Espaço público ganha ressignificação e valor afetivo na pandemia, mostra estudo

Por meio de um sistema de análise de dados idealizado pelo geógrafo e professor da UFRJ Jorge Xavier da Silva, precursor do geoprocessamento no Brasil, o levantamento procurou condensar as narrativas e a reinterpretação que as pessoas fizeram dos espaços valorados como casa e cidade.

“Nosso propósito era entender o olhar para a cidade no contexto da pandemia”, diz a professora Ethel Pinheiro, coordenadora do Lasc. “Pensamos que ouviríamos depoimentos sobre gente que as pessoas deixaram de ver, lutos e perdas. Mas, para nossa surpresa, a maioria disse que o que mudou foi a noção de espaço público.”

Apesar de sentimentos como medo, insegurança e ansiedade terem sido relacionados aos territórios por alguns respondentes, associações positivas como esperança, prazer e sossego apareceram em escala maior. Em questões de múltipla resposta, 44,1% citaram prazer, 42,5% liberdade, 41,7% sossego e 34,6% alegria e segurança.

“Houve também a valoração da casa, não especificamente da parte de dentro, mas da calçada, da praça em frente”, conta a urbanista, explicando que o entorno passou a ser absorvido como extensão do lar.

Com relação à cidade, a surpresa se repetiu. “Foi interessante porque a gente percebeu que as histórias das pessoas na cidade e o significado dos lugares não mudaram, o que mudou foi a importância que eles ganharam”, analisa Pinheiro. “Há um desejo de reviver esses espaços, um tom de esperança.”

Para ela, apesar da transformação no uso (como é o caso das praias no Rio e de praças e parques em São Paulo), a população não quer abandonar a vivência dos lugares públicos. “Notamos que não são as histórias que estão interrompidas, mas sim a ideia de cidade como era antes. E as pessoas estão se reinventando para criar uma nova compreensão desse espaço.”

Refúgios dentro e fora de casa

Segundo o arquiteto e urbanista Pedro Lira, sócio do escritório Natureza Urbana, houve um impacto relacionado a deixar de poder usufruir dos espaços públicos como antes, mesmo que o Brasil não tenha vivido um lockdown de fato.

“O entorno vira uma extensão da casa. Quem tem parque ou praça por perto viu nesses espaços um refúgio.” Ele fala que as pessoas também passaram a refletir sobre o modelo em que viviam antes e isso jogou fortemente na ressignificação dos lugares. “Além de querer garantir necessidades básicas, como estabilidade, saúde e qualidade de vida, teve essa vontade de se refugiar numa caverna distante do predador – no caso, o vírus.”

Se de um lado a ideia do refúgio, seja em casa ou no entorno, trouxe nuances de tranquilidade e liberdade para muitos, o olhar para o ambiente público passou a ter um valor especialmente afetivo.

“Tem um provérbio alemão medieval que diz que o ar da cidade liberta”, lembra Pedro Rivera, professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Columbia e autor do capítulo “Arquitetura e urbanismo após a pandemia”, que faz parte do recém-lançado livro Como Viver em um Mundo sem Casa.

Nesse caso, diz ele, “ar” se refere à ideia de espaço – não físico, mas de relações, permitindo que os habitantes tenham maior liberdade nas escolhas. “Nas grandes cidades nós somos anônimos e isso traz uma grande liberdade, mas ao mesmo tempo uma impessoalidade que nos fragiliza”, explica. “Na sociedade ocidental contemporânea, em que está havendo um desmonte do Estado do bem-estar social, que de alguma maneira cumpria a função de proteger os indivíduos, a gente fica ainda mais vulnerável.”

De acordo com o especialista, o conjunto de relações que formam a cidade está sendo reestruturado. Questões ligadas à emergência da pandemia, como usar máscara, passar álcool em gel e não entrar no elevador com os outros, devem ser transitórias, mas ele acredita que as relações entre as pessoas e as relações de trabalho tenham mudado de vez. “É um caminho sem volta, mesmo que a gente não saiba ainda em que medida, e isso tem implicações no espaço físico.”

É nessa ressignificação de relações que a dimensão do lugar público – tanto como local de convívio como de descompressão – ganha relevância. Para Rivera, essa “sacudida” trouxe uma reflexão que vai de coisas pontuais, como a mesa de trabalho adequada, a questões maiores, como uma cidade com mais luz e ar.

“Esse é o nosso desafio agora: como a gente vai produzir essas qualidades no espaço da habitação e do urbano? O (programa) Minha Casa Minha Vida está preparado para as pessoas trabalharem em casa, por exemplo?”

Reaproximação com a natureza

Segundo Heloisa Dallari, especialista em arquitetura sensorial e professora da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), a situação de exceção da pandemia nos lançou em busca do que verdadeiramente conta e dá sentido de pertencimento.

“A pesquisa (do Lasc) traz o lado da ansiedade e do medo porque não sabemos quanto tempo e como vamos passar por esse processo, mas a menção a sentimentos como esperança, segurança e sossego mostra essa transformação de significado e sentido”, reflete.

Ela sublinha ainda a natureza humana que se redescobre na relação com os espaços: da falta que sentimos de estar nos ambientes coletivos, como animais com necessidade de convívio, à clara revalorização da proximidade com o ambiente. “Como entes naturais que somos, voltamos a valorizar uma boa vista, uma árvore, um jardim, uma varanda.”

A especialista explica que a ideia de desenvolvimento nascida no século 19 (era industrial) é também a de não se envolver com a natureza, colocando o homem como ente superior que procura explorar e controlar o planeta. “Nunca estivemos tão impotentes frente à natureza como agora e essa encruzilhada faz com que repensemos nosso convívio na cidade e nos nossos espaços de abrigo”, conclui.

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Por Bianca Zanatta no Estadão.

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