Requalificar sem gentrificar, o exemplo de Seul, na Coreia do Sul - São Paulo São

Concluído em 1966, o Sewoon Sangga é uma megaestrutura residencial construída no coração de Seul. Projetado pelo proeminente arquiteto sul-coreano Kim Swoo-geun, este enorme edifício de uso misto é composto por oito blocos em altura cobrindo uma faixa de um quilômetro de extensão em pleno centro da cidade.

A parte superior do Sewoon Sangga em cosntrução na década de 1960. Foto: KTV.A parte superior do Sewoon Sangga em cosntrução na década de 1960. Foto: KTV.Como um projeto extremamente inovador para a época, ele foi concebido como uma pequena cidade independente, contando com todas as comodidades necessárias para a vida de seus moradores além de um parque, um grande átrio de acesso e um deck para pedestres.

Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.Infelizmente, durante a execução muitas das ideias utópicas de Kim foram por água abaixo devido às limitações dos sistemas construtivos. Já no final da década de 1970, o Sewoon Sangga passou por um voraz processo de abandono, deixando centenas de unidades residenciais vazias assim como a grande maioria dos espaços comerciais, que se deslocaram para o outro lado do rio no novo distrito de Gangnam, em rápida expansão e desenvolvimento. Devido a sua localização central e a queda vertiginosa dos preços dos aluguéis, a megaestrutura foi sendo ocupada pelo comércio informal e abrigando uma série de atividades ilícitas.

Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.

Felizmente esta tendência pôde ser revertida a tempo de resgatar o famoso edifício do ostracismo e abandono. Um amplo projeto de renovação, liderado pelo então prefeito de Seul, Park Won-soon, foi levado à cabo em 2015, trazendo Sewoon Sangga de volta à vida e transformando-o em um dos exemplos mais bem sucedidos deste tipo de projeto, favorecendo a mobilidade urbana, incluindo a comunidade local e estimulando as atividades criativas. Atualmente, Sewoon abriga uma porção considerável da indústria leve de Seul - uma raridade nos dias de hoje, onde a produção industrial é empurrada à força para fora da cidade, tendo que instalar-se em periferias afastadas e sem infra-estrutura. 

Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.Reconhecendo o valor histórico do edifício para a cidade de Seul, o prefeito Park assinou o Acordo de Cooperação Anti-Gentrificação em 2016, incluindo a grande maioria dos negócios em atividade em Sewoon Sangga, para desenvolver um projeto em parceria com a comunidade local para proteger os inquilinos contra o aumento dos aluguéis.

Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.

Além dos esforços para evitar a gentrificação, as apostas políticas neste projeto foram bastante altas, buscando atrair novos inquilinos. Muitas atividades criativas e inovadoras encontraram em Sewoon Sangga o lugar ideal para florescer, empresas de Realidade Virtual, robótica e fabricação em CNC já estão compartilhando este espaço com seus antigos inquilinos. A promoção destes espaços para a indústria criativa faz parte da primeira fase do projeto de reuso adaptativo do edifício, a qual foi concluída no ano passado. Desenvolvido pelos arquitetos da E_Scape, com sede em Seul, o projeto ocupa três blocos centrais de Sewoon, conectando a histórica estrutura ao bairros vizinhos à norte e à sul através de uma praça pública, oferecendo espaços ao ar livre além de incluir uma passarela que conecta dois dos edifícios.

Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.Cortesia de Kyoung Roh, via Metropolis Magazine.

A segunda e última fase, conduzida pela empresa italiana Modostudio, está prevista para ser concluída em 2020, a qual atualizará as instalações existentes (incluindo o famoso centro de impressão de Sewoon), integrando toda a extensão do centro comercial através de um novo percurso aberto - resgatando, como acreditam os arquitetos, “o senso de comunidade” que foi se perdendo ao longo do tempo.

Foto: Seoul Solution / Divulgação.Foto: Seoul Solution / Divulgação.

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Por YoungKyu Shim no Arch Daily. Tradução: Vinicius Libardoni. *Este artigo foi originalmente publicado pela Metropolis Magazine como "A Once-Maligned Concrete Megastructure in Seoul is Revitalized - Sans Gentrification".