comprador não foi revelado. Uma das câmeras digitais mais baratas da marca, com 12,1 megapixels de resolução, pode custar R$ 4,4 mil no mercado nacional. Um dos modelos mais caros, à venda no Brasil, com 37,5 megapixels, não sai por menos de R$ 130 mil. 

Além da qualidade técnica, a obsessão dos fãs pelas câmeras remonta ao fotojornalismo dos anos 60 e 70, e de imagens icônicas que correram o mundo, produzidas por alguma Leica. A lista inclui retrato de 1960 de Che Guevara (1928-1967) assinado pelo cubano Alberto Korda (1928-2001), que se multiplicou em pôsteres e estampas de camisetas; e o histórico ataque de napalm a crianças em uma estrada do Vietnã, em 1972, eternizada por Nick Ut, fotógrafo da agência de jornalismo americana Associated Press (AP).

"A primeira coisa que me pergunto quando vejo uma foto é se ela me emociona, se existe uma história atrás da imagem", diz ao Valor, de Salzburgo, a alemã Karin Rehn-Kaufmann, diretora de arte da Leica, que há um ano encontrou o próprio Ut durante evento de comemoração dos cem anos da marca, em Wetzlar, cidade-sede da fábrica germânica. Na empresa desde 2007, ela é curadora das galerias Leica no mundo e trabalha à frente da operação de Salzburgo, na Áustria. Filha de mãe paulista, vem ao Brasil pela primeira vez para ajudar a inaugurar a mais nova unidade da rede. 

A ideia da fabricante de montar espaços expositivos começou em 1976, com a abertura de uma sala em Wetzlar. Hoje, são 13 pontos, em cidades como Frankfurt, Los Angeles, Milão, Tóquio e Nova York. "Até o final do ano vamos inaugurar mais um, em Turim, na Itália." 

A especialista afirma que a fotografia, como obra de arte, está cada vez mais próxima das pessoas. "Quase todo mundo faz fotos com celulares e as imagens são as principais ferramentas das redes sociais", diz. "É claro que uma boa câmera ajuda a obter um bom registro, mas o importante é quem está atrás das lentes."

 

Honeytrap (Estados Unidos)

                                                                                                                                                          'Honeytrap' (EUA). Foto: Andy Summers.                                            

Com as imagens que abrem a mostra inaugural da Leica Gallery em São Paulo, os brasileiros poderão conhecer a face documentarista do músico Andy Summers, que começou a levar os instantâneos a sério a partir de 1979. Sua produção na área contabiliza dezenas de exposições e três livros de fotografia: "Throb" (ed. William Morrow & Company, 1983), "I'll Be Watching You - Inside The Police 1980-83" (Taschen, 2007) e "Desirer Walks the Streets" (Nazraeli, 2009), com cliques feitos durante viagens e turnês da banda de sucessos como "Every Breath You Take" e "Roxanne", que terminou em 1986 e fez uma turnê de reunião entre 2007 e 2008. 

A exposição de São Paulo, que conta com a presença de Summers, foi apresentada no ano passado na Leica Gallery de Los Angeles, mas chega com seis imagens extras. O acervo, com preços a partir de R$ 5 mil, é composto de retratos, cenários e detalhes de pessoas, em dimensões de até 31 cm x 47 cm, registrados a partir dos anos 80. Fica em cartaz até outubro. O plano é trazer, neste ano, o americano Ralph Gibson, que já fez uma série de fotos no Brasil. A galeria pretende organizar quatro mostras ao ano. 

Para 2016, a agenda da galeria deve encaixar seleções do nova-iorquino Bruce Guilden, da prestigiada agência Magnum, e do cantor Lenny Kravitz, que desenhou uma edição limitada de 125 câmeras para a Leica. Em março, o vencedor de quatro Grammys consecutivos na categoria melhor vocal masculino de rock também abriu uma mostra na Leica Gallery de Los Angeles com o conteúdo que mostrou no livro de fotos "Flash" (teNeues, 2015). A chegada de fotógrafos conhecidos por talentos em outras áreas pode, segundo analistas do mercado de arte, atrair mais dividendos para o setor e aproximar o público das galerias especializadas na venda de imagens. 

Em maio, a feira francesa Paris Photo, uma das maiores do mundo, desembarcou pelo terceiro ano nos galpões dos estúdios cinematográficos Paramount, em Los Angeles, para provar que o caminho para popularizar a venda da fotografia como arte pode ser mais curto do que se pensa. A curadoria trouxe 79 galerias de 17 países, como a brasileira Lume, e apostou em nomes emergentes do ramo e no público local para chamar a atenção dos consumidores. As atrizes Demi Moore e Gwyneth Paltrow estavam entre os visitantes. Na edição do ano passado, Brad Pitt ganhou as manchetes dos tabloides e das publicações de artes plásticas por ter adquirido um trabalho do americano Danny Lyon, conhecido por imagens em preto e branco que enquadraram gangues, policiais e protestos de rua nos anos 60.

Mesmo com iniciativas espetaculares de difusão do meio, ainda há muito a ser feito. De acordo com levantamento do site Artprice, que cataloga resultados de leilões de mais de 590 mil artistas, a fotografia representa menos de 2% do mercado de arte global. No ano passado, todas as fotografias vendidas em arremates internacionais somaram cerca de US$ 180 milhões, volume próximo ao observado em 2009, ano de crise econômica. Os autores que mais movimentam as cifras do segmento incluem a americana Cindy Sherman, o alemão Andreas Gursky e o australiano Peter Lik, com preços médios, por foto, entre US$ 2 milhões e US$ 6 milhões. 

No Brasil, o mercado de fotografia pode ganhar neste mês mais um incentivo, com a nona edição da SPArte/Foto, no shopping JK Iguatemi (SP). O evento reúne 31 galerias que representam brasileiros como Christian Cravo, Lenora de Barros e João Castilho. No ano passado, uma das tendências da feira foi a venda de fotos com tiragens menores e preços mais elevados.

Site: leicagallerysp.com.br

Jacilio Saraiva no Valor Econômico, São Paulo.


A Pinacoteca de São Paulo recebe uma centena de paisagens britânicas do acervo da Tate Gallery.

As duas freiras estão diante da morte. Ou do morto, que pode ser o observador do quadro. A jovem à esquerda retira a terra com uma pá, em um esforço raro que faz movimentar seu capuz, enquanto aquela à direita contempla com gélida resignação quem a vê. O rosário ornado por uma caveira pende de suas mãos em oração, enquanto a luz faz supor que o dia termina, embora ainda banhe intensamente os rostos, as vestes e as árvores do cemitério. Tudo inquieta nesse cenário, até mesmo a nuvem roxa que, a seguir uma simbologia escocesa, representa um esquife no ar. Sir John Everett Millais ainda não tinha 30 anos, em 1858, quando pintou o óleo sobre tela O Vale do Descanso, título de uma canção homônima de Felix Mendelssohn, como a prenunciar outras mortes. Com a obra, ele talvez não apenas decretasse o fim do observador, mas de toda a arte de então, da fé romântica e de sua própria futura carreira como grande pintor.

Um grande quadro reproduz além do instante. Sua luz, a composição e a cor concorrem para enriquecer um argumento poético no decorrer do tempo. Ou, pelo menos, eram assim os óleos que dos séculos XVIII ao XX descreveram as paisagens britânicas. O campo se tornara um refúgio depois que a Reforma protestante impedira a representação das figuras religiosas. A vida ao ar livre significava, porém, algo mais naqueles quadros, situado entre o belo e o sublime, conforme descreve a exposição gratuita A Paisagem na Arte: 1690-1998 - Artistas britânicos da coleção da Tate, até 18 de setembro, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em comemoração aos seus 110 anos. Nas nove seções sob a curadoria de Richard Humphreys (Descobrindo a Grã-Bretanha, Sonhos Pastorais, A Visão Clássica, Romantismo, Fidelidade à Natureza, Impressionismo,Redescobrindo a Grã-Bretanha, Um Novo Romantismo e Novas Paisagens, Velhas Paisagens), essa modalidade vem representada por grandes artífices, do insuperável John Mallard William Turner ao surrealista Paul Nash.

Millais, portanto, não seria o único, tampouco o maior britânico a pintar um tempo de mudanças, enquanto parecia apenas representar nos quadros as pradarias, as montanhas, o pôr do sol ou uma tempestade no mar. Contudo, um dia fora o mais promissor. Aos 11 anos, em 1840, ele adentrara a Royal Academy of Arts para tudo aprender e de tudo discordar. E, em 1848, enquanto as movimentações de massa anunciavam uma nova era a pensadores como Karl Marx, ele, na companhia dos amigos Holman Hunt e Dante Gabriel Rossetti, fundava uma irmandade secreta para desancar Rafael. Autointitulados pré-rafaelitas, esses pintores enxergavam artificialidade no artista essencial da Alta Renascença e se voltavam à Itália precedente, onde as formas, a seu ver, surgiam desafiadoras de tão puras.

Os pré-rafaelitas olhavam para o passado como qualquer um faria então. Desencantados com as promessas revolucionárias burguesas, desaguadas em cidades fétidas, os pintores do período voltavam-se a ideais campestres. O inglês John Martin (1789-1854), alguns anos antes, descobrira até mesmo um segredo no céu. Mais do que belo, pensou, ele era a face do terror, a representação, portanto, do sublime. Seu óleo sobre tela A Destruição de Pompeia e Herculano, de 1822, indica, na exposição da Pinacoteca, aquele pressentimento de que algo invisível aos homens determina seu cotidiano. Um céu avermelhado está prestes a engolir tudo e todos. A seguir o romantismo de então, no qual acima de tudo era exigida a expressão pessoal, o pintor conquistou enorme público. Nos museus, seus quadros vinham separados da multidão de admiradores por cordões.

Epítome de um período, Martin caiu de altura elevada, contudo, quando os tempos mudaram, entre outras razões porque John Ruskin desautorizara seu pincel cataclísmico. O aquarelista e crítico detestava o exagero sem pudor deste e de outros românticos. Eis por que admirara os pré-rafaelitas, rejeitados, contudo, por grandes pensadores da época, como o escritor Charles Dickens. Tal defesa custara a Ruskin a própria esposa, que, preterida em favor dos debates, acabaria nos braços de Millais. Em pouco tempo, transferido à Escócia onde ela morava, o pré-rafaelita abandonaria o movimento. “Não posso mais passar um dia inteiro a pintar uma área do tamanho de uma moeda de cinco xelins”, disse sobre sua antiga arte detalhista, que, transformada em fórmula ornamental, tornara-se objeto de cobiça dos mercadores.

Millais sumiu para que John Mallord William Turner (1775-1851) jamais perecesse. Emblema dos paisagistas, ele arrebatava admiradores por intuir a luz de forma inteiramente nova. Turner começou na pintura como um pitoresco, de uma escola de bucólicos que admitira, para elevar-se, a mitologia de origem grega, em uma representação algo próxima do óleo sobre tela Dido e Eneias (1814), um de seus quatro quadros expostos agora na Pinacoteca. Contudo, mais do que tudo isso, representou o romantismo de maneira duradoura. Viajou pela Europa por 40 anos. E anotou rápidos esboços a lápis de seus quadros para depois usá-los como pontos de partida em composições criadas pela imaginação. “Evanescente e aéreo, ele parece pintar com vapor colorido”, disse do artista um de seus contemporâneos, John Constable (1776-1837), autor do óleo sobre tela Chain Pier, Brighton, de 1826, em que resplandecem suas famosas nuvens. Ao contrário de Turner, Constable nunca deixou a Inglaterra. Mas advogava, para sua pintura, a verdade em primeira mão. “Não há dois dias iguais, nem mesmo duas horas”, escreveu. “E nunca houve duas folhas de árvore idênticas desde a criação do mundo.”

Os testemunhos de época garantem que Turner se amarrou ao mastro de um navio para experimentar a tempestade, de modo a pintá-la apropriadamente. Ou talvez, em razão do enorme talento, apenas lhe tivesse sido natural reproduzir o que estivesse à vista. Sua arte levaria à dos impressionistas, que, contudo, jamais teriam ultrapassado aquele seu tormento, a sua organização abstrata da luminosidade. Para Turner, a paisagem descrevia não somente um fenômeno físico, mas espiritual, algo facilmente perceptível em seus 300 óleos e quase 20 mil desenhos e aquarelas legados ao British Museum e à Tate Gallery. John Ruskin o adorava e o fez aceito em seu tempo. Mas ao crítico a história creditaria outra responsabilidade, dessa vez terrível. Após a morte de Turner, Ruskin destruiu seus desenhos eróticos, aqueles que, a seu ver, teriam manchado a memória de um grande herói. 

Rosane Pavam em Carta Capital.