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"O problema não é crescer, mas esquecer", ensina o Pequeno Príncipe. Quando tinha oito anos, sofri a primeira grande perda em minha vida. Meu primo mais novo, na época com três anos, foi levado por uma doença comum na infância, mas que para ele foi fatal. 

A catapora não marcou e feriu somente sua pele, mas toda a história de nossa família. Pedro nos deixou sem palavras e com saudades. Tinha personalidade forte, como todas as crianças da família, os cabelos de um loiro quase branco e uma risada tão contagiante como a do Pequeno Príncipe – personagem que me acolheu nesse momento de dor e me guiou em profundos ensinamentos baseados em valores humanos e não materialistas. Hoje, posso olhar para o céu e ouvir as estrelas para não esquecer de Pedro, do seu sorriso e da infância que compartilhamos.

O livro O Pequeno Príncipe, do francês Antonine Saint-Exupéry, emociona e ajuda as pessoas a entender a essência da vida há mais de 70 anos. Foi traduzido para cerca de 250 idiomas e dialetos, e vendeu mais de 150 milhões de cópias em todo o globo. É há meio século o livro infantil mais vendido no Brasil, e somente no ano passado vendeu mais de 140 mil exemplares. Seu autor faleceu um ano após o seu lançamento, em 1943, numa missão da Segunda Guerra Mundial, sem poder dimensionar o alcance da obra.

O livro conta a singela história de amizade vivida por um aviador e um principezinho que mora no longínquo asteroide B612 e ama uma rosa. Quando o príncipe sai em viagem pela Terra, esbarra com o aviador encalhado num deserto e ali compartilham histórias e ensinamentos sobre as dores e as delícias de ser humano.

Seus ensinamentos tratam do que é realmente importante nessa vida fugaz que levamos na Terra. Contemplar as estrelas, cativar amigos, amar e respeitar animais e plantas, cooperar mais do que competir, olhar e escutar mais do que assistir, trocar mais do que acumular. Bem diferente do que a sociedade de consumo quer nos fazer crer.

A animação homônima ao livro chegou às telas esse mês, dirigida pelo americano Mark Osbourne, e traz uma nova e igualmente bela narrativa para esse clássico da literatura infanto-juvenil.

Desta vez, quem fica amiga do Aviador, hoje um velhinho, é uma garotinha de olhos curiosos, abandonada pelo pai e confinada pela mãe numa casa cinza. Com tarefas obsessivamente calculadas por uma mãe ausente, a menina tem uma rotina espartana durante as férias de verão, para conseguir vaga numa escola de renome que promete futuro de sucesso.

Sem tempo para dedicar-se ao ócio, aos amigos, ao contato com a natureza ou ao exercício de sua criatividade, a menina experimenta os dias sozinha e assim vai perdendo a essência da infância, até ser resgatada pelo vizinho excêntrico – um velhinho aviador que lhe conta a história do Pequeno Príncipe e com quem acaba por passar suas férias.

Seus pais não têm tempo de cuidar dela – como muitos, atualmente, que terceirizam os cuidados dos filhos para babás, creches ou tablets. O pai da protagonista vive longe, trabalha muito e mantém contato com ela somente no aniversário – por meio de um mesmo presente que envia todo ano, com um cartão que nada diz e ela tristemente coleciona. A mãe também trabalha demais e não a escuta, "adultizando" essa menina para ser seu par – e dizendo que faz isso para lhe garantir o futuro, sem perceber que assim lhe arranca o presente.

A trama principal do 'Pequeno Príncipe' de Osbourne gira em torno da pequena garota de infância cinza (Foto: Divulgação)


Triste retrato da infância de hoje, abandonada e afastada de sua essência em meio a tantas atribuições do universo adulto.
Fui assistir ao filme em família e fiquei feliz ao perceber que a amizade e os ensinamentos compartilhados entre o adulto e a criança ainda emocionam todas as gerações. A meu lado um pai com a filha no colo derramavam lágrimas que mostram haver saída para a vida cinza e planejada que a maioria de nós experimenta nos grandes centros urbanos.

O filme emociona e faz refletir sobre os valores que aprisionam as crianças contemporâneas numa infância igualmente cinza e solitária, com a agenda repleta de atividades supostamente desempenhadas para lhes garantir um bom lugar na Terra – a mesma que estamos destruindo pelos padrões de consumo e produção que adotamos.

Aparentemente perdidos na árdua e deliciosa tarefa de cuidar dos filhos, pais e mães da atualidade acabam recorrendo às promessas que o mercado lhes oferece. Tenho sido com frequência chamada a falar nas escolas sobre o tema da desaceleração na rotina das crianças, e minha fala debruça-se sobre a importância de respeitarmos a infância e seu tempo: de encantamento e conexão, em que contemplar e imaginar são atividades essenciais na construção de significados para o mundo real.

É preciso desacelerar e desconectar para entrar em contato com a criança que fomos e com as que estão ao nosso lado. Rever nossas urgências e o que é realmente importante para promover uma infância plena. Crianças não são feitas para ser criadas em bolhas. Elas precisam se relacionar, cair para aprender a levantar, perder para aprender a sonhar e elaborar. Precisam de histórias vividas e narradas para se lembrar. E não precisam, para ser felizes, de objetos e atividades que as cansem para desligar-se à noite. Não precisam de um coach para aprender a brincar – sim, parece que estes personagens existem!

Crianças precisam de muito pouco para crescer de forma saudável e se tornar adultos melhores. Precisam de tempo e espaço para brincar e se relacionar entre pares, com adultos e com a natureza. E nós, adultos, temos o dever e a responsabilidade de oferecer a elas o que é realmente essencial – embora invisível aos olhos.

Lais Fontenelle no Outras Palavras.


De que maneira o uso da bicicleta é capaz de reformular tanto a utilização do espaço público como as relações humanas? A resposta a essa pergunta pode estar na exposição de fotografia e arte “Essa cidade é invisível? SP|NYC”, que chega ao Centro Cultural São Paulo (CCSP), no dia 12, tendo a cidade como motivação – com suas ruas, pessoas e relações– e a bicicleta como pretexto.

O projeto original, denominado “Am I invisible”, surgiu em Nova York (EUA), em 2013, idealizado pela fotógrafa Jeanne Hilary, fundadora da organização Bicycle Utopia. Este foi trazido para o Brasil pela fotógrafa Sylvia Sanches, da CicloUtopia, criando um diálogo visual entre as duas metrópoles. “No que diz respeito à ocupação do espaço público e à mobilidade, o que está acontecendo em São Paulo também acontece em Nova York”, conta Sylvia. Segundo ela, a ideia é promover esse diálogo para ver o ponto de vista sobre a cidade tanto do brasileiro quanto do norte-americano, partindo da bicicleta. A mostra chega, simultaneamente, ao North Brooklyn Farms, em Nova York. 

A curadoria é dividida entre Jeanne Hilary e Baixo Ribeiro, fundador do Instituto Choque Cultural. Ao todo, são 16 obras de brasileiros e norte-americanos, dos coletivos Garapa, TEC, Bijari, 6Meia e de Felipe Russo. As peças estarão expostas em diversos pontos do CCSP e também nas ruas próximas e nas ciclovias que levam ao polo cultural. “Mais do que pensar em uma imagem, estamos pensando na relação entre elas, criando um circuito. Além disso, a ideia é proporcionar um diálogo da parte interna do CCSP com a rua e do ciclista com a exposição”, diz Sylvia. 

Serviço

Centro Cultural São Paulo – diversos espaços.
R. Vergueiro, 1.000, Paraíso. Próximo da estação Vergueiro do metrô. Centro. 
Abertura: Dia 12, 10h. 
De 13/9 a 8/11. 3ª a 6ª, das 10h às 20h. Sáb., dom. e feriados, das 10h às 18h. Grátis.



Alaíde Costa não gosta de se encontrar com a própria voz. "Quando alguém bota uma música minha para tocar, toco para outro canto", diz a cantora, vestida com uma capa de seda preta bordada com canutilhos, como se fosse para um baile de gala. 

Mas a roupa de festa foi usada para passar o dia num estúdio da Vila Romana.É que no seu aniversário de 80 anos, em 8 de dezembro, ela terá de se confrontar com a sua voz casada com sua imagem: é quando será lançado o primeiro DVD da história de Alaíde, apelidada a Mãe da Bossa Nova. 
 
"E eu lá sei por que nunca tinham filmado um show meu?", diz ela quando questionada se a demora era uma vontade sua, para preservar o foco na voz. Como a maioria dos expoentes da bossa nova, a carioca dispensa firulas e estéticas complexas. 
 
Há 60 anos, se esmera para trabalhar sons básicos de sua voz baixa e novas construções para canções consagradas. 
 
A gravação, que também originará um programa no Canal Brasil, foi um passeio pelo repertório das seis décadas de carreira da cantora carioca.
 
Tem Milton Nascimento, Johnny Alf, Oscar Castro Alves, Vinicius de Moraes. Tudo acompanhada por violão, baixo acústico e uma bateria de jazz ­que ela classifica como "uma coisa de outro mundo". 
 
"Estou acostumada a ter a voz acompanhada só por flauta, piano, violão e olhe lá." A bossista não é de ousar. Gosta dos seus arranjos minimalistas e da voz baixa e elegante. 
 
"No próximo a gente faz só você e um naipe de flautas. Quinze músicas!", brinca o produtor Thiago Marques Luiz, que a convenceu a fazer as leves mudanças na sua lógica de trabalho. E também a voltar a cantar músicas com que não se encontrava há décadas, caso de "A Voz do Povo", de João do Vale.
 
Ficar nu?

Os últimos tempos têm sido de debutes para Alaíde. Em 2014, lançou "Canções de Alaíde" seu primeiro álbum de composições próprias, em parceria com gente como Vinicius de Moraes ­"Amigo Amado", de 1973, e "Tudo o que É Meu", de 1965­e Milton Nascimento. Agora, se arrisca (de leve) em um cancioneiro que até então não tinha registrado. 
 
Tanto que, na hora de gravar uma faixa bônus, hesita. Pede para ouvir a gravação de "Preciso Chamar sua Atenção", letra de Roberto Carlos em que o intérprete diz "Só me resta ficar nu pra chamar sua atenção". Ainda mais calada do que o de costume, ouve os três minutos da faixa na sala de gravação. "Não sei se gosto. Não sei se é meu estilo." 
 
O produtor ouve junto a ela. "Ficou ótimo! Tudo na vassourinha, tudo sutil. Precisa ser assim, ou ela me bota para correr", brinca Luiz.

Ela cantara a música uma só vez, enquanto, na chácara do dono de uma gravadorase recuperava da operação que deteve uma perda progressiva de audição. "Não é que eu tenha nada contra Roberto Carlos. Acho essa música belíssima, só não é a minha praia." Enquanto pensam na inclusão da música do Rei, amigos da cantora contam ter planejado também uma comemoração em uma das pedras fundamentais da música brasileira: o beco das Garrafas.
 
Alaíde diz que cantava lá quando "ainda era uma suburbana que não conhecia nada". "Vi bossa ali antes daquilo ficar enorme." Ela já se mudara para São Paulo quando nomes como Elis Regina, Sergio Mendes e Baden Powell fizeram do beco um pólo de música sofisticada no país.
 
Copacabana
 
Ainda mora na capital paulista e faz apresentações eventuais por todo o país. "Eu nem sei por que eu faço. É uma coisa que vem, assim, espontânea. Vou lá e faço o que tem que fazer". Nas gravações, é raro fazer um segundo "take". Gosta que as músicas se resolvam de primeira. E foge de problemas. 
 
Como na vez que, por ser negra, foi instruída a usar a entrada de serviço do Copacabana Palace quando ia se apresentar lá, na década de 1960. Decidiu que acataria até um amigo intervir e obrigar o hotel a receber a estrela pela porta da frente. 
 
Os amigos ainda estão ao redor. A sala em que se reúnem admiradores da cantora, entre eles um antiquário carioca e um jornalista que começou sua biografia e desistiu do livro, mas não da proximidade, alguém brinca que devem começar a bolar a festa de 90 anos desde já. 
 
"Não desejem 90 para mim! Já estou bem com 80", diz Alaíde, com uma voz que gosta de ficar nua, mas não para chamar a atenção.

Fonte: Ilustrada / Chico Felitti.
 


A história do Maestro do Canão, outra de uma moradora de rua que sonha em ser artista. A trajetória de um dos ativistas virtuais mais importantes dos Estados Unidos. Histórias que nem sempre são contadas e que se tornaram filmes através da colaboração coletiva de pessoas, em uma plataforma online.

Mostra Internacional de Cinema Colaborativo apresenta estas e outras histórias e seus processos de produção para o público. Entre os dias 19 de setembro e 4 de outubro, a programação vai exibir diversos longas, com entrada gratuita. As sessões vão acontecer em quatro pontos da cidade de São Paulo: a Galeria Olido, no centro; MIS (Museu da Imagem e do Som), na zona oeste; a Casa de Cultura palhaço Carequinha, e no Parque Linear Cantinho do Céu, ambos no Grajaú, zona sul.

O cinema independente tem viabilizado diversas iniciativas através do crowdfunding, como ficou conhecido o processo de doação online e coletiva para diferentes projetos. As plataformas virtuais se expandiram e, hoje, o financiamento colaborativo é uma possibilidade para o cinema, responsável por produzir filmes vencedores de prêmios reconhecidos internacionalmente.

Em 2012, o filme independente ‘Inocente’ levou a estatueta de melhor documentário de curta-metragem. A produção foi financiada através do site Kickstarter, arrecadou U$ 52 mil através da doação de 294 pessoas, tornando-se o primeiro filme realizado através de financiamento colaborativo a vencer um Oscar.

O documentário conta a história de uma menina de 15 anos, que mora nas ruas de San Diego, na California (EUA), e sonha em se tornar uma artista. Narrado pela própria jovem, a trama acompanha a força da arte em sua vida no enfrentamento de dificuldades proporcionadas pela sua situação. A exibição do filme na Mostra acontece no dia 19 de setembro, no MIS, às 17h30.

Assista o trailer: https://youtu.be/008ZofyIRHo

Em entrevista à Vaidapé, o produtor executivo do filme, Susan MacLaury, conta como foi o processo para mobilização da campanha e as alternativas que surgem ao cinema independente com as plataformas de financiamento colaborativo:

Vaidapé: Como foi a campanha para levantar dinheiro para a produção de ‘Inocente’ através da doação voluntária de pessoas? Quanto tempo levou para a meta ser alcançada?

Susan MacLaury: Nossa campanha para o filme ‘Inocente’ no Kickstarter foi um sucesso. Nós conseguimos levantar dinheiro o bastante para atingir, passar a meta de U$ 50 mil e ainda pagar as taxas requeridas. Levou algumas semanas para arrecadarmos o dinheiro pedido.

Qual o aspecto mais difícil na campanha por crowdfunding?

Nossa campanha no Kickstarter levou alguns meses para ser criada. Nós tivemos sorte que os diretores puderam filmar e editar suas entrevistas, o que ajudou muito. Um dos aspectos mais desafiadores foi pensar em prêmios que as pessoas desejassem e que fossem também viáveis (nessas plataformas, são oferecidas contrapartidas aos doadores, normalmente em forma de prêmios). E, é claro, foi essencial (para o sucesso da campanha) postar atualizações semanalmente, para encorajar os visitantes do site e nossos doadores usuais a participarem da campanha.

Qual o panorama dos filmes produzidos através do financiamento colaborativo? Já representa uma alternativa às grandes empresas de produção cinematográfica?

O Kickstarter é uma possível salvação para cineastas pois promove outra fonte potencial de receitas durante o processo de filmagens. Em todos os estágios da produção. Isso colabora especialmente com a pré-produção ou o começo das filmagens, quando tende a ser muito difícil arrecadar dinheiro de fundações ou compradores.

 


Dizer que as canções de Emicida fazem contundentes críticas à sociedade soa como uma repetição de velhos elogios feitos ao trabalho do rapper  paulista, mas não há outra forma de definir os versos da música “Boa Esperança”: “Favela ainda é senzala jão / Bomba relógio prestes a estourar / O tempero do mar / Foi lágrima de preto”. A canção é um dos destaques do novo álbum do artista, “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, que chegou nesta segunda-feira em versão física às lojas.


Mesmo mantendo esse enfoque, Emicida se reinventa no novo disco, o segundo da carreira, ao soar mais “para cima”. “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” representa uma maior conexão das rimas dele com ritmos de matriz africana – combinação que alcança a perfeição em canções como “Mufete”.

Esse laço de Emicida com o continente africano se fortaleceu após uma série de viagens do artista para Angola e Cabo Verde, em março deste ano. As influências capturadas no cancioneiro de lá ficam evidentes em músicas como “Sodade” e “Baiana”, que conta com uma quase inexpressiva participação de Caetano Veloso.

Apesar disso, os demais convidados especiais têm presenças contundentes. “Passarinhos”, duo do artista com Vanessa da Mata, é uma das melhores músicas do álbum, além de um dos raros casos em que Emicida não apenas faz rap, como também canta. Fazem participações também Dona Jacira e a guitarrista Anna Trea – dona de vocais assombrosos – em “Mãe” e Batucadeiras do Terreiro dos Órgãos na melancólica “Chapa”.

Seguindo a lista, “Mandume”, apresenta um rap com pegada funk, que tem versos rimados por grandes novos nomes do rap (Amini, Raphão Alaafun, Muzzike, Rico Dalasam e Drik Barbosa). J. Gettho participa da já citada “Boa Esperança” e a última participação do álbum não é de um cantor, mas do escritor Marcelino Freire, que declama seu sóbrio poema “Trabalhador Brasileiro”.

Em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, Emicida desenvolve uma sonoridade mais acessível para o público que não está acostumado a ouvir rap, mas se mantém fiel a seu discurso agressivo (vide o verso “Quando pessoas viram coisas / cabeças viram degraus”,  na pegada reggae da faixa “Passarinhos”).

Assista "Passarinhos" com ele e Vanessa Da Mata: https://youtu.be/IJcmLHjjAJ4

Fonte: Metro Brasilia.

 


Mostra traz a São Paulo, Rio e Brasília pinturas da artista mexicana e trabalhos de outras 15 surrealistas que viveram no México.

Em sua viagem ao México, em 1938, o poeta francês André Breton ficou deslumbrado com as pinturas de uma, até então, desconhecida para o mundo das artes, Frida Kahlo. O líder do surrealismo na Europa não poderia imaginar que sua anfitriã no país latinoamericano criasse obras tão repletas de símbolos – naquele ano, ela pintava Lo que el agua me ha dado, autorretrato no qual representou­se deitada em uma banheira de onde emergiam pequenas cenas, como memórias, sobre seu corpo (e dele o espectador pode ver apenas seus pés). Apesar do entusiasmo de Breton, que arranjou para Frida sua primeira exposição individual, na galeria de Julien Levy, em Nova York, a artista recusou o título de surrealista. “Não pinto sonhos e fantasias, pinto minha realidade”, ela teria dito.Entre tantas histórias formou­se o mito de Frida Kahlo (1907­1954) – ela gostava de afirmar, por exemplo, que havia nascido em 1910 para que a data coincidisse com a Revolução Mexicana.
 
 
Frida Kahlo no 'Autorretrato con Monos', de 1943.
 
Por outro lado, a pintora estampou sua biografia nas obras. Abortos, traições do marido, o pintor Diego Rivera (1886­1957), a relação de dor com um corpo debilitado pela poliomielite contraída na infância e pelo acidente de ônibus que, anos depois, lhe causou lesões na coluna e no útero, são passagens representadas em seus quadros. Entretanto, com a inauguração, em 27 de setembro, da exposição Frida Kahlo – Conexões entre Mulheres Surrealistas no México, no Instituto Tomie Ohtake, o público poderá aproximar­se não apenas do universo da mexicana como também da vida e produção de outras 15 importantes criadoras.

Trata-­se de um projeto de fôlego. Até o momento, estão confirmadas 19 pinturas e 13 obras sobre papel de Frida Kahlo para a mostra, que, em 2016, também será apresentada na Caixa Cultural do Rio (de 2 de fevereiro a 27 de março) e na Caixa Cultural de Brasília (de 12 de abril a 12 de junho). Orçada em R$ 9,5 milhões, a exposição traz, na verdade, uma centena de obras e promove a oportunidade de o Brasil receber trabalhos de surrealistas reconhecidas – mas não tanto populares – como Leonora Carrington, Remedios Varo, Maria Izquierdo e Lola Álvarez Bravo.

Foi justamente a relação – por vezes, inédita – de Frida com outras artistas que viveram em seu país a inspiração para a concepção da mostra. “Sabia­se que Alice Rahon chegou ao México por causa de Frida, mas apenas há pouco tempo encontramos a carta na qual ela diz que comprou os bilhetes imediatamente depois de ter conhecido a artista em Paris”, conta a curadora Teresa Arcq. A poeta, estilista e pintora francesa tornou­se, depois de amante, amiga próxima da mexicana por toda a vida. Elas se conheceram no fim da década de 1930 na França. “Alice tinha acabado de voltar da Índia e vestia saris indus quando encontrou Frida com seus trajes tehuana. Foi uma atração impressionante”. Curiosamente, ainda, as duas tiveram biografias muito parecidas.
Obra 'El Juglar' (1946), da poeta e pintora francesa Alice Rahon.
 
“Alice teve pólio quando menina e também sofreu um acidente que fraturou sua bacia. Ela teve de ficar paralisada em uma cama por cerca de um ano, engessada como Frida, e foi nesse momento que começou a desenhar”, explica a historiadora. Mais ainda, continua Teresa, a francesa perdeu um filho pequeno e, desde então, nunca mais conseguiu engravidar. “Ela mancava porque tinha uma perna mais curta que a outra, como Frida”, completa. A tela Balada para Frida Kahlo(1956/66), pintada por Alice Rahon com a mesma tonalidade da famosa Casa Azul da mexicana, será a obra a encerrar o percurso da exposição. 

Mas é importante dizer que as conexões de Frida Kahlo com as outras surrealistas da mostra não ocorrem apenas no campo afetivo. A celebrada mexicana foi fundamental, por exemplo, para que a espanhola Remedios Varo (1908­1963) conseguisse exilar­se no México. “Não havia documento que pudesse comprovar a relação das duas, mas encontramos uma carta de Remedios de 1939 a Frida na qual ela pede ajuda para sair com o marido da Europa”, diz a curadora. A artista, assim, criou um comitê junto ao consulado de seu país e sensibilizou o diplomata Renato Leduc para a causa. Pouco tempo depois, ele chegou a se casar de fachada com a inglesa Leonora Carrington (1917­2011) para que ela pudesse se mudar para as mesmas terras. 

Desde que os chamados “arquivos secretos” de Frida e Rivera foram abertos, em 2006, surgem novas pesquisas em torno dos artistas. Quando a pintora morreu, aos 47 anos, seu marido, único herdeiro, doou a Casa Azul e tudo o que estava nela para o governo mexicano, mas pediu que os álbuns com documentos e fotografias pertencentes ao casal ficassem fechados por até 15 anos depois de sua morte. A mecenas e amiga do muralista, Dolores Olmedo, entretanto, conservou os papéis longe do público por mais tempo. Segundo a historiadora Teresa Arcq, está sendo realizado agora um maciço projeto para a publicação de um livro com as correspondências dos dois pintores – e ela participa da empreitada. 

Diálogos simbólicos

Na exposição 'Frida Kahlo – Conexões entre Mulheres Surrealistas no México', que será inaugurada para o público em 27 de setembro no Instituto Tomie Ohtake de São Paulo, os sete autorretratos da mexicana revelam o máximo de seu universo simbólico. Em um deles, de 1943, a pintora retrata­se rodeada de pequenos macacos – e, como diz a curadora Teresa Arcq, os chimpanzés sempre representaram o erotismo na obra da artista. Outro, enigmático, El Abrazo de Amor del Universo, la Tierra (México). Diego, yo y el señor Xólotl, de 1949, ela carrega o marido, Rivera, nos braços e o “señor” da pintura é um cachorro xoloitzcuintle que, desprovido de pelos, é considerado “mágico” desde os astecas.

“O diálogo das artistas é temático”, explica Teresa sobre o conceito da mostra, formada por cerca de uma centena de trabalhos emprestados de 48 coleções privadas e particulares. A prática daautorrepresentação feminina entre as 16 surrealistas apresenta­se como uma questão importante – e numa sequência de obras de Frida, María Izquierdo, Rosa Rolanda, Remedios Varo e Leonora Carrington será possível comparar quão distinto pode ser o olhar de cada uma para si. Desse segmento, ainda, surge outra questão, conta a historiadora. Em uma litografia de 1930, Diego Rivera traça a mulher, Frida Kahlo, nua, como uma musa – o corpo sempre foi um território de conflito para a mexicana. “É um contraste de representações”, define Teresa.
 
Roulotte' (1955), pintura da espanhola Remedios Varo.

O percurso da exposição, que também passará em 2016 pelas unidades da Caixa Cultural do Rio e de Brasília, vai, assim, costurando relações. Depois dos autorretratos, a natureza­morta é um gênero simbólico rico em referências e alegorias.

“Flores, frutas e plantas são usadas para narrar segredos, histórias de amor, sofrimento e alusões a órgãos sexuais”, afirma a curadora. Ela conta que Frida e Rosa Rolanda (1895­1970), nascida nos EUA, rivalizavam não apenas no cultivo de espécies florais como também na cozinha. O ambiente doméstico, “espaço de criatividade”, destaca Teresa, era um importante local para reuniões de amigos e intelectuais na época.

Deve-­se também ressaltar o tema do exílio como um dos pilares da mostra. Muitas das participantes de 'Frida Kahlo – Conexões entre Mulheres Surrealistas no México' escolheram, afinal, viver no país latino­americano que, depois da Revolução Mexicana, em 1910, tornou­se um território de efervescência política e cultural.

Quando a artista Lenora Carrington pintou Artes 110, em 1942, ela representou uma mulher que se assemelha a uma bruxa a voar entre dois continentes. A obra pode representar algum temor, mas a Cidade do México tornou­se morada da inglesa até sua morte. Já outros, como o poeta André Breton, líder dos surrealistas, estiveram apenas de passagem. Na década de 1930, ele encontrou no local uma cena fascinante – e lançou, afinal, Frida para o mundo.

Preste atenção...

1. Nos retratos de Frida Kahlo realizados por diferentes fotógrafos. Entre os mais conhecidos, estão os de Nickolas Muray (1892­1965). O húngaro, que emigrou para os EUA em 1913, foi um dos casos amorosos mais intensos de Frida. Na Cidade do México, o Museo Casa Estudio Diego Rivera y Frida Kahlo, abrigado no conjunto de casas modernistas projetadas em 1931 pelo arquiteto Juan O’Gorman para o casal de artistas, apresenta agora uma exposição de cartas da pintora mexicana. Como destacou a curadora da mostra, Cristina Kahlo, sobrinha­neta da artista, em uma correspondência de Frida para Muray datada de 1939, há passagens explícitas de ciúme. 

2. Do conjunto de fotografias presentes na exposição, importante também destacar os trabalhos de Lola Álvarez Bravo. Ela fez um dos retratos mais enigmáticos de Frida – a artista duplica­se em um espelho e a imagem estabelece, diz a curadora Teresa Arcq, relação direta com a famosa pintura As Duas Fridas. 

3. Nas fotografias de uma artista desconhecida, Kati Horna (1912­2000). A húngara também se exilou no México.

4. O público pode comprar ingressos para a mostra por meio do aplicativo ingresse.com

Serviço:
 
'Frida Kahlo - Conexões entre Mulheres Surrealistas no México.'
Av. Faria Lima, 201, tel. 2245­.1900.
3.ª a dom., 11 h / 20 h. R$10 (grátis 3.ª).
De 27/9 a 10/1/16.

Fonte: O Estado de S.Paulo.

* A repórter Camila Molina viajou a convite do Conselho de Promoção Turística do México. 
 
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