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O Grupo Esparrama, famoso por realizar intervenções cênicas na janela de um apartamento em frente ao Minhocão, se apresenta pela primeira vez na Avenida Paulista, outro espaço fechado para os carros e aberto para a população aos domingos. A apresentação do espetáculo ‘2POR4’, que trás a divertida disputa entre dois palhaços pela regência de um quarteto de cordas, acontecerá em frente ao prédio da FIESP/SESI-SP, dentro da programação do projeto Domingo na Paulista, que visa oferecer uma programação variada para o público paulistano que frequenta a Avenida Paulista, aos domingos.

Após essa apresentação, o grupo inicia uma temporada em diversas cidades, que integram o projeto Viagem Teatral 2016, do SESI-SP, passando por Rio Claro, Santos, Mogi das Cruzes, Marília, Franca, Osasco, Mauá, Sorocaba, São José do Rio Preto, Birigui e encerrando a sua jornada na cidade de Campinas.
 

O projeto propõe uma aproximação da criança com o universo da música instrumental e suas características básicas, buscando sensibilizá-la para uma melhor apreciação da música erudita, ampliando sua escuta, a partir de um repertório já conhecido (cancioneiro folclórico e trechos de obras de compositores clássicos como Mozart, Beethoven e Vivaldi).

Junto com os palhaços/maestros que competem pela regência, o espetáculo conta com a participação de um quarteto de cordas (dois violinos, uma viola e um violoncelo) que é um grupo de instrumentos que carrega na sua formação a síntese de uma orquestra.

O espetáculo utiliza canções da herança cultural popular, como “Marcha soldado” e direciona o público a conhecer e relembrar esse legado musical que carrega um valor histórico, sociológico e educacional. Além de trazer toda essa ação para o universo lúdico, com os palhaços como mediadores e uma inusitada performance de um deles como cantora lírica, que promete surpreender o público.

Em 2015, o espetáculo 2POR4 recebeu duas indicações e foi contemplado com um dos principais prêmios de teatro infantil e jovem da América Latina: 
Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem. A maestrina Ester Freirerecebeu uma indicação como “Melhor Trilha Sonora Adaptada” e o diretor Kleber Brianez, foi premiado na categoria “Revelação”.

Criado em 2012, o Grupo Esparrama tem como base de pesquisa o estudo do palhaço e das estruturas cômicas em suas variadas expressões nas artes cênicas (rua, palco convencional, intervenções, etc.). Fazem parte da trupe Iarlei Rangel, Kleber Brianez, Ligia Campos, Luciana Gandelini e Rani Guerra.

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Fonte: Grupo Esparrama e Quarteto 2POR4.

 


Era o melhor e o pior dos mundos. Em 1917, a Revolução Soviética prometia ensejar uma sociedade justa, enquanto a violenta Primeira Guerra Mundial, iniciada três anos antes, enterrava as esperanças em uma nova humanidade.

O pintor Pietr Mondrian recusava-se a sucumbir. Embora tivesse desistido dos estudos impressionistas em Paris tão logo o conflito eclodira, insistia ainda nas ideias de mudança na Holanda natal, país cuja luz ele mostrara divergente nas paisagens escuras.

Aos 45 anos de idade, junto a expoentes locais da arquitetura e da arte como Theo van Doesburg, Piet Zwart, Thomas Gerrit Rietveld ou César Domela, decidia operar a revolução dentro da cultura envelhecida.

Ele inseriria a arte na normalidade de seus dias, no desenho dos objetos cotidianos. Com isso, diria não à violência e sim à razão, esta que entendia situada no caminho oposto ao da guerra. 

Piet Mondrian em seu ateliê (1933). Foto: Charles Karsten. Acervo: Gemeentemuseum Den Haag.

Seu ímpeto racional quase se assemelhava a uma espiritualidade. Naquele ano, ao lado de  Doesburg, e distante do marxismo dos soviéticos, fundaria o movimento O Estilo (De Stijl em holandês) para debater e aprofundar esses preceitos.

Os colaboradores da revista homônima, que durou até 1928, declaravam-se neoplasticistas. Lidavam  com as linhas a basear todo o desenho dos objetos e com suas cores básicas, o vermelho, o amarelo  e o azul. E, ao buscar esse desenho universal da vida, desejavam imunizar a cultura de qualquer  impureza.

Abominavam o nacionalismo, que faziam equivaler a uma infecção, e admiravam a arquitetura do americano Frank Lloyd Wright, que com ele idealizara uma nova geometria do espaço. Dois anos depois surgiria na Alemanha a escola Bauhaus, em semelhantes moldes vanguardistas, mas a reivindicar o fim do mercado da arte.

Os neoplasticistas não se entendiam revolucionários nesta medida, nem mesmo professores como os da Bauhaus, escola fechada em 1933     pelos nazistas. Muito distantes dos organizados alemães,  contudo, os fluidos holandeses trabalhavam incessantemente

Uma centena de suas obras cujos conceitos basearam o design industrial contemporâneo estará exposta no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, a partir do dia 25, até 4 de abril.

Pintura número 4, composição 3 (1913). Imagem: divulgação.

O curador Pietr Tjabbes, holandês há três décadas no Brasil, responsável por curadorias internacionais da Bienal Internacional de Arte de           São Paulo e por retrospectivas como a do artista M. C. Escher há quatro anos, fez a seleção das peças. Em Haia, Tjabbes morava a poucas     quadras do Museu Mondrian, o Gemeentemuseum Den Haag, de onde elas partiram.

Nesta exposição paulistana, Mondrian e o movimento de Stijl, 30 obras são de autoria do artista, desde suas sombrias paisagens holandesas até as primeiras experiências que, mesmo geométricas, sugeriam as figuras ao fundo. O autorretrato de 1918 cita-o de modo algo irônico diante de um de seus quadros.

Nesta exposição, entende-se Mondrian por meio do jazz, colocado como trilha ao fundo. O gênero musical maravilhou o artista desde que, em 1938, deixou novamente Paris à véspera da guerra, rumo aos Estados Unidos.  Em Nova York, descobriu o charleston e o elegeu de sua predileção. Não era músico, mas precisava de música para viver.

Parecia ser aquele que mais se divertia durante os bailes, e de um estranho modo. Os amigos batizavam seu estilo de Madona Dançante, por conta dos passos encenados com cálculo. Assim como na arte planejava desenhar a essência das figuras, nos salões seus passos seguiam uma ordem preestabelecida, de difícil assimilação pelas mulheres que o acompanhavam.

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Composição com grande plano vermelho, amarelo, preto, cinza e azul (1921). Imagem: divulgação.

Obsessivo, calejava as mãos durante a concepção de seus arranjos geométricos, refeitos por tardes, dias e noites inteiros. Enquanto montava sua última obra, Victory Boogie-Woogie, em 1944, desenvolveu pneumonia e morreu, aos 71 anos de idade. Era, ao fim, ainda mais pleno de ambições que no início, dando mostras de apenas ter iniciado a construção de uma ideia original.

Victory Boogie-Woogie não está exposta no CCBB, obra que raramente deixa a Holanda por conta de sua extrema delicadeza, mas um fac-símile permanecerá disponível em uma espécie de oficina, durante a qual os visitantes poderão remontá-la. 

 

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Página da brochura, por Pietr Zwart (1931). Imagem: divulgação.

A geometria de Mondrian era também uma experiência, um modo de encenar a vida. Como seus colegas de movimento, ele chegou a acreditar que o princípio da forma, congênito, poderia ser adquirido por qualquer um. Mas, pessoalmente, não reduziu a técnica ao mínimo necessário e prosseguiu no caminho de elaborar sua pintura.

A rigor, nem mesmo seus colegas dispensaram a extrema elaboração. Iniciado na carpintaria, Rietveld foi o responsável por conceber um dos objetos-símbolo do movimento, a poltrona de encaixes baseada em ângulos retos, de encosto moldável à coluna, sem estofamentos.

Ele primeiro a construiu em madeira laqueada preta, em 1917, depois aplicou-lhe as cores básicas do movimento, simulando a continuação de suas linhas ao infinito. E avançou pela arquitetura, ao erguer sete anos depois, em Utrecht, a Casa Schröder modular e plena de varandas, quase inteiramente vista em seu interior a partir de fora. 

 

Poltrona Vermelha e Azul, de Rietvel (1923). Imagem: divulgação.

O De Stijl andou por muitas áreas, como a confecção de cartazes, à moda daqueles de Pietr Zwart, que se assemelhavam ao formalismo russo e acolhiam as tipografias em cores básicas. Houve também experiências no campo da fotografia, como as de César Domela, que a partir de um fundo geométrico retratou o perfil de sua esposa.

Os neoplasticistas conceberam restaurantes e cinemas-restaurantes, mas não desenharam roupas, embora em 1965 o estilista Yves Saint Laurent tenha confeccionado vestidos calcados nas pinturas de Mondrian. O artista holandês talvez os tivesse apreciado.

O objetivo de sua obra era o de libertar o mundo do trágico e devolvê-lo à sacralidade abstrata. Sua concepção espacial exerceu uma profunda influência sobre os projetos arquitetônicos, sobre a funcionalidade dos espaços.

O historiador Giulio Carlo Argan dele disse: “Não obstante a deliberada frieza de sua pintura, ou justamente devido a ela, Mondrian foi, depois de Cézanne, a consciência mais elevada, mais lúcida, mais civilizada na história da arte moderna”.  

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Rosane Pavan em Carta Capital.


Com grade de dez peças, a terceira edição da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), que começa no dia 4 de março, retorna às questões sobre a construção de narrativas, como se quisesse nos dizer que não, esse não é uma velho problema.
 
O diretor artístico da mostra, Antonio Araújo, exemplifica a abordagem, considerada por ele um dos pilares de sua curadoria neste ano: o espetáculo "Cinderela", que abre o festival no Auditório Ibirapuera, retoma a conhecida fábula dos irmãos Grimm para reconstruí-la linearmente de forma "toda estranha".
 
A peça tem pássaros que se estatelam em uma casa de vidro. "O espectador percebe a colisão, mas em nenhum momento a montagem materializa isso visualmente", adianta.
 
Em destaque este ano, o autor e diretor francês Joël Pommerat traz para o festival duas montagens: "Ça Ira", ficção política contemporânea inspirada na Revolução Francesa e desenrolada com menções à direita em ascensão na Europa; e "Cinderela", adaptação da conhecida fábula dos irmãos Grimm.
 
Do Congo, virá a peça "A Carga". Com direção e interpretação de Faustin Linyekula, a montagem tem traços coreográficos, e o artista também faz uso de textos que abordam situações políticas de seu país de origem. 
 
Questões sobre a opressão vividas pelos negros também tingem o espetáculo Revolting Music, que tem trilha sonora desenvolvida a partir de pesquisa sobre canções de protestos e situações vividas por movimentos estudantis na África do Sul. O espetáculo é assinado pelo músico e performer Neo Muyanga. 
 
Os ingressos para "Natureza Morta", do grego Dimitris Papaioannou, também podem se esgotar rapidamente, devido ao sucesso do artista em festivais europeus e também pela popularidade dos vídeos que reproduzem trechos de seus espetáculos na internet. Papaioannou tem domínio na criação de imagens em cena que mais parecem pinturas, razão do título de seu espetáculo.
 
Da Alemanha, o festival traz o experimento "100% City", projeto encabeçado por Helgard Haug, Daniel Wetzel e Stefan Kaegi, da companhia Rimini Protokoll. 
 
O grupo recruta não-atores nas cidades por onde passa. Ao vivo, as pessoas chamadas respondem a uma espécie de pesquisa de opinião -não espere nada convencional. O projeto foi realizado em 23 cidades, incluindo Amsterdã e Tóquio. Na MITsp, o projeto vai se chamar "100% São Paulo". 
 
A companhia Teatro de Narradores e o grupo Ultralíricos, dirigido por Felipe Hirsch, compõem a representação nacional. O primeiro vai apresentar trabalho desenvolvido junto a haitianos que vivem em São Paulo, "Cidade Vodu"; o segundo encena trechos ou adaptações de textos latino-americanos.

Serviço
MITSP
Quando: 4 a 13 de março.
Quanto: grátis a R$ 20 (à venda a partir de 18/2 pelo ingressorapido.com.br e pelo sescsp.org.br). 
Onde: vários locais (a programação em breve será divulgada no site).

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Gustavo Fioratti - colaboração para a Folha de S.Paulo.
 
 


A tão aguardada exposição O Mundo de Tim Burton chega ao MIS na próxima semana. Para celebrar a primeira parada na America Latina, Tim Burton estará presente para um bate-papo com o público no dia 11 de fevereiro. Antes do bate-papo, o público assiste a um filme do cineasta que será escolhido por meio de votação livre.

Para participar do evento, os fãs devem responder a enquete (clique aqui para acessá-la) e escolher seu longa de Tim Burton preferido. Após o encerramento da votação e contabilizado o filme vencedor, serão sorteadas 30 pessoas dentre aquelas que votaram no longa número um.

Os sorteados participarão de uma sessão exclusiva no dia 11 de fevereiro, em que será exibido o filme escolhido, e, após a sessão, Tim Burton estará presente para um bate-papo com o público. Além dos sorteados, no sábado, 30 de janeiro, o MIS abrirá venda exclusiva de ingressos para a mais especial exibição de filme já ocorrida no museu. As entradas para o evento serão vendidas por R$ 300,00 - apenas na bilheteria do MIS - e dão direito a um catálogo da exposição O Mundo de Tim Burton, além de ingresso para a exposição (válido para o dia 11.2), ingresso para a sessão do filme escolhido e para o bate-papo com Tim Burton e, ainda, um certificado de participação. 

Sorteio acessar a enquete e votar em seu filme preferido. Das 12h do dia 29/1 às 12h do 1/2. Os sorteados participam de uma sessão exclusiva do filme escolhido e de um bate-papo com o diretor. Ingressos R$ 300,00 à venda na recepção do MIS a partir das 12h do dia 30/1

Este ingresso dá direito a um catálogo da exposição O mundo de Tim Burton, ingresso para a exposição (válido para o dia 11/2), ingresso para a sessão do filme escolhido e para obate-papo com Tim Burton, além de um certificado de participação.

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Fonte: MIS.


Claudia (Emanuela Fontes) é uma descendente de bolivianos moradores na periferia da capital paulista. O desejo de se tornar uma pianista nasceu quando conheceu o instrumento em um programa de musicalização para jovens sem recursos. Com ótimas notas, ela passou a receber uma bolsa para estudar em um cursinho popular, onde foi estimulada a lutar pelo seu sonho.

O problema é que para ser aceita no curso de Música da Universidade de São Paulo, Claudia tem de estudar para a prova de aptidão. Precisa ter acesso a um piano. Esse é o mote do longa-metragem Invasores, de Marcelo Toledo, que estreou nesta quinta-feira (21), no Cine Caixa Belas Artes

Vinda de uma família de origem pobre, Claudia não conhece ninguém que tenha em casa um piano, por isso decide pedir emprestada a sala da instituição cultural da qual fazia parte. O diálogo entre a jovem e a responsável pela área de música é uma das cenas mais desconcertantes e desconfortáveis do filme. Quando a menina conta que vai prestar vestibular para Música na USP, a reação de Priscila é positiva, mas quando diz que precisa de um piano para estudar para a prova prática, recebe um banho de água fria:

Priscila: “Claudinha, como é que eu vou te explicar isso? Você fez uma escolha complicada…”

Claudia: “Eu fiz uma escolha complicada? Sério?”

Priscila: “Você não acha?”

Claudia: “É, mais complicada do que a sua. Quer dizer, você vive disso, né, de música. Eu adoraria ter um emprego como o seu, fixo, e roupinha cara”.

O que Priscila quer dizer é que estudar Música em uma universidade como a USP não é para pessoas pobres como Claudia, que não tem piano em casa, não conhece ninguém que tenha e tampouco pode pagar para fazer aulas e treinar. Por isso, a escolha é complicada. Não haveria estranhamento caso a garota decidisse trabalhar em uma tecelagem, como sua mãe sugeriu.

O conflito de 'Invasores' poderia até lembrar o do premiado 'Que Horas Ela Volta', de Anna Muylaerte, em que a filha da faxineira pobre conquista uma vaga na disputada Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP. Mas não. Nessa ficção de Toledo, além do preconceito de classe, a protagonista também enfrenta o julgamento de seus amigos e da família. É como se o simples fato de querer se dedicar à música fizesse de Claudia uma pessoa esnobe, que se acha melhor do que os outros.

O gesto de apoio só vem de seu namorado Nilson (Maxwell Nascimento), que faz parte de um grupo que invade prédios públicos para pichar, numa espécie de protesto contra a sociedade burguesa. É, aliás, dessa maneira que ele passa a ajudar sua namorada: sempre à noite ou aos finais de semana, eles invadem escolas de música e centros culturais onde Claudia pode tocar piano. Um tipo arriscado de ajuda, que pode trazer novos problemas.

O filme provoca a questão: quem é invasor nesta história, o grupo de pichadores ou Claudia? Em comum, personagens obstinados em ocupar espaços para os quais não foram convidados.

Assista o trailer do filme aqui.

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Xandra Stefanel, especial para a RBA.

 


Ao entrar no teatro, o público encontra no palco um baterista solitário, tocando o instrumento, aquecendo suas baquetas. Aos poucos, o som ritmado – crescente, sincopado, contagiante – ocupa todo o espaço e agarra a atenção dos espectadores. Ao soar o terceiro sinal e as luzes se apagarem, determinando o início do espetáculo, o contato foi estabelecido: a plateia já está preparada para assistir 'Chet Baker – Apenas um Sopro', peça cuja estreia aconteceu na quarta-feira, dia 20, no CCBB.
 
Escrita por Sergio Roveri, a montagem é livremente inspirada em um momento particularmente doloroso de Baker (1929-1988), ícone do jazz, artista genial, um símbolo sexual viciado em heroína: quando, no final dos anos 1960, com a boca rachada depois de perder muitos dentes ao ser espancado em uma briga de rua de São Francisco, ele ensaia um retorno, encontrando amigos em um estúdio onde pretende gravar o novo disco e marcar sua volta.
 
“Aquela situação expõe um pouco da miséria humana, especialmente a dele”, conta Paulo Miklos, músico da banda Titãs desde seu início, em 1982, e que agora estreia como ator de teatro justamente no papel do genial trompetista americano. “Comecei a atuar há 15 anos, mas sempre no cinema. Aqui, no palco, a exposição é maior, portanto fica mais evidente o risco e a fragilidade de Baker.” De fato, o baterista do início do espetáculo, vivido por Ladislau Kardos, é um novato que aproveita a chance de tocar ao lado de cobras, como o pianista (Piero Damiani), o contrabaixista (Jonathas Joba) e a cantora (Anna Toledo). E, principalmente, junto de Baker. 
 
Não se trata, porém, de uma relação fácil – como todo principiante, o baterista sofre com as brincadeiras dos mais velhos, mas ele se revela como o único ali a vislumbrar um futuro promissor. “É a nova geração observando a veterana e descobrindo que não quer seguir ladeira abaixo”, comenta Joba que, assim como Anna, tem uma sólida carreira no teatro, enquanto Kardos e Damiani, músicos profissionais, são estreantes do palco.
 
A mescla resulta em uma experiência fascinante, com improvisos típicos do jazz. Na interpretação de Miklos, por exemplo, o público descobre a armadilha do talento. “Com ele e o resto do elenco, busquei mais contundência na atuação para mostrar seres cientes de estarem à beira do precipício”, explica o diretor José Roberto Jardim. “Um estúdio é um ambiente perfeito não apenas para abrigar a música, mas também as histórias pessoais, os dramas, as frustrações”, completa Roveri. 
 
O personagem revela-se muito caro para Miklos. “Entendo perfeitamente o que se passa com Baker nesse momento em que a autoconfiança não passa de uma armadilha”, observa. “Estou abstêmio há 10 anos e, desde então, tenho mais consciência dessas falsas certezas.”
 
Miklos não chega a tocar o trompete no espetáculo. “Sempre me pareceu cruel exigir de um ator ou músico a mesma genialidade de Chet Baker ao tocar; as comparações seriam inevitáveis”, conta Roveri. “No entanto, há algo muito mais significativo nesta impossibilidade do personagem do Paulo tocar o trompete: é o retrato do artista diante da insegurança, diante da possibilidade terrível de ter perdido o dom, de ter perdido a genialidade. Esse, ao meu ver, é o ponto crucial e mais dolorido do espetáculo: um artista que é convidado a voltar à cena, mas ele próprio não sabe se vai conseguir executar o seu ofício.” 
 
Não se trata, porém, de uma peça sem músicas – o improviso do jazz pontua o espetáculo e os grandes momentos estão reservados para as canções Old Devil Moon, em magnífica performance de Anna Toledo, e, claro, My Funny Valentine, uma das mais idolatradas do repertório de Baker, cantada por Miklos. “A voz, nessa peça, tem a contundência de uma flechada”, explica Jardim. “Encanta ao mesmo tempo em que provoca espanto.”
 
Ele acerta no ritmo e na encenação – Joba, por exemplo, é perfeito na abertura do espetáculo. Os personagens são como um espelho do próprio Chet: talentosos, mas já conheceram dias melhores. A situação da peça não ocorreu na vida real, tampouco existiram o estúdio e os amigos de Baker. O trabalho do grupo, no entanto, faz pensar que poderia ter sido assim.

Serviço
Chet Baker Apenas um Sopro
CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, Centro, 3113-3651.
2ª, 4ª e 5ª, às 20 h.
R$ 10.
Até 7/4.

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Ubiratan Brasil no Estado de S.Paulo.
 
 
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