Eles chegaram lá

Desde o início de fevereiro, um novo aposto passou, porém, a defini-la: primeira colocada em Medicina da USP local, carreira mais concorrida do concurso.

“A casa-grande surta quando a senzala vira médica”, escreveu a jovem em sua página do Facebook ao comemorar sua conquista. A provocação não poderia ser mais oportuna. Enquanto todas as universidades federais e 30 das 38 estaduais aderem à adoção das cotas raciais, a USP – maior universidade pública do País – é uma das últimas a resistir à reserva de vagas. O efeito não poderia ser outro: em 2015, apenas 3,5% dos alunos dos dez cursos mais concorridos da USP eram negros.

Em contrapartida, a proporção de alunos negros e pardos nas faculdades federais brasileiras cresce significativamente, segundo mostra um levantamento realizado Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). O estudo revelou que o número de negros cresceu de 5,90% em 2003 para 9,82% em 2014. Os pardos, por sua vez, passaram de 28% para 37,75%. Juntos, os dois grupos passaram a representar 47,57% dos alunos, um aumento de mais de 10 pontos percentuais. O avanço é creditado à Lei n° 12.711, conhecida como Lei das Cotas, aprovada em agosto de 2012, que obrigou as instituições federais a reservar 50% de suas vagas.

Aprovada na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) no curso de Engenharia Civil, Jade Maria Araújo, 20 anos, comemora sua conquista sem esquecer, no entanto, a sina de seus colegas de sala da escola pública. “Fui a única a passar em uma universidade pública. Todos os meus amigos ou foram para a faculdade particular ou pararam de estudar”, conta a moradora do bairro de Itaquera, localizado na zona leste de São Paulo. Negra e também estudante da Fatec-SP, a jovem relata já ter sido vítima de preconceito dentro da instituição. “Um colega de sala me disse que eu não deveria estar ali, pois eu tinha roubado a vaga de alguém que merecia mais. Acham que nós, negros, estamos nos vitimizando ao usar ações afirmativas, mas só estamos equiparando uma injustiça histórica”.

Débora Dias, 18 anos, celebra o ingresso em três faculdades públicas – Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo e na Unesp e em Comércio Exterior na Fatec – apesar de todos os percalços vividos durante a Educação Básica cursada na rede. “Estou matriculada na Unifesp. Meu objetivo é terminar a graduação e prestar o concurso para ser diplomata”, conta animada a jovem moradora do bairro de São Matheus, também na zona leste paulistana.

A estudante lamenta, no entanto, o fato do Ensino Superior ser encarado pelos próprios professores e gestores da rede como uma realidade distante dos alunos. “Por mais que existam professores que te motivam a ir adiante, você vê muitos que são totalmente descrentes, como se aquilo não fosse para a gente. E quando se falava em faculdade na aula era com muito mais ênfase em programas para o ingresso em particulares como o Fies e o ProUni do que para o Sisu”, conta.

Para Haron Miquilino, 19 anos, a ausência de representatividade negra e de outras minorias no Ensino Superior público lhe ficou evidente quando passou a frequentar o cursinho pré-vestibular gratuito da Faculdade de Direito da USP e observar a população do campus. “Percebi como era um espaço elitizado. A maioria dos estudantes vinha de colégios caríssimos, sem falar naqueles que fizeram parte de seus estudos fora do Brasil. Poucos vinham da escola pública e, entre esses, a grande maioria era branca, de classe média. Essa percepção me mostrou como nós, negros, precisamos colorir a universidade”.

Aprovado no curso de Relações Públicas das universidades federais de Santa Maria, Paraíba e Goiás, Haron, que cursou a Educação Básica como bolsista de uma escola particular, viu a satisfação da conquista ser substituída por frustração. “Eu tinha acabado de me formar no Ensino Médio e minha mãe não tinha renda suficiente para me sustentar morando longe. Isso me mostrou como conquistar a vaga é só o começo, pois como posso mudar de estado se não tenho dinheiro? Mesmo se conseguisse uma bolsa de auxílio, o valor é muito baixo”, critica.

O estudante refere-se à Bolsa Permanência, auxílio financeiro no valor de 400 reais dado pelo governo a estudantes matriculados em instituições federais de ensino superior em situação de vulnerabilidade socioeconômica e estudantes indígenas e quilombolas.

Preocupação semelhante vive Jhenifer Bernardes, 17 anos, primeira mulher de sua família a entrar na universidade. A jovem se preocupa com o emprego que precisará arrumar assim que se mudar de São Paulo para Araraquara onde cursará Administração Pública na Unesp. “Meus pais não podem ajudar e o auxílio é pouco. É ruim, pois sei que isso pode prejudicar meus estudos, mas já desde a época da escola pública tive que trabalhar durante o dia e estudar à noite”, conta.

Além dos desafios para a permanência, em comum todos os quatro possuem o fato de terem realizado os cursinhos pré-vestibulares gratuitos da Uneafro Brasil, que atendem jovens e adultos oriundos de escolas públicas, prioritariamente negros, que sonham em ingressar no Ensino Superior. Mais do que conteúdo curricular, relatam ter aprendido sobre a importância da militância e de sua representatividade na educação de nível superior. “Nunca me reconheci tanto como a mulher negra que sou”, resume Débora.

Douglas Belchior, professor e ativista da Uneafro, acrescenta: “Como uma organização do movimento negro, escolhemos enfrentar o racismo, o genocídio, o machismo e as desigualdades econômicas através da ação direta na vida real das pessoas, em nossas próprias comunidades, por meio da educação. Acreditamos muito nessa forma de atuar”. Os frutos, tudo indica, começam a ser colhidos.

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Por Thais Paiva na Carta Educação.

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