Será que os carros ainda dominarão as ruas de Nova York após a pandemia? - São Paulo São

 Os restaurantes ocuparam a Dyckman Street, no norte de Manhattan, que foi temporariamente fechada para carros. Foto: Karsten Moran / The New York Times. Os restaurantes ocuparam a Dyckman Street, no norte de Manhattan, que foi temporariamente fechada para carros. Foto: Karsten Moran / The New York Times.

Quando Nova York entrou em quarentena meses atrás para conter o coronavírus, o trânsito praticamente desapareceu, e as ruas, subitamente vazias, se tornaram um vasto tesouro de espaço aberto em uma das cidades mais populosas do mundo.

Mas, agora, enquanto Nova York se recupera lentamente e os carros começaram a voltar, uma disputa pelos 10 mil quilômetros de ruas da cidade está apenas começando.

Desesperados, os donos de restaurantes colocaram suas mesas e cadeiras para fora, e pretendem mantê-las na rua. Pais assustados enxergam nas ruas uma solução para as salas de aula lotadas. Ciclistas e pedestres exigem corredores mais seguros conforme o seu número aumenta. E trabalhadores habituados ao transporte público agora temem o vírus e preferem proteger sua saúde com carros.

O fato de as ruas de Nova York serem disputadas não é novidade - nos anos mais recentes só cresceram os apelos por uma limitação ao espaço tomado pelos carros - mas a pandemia levou muitas pessoas a reivindicarem seus direitos sobre um pedaço da pista, obrigando-nos a uma ampla reimaginação do quadriculado urbano.

Pressionados pelos defensores dos espaços abertos e pela indústria dos restaurantes, a cidade excluiu temporariamente os carros de mais de 110 quilômetros de ruas abertas em nome do distanciamento social, das bicicletas e das mesas externas dos restaurantes.

“A antiga tensão entre aqueles que enxergam os carros como malignos e aqueles para quem os carros são essenciais foi acentuada pela pandemia porque o espaço externo útil se tornou mais fundamental do que nunca", disse o professor Jerold S. Kayden, que ensina planejamento urbano e design na Universidade Harvard.

Depois de praticamente desaparecer das ruas, o tráfego começou a se equiparar aos níveis anteriores à pandemia, mesmo com muitos escritórios ainda sem trabalhadores. Foto: Karsten Moran / The New York Times.Depois de praticamente desaparecer das ruas, o tráfego começou a se equiparar aos níveis anteriores à pandemia, mesmo com muitos escritórios ainda sem trabalhadores. Foto: Karsten Moran / The New York Times.

As autoridades municipais não apresentaram uma visão geral nem um plano abrangente para o reaproveitamento das ruas acomodando mais usos, e dizem estar esperando para observar os padrões de deslocamento e trânsito que surgem conforme mais pessoas voltam ao trabalho e as escolas reabrem para algumas atividades presenciais.

Por enquanto, sua abordagem foi mais comedida, aumentando aos poucos as ruas fechadas e anunciando cinco novos corredores de ônibus que devem melhorar o serviço ao tirar os carros de artérias movimentadas. Elas também expandiram as áreas para as mesas externas dos restaurantes para ajudá-los, e o prefeito Bill de Blasio disse que a acomodação das mesas nas ruas voltaria depois do inverno.

“O fato é que desejamos ampliar todas as opções e alternativas possíveis, e já vimos como foram eficazes medidas como a abertura das ruas", disse de Blasio recentemente. “Seguimos ampliando isso, e também as ciclovias. Queremos ver até onde conseguimos chegar com elas.”

Mas, para os críticos - muitos dos quais enxergam de Blasio como um prefeito defensor dos carros -, a abordagem municipal é descrita como reacionária, pois o momento pediria um projeto ambicioso, semelhante ao adotado por outras cidades para redesenhar permanentemente a paisagem de suas ruas.

“Acho que estamos desperdiçando uma grande oportunidade", disse o consultor Bruce Schaller, que já trabalhou na secretaria municipal de transportes. “Esse é o momento de reconfigurar as ruas. O trânsito vai ocupar todo o espaço que lhe for oferecido. Agora é a hora de redesenhar as fronteiras.”

Outras cidades adotaram medidas mais ousadas. Londres adotou um plano para acomodar um aumento acentuado no número de pedestres e ciclistas criando novas rotas de caminhada e ciclismo, ampliando calçadas e limitando o tráfego em áreas residenciais - e algumas dessas medidas podem se tornar permanentes. E, em Paris, as autoridades estão agindo para acrescentar mais de 645 quilômetros de novas ciclovias distribuídas pela área metropolitana.

Em Nova York, o crescente conflito envolvendo o uso das ruas não vai simplesmente terminar com a pandemia, disse Kayden, já que líderes eleitos, ativistas comunitários, especialistas em transporte e outros que há muito pensam em dar novo propósito para as ruas além da circulação dos carros “não aceitarão devolver o território recém capturado".

Uma praça para pedestres construída ao longo da 34th Avenue em Jackson Heights, Queens, se tornou popular e os moradores querem que ela se torne permanente. Foto: Karsten Moran / The New York TimesUma praça para pedestres construída ao longo da 34th Avenue em Jackson Heights, Queens, se tornou popular e os moradores querem que ela se torne permanente. Foto: Karsten Moran / The New York Times

Roberto Perez Rosado, 72 anos, e seus vizinhos de Jackson Heights, Queens, onde é pequeno o número de parques, prometem lutar para manter um calçadão aberto durante a pandemia na Avenida 34.

“Se acabarem com esse espaço, faremos uma petição, participaremos de reuniões, seremos ativos nas ruas", disse ele.

Os motoristas também estão reagindo. O metalúrgico Kenny Otano disse que a divisão das ruas fez o trânsito piorar.

“Uma pista é reservada aos ônibus, meia pista é reservada às bicicletas, e pior são os restaurantes", disse Otano, 50 anos. “Isso cria muito mais trânsito. Cinco faixas logo se tornam três.”

Leslie Andre Howard, 35 anos, empreiteiro do Queens, tem um problema renal e tem ido de carro ao trabalho porque não quer usar o metrô durante a pandemia. Ele diz que seu furgão azul “dá uma sensação de segurança e controle".

Alguns ciclistas e defensores do transporte público criticaram a cidade por criar uma série de ruas abertas desligadas umas das outras, em vez de formar uma rede abrangente de rotas contínuas e espaços públicos. O resultado foi a confusão e o conflito entre grupos que tentam usar o mesmo espaço, incluindo ciclovias bloqueadas por mesas de restaurantes colocadas na área externa.

As autoridades municipais dizem não receber crédito pela agilidade com que têm implementado mudanças significativas, incluindo a expansão das mesas de restaurantes em áreas externas para todos os cantos da cidade.

Usamos essa crise para fazer mudanças amplas e populares na paisagem urbana", disse Mitch Schwartz, porta-voz do prefeito de Blasio. “Sempre se pode fazer mais. Mas respondemos aos apelos dos nova-iorquinos por mais espaços públicos, e estamos animados em seguir nesse rumo.”

As autoridades municipais disseram que também estão acompanhando o tráfego e estão preparadas para adotar medidas rigorosas se o congestionamento se tornar insuportável, incluindo o rodízio de veículos entrando na cidade por número da placa, ou a exigência de pelo menos dois ocupantes por carro. Restrições à ocupação de veículos foram impostas após os ataques terroristas de 11 de setembro em Manhattan. / 

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Por Winnie Hu and Nate Schweber no New York Times (Inglês) Tradução: Augusto Calil. 



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