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O Memorial da América Latina, em parceria com o Museu Oscar Niemeyer (MON), abre para o público, a exposição de fotografias “União Soviética através da câmera”. A mostra, que reúne cerca de 200 imagens em preto e branco de seis importantes fotógrafos da União Soviética, fica em cartaz na Galeria Marta Traba até 15 de fevereiro, com entrada gratuita de terça a domingo, das 9h às 18h.

As fotografias são do período que vai de 1956 – ano em que Nikita Khruschev denuncia os crimes cometidos por Josef Stalin (morto em 1953) e as tropas soviéticas invadem a Hungria – a 1991, quando se configura a dissolução da União Soviética.

“É gratificante para o Memorial a oportunidade de compartilhar com o público em geral o registro iconográfico de um período tão marcante como foi o processo de transição geopolítica do bloco soviético, iniciada com a desestalinização promovida por Khruschev e chegando até a reforma de Gorbatchev, que culminaria com a dissolução da URSS”, afirma o cineasta e escritor João Batista de Andrade, presidente do Memorial da América Latina.

Foto 'After Church', de Antanas Sutkus, está em exposição no Memorial da América LatinaFoto 'After Church', de Antanas Sutkus, está em exposição no Memorial da América Latina

Foto: Antanas Sutkus / Divulgação.

Para retratar este ambiente, os curadores selecionaram obras de alguns dos mais importantes fotógrafos da URSS: Viktor Akhlomov, Yuri Krivonossov, Antanas Sutkus, Vladimir Lagrange, Leonid Lazarev e Vladimir Bogdanov. Os curadores explicam a linha da mostra: “Através do olhar de seis fotógrafos diferentes, a exposição propõe uma reflexão sobre a vida cotidiana deste ‘ país fantasma’, do Degelo de Khruschev à Perestroika de Gorbatchev, bem como o papel singular exercido pela fotografia na sociedade soviética pós-stalinista”.

Foto: Vladimir Lagrange / Divulgação.

 

Serviço

"A União Soviética através da câmera".

De 6 de janeiro a 15 de fevereiro de 2016.
Memorial da América Latina – Galeria Marta Traba - ao lado do Metrô Barra Funda.
Terça a domingo – das 9h às 18h.
Entrada gratuita.

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Fonte: Assessoria de Imprensa.

 


São 10 mil itens, que formam a maior coleção de uma companhia privada na América Latina. O acervo engloba obras de arte, documentos, objetos e livros, que retratam vários momentos da história do Brasil. Parte de tudo isso estará à disposição de crianças em São Paulo. 

Ao longo de todos os fins de semana de janeiro, o público pode viajar pela história no Espaço Olavo Setubal, no Itaú Cultural. O espaço, que existe desde 2014, receberá visitas guiadas e gratuitas para ver as 1.300 obras expostas, pertencentes às coleções Brasiliana e Numismática. Há obras de artistas como como Frans Post, Rugendas e Debret, além das primeiras edições de escritores como Machado de Assis e Castro Alves. 
 
Há ainda ilustrações de indígenas feitas pelos primeiros portugueses que desembarcaram em nossa costa na época do Descobrimento e outros objetos colecionados por Setubal (que viveu entre 1923 e 2008) desde 1969. 
 
Há seis diferentes possibilidades temáticas para conhecer o espaço: os visitantes podem saber mais sobre as aves brasileiras, conhecer cenários da paisagem do país, usar um mapa para colher pistas através dos elementos da coleção, brincar de jogo da memória com a história do Brasil ou explorar o desconhecido de forma investigativa, como se fossem navegadores europeus se lançando ao mar. 
 
Cada atividade apresenta um recorte diferente, e todas buscam interagir com o público e seus sentidos, trazendo propostas dinâmicas que vão além da mera observação das peças. As visitas são guiadas e, por meio de uma conversa, as crianças e suas famílias decidem qual caminho querem seguir no acervo. 

Serviço

Espaço Olavo Setubal.
Onde: Itaú Cultural - Av. Paulista, 149 - 4º e 5º andar.
Quando: até 31/1; sáb. e dom., das 16h às 17h.
Quanto: grátis.

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Fonte: Folhinha.
 

 
A partir do dia 25, a sala expositiva do terceiro andar do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo será visitada como se fosse um “templo da arte moderna” – nela, apenas três pinturas do holandês Piet Mondrian, duas de 1921 e uma de 1937, apresentarão para o público brasileiro o auge do neoplasticismo desenvolvido pelo artista (e talvez elas estejam acompanhadas de um pouco de jazz ao fundo, uma paixão do pintor).

Já seria um grande fato a exibição, no País, dessas históricas composições feitas de linhas verticais e horizontais cruzadas e de blocos quadriláteros vermelhos, amarelos e azuis. Entretanto, as três telas, pertencentes ao Museu Municipal de Haia, na Holanda, integram um conjunto de cerca de 100 obras da mostra Mondrian e o Movimento De Stijl, que será apresentada até 4 de abril para o público paulistano e depois seguirá para Brasília, Belo Horizonte e Rio, onde encerrará sua itinerância em janeiro de 2017.
 
Para Piet Mondrian (1872-1944), o neoplasticismo era a expressão plástica do que considerava ser o “reconhecimento da emoção da beleza” – “cósmica”, escreveu em 1917, ela só poderia ser manifestada por meio de formas e cores “universais”. “O neoplasticismo não pode, portanto, manifestar-se como uma representação (natural) concreta, a qual sempre se refere mais ou menos ao individual”, definiu o holandês no ensaio publicado naquele ano na revista De Stijl (O Estilo), ligada ao movimento homônimo fundado por ele e pelo artista e arquiteto Theo van Doesburg (1883-1931).
 
“Mondrian tinha na cabeça o ideal de criar uma arte que faria algo para a humanidade”, diz Pieter Tjabbes, curador da exposição, ao lado de Benno Tempel, diretor do Museu Municipal de Haia, e Hans Janssen. A mostra, feita em parceria com a instituição museológica holandesa e a produtora Art Unlimited, da qual Tjabbes é sócio-diretor, tem caráter didático e apresentará não apenas todo o percurso do pintor holandês até o abstracionismo geométrico neoplasticista, como também os preceitos e as criações em diversos meios (fotografia, design, arquitetura e tipografia) de outros importantes artistas relacionados ao movimento De Stijl (pronuncia-se De Stél), entre eles, o arquiteto Gerrit Rietveld (1888-1964), autor da famosa cadeira de 1917/23 em vermelho, azul e com detalhes em amarelo, o designer Piet Zwart (1885-1977) e o pintor Bart van der Leck (1876- 1958).
 
Foram cinco anos de negociações para que o Museu Municipal de Haia emprestasse, por um ano, as obras de sua prestigiada coleção para a exposição brasileira. “Hoje, a coleção de Mondrian deles é imbatível, nenhum outro tem tanta variedade e quantidade”, conta Pieter Tjabbes. O curador e produtor refere-se, principalmente, ao fato de a instituição holandesa ter um acervo expressivo sobre o caminho do pintor holandês desde a arte acadêmica e tradicional até o abstracionismo neoplástico – isso ocorreu graças à aquisição, anos atrás, de peças do colecionador Sal Slijper, mecenas de Mondrian – o autorretrato do artista presente na mostra foi pintado em 1918 a pedido do amigo.
 
Pieter Tjabbes, curador da mostra 'Mondrian e o movimento De Stijl', no CCBB-SP

Pieter Tjabbes, curador da mostra 'Mondrian e o movimento De Stijl', no CCBB-SP. Foto: Hélvio Romero / Estadão.
 
Mondrian e o Movimento De Stijl é composta de dois eixos. O primeiro, dedicado ao pintor holandês e com cerca de 30 de suas criações, apresenta desde as composições figurativas do início de sua carreira, como a pintura de 1895/99, que representa uma fábrica de velas de cera à noite, até a neoplástica Composição de Linhas e Cor III, de 1937, que tem apenas um pequeno retângulo azul pintado entre retas cruzadas em preto sobre fundo branco. 
 
Desde o começo interessado na relação das formas, Mondrian vai clareando sua paleta de cores e seu percurso figurativo também revela algumas influências como o pontilhismo de Seurat. “Ele pensava em volumes e as cores tinham para ele um efeito seja de retração ou de avanço”, explica Pieter Tjabbes. Quase como uma aula, a mostra também toma a figura da árvore, um tema caro a Mondrian e que vai se tornando cada vez mais estilizada (tronco e galhos viram elementos horizontais e verticais), para explicar o caminho do artista até a abstração – ou sua “busca por uma imagem espiritual”, diz o curador. 
 
A árvore é também um símbolo de um percurso “idealista de fundo filosófico-religioso” do artista. “A teosofia é um fio condutor na vida de Mondrian”, afirma Tjabbes. A doutrina, que sintetiza as religiões do mundo, explica o curador, tem como princípio a ideia de que uma grande energia permeia tudo e todos os seres – Deus seria, portanto, uma unidade. 
 
O segundo eixo da exposição, dedicado ao De Stijl (1917-1931), é multidisciplinar, mas suas obras mostram o mesmo idealismo. “É um movimento utópico, eles queriam mudar o mundo, a vida das pessoas, envolver a humanidade”, explica o curador. 
 

'Trio', criação tipográfica de 1931 do designer Piet Zwart. Imagem: Gemeentemuseum, Dan Haag / Divulgação.
 
 
Mondrian e o Movimento de Stijl. 
CCBB-SP. Rua Álvares Penteado, 112, Centro, tel. 3113-3651.
4ª a 2ª, 9h/21h. Até 4/4. 
Abertura no dia 25/1.
Grátis.
 
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Camila Molina / O Estado de S.Paulo.
 


A partir deste sábado (12), o quarto andar da Estação Pinacoteca receberá a exposição “Territórios: Artistas Afrodescendentes no Acervo da Pinacoteca”, que apresentará ao público importantes obras assinadas por artistas brasileiros. São 106 obras entre pinturas, gravuras, desenhos, esculturas e instalações que traçam perfis diferentes da produção artística de afrodescendentes no Brasil, do século XVIII até hoje.

Tadeu Chiarelli, diretor geral da Pinacoteca e curador da exposição, afirma que o objetivo da mostra é traçar uma reflexão sobre a presença de artistas afrodescendentes na coleção do museu, ampliada recentemente com obras de artistas contemporâneos.

“Com a entrada para o acervo da Pinacoteca dos primeiros trabalhos de jovens artistas brasileiros afrodescendentes, surgiu a ideia de formular uma exposição que os articulassem em relação àqueles já existentes no acervo. Seria uma estratégia para a instituição refletir sobre parte de sua história e, ao mesmo tempo, rever obras produzidas por artistas afrodescendentes já existentes no acervo, à luz dos recém-chegados”, afirma.

Em cartaz até o dia 17 de abril de 2016, a exposição é dividida em três partes: Matrizes Ocidentais, Matrizes Africanas e Matrizes Contemporâneas. Nelas estão pinturas, gravuras, desenhos, esculturas e instalações. 

Entre os trabalhos em exposição está a primeira obra de um artista negro recebido pela Pinacoteca: o “Autorretrato”, produzido em 1908 por Arthur Timótheo da Costa, doado em 1956. Os demais trabalhos expostos são de artistas como Arthur Timótheo da Costa, Mestre Valentim, Antonio Bandeira, Rubem Valentim, Jaime Lauriano, Rosana Paulino, Rommulo Vieira Conceição, Paulo Nazareth, Firmino Monteiro e Flavio Cerqueira.

Miguelzinho Dutra Itu, SP, 1810 – Piracicaba, SP, 1875 Sem título, entre 1830 e 1875. Imagem: divulgação.

 

Serviço

“Territórios: Artistas Afrodescendentes no Acervo da Pinacoteca”.
Onde: Estação Pinacoteca, Largo General Osório, 66.
Horário: de terça a domingo das 10 às 17h30 – com permanência até às 18h.
Ingresso: R$ 6,00 (inteira) e R$ 3,00 (meia).

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Fonte: Pinacoteca e Brasil de Fato.


Mais de 50 editoras independentes se reúnem neste fim de semana, no Sesc Pompeia, em São Paulo, para a quarta edição da Feira de Publicações Independentes, que este ano recebe o nome de Avessa. Os expositores ficam na rua central do espaço no sábado, 12, e no domingo, 13, a partir das 14h.

Uma série de minicursos e oficinas também é oferecida pelo Sesc - Clara Averbuck e a artista plástica Eva Uviedo ministram uma oficina sobre o processo criativo e a relação entre escritor e ilustrador, na próxima quinta-feira, 17; João Varella, escritor e editor da Lote 42, dá uma oficina de escrita criativa no domingo, 13; nesta sexta, o quadrinista Dalton Correa ensina técnicas básicas de produção e edição de quadrinhos. Lourenço Mutarelli, Bia Bittencourt e Vanderley Mendonça também dão seus cursos, estes já com as inscrições esgotadas.

A realização de feiras é um movimento importante para o mercado independente porque permite um diálogo constante dentro do meio, na avaliação da editora Rachel Gontijo Araújo, de A Bolha, do Rio, que participa da Avessa no fim de semana.

"O mercado editorial brasileiro foi feito para que iniciativas como A Bolha não sejam bem sucedidas", diz, de Brasília - onde está trabalhando na produção do novo projeto da editora, do artista visual argentino Federico Lamas. Apesar disso, há resistência: sua editora existe há quatro anos.

Sobre as "infelicidades constantes" que dificultam a produção independente e de qualidade no País, ela cita políticas institucionais excludentes (como os descontos exigidos pelas redes de livrarias e a demora nos pagamentos), sistemas de distribuição estruturados só para grandes tiragens e uma falta de sensibilidade de investidores, que não dão o mesmo valor para iniciativas editorais independentes quanto para startups de tecnologia, por exemplo.

"Existe uma ideia de que a parte cultural não contribui com a economia, que não traz tanto retorno financeiro, e na verdade obviamente traz e é complementar", diz. Ela relata um crescimento frequente do mercado independente norte-americano nos últimos anos e a relação que os grandes grupos editorais dos EUA têm com os empreendimentos menores - a ideia de A Bolha surgiu quando Rachel concluía um mestrado em Chicago, e hoje a editora também atua no mercado norte-americano, com traduções de Hilda Hilst. "As editoras grandes dão espaço, criam selos, tentando ir atrás das inovações estéticas do mercado independente, e eu não vejo a mesma seriedade e abertura no Brasil", comenta.

"Olhar para essas movimentações com mais respeito é importante para um país, para que se tenha um sistema econômico mais saudável", opina.

"O próprio nome da Feira deste ano (Avessa) tem uma série de significados", explica o coordenador de programação do Sesc Pompeia, Thiago Freira, "e um deles é o fato de essas editoras não estarem alinhadas com as práticas do mercado e de distribuição comum".

Destaques

Selo Demônio Negro 
Selo paulistano do editor Vanderley Mendonça, que edita artesanalmente sob demanda. 
Polvilho Edições 
Faz com a Pipoca Press e a Pingado o que se chama de ‘os 3 Ps do mercado independente’.
A Bolha Editora 
Editora carioca se recupera de um incêndio que atingiu sua loja em Botafogo, em novembro. 
Big Sur Books 
Uma das representantes do mercado latino-americano que estarão na Avessa, é uma editora independente da Argentina.
 
Feira de Publicações Independentes - Avessa.
Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, telefone 3871-7700. 
Sábado e domingo, a partir das 14 h. 
Grátis
 

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As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. 


Como a moradia passou de direito a ativo financeiro? Por que este novo modelo, tão dependente de construtoras quanto de empréstimos bancários, foi implementado no Brasil justamente no governo Lula, em 2009, no programa Minha Casa, Minha Vida?
 
Essas são duas das várias perguntas difíceis cujas respostas, tão reveladoras quanto complexas, estão no livro "Guerra dos Lugares - A Colonização da Terra e da Moradia na Era das Finanças", da professora da USP e colunista da Folha Raquel Rolnik.
 
O lançamento será na quarta (9/12), com debate e sessão de autógrafos no Centro Maria Antônia, em São Paulo. A obra tem relação íntima com a experiência da urbanista como relatora especial das Nações Unidas para o Direito à Moradia Adequada, cujo mandato durou seis anos, e teve início em 2008, ano em que estourou a crise hipotecária e financeira, ligada à questão habitacional.
 
Com isso, Rolnik viu de perto efeitos da crise no território americano e em lugares tão longínquos quanto o Casaquistão, onde a falência de construtoras turcas levou quem havia pago por um apartamento que não receberia a fazer greve de fome.
 
"Desenrolei um novelo que evidenciou uma mudança radical de paradigma dentro do campo da política habitacional", diz Rolnik. Segundo ela, a moradia como direito proporcionado pelo Estado se transformou em mercadoria consumida individualmente e em ativo financeiro.
 
"A habitação se tornou uma nova fronteira para o mercado financeiro e expôs a casa das pessoas, o lugar básico de vivência, à volatilidade do fluxo internacional de capital e a seus riscos."
 
De que maneira o livro "Guerra dos Lugares" está ligado a sua experiência como relatora especial das Nações Unidas para o Direito à Moradia Adequada? 
Raquel Rolnik - Impossível entender o livro sem entender o mandato -um mecanismo externo do Conselho de Direitos Humanos da ONU para monitorar a implementação de tratados e pactos. Em seis anos como relatora especial, fiz missões em vários países e encontrei tanto autoridades locais quanto comunidades que acreditavam que seus direitos estavam sendo violados. Logo no primeiro ano do mandato, em 2008, estourou a crise hipotecária-financeira, intimamente ligada ao tema da moradia. A crise virou tema de um relatório especial. Essa experiência virou minha tese de livre docência, que virou o livro. 
 
De que maneira a crise de 2008 direcionou seu olhar sobre a questão da moradia durante o mandato na ONU?
Logo que a crise estourou, fui para os EUA não só para ver os efeitos da crise sobre a moradia, as execuções hipotecárias e as pessoas que ficaram sem ter onde morar mas também para estudar as origens desta crise.
 
Descobri, seguindo este rastro, que no Casaquistão -ou seja, do outro lado do mundo, na Ásia, numa ex-república soviética- havia gente fazendo greve de fome por causa da crise hipotecária. A crise havia causado a falência das construtoras turcas, que pegaram seu dinheiro e foram embora, deixando as pessoas que pagaram por seus apartamentos sem casa. 

E eu comecei a desenrolar um novelo mostrando como nos últimos 30, 40 anos, a gente viveu uma mudança radical de paradigma dentro do campo da politica habitacional.
 
Que mudança é essa? 
É a mudança da ideia de moradia como direito proporcionado em distintas maneiras e formas pelo Estado, para o conceito de moradia como mercadoria consumida individualmente e como ativo financeiro, ou seja, como uma das novas fronteiras abertas para a financeirização do capital. 

E vi as distintas versões desta mudança de paradigma pelo mundo e no Brasil, com a criação do Minha Casa, Minha Vida [programa habitacional do governo federal], que tem tudo a ver com essa nova lógica. São mudanças na política de moradia, mas também no tratamento da terra urbana e políticas fundiárias.

Como a moradia passou de direito a ativo financeiro? 
Essa mudança tem duas dimensões: a de destruição da ordem anterior e a de construção de uma nova ordem. Houve um desmonte das políticas de moradia nos países que tinham algo deste tipo, como Reino Unido e diversos países da Europa. Mesmo os EUA, que sempre promoveram a casa própria via hipoteca, tiveram desde o New Deal atividades importantes de construção de conjuntos habitacionais integralmente financiados pelo Estado, com aluguel subsidiado. E há os casos mais radicais, como nos países do comunismo e socialismo real, onde o Estado construía massivamente conjuntos habitacionais públicos, coletivos ou cooperativados.

No caso inglês, que é pioneiro, o desmonte ocorre via privatização deste estoque habitacional, vendido a preços módicos para quem morava lá. Ao transformar a classe trabalhadora em proprietários de imóveis, o partido conservador e o Tatcherismo [era em que Margareth Tatcher era primeira-ministra do Reino Unido, de 1979 a 1990] penetraram com tudo nas bases do partido trabalhador.

A Espanha, que nunca teve política de moradia, tinha controle de aluguel e proteção de inquilinos. E isso também foi desmontado. Então, a única política que foi sendo construída no lugar de várias que existiam foi a compra do imóvel individual via crédito bancário. É o paradigma dominante no mundo todo.

Onde está a financeirização neste novo paradigma?
Na medida em que a moradia se torna um produto que é comercializado, o mercado é ampliado. Como se trata de um produto caro, é necessária a intermediação financeira, ampliando fronteiras para o capital.

No âmbito da globalização do mercado financeiro, a partir do final dos anos 1970, passa a haver grande quantidade de capital pairando sobre o planeta e procurando novos campos para investimento. A produção residencial se tornou um desses novos campos para a atuação do capital financeiro global.

Tem uma ideia do economista norte-americano Nouriel Roubini que se aplica em alguns desses casos: a moradia como um caixa eletrônico. Como ela se torna um ativo territorial, funciona como garantia para empréstimos. E isso gerou um mercado primário e um mercado secundário de hipotecas, que foi empacotado junto a outros produtos e girou de mão em mão para gerar juros e estourar na crise financeira-hipotecária de 2008.

Como existe um processo de arrocho salarial histórico, uso dos ativos da própria moradia acaba servindo para financiar o consumo: comprar carro, faculdade dos filhos etc. Com isso, a casa das pessoas, o lugar básico de vivência das pessoas, passou a estar exposto à volatilidade do fluxo internacional de capital e a seus riscos. Na hora que vem uma crise, perde-se tudo, inclusive a casa.

E como a moradia era vista antes dessa mudança? Já não existia o "sonho da casa própria"?
Essa experiência varia muito de um país para outro. Mas a ideia de casa própria não é nova em absoluto. Nos 1964, no Brasil, quando foi criado o BNH (Banco Nacional de Habitação), seu lema era fazer de cada trabalhador um proprietário. Isso tem um sentido ideológico.

Em boa parte da Europa e certamente nos países do Leste Europeu, havia a ideia de que você não precisava ser proprietário de uma casa, mas tinha de ter acesso a ela de forma adequada e independente de sua renda. Essa relação passou a ser de proporcionalidade entre o que você ganha, o lugar onde você mora e a rentabilidade que aquela moradia pode prover.

Nada parece ter mudado neste modelo desde a crise de 2008.
A reação dos governos foi salvar os bancos e não rever suas políticas habitacionais. A resposta à crise hipotecária foi mais do mesmo. Houve, aqui e ali, o surgimento de algum tipo de controle do mercado de hipotecas. Historicamente, há uma parcela da população, de menor renda, que não tem acesso a propriedade privada individual e a hipoteca. E os mecanismos subprime [créditos de risco] surgiram para integrar essas populações ao mercado. Quando mais arriscado é o empréstimo, mais juros são cobrados.

Como o Brasil se insere neste contexto?
O aumento da disponibilidade de crédito e da dinâmica econômica que o país passou recentemente, aliado a zero política fundiária capaz de controlar preços e fazer reservas, teve como efeito um enorme boom nos preços dos terrenos e dos imóveis. Isso aconteceu em todas as grandes cidades. Há uma grande discussão se isso é ou não uma bolha etc., mas esse crescimento deu uma parada em função da atual recessão. Ainda assim já foi suficiente para aprofundar a crise da moradia no Brasil. Em qualquer capital, a narrativa nos movimentos sem-teto se repete: "Eu pagava aluguel e começou a ficar muito caro, aí eu fiquei sem ter pra onde ir e vim pro movimento etc.".

Qual o efeito disso sobre a cidade? 
A política de produção massiva de moradias nas periferias se aliou à financeirização da terra urbana e da política urbana. E aí estamos falando de outro processo: grandes projetos de transformação urbana que produziram a remoção ou o deslocamento dos setores mais vulneráveis das cidades ao mesmo tempo em que a produção em massa de moradia funcionou como alternativa para que esses deslocamentos pudessem se dar. E isso não é só no Brasil. Ocorre também na Turquia e em vários países também. 
 
No Chile, cujo modelo o Brasil copiou, é o Estado quem paga o cidadão para que ele adquira um produto porcaria que o mercado está oferecendo para ele. Por que o produto ofertado neste esquema de produção em massa pelo mercado, financiado pelo Estado, é de quinta categoria. Embora seja uma casa com condição mais confortável, com água encanada e luz, ela está situada em uma localização muito pior. Como há um teto para o valor do financiamento, só tem uma maneira de as construtoras ganharem dinheiro: comprando uma terra de quinta. É uma terra ou contaminada ou no meio da zona rural ou longe da cidade, portanto, sem infraestrutura, o que dificulta o acesso das pessoas que vão morar nela a outros direitos. Estruturalmente esses modelos produzem guetos. 
 
Os conjuntos do Chile são os locais hoje de grande concentração de todo tipo de problema social: violência doméstica, crime, dependência de drogas etc. Eles estão demolindo parte desses conjuntos. 
 
De que maneira o Minha Casa Minha Vida é um espelho deste novo paradigma? 
O programa é muito parecido com modelo chileno, e as favelas removidas tem seus moradores deslocados para esses conjuntos habitacionais. No Brasil há um diferencial: a faixa um de financiamento do programa, para população que recebe de um a três salários mínimos, é praticamente toda subsidiado pelo governo. É uma casa dada. Só que isso gera outro problema: como manter esses condomínios, essas novas casas próprias, se seus moradores ganham zero, meio, um salário mínimo? Isso não se sustenta e só mostra que não dá pra termos um modelo único na área de moradia. 
 
O Minha Casa, Minha Vida se sobrepôs a outros programas?
Várias cidades tiveram políticas locais de moradia e abandonaram tudo. Hoje só tem Minha Casa Minha Vida porque ele traz vantagens para as prefeituras, que fica com os dividendos políticos e não têm ônus de organizar, encontrar terra, construir etc. Também só traz vantagens para o setor privado, que tem certeza de retorno porque o governo dá dinheiro para as pessoas comprarem seu produto. Até o governo do PSDB acabou com sua produção de moradia no CDHU [Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano] para pegar carona no Minha Casa, Minha Vida!
 
Por que é justamente em 2009, na segunda gestão Lula, que se dá esse processo no Brasil? 
Eu fui pesquisar as origens da relação entre o sindicalismo e o complexo imobiliário-financeiro. Historicamente, o campo imobiliário foi um dos grandes setores de investimentos dos fundos de pensão e foi por aí que ocorreram os primeiros vínculos entre o complexo imobiliário-financeiro e as lideranças sindicais, portanto, partidárias. 
 
Essa relação se deu pela luta do movimento sindical para estar na direção dos fundos de pensão dos trabalhadores, na década passada, o que gerou a conexão destes atores sindicais, gestores dos fundos, com o setor imobiliário. 
 
Estou falando da gênese desta relação no campo urbano, que é aquele que eu pude observar. E isso ajuda explicar por que e como justamente na era Lula se dá essa financeirização do mercado imobiliário. 
 
Como megaeventos como a Rio 2016 vão impactar a moradia no Rio de Janeiro? 
Esse processo que eu descrevo no livro vem acompanhado de uma fragilização de todo tipo de vínculo com a terra que não a propriedade individual registrada, ou seja, as formas tradicionais de posse, as áreas habitadas por populações tradicionais (ribeirinhos, quilombolas, povos indígenas, assentamentos informais) etc. 
 
Isso porque a propriedade privada individual registrada é aquela completamente adaptada à linguagem das finanças, que pode servir de lastro para empréstimos e que pode circular no mercado financeiro internacional. 
 
Como transacionar uma terra coletiva de uma comunidade?
Impossível! O Morro da Providência, por exemplo, tem cem anos de ocupação. Mas ele é visto pela política urbana atual como um espaço ambíguo no sentido de que nunca está claro se é permanente ou se a população vai sair, se é regular ou irregular. Essa resposta nunca é dada porque a ambiguidade permite que esses locais funcionem como reservas de terras potenciais para expansão do capital financeiro no momento oportuno. Os megaeventos funcionam como catalizadores deste processo.

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Fernanda Mena na Folha de S.Paulo.
 
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