Kobra, inspirado em artistas universais, homenageia a classe trabalhadora na Paulista

Por Biba Fonseca.

Com o tema “Os 200 Anos da Independência e Nós, Trabalhadores”, desde o 1º de Maio, Dia do Trabalhador, pode ser vista ao longo da Avenida Paulista, região central da cidade, a 8ª edição da Exposição da Paulista, iniciativa da União Geral dos Trabalhadores – UGT, que traz o artista Eduardo Kobra, um dos mais reconhecidos artistas brasileiros, nacional e internacionalmente, para uma homenagem à classe trabalhadora.

A inspiração em Michelângelo.

Neste ano em que o Brasil comemora 200 anos de sua Independência, a exposição dará voz e visibilidade àqueles que, desde a escravidão – embora tenham ajudado a construir e contribuído para o desenvolvimento social, tecnológico e econômico do Brasil –, não conseguiram usufruir desses benefícios e nem conquistar sua própria independência. Raras vezes foram retratados pela arte ou tiveram sua voz amplificada por ela.

“Você pode pegar uma lupa e analisar quadros e pinturas da Proclamação da Independência e não vai encontrar nenhum trabalhador nelas. Estão lá membros da corte, serviçais e escravos. Nenhum deles remunerados”, diz Ricardo Patah, presidente da UGT, que julga oportuno o momento para este reconhecimento. De lá para cá pouca coisa mudou no que tange a essa representatividade.

A UGT, através dos painéis de Kobra – de 3,5 metros de altura por 2,5 metros de largura -, presta seu tributo àqueles que fazem a máquina das cidades funcionarem, dando protagonismo aos trabalhadores, ideia que surgiu do próprio artista a partir do convite para a exposição. Em cada obra há um QR Code com os depoimentos em vídeo dos profissionais e, embaixo, a  especificação do painel. 

A sopa de Andy Warhol.

“Todas as pessoas fotografadas trabalham mesmo nas suas profissões. Nenhuma delas é modelo”, destaca Kobra, que cita alguns exemplos dos painéis onde utiliza sua peculiar técnica, unindo fotografias dos trabalhadores e citações de obras clássicas, em uma releitura cheia de cores: o bancário Rogério Marques da Silva teve seu retrato mesclado com a obra O filho do Homem, de Rene Magritte; Marcelo Fernandes de Sousa, caminhoneiro, empresta usa imagem à uma interpretação única de David, de Michelangelo; já As Respingadoras, de Jean-François Millet, inspira o retrato da catadora Maria Dulcinéia S. Santos; a cobradora Cássia Aparecida Santos Silva, em uma obra que traz citações do Auto-Retrato de Tarsila do AmaralCinco Moças de Guaratinguetá, de Di Cavalcanti, e O Mestiço, de Candido Portinari; a comerciária (repositora) Rosana Batista Santos, uma criação baseada na obra Campbell’s Soup Cans, de Andy Warhol; e a irmã de Kobra, a enfermeira Silvia Cristina Fernandes Léo, está presente na obra Rosie, A Rebitadeira, de J. Howar Miller.

O rural de Jean-François Millet.

As homenagens seguem com a construção civil, a gastronomia, representada por um Chef de Cozinha e um garçom, o trabalho doméstico, a enfermeira, o frentista, o ferroviário, o joalheiro, o fotógrafo, os garis, os motoboys, motoristas de aplicativo e taxi, o padeiro, o petroleiro, o metalúrgico, o porteiro de hotel, o professor, os profissionais da telefonia e do telemarketing, o carteiro, o trabalhador rural, até o piloto de avião.

O curador Fernando Costa Netto, da DOC Galeria, ressalta a importância da exposição para a classe: “Kobra é um artista magnífico que saiu do extremo sul de SP para ganhar o mundo. Um trabalhador que é uma inspiração para a classe trabalhadora, um cara que venceu pela arte, e nesse percurso faltava uma exposição como essa no epicentro do país. Kobra na Paulista é um presente para a nossa cidade e uma honra para a gente.”

Os modernistas no ônibus.

“”Aceitei o convite porque há muitos anos em muitas das minhas obras destaco grandes nomes que contribuíram para a Humanidade na Ciência, Arte, Humanismo e Religião, como Einstein, Da Vinci, Gandhi, Madre Tereza, Malala, Martin Luther King, Mandela e tantos outros. Agora é a hora de destacar, como já fiz no mural ‘Candango’, em Brasília, os milhões de trabalhadores anônimos que têm a arte de construir e melhorar o País e de, com dedicação, amor e competência,  superar as adversidades e sustentar suas famílias”, diz Kobra. “É justamente por isso que tive a ideia de fazer 30 painéis, que serão colocados ao longo da av. Paulista, onde mesclo clássicos da arte com fotografias e cenas de 30 categorias profissionais.  É a beleza da arte. A beleza do trabalho. A beleza da vida”, completa.

Exposição da Paulista, uma das maiores exposições ao ar livre do mundo, ocupará até dia 31 de maio, um quilômetro da ciclovia da principal artéria da cidade, a Avenida Paulista, entre a Rua Augusta e a Alameda Campinas.

Após sete edições – 30 Anos de Redemocratização do Brasil (2015); 100 Anos do Samba (2016); 17 Objetivos para Transformar o Mundo (2017); A Quarta Revolução Industrial (2018); DIREITO DO AVESSO | AVESSO DO DIREITO (2019); Liberdade e Democracia (2020); Feminino Plural (2021) – e já consolidada, a Exposição da Paulista caminha para se tornar um evento oficial da cidade de São Paulo.

O surreal de René Magritte.

“A Exposição da Paulista já é parte integrante do que esta cidade plural e trabalhadora tem de melhor”, afirma André Guimarães, da Maná Produções, que idealizou o projeto, que este ano terá desdobramentos, com a realização de workshops nas Casas de Cultura dos bairros da Freguesia do Ó e Brasilândia e no coworking público Teia Perus, equipamentos da Prefeitura de São Paulo. O fotógrafo Ricardo Rojas ministrará oficinas de Fotografia Celular / Mobgrafia Inclusiva (fotografias feitas com celulares); o jornalista, fotógrafo, sócio da DOC Galeria de Fotografia e Escritório de Projetos Culturais e curador da exposição Fernando Costa Netto dará noções de Expografia – Como Montar Exposições, com foco na fotografia; e Walter Nomura, ou Tinho, um dos nomes mais conhecidos do Graffiti na América Latina, participa ensinando como fazer um Desenho em Larga Escala.

Serviço:

Exposição da Paulista – Os 200 Anos da Independência e Nós, Trabalhadores
Artista: Eduardo Kobra

De 1º a 31 de maio.
Ciclovia da Av. Paulista, da Rua Augusta à Al. Campinas.
Realização: UGT – União Geral dos Trabalhadores.
Coordenação Geral: André Guimarães – Maná Produções.
Curadoria: Fernando Costa Netto – DOC Galeria.
Coordenação de Produção: Tiago Sena – Maná Produções.
Montagem e Infraestrutura: All Light.
Curadoria: Fernando Costa Netto.

***
Com informações da Vicente Negrão Assessoria.

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