Banca de flores colore as ruas de Moema e recria hábitos na cidade - São Paulo São

Respirar um pouco de ar puro é item de luxo para quem vive em metrópoles como São Paulo. O cinza se alastra do pó ao visual, tomado por muros e prédios enormes que limitam a nossa capacidade de enxergar o horizonte.

Aí a imaginação floresce ainda mais, num desejo insaciável por refúgio, acolhimento e beleza. No passado, era comum andar pelas ruas e se deparar com bancas de flores, que hoje infelizmente são raras ou estão ao lado de cemitérios.

Eis que, no bairro de Moema, zona Sul de São Paulo, o que funcionava como banca de jornais agora colore a calçada como banca de flores. Chamada La Belle de Jour, como o filme francês de 1967 de Luis Buñuel, a charmosa floricultura é comandada por Ariana Lorenzino, que não por acaso é cineasta, e Anna Beatrice Buarque, veterinária fisioterapeuta. Apaixonadas por plantas e flores, elas se uniram não só na vida mas também no negócio. “Meu avô plantava e desde criança eu tenho esse contato com a terra. De início havia muitas mudas de tempero e comecei a perceber que nós duas tínhamos gostos diferentes, mas que se complementavam. Ela com a parte mais artística, de montar arranjos, e eu com a parte de plantas de vaso, de cultivo”, explicou Anna.

Já Ariana sempre quis ter uma floricultura, nos moldes franceses, que têm flores mais acessíveis e dispostas na calçada. Após passar muito tempo guardando referências que encontrava na internet, surgiu uma oportunidade. “Com a crise econômica, vi a banquinha fechada aqui na rua e descobri que não era da Prefeitura e sim da loja de roupas ao lado. Aluguei a banca na terça e já abri no sábado da mesma semana”, contou. E desde 11 de abril de 2015, ela realiza o sonho florido. O ponto particular foi perfeito para conseguir usar a banca de jornais com outro propósito, coisa que a administração pública proíbe se não for parte de um endereço privado.

“É legal porque criou novos hábitos, sabe? As pessoas não vêm aqui só no Dia das Mães e datas especiais. A vizinhança já entendeu que é para ter flores frescas e acessíveis toda semana, e este era nosso objetivo”, explica. O mais bacana é que as flores estão fazendo a cabeça dos paulistanos de várias regiões, brotando pelos cantos da cidade. Ariana chega a fazer entregas até mesmo em Capão Redondo, a 17 km de distância de Moema. Nos fins de semana, tem gente que vai até o local só para tirar fotos e interagir com o espaço de alguma forma.

Ariana acredita que esse gosto por flores naturais está voltando a ser um costume dos paulistanos porque há uma necessidade grande de proximidade com a natureza. “A pessoa quer ter esse contato, mesmo que seja pouco. Pode ser até um jardim no pote, um terrário… Em São Paulo vivemos no meio do cinza, muito sem cor, então acho que vem daí essa demanda”, pontuou Ariana. “A gente também ensina a pessoa a fazer a manutenção e até a ter árvores frutíferas em casa. Cuidar de uma planta é algo muito pessoal e nós acabamos convivendo com essas pessoas, criando laços. Essa troca é transformadora”, argumentou Anna.

As flores são compradas no Ceagesp duas vezes por semana. Toda a produção para montar os arranjos por assinatura, que é o serviço carro-chefe da La Belle, é feita fora da banca, no ateliê que fica próximo ao endereço. Com pagamento mensal, os clientes recebem a cada semana um buquê diferente, montado por Ariana. “É legal porque, dessa maneira, eles acabam conhecendo espécies novas. Sempre há uma surpresa”, disse. Mas a parte mais legal talvez seja o fato de receber um agrado desses, porque se tem uma coisa que nos faz sorrir, é receber flores. É um ato de gentileza que faz sucesso desde 1877 no Brasil, quando chegou a primeira floricultura vinda do Japão.

O ato gentil é parte até mesmo de uma ação feita pela banca. Quando as flores já não vão durar muito, a dupla de empreendedoras começa a distribuir pequenos cones de papel craft com alguns botões ou deixam buquês pendurados em árvores para que as pessoas os peguem, deem de presente ou levem para casa. A La Belle também funciona de forma móvel, no qual carrinhos de venda são colocados em outros pontos da cidade, como no Itaim Bibi.

Já no espaço físico, as pessoas também podem comprar variadas espécies botânicas, como suculentas, flores do campo (margarida, crisântemo, entre outras), astromélias, lírios, rosas, orquídeas, kokedamas e até bonsais, além de arranjos prontos e vasos retrôs coloridos, que são o maior mimo da loja e os que mais vendem. Há ainda uma preocupação em ser sustentável, dispensando o plástico na hora de embalar flores, optando por papel craft.

Com o frio se aproximando, chegam espécies novas, como hortênsias, tulipas e alguns tipos de orquídeas. Segundo Anna, elas podem ser manter floridas por até dois meses durante o inverno. A Protéa, uma flor típica da África, chega a durar mais de um mês. Quem também deseja ter a casa florida por mais tempo pode optar pelas flores do campo, que duram até 30 dias. Já as plantas de baixa manutenção também agradam os paulistanos, que estão sempre na correria. As suculentas, terrários, espadas de São Jorge, lírios da paz, bromélias e samambaias são alguns dos exemplos.

A paisagem naquele pequeno trecho da Rua Pintassilgo atrai olhares, vizinhos e até “turistas” de outras regiões da capital, que buscam por esse encantamento visual e novos ares. Ter flores e plantas em casa é um exercício de carinho, cuidado, paciência e troca. A cada broto que nasce, a cada flor que desabrocha, surge também um sorriso. Numa cidade como São Paulo, semear este costume definitivamente nos faz colher mais gentileza.

Vai lá!

La Belle de Jour
Rua Pintassilgo, 291 - Moema, São Paulo - SP
Tel.: (11) 2362-6234
Horários: terça a sábado das 9h às 19h; domingo e segunda das 10h às 13h.
Facebook: https://www.facebook.com/floreslabellesp/

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Da redacão. Texto e fotos: Brunella Nunes.

 



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