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Na contracapa do álbum “Som do Bando” (lançamento do selo Sonora), uma lista de músicos e arranjadores do primeiro time da música popular brasileira – André Mehmari, Dori Caymmi, Edson José Alves, Fernando Corrêa, Gilson Peranzzetta, Laércio de Freitas e Nailor Proveta, Renato Borghetti e Tiago Costa – já indica que se trata de um projeto muito especial. 

O bandolinista Ronen Altman não deixou por menos ao planejar seu primeiro disco como solista: para as gravações convidou mais de 30 músicos com muitos dos quais já tocou ou gravou durante as últimas décadas. A produção também foi entregue a dois antigos parceiros na música: o violonista Swami Jr. e o irmão Helton Altman.

“Os momentos mágicos vividos ao lado de tantos artistas é que me incentivaram a realizar este disco. Ele é uma reverência que faço ao bandolim e ao bando de pessoas que me fizeram amar a música de maneira incondicional”, escreve Altman, no encarte do CD, que também inclui participações de Yamandu Costa (violão), Benjamim Taubkin (piano), Celsinho Silva (tamborins), Fábio Torres (piano), Sérgio Reze (bateria), Sylvinho Mazzuca Jr. e Pedro Gadelha (contrabaixo), entre outros.  

Diferentemente do que se poderia esperar, essa multidão de instrumentistas e arranjadores, com diferentes concepções musicais, jamais compromete a unidade musical do álbum. Presente em quase todas as faixas, um quinteto de sopros garante certa uniformidade sonora.

Altman não é um daqueles músicos exibicionistas, ansiosos por demonstrar sua destreza técnica ao ouvinte. Ao dedilhar seu bandolim, costuma privilegiar o sentimento, as emoções embutidas nas melodias e harmonias do original repertório que escolheu. 

Do contagiante samba-choro “Esperando a Feijoada” – com participação do próprio compositor, o guitarrista Heraldo do Monte – à versão instrumental da sensível canção “Fim do Ano” (de Swami Jr. e José Miguel Wisnik), Altman desfia a cada faixa diversas parcerias e ligações musicais, compondo assim um panorama de sua própria história.

Arranjada pelo pianista Laércio de Freitas, “Turma Toda”, do baixista Arismar do Espírito Santo”, revela influências jazzísticas e conta com improvisos de ambos. Em arranjo de Hermeto Pascoal, o “Choro de Amor Vivido”, de Eduardo Gudin, também destaca o violão do compositor. 

Outro craque dos arranjos e composições, o violonista Dori Caymmi comparece com seu vozeirão e suas cordas, em faixa que une “Obsession” (parceria com Gilson Peranzzetta) e “Rio Amazonas”, ao lado do flautista Teco Cardoso.  

Altman também inclui cinco composições próprias: da valsante “Nanai” (parceria com Celso Viáfora), que destaca a sanfona de Lulinha Alencar, à envolvente “Parafuso”, em arranjo do pianista André Mehmari.

Em tempos de vaidades e individualismos extremados, ao reunir tantos parceiros e amigos em seu belo disco de estreia, Altman dá uma lição de humildade e amor pela música.

Conheça o "Som do Bando": https://youtu.be/ASYowEi6Y_g


Carlos Calado em seu blog Música de Alma Negra. Resenha publicada parcialmente no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 23/09/2014.



O projeto Jazz na Fábrica chega à sua terceira edição com mais de 30 grupos e solistas confirmados.

Acontece entre 1º de agosto e 1º de setembro no Sesc. Segundo os curadores, a proposta de programação da edição de 2013 é ilustrar um caminho entre o jazz produzido na África e na América Latina, daí a presença de nomes como Afrikhanita (Angola), Richard Bona (Camarões), Christian Galvez (Chile), Edsel Gomez (Porto Rico) e Álvaro Montenegro (Bolívia) na escalação deste ano.

Segundo os curadores, a proposta de programação da edição de 2013 é ilustrar um caminho entre o jazz produzido na África e na América Latina, daí a presença de nomes como Afrikhanita (Angola), Richard Bona (Camarões), Christian Galvez (Chile), Edsel Gomez (Porto Rico) e Álvaro Montenegro (Bolívia) na escalação deste ano.

Entre as estrelas norte-americanas, destaca-se o pianista McCoy Tyner, de 75 anos (ex-pianista de John Coltrane), que já veio sete vezes ao Brasil, a mais recente em maio do ano passado, quando excursionou pelo País com um quarteto. Virão também as cantoras Cassandra Wilson (que veio pela última vez em 2009, e cantou no Bourbon Street Music Club) e a soul singer Macy Gray (que volta acompanhada de uma big band liderada pelo saxofonista David Murray), além do organista Dr. Lonnie Smith (esteve aqui em 2008, no Citibank Hall), todos americanos, e o trompetista, pianista e compositor franco-libanês Ibrahim Maalouf. O trio Sun Rooms, de Jason Adasiewcz, entra numa programação de vertente mais experimental, que terá Rabotinik, Ivo Perelman e Duo Nazário (brasileiros) e Roscoe Mitchel (Estados Unidos), Et Hop (França) e No Square (Suíça). 

J.M. no Estadao.

Confira a programação completa: http://goo.gl/m6ldHh


A produção cinematográfica mais recente da América Latina e do Caribe é o destaque da 10ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, de 30 de julho a 5 de agosto. São cerca de 100 filmes, de 17 países, 21 deles ainda inéditos no Brasil.

Em entrevista à Agência Brasil, Francisco Cesar Filho, um dos diretores do festival, fez um balanço dos dez anos do evento. “O festival foi criado em 2006 com uma proposta de mapear a produção de forma expressiva do que é feito na América Latina e Caribe e, ao mesmo tempo, apontar futuros caminhos da cinematografia da região”, disse. “A ideia do festival sempre foi olhar para o cinema latino-americano de uma forma generosa e ampla e discutir o seu futuro”, acrescentou.

No início, lembrou ele, vários destes países tinham uma produção ainda incipiente, mas agora contam “com uma produção exuberante”, que não se restringe mais ao Brasil, Argentina e México, responsáveis por quase 400 longas por ano. “Hoje, Costa Rica, Peru, Uruguai e Venezuela exibem obras premiadas em festivais do mundo inteiro”, disse.

Os homenageados do festival este ano são os cineastas Hector Babenco, do qual serão exibidos O Beijo da Mulher Aranha (que rendeu o Oscar de melhor ator a William Hurt, além das indicações de melhor filme e diretor) e O Passado, seu último filme; e Lírio Ferreira, que terá seus filmes Baile Perfumado, Árido Movie, Cartola-Música para os Olhos, O Homem que Engarrafava Nuvens e Sangue Azul exibidos no evento.

Um dos destaques do festival é a pré-estreia de Ato, Atalho e Vento, de Marcelo Masagão, que utiliza trechos de 143 filmes em sua montagem. Entre os estrangeiros estão o chileno Mar, de Dominga Sotomayor, exibido nos festivais de Berlim e de Buenos Aires; e Ragazzi, do argentino Raúl Perrone, que foi exibido nos festivais de Buenos Aires, Roma e Cartagena.

Não há uma temática única no festival, mas Cesar Filho lembra que os filmes latino-americanos caracterizam-se, em geral, pela escolha de temas sociais e econômicos como pano de fundo. Segundo ele, os filmes "sempre deixam a gente deslumbrar a sociedade nas quais eles foram feitos", e no festival deste ano "há muitas questões pessoais colocadas diante de um fundo social”.

Além dos filmes, haverá também o seminário Caminhos do Audiovisual Latino-Americano no Século 21, entre os dias 3 e 5 de agosto, no Centro de Pesquisa e Formação do Serviço Social do Comércio (Sesc), para discutir as possibilidades e experiências com as novas plataformas digitais de circulação de produtos audiovisuais, além da coprodução internacional.

César Filho disse que o setor cinematográfico sempre discute o que está acontecendo e questiona os caminhos futuros. "Isso se traduziu nessa década de existência do evento, em laboratórios e encontros de coprodução, mesas de seminário e debates. E neste ano, vamos fazer um grande seminário internacional, com cinco mesas discutindo plataformas digitais, coprodução internacional e novas temáticas estéticas”, ressaltou.

A programação ocorrerá nas salas de cinema do Memorial da América Latina, Cinesesc, Cine Olido, Centro Cultural São Paulo, Cinusp Paulo Emílio, Cinusp Maria Antonia, Reserva Cultural, Espaço Itaú de Cinema e Cinemateca Brasileira. A entrada é gratuita, exceto no Cinesesc, que cobra ingressos de R$ 3,50 a R$ 12.

O site do Festival: http://www.festlatinosp.com.br/2015/

Por Elaine Patricia Cruz da Agência Brasil

 

O Centro Cultural Banco do Brasil mostra, em São Paulo, as obras nas quais o artista russo promoveu uma revolução.

Wassily kandinsky tinha 30 anos de idade e uma carreira promissora como professor de direito quando, em 1896, durante uma exposição de impressionistas na capital russa, avistou os montes de feno pintados por Claude Monet. O que o artista francês representava, o chão e o sol de arder, o russo quase poderia sentir. E se Monet havia reunido coragem para pintar seu pequeno grande universo, todas as emoções provenientes da terra, o vento e a cor, por que um moscovita não poderia fazer o mesmo com seus pincéis? Kandinsky se sentia renascer. Ele pertencia a uma aldeia também, aquela de sua origem familiar, e conhecera a expressão primitiva nos rituais siberianos. Ainda que a pintura representasse um luxo impensável para qualquer russo como ele, dedicaria a vida a concretizá-la, inspirado pelas revoluções que o precederam.

Em viagem à Alemanha, naquele ano, liberto do emprego que lhe roubava o ímpeto, sentiu na pele a efervescência das mudanças. E começou a procurar uma maneira própria de dizer as coisas. “Cada época tem sua meta interna e sua beleza externa. Não se deve mensurar a beleza que nasce agora com o medidor do passado”, escreveu. Entre a ruptura figurativa e a reverência à cor, entre a espiritualidade e a razão, durante cinco décadas de errância a partir desse evento, ele percorreu cidades europeias, movimentos e escolas para produzir os 153 trabalhos que a exposição Kandinsky: Tudo começa num ponto recupera agora. 

Depois de uma bem-sucedida passagem por Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a mostra finaliza a temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, entre 8 de julho e 28 de setembro, sem deixar de expor os objetos primitivos e xamânicos que ele fez representar desde o início figurativo. Especialmente, ali estarão suas telas em diversos suportes, da madeira ao vidro, além de xilogravuras que, embora possam indicar uma forte abstração, nunca estiveram tão distantes assim das figurações ligadas à terra natal.

O que exatamente Kandinsky procurava é a pergunta inquietante. Era um pensador, em primeiro lugar, movido a expor suas descobertas em ensaios e livros. E, principalmente, um artista que, ao pintar, recusava a ajuda dos pensamentos. Sua busca era a mesma de muitos músicos, dramaturgos e escritores daquele período. Por meio da arte, ele desejava descobrir o espírito, o elemento escondido a determinar todos os acontecimentos em nossas vidas. OGeist universal que os filósofos então lamentavam somente ser possível descobrir no futuro, ao olhar a história para trás. 

Era um futurista? Não, porque tal escola vanguardista, em lugar de procurar nosso íntimo, exaltava nosso exterior, o maquinário industrial, as ilusões do capital. Um cubista? Jamais, porque, ao redimensionar o espaço, os cubistas apenas renovavam a paisagem burguesa, não extrapolavam um estado paralisante de contemplação, não faziam com que o espectador entrasse no quadro em si. Kandinsky queria expressar o íntimo por acreditar que isso o uniria ao mundo. E esperava, enquanto isso, mudar o mundo.

“Prefiro definir a intenção de Kandinsky como uma busca positiva e não antirracionalista”, diz Eugênia Petrova, diretora científica do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, que, após empreender a exposição Vanguardas Russas, em 2009, organizou esta mostra a partir da trabalhosa reunião de 12 acervos. “Ele é revolucionário porque se empenhou em sintetizar a forma expressiva sem se amarrar a padrões racionais da representação. O importante para ele era o mundo espiritual, a transmissão de sensações a partir da força de elementos básicos como cor e composição.”

Em 1901, como um primeiro passo rumo a afinar seu ideário, ele fundou na Alemanha a Nova Associação Artística e, quatro anos depois, com Franz Marc, o grupo Der Blaue Reiter, título de uma de suas telas (O Cavaleiro Azul). Ainda nos moldes da arte figurativa, Kandinsky e os vanguardistas russos na Europa propunham diluir o objeto pintado na tela, enquanto cor e forma se tornavam protagonistas do quadro. Depois de ensinar na Bauhaus, a escola internacionalista em que os saberes de música, teatro, pintura e arquitetura se cruzavam, escreveu Ponto, linha e superfície, em 1925, para defender uma teoria da pintura. Segundo ele, o ponto era ao mesmo tempo o zero e o momento de intervalo entre o falar e o calar. Se uma força externa o deslocasse na superfície, nascia a linha. A superfície poderia ser movida no espaço, sobretudo por meio da cor. Um quadro presente na exposição intuiu a descoberta. No Branco, de 1919, propõe esse giro no espaço, uma experiência de libertação.

Era também uma teoria que Kandinsky desejava aplicada à música, pois ele ainda se lembrava do efeito que lhe causara Lohengrin, tão impactante como as telas de Monet. O fortíssimo acorde final daquela ópera de Richard Wagner, executado por uma enorme orquestra, equivalia para ele a uma “mancha vermelha”, facilmente associada aos poentes de Moscou. Depois de Lohengrin, Kandinsky passou a advogar a busca de um “som colorido”. Em outro livro, Do Espiritual na Arte, de 1912, comparou a pintura ao piano: “A cor é a tecla. O olhar, o martelo. A alma, o piano com inúmeras cordas”.

Tratava-se de uma busca adiante de todo o conhecido e praticado. Em São Jorge, de 1911, a energia do pincel via-se expressa por manchas de cor e um triângulo comprido e agudo. Havia desordem nos seus quadros, nunca confusão. São Jorge, um cavaleiro tantos vezes lembrado pela arte popular, deveria representar o espírito a mover o mundo. “A arte é o auge exclusivamente da área dos sentimentos, não do raciocínio”, passou a dizer.

Ele conta que sua compreensão do poder da arte não figurativa adveio de uma noite em que, ao entrar no ateliê em Munique, não conseguiu reconhecer uma de suas próprias pinturas. De cabeça para baixo, contudo, ela era uma obra “de extraordinária beleza, brilhando com um íntimo resplendor”. Contudo, não necessariamente buscava a abstração enquanto afinava o ouvido pictórico. As cúpulas das igrejas, o casario, os animais, as árvores e os contornos de Moscou poderiam quase sempre ser perceptíveis nos seus quadros. Mais importante do que isso, contudo, era compreender a dinâmica da cor. O amarelo, cor quente, irradia-se na direção do espectador, deslumbrando-o, enquanto o azul, frio, chama o homem ao infinito, despertando uma saudade da pureza, do suprassensível. Kandinsky mudou o mundo? Parece bastante constatar que o tornou profundamente bonito.

Por Rosane Pavam em CartaCapital.

 

O Anima Mundi chega à 23ª edição e vai trazer para São Paulo 450 animações, entre eles muitas pré-estreias. 

O festival, que já é o segundo maior do mundo no segmento, começa nesta sexta-feira (17) e vai até quarta-feira (22).

Entre os filmes selecionados, 108 são brasileiros. Há também produções da França (42), dos Estados Unidos (30),  da Alemanha (26), do Reino Unido (26), da Bélgica (20), do Canadá (14) e  da Dinamarca (12).

A mostra será marcada pela première nacional de ‘O Pequeno Príncipe’, produção francesa bastante elogiada em sua passagem pelo último Festival de Cannes. O diretor Mark Osborne virá ao 23º Anima Mundi apresentar o trabalho e falar sobre esta primeira adaptação animada do célebre livro de Antoine de Saint-Exupéry, que conta ainda com as vozes de Jeff Bridges, James Franco, Marion Cotillard e Benicio Del Toro. 

A pré-estreia acontecerá ao ar livre às 20h. Os ingressos serão distribuídos meia hora antes da sessão em uma fila formada na frente da Cinemateca. A Sessão é gratuita com lotação de 800 pessoas.

A edição de 2015 traz uma novidade: pela primeira vez, o festival terá uma premiação totalmente voltada para o mercado publicitário.

O Prêmio Publicidade Animada terá um júri composto por animadores e publicitários para escolher os melhores filmes publicitários que fizeram uso de técnicas de animação. Antes do resultado – que será anunciado dia 20 de julho em São Paulo –, os selecionados serão exibidos em uma sessão especial. Confira a programação completa no site do Festival: https://goo.gl/ZnSTn1

Serviço:

Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino
Sala BNDES – 210 lugares
Sala Petrobras – 108 lugares
Horário de funcionamento e bilheteria: 12h às 22h30
Ingresso: R$ 12,00 (meia en trada: R$ 6,00)

Caixa Belas Artes
Rua da Consolação, 2423
Sala Candido Portinari – 274 lugaresSala Aleijadinho – 144 lugares
Horário de funcionamento e bilheteria: 12h30 às 21h
Ingresso: R$ 12,00 (meia entrada : R$ 6,00)

Fonte: G1.

 


São Paulo a maior metrópole da América Latina, mudou nos últimos 20 anos. As elites se tornaram ainda mais segregadas e as classes médias e baixas se misturaram mais, num processo intimamente relacionado com o crescimento econômico, a distribuição de renda e o investimento governamental em políticas públicas nas áreas periféricas.

A análise é parte do livro "A metrópole de São Paulo no século XXI: espaços, heterogeneidades e desiguldades" (Ed. Unesp/CEM), organizado pelo professor de ciência política da Universidade de São Paulo (USP) Eduardo Marques, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM).

Para ele, o desafio da metrópole (e do país como um todo) é dar o passo seguinte ao da expansão universal das políticas públicas: melhorar a qualidade dos serviços ofertados, além de tornar a cidade mais compacta e criar subcentros de qualidade urbanística.

Pergunta: O livro mostra que as desigualdades diminuíram em São Paulo. Como foi esse processo?

Resposta: Nos últimos 20 anos, o período analisado, as desigualdades reduziram na cidade, mas se recompuseram. Elas foram organizadas em torno de outras dimensões, diferentes das de antes. A década de 90 foi muito negativa, em termos econômicos e sociais, mas a década de 2000, muito positiva. As políticas públicas, sobretudo nas periferias, foram se expandindo cada vez mais. Antes havia um problema de falta de políticas e agora há um problema de qualidade delas.

P. Em quais dimensões essas desigualdades se recompuseram?
R. Uma primeira dimensão é essa questão do acesso aos serviços. As desigualdades de gênero tenderam a se reduzir, mas as desigualdades raciais permaneceram. Os padrões gerais de segregação socioespacial na metrópole permaneceram relativamente estáveis. Tem aí um padrão de evitação e de segregação muito forte. As elites estão mais segregadas. As elites brancas mais segregadas ainda. E os grupos de menor renda e médios estão mais misturados.

P. As periferias se tornaram mais heterogêneas. Isso significa que as classes mais altas estão expulsando os pobres para mais longe?
R. Não. O que a gente tem na maior parte das periferias é uma combinação de três processos que não temos como separar. Primeiro, o processo de mobilidade ascendente, de baixa envergadura: filhos de trabalhadores manuais desqualificados não foram transformados em profissionais de nível alto e, sim, numa certa classe média baixa. Segundo, o processo de transformação dos próprios espaços, principalmente pela ação do Estado provendo infraestrutura —é um processo que ainda não está completo porque falta muito investimento para que as periferias tenham um padrão comparável ao conjunto da cidade, mas elas vêm melhorando muito; e tem uma terceira dimensão associada com a produção imobiliária pelo setor privado: na última década, especialmente em periferias consolidadas, nos subcentros, aconteceu uma atividade imobiliária expressiva do setor privado, orientada para a classe média baixa. Há ainda um quarto elemento, que é a presença nesses lugares dos condomínios fechados, que também produzem uma heterogeneização da periferia.

P. Você se refere aos condomínios de regiões como Barueri, Alphaville...
R. Isso. E mesmo nessas regiões há uma heterogeneidade razoável. Tem condomínios padrão de classe AAA, de altíssimo padrão. Mas também loteamentos com um padrão de classe média.

P. Por que a elite procurou se fechar em condomínios?
R. Primeiro pelo medo da violência e pela sensação de risco, que são fenômenos distintos da violência em si. Segundo, pela busca de um padrão de exclusividade. A sociedade brasileira continua sendo fortemente hierárquica e alguns grupos tentam experimentar uma sensação de exclusividade, se afastando da cidade. Isso não é só no Brasil. O fenômeno do condomínio fechado é das Américas e do Sudoeste da Ásia. Na Europa se tem muito pouco. A expressão em inglês para isso é gated community [comunidade murada]. Mas no caso norte-americano se tem uma ideia decommunity [comunidade] mesmo, com atividades que são comuns entre os moradores. Existe lá um condomínio na Flórida, para aposentados, com uma marina, e as pessoas que gostam de velejar se aposentam e vão morar lá para praticar uma atividade em comum. No caso brasileiro, o grau de comunidade nesses lugares é muito próximo do zero. O espaço público e as áreas de uso comum não são utilizadas. Não há nem calçada para pedestres.

P. Porque isso acontece no Brasil?
R. Pelo medo da violência e pela busca de uma sensação de exclusividade.

P. Uma certa parte da população hoje protesta contra equipamentos que poderiam democratizar seus espaços, como o metrô de Higienópolis, a abertura da avenida Paulista aos domingos, as ciclovias...
R. Contra essa questão do Palno Diretor do uso misto (comercial e residencial num mesmo bairro)... As áreas habitadas pela elite, em geral, se tornaram ainda mais exclusivas, mais homogêneas. A proporção relativa de elites morando em área de elite aumentou nessas duas décadas.

P. E abrir a Paulista aos domingos e criar um espaço gratuito para que diversas classes possam conviver, por exemplo, pode ser uma forma de reverter essa tendência de exclusividade?
R. Abrir o espaço público e produzir mais vida nesse espaço público é uma dimensão positiva, certamente. É louvável e deve ter todo o apoio político possível. Mas eu não sei se isso é exatamente uma solução para esse problema. O combate à segregação passa por produzir políticas que tornem a cidade mais compacta, constituam subcentros de qualidade urbanística em outros lugares, melhore os transportes, especialmente o público. Para que a cidade melhore tem que combinar essas políticas, como as que a Prefeitura vem fazendo com o Plano Diretor, com as políticas de transporte. A segregação produz um efeito de distanciamento muito grande dos grupos.

P. A segregação produz o preconceito entre as classes?
R. Uma coisa é irmã da outra. A segregação produz o preconceito, mas também é produzida por ele. E tudo o que estamos falando agora são processos de transformação bastante lentos. Mexer na segregação e, especialmente, no preconceito, leva muito tempo. Não são transformações que acontecem da noite para o dia.

P. É possível projetar o que acontecerá daqui pra frente, com a crise econômica e os ajustes?
R. É muito arriscado fazer esse exercício, porque depende da duração e da intensidade dos ajustes. Se for um ajuste com uma intensidade e uma duração similar ao dos anos 90, pode se ter efeitos muito negativos. Mas isso depende muito do tamanho e da extensão da duração.

P. Esses efeitos negativos, em termos espaciais, se configurariam como?
R. Eles têm a ver, por um lado, com a redução de uma disponibilidade de recurso para políticas, um aumento da redução do ritmo de melhora da infraestrutura porque o Estado tem menos recurso para as políticas, nos três níveis de Governo. E, além disso, o mercado de trabalho piora, as pessoas têm menos renda. Então, as soluções habitacionais se tornam mais precárias, a favelização aumenta, o encortiçamento aumenta...

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Talita Bedinelli no El País.

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