Mostra exibe passagem do fotógrafo David Zingg pelo 'Notícias Populares' - São Paulo São

Houve um homem que, entre fatos e histórias um tanto incertas, trabalhou para as prestigiosas revistas "Life" e "Look", fotografou figuras como o presidente americano John F. Kennedy e, não se sabe muito bem, teria sido piloto de bombardeiros durante a Segunda Guerra Mundial.

Esse mesmo homem, que um dia, quem sabe, foi plantador de bananas em Honduras, também organizou o mítico concerto no Carnegie Hall que levou Tom Jobim, João Gilberto e outros expoentes da bossa nova para os EUA.

Para David Drew Zingg (1923-2000), porém, essas proezas não eram o bastante. Nem mesmo o fato de ter participado da lendária equipe de fotógrafos da revista "Realidade" saciava um desejo: trabalhar no "Notícias Populares".

Nas fotografias, o diário também não era muito afeito ao comedimento. Uma mulher nua dividia a capa, por exemplo, com a imagem de uma sucuri que teria engolido uma criança de três anos.

Agora, essa passagem pelo diário é tema de "David Zingg no Notícias Populares", mostra realizada pelo Museu da Imagem e do Som de São Paulo em parceria com aFolha, aberta a partir de terça (27), com curadoria de Leão Serva.

No "Notícias Populares", o americano não registrou "presuntos", como são chamados, no jargão jornalístico, os corpos de quem morreu assassinado ou em acidentes –outra pauta típica do periódico.

Zingg se embrenhou na periferia paulistana para relatar seus problemas. Da Brasilândia, na zona norte, ao Jardim Miriam, na zona sul, documentou córregos e famílias. Fez crônicas dos bairros.

‘Vocês achar que sabe editar foto, mas quem edita bem foto é o Notícias Populares', lembra Serva, imitando o sotaque de Zingg. Foto: IMS.‘Vocês achar que sabe editar foto, mas quem edita bem foto é o Notícias Populares', lembra Serva, imitando o sotaque de Zingg. Foto: IMS.

Cheio de amigos, teve numa festa na casa do poeta paulista Décio Pignatari a ideia de atuar no "NP". Ali, encontrou-se com jornalistas da "Ilustrada", que, à época, passava por uma reforma gráfica que valorizava as fotos.

O que era motivo de orgulho para quem trabalhava na editoria virou provocação do fotógrafo: ""Vocês achar que sabe editar foto, mas quem edita bem foto é o 'Notícias Populares'", lembra Serva, imitando o sotaque de Zingg.

Editor-assistente da "Ilustrada" à época, o jornalista entrou na brincadeira e se comprometeu a buscar uma vaga no diário, uma vez que a publicação pertencia aos então donos da Folha. Em troca, pediu uma entrevista.

Além das fotos da periferia, entre elas a de uma criança cuja língua foi mordida por um rato, Zingg colocou no jornal pautas de seu universo. Registrou uma performance de Bené Fonteles, que hoje está na Bienal de Arte de SP, e uma visita do cantor americano Tony Bennett ao país.

A única imagem na mostra que não veio do "NP" é um retrato em que Caetano Veloso exibe uma foto de João Gilberto junto a Astrud, com quem o autor de "Bim Bom" era casado.

A foto, feita para Folha, marca um relacionamento que se manteria por anos. Após a experiência no "NP", Zinng atuou como consultor de criatividade entre 1988 e 89, quando Luiz Caversan foi editor de fotografia do jornal. Zingg ainda se tornaria colunista do caderno "Turismo".

A passagem do fotógrafo gerou grande expectativa entre os jornalistas do "NP". Aos 63 e havia mais de duas décadas no país, ele já era um fotógrafo conhecido por aqui.

Havia deixado os EUA em 1964. O neto Andrew Zingg disse que certo dia o avô desapareceu. Saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.

Havia acumulado fama com sofisticados retratos de músicos, além de fotos de Oscar Niemeyer e Leila Diniz.

José Luis da Conceição, um dos fotógrafos do jornal naquele período, se empolgou com a possibilidade de trabalhar com Zingg, mas o curto período dele na Redação se transformou em frustração.

Editor-chefe do "NP" durante o período, José Luiz Proença credita a rápida passagem de Zingg ao salário. "O jornal não tinha condições de pagar o que ele queria, mas acabou aceitando receber o piso salarial por um tempo."

Em entrevista ao jornal nova-iorquino "Photo District News", em 1984, Zinng reclamou dos valores oferecidos no país e parecia querer saber se "o garoto da bananalândia ainda tinha chance na Big Apple".

Caversan diz que a passagem pelo "Notícias Populares" pode ser considerada uma tentativa do fotógrafo de se reinventar. "Depois que você fotografa Jackie Onassis e Kennedy, qualquer coisa é menor."

Trabalhar no ‘Notícias Populares‘ foi a realização de um sonho para Zingg, que considerava o jornal um veículo de comunicação poderoso. Shirleny por David Zingg.Trabalhar no ‘Notícias Populares‘ foi a realização de um sonho para Zingg, que considerava o jornal um veículo de comunicação poderoso. Shirleny por David Zingg.


Serviço

David Zing no Notícias Populares.
Quando: de ter. a sáb, das 12h às 20h, dom. e feriados, das 11h às 19h; até 4/11.
Onde: MIS, av. Europa, 158; tel. (11) 2117-4777.
Quanto: R$ 6; grátis às terças.

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Daigo Oliva na Folha de S.Paulo.




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