Protagonismo sênior: a gente quer comida, diversão e arte! - São Paulo São

“Estou cansada de ser tratada como burra e doente”. A frase foi dita em tom bem-humorado durante um debate sobre os desafios profissionais das pessoas com mais de 50 anos e pode ser considerada um desabafo diante da forma como esse público costuma ser tratado nos eventos que se propõem a criar soluções produtivas e os serviços adequados a essa geração.

A queixa faz sentido: a despeito de toda a experiência acumulada ao longo da vida e, mais do que isso, da disposição de se manterem ativos, os sêniores, como prefiro chamá-los, ainda são tratados como aprendizes ou como dependentes quando considerados clientes para novos negócios. É como se estivesse apenas nas mãos dos mais jovens a chave para as soluções empreendedoras que atenda este segmento que está em franco crescimento. Será que não é a hora da própria geração 50+ assumir o protagonismo para atender suas próprias demandas? 

Vivemos um momento de crescimento exponencial da população idosa no mundo. O Brasil, que sempre foi considerado um país jovem, está cada vez mais longevo. Cerca de um quarto da população já passou dos 50 e a expectativa de vida, que chegou a 76 anos nos levantamentos mais recentes, alcançará 80 anos nas próximas décadas. Mesmo nessas condições, os sêniores sempre são tratados como se dependessem do arrojo e do conhecimento técnico dos mais jovens para sobreviver num mercado que costuma ser inclemente com que já passou de “uma certa idade”. O pior de tudo é que, muitas vezes, esse preconceito nem pode ser atribuído apenas aos mais jovens: é o próprio sênior que se vê dessa maneira.  

Estudo da Fundação Kauffmann revela que as pessoas de 55 a 64 ocupam a liderança das iniciativas empreendedoras nos Estados Unidos, tanto em quantidade como qualidade. Foto: Forbes Magazine.Estudo da Fundação Kauffmann revela que as pessoas de 55 a 64 ocupam a liderança das iniciativas empreendedoras nos Estados Unidos, tanto em quantidade como qualidade. Foto: Forbes Magazine.

Apesar disto, já se identifica um movimento do sênior para assumir um protagonismo empreendedor. Tsunami prata é uma expressão cada vez mais utilizada em menção à chegada definitiva dos sêniores ao mercado, tanto como força empreendedora quanto como grupo consumidor. Ela se refere, obviamente, à coloração natural que os cabelos adquirem com o passar do tempo. “É um revestimento de prata que pode produzir dividendos de ouro” afirma Elizabeth Isele, pesquisadora americana, sobre o fenômeno do empreendedorismo sênior, que ela considera como uma revolução para todas as áreas de negócios. 

O crescimento das iniciativas empreendedoras entre as pessoas em idade sênior tem sido captado por pesquisas que monitoram a vida empresarial no mundo inteiro. O Índice de Atividade de Startup, da Fundação Kauffmann, uma das mais bem reputadas instituições de apoio ao empreendedorismo no mundo, por exemplo, revela dados surpreendentes: as pessoas de 55 a 64 ocupam a liderança das iniciativas empreendedoras nos Estados Unidos, tanto em quantidade como qualidade. As empresas criadas pelos sêniores são mais longevas do que as criadas pelos mais jovens. 

“Agenomics”, lançada no Japão, expressão em inglês se refere a algo como “economia da idade”. Foto: Wasabi Creation. “Agenomics”, lançada no Japão, expressão em inglês se refere a algo como “economia da idade”. Foto: Wasabi Creation.

Impressões como essas vêm se consolidando e, em várias partes do mundo foram postas no centro de projetos cuja preocupação não se limita a buscar uma ocupação para os sêniores, mas a buscar soluções para a retomada do crescimento da economia. Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, por exemplo, lançou em seu país uma iniciativa chamada de “Agenomics”. A expressão em inglês se refere a algo como “economia da idade”. Ela dá nome a um programa destinado a aproveitar os conhecimentos, as habilidades e os recursos dessa faixa de idade num dos países em que a participação dos sêniores na população geral é uma das mais expressivas do mundo. O governo japonês, entre outras iniciativas, apoiou a criação de institutos e centros universitários, incubadoras e espaços de co-working além de patrocinar programas financeiros destinados a apoiar os empreendedores sêniores. 

Esses “novos velhos” são mais ousados, mais ativos, mais saudáveis e mais sábios. Foto: Getty Images.Esses “novos velhos” são mais ousados, mais ativos, mais saudáveis e mais sábios. Foto: Getty Images.

Estimular o empreendedorismo sênior é uma forma de fazer com que os profissionais dessa geração tomem para si o protagonismo na solução e criação de produtos e de serviços que atendam suas próprias demandas e satisfaçam o desejo de serem atendidos e tratados de forma diferente pelo mercado.  

Esses “novos velhos” são mais ousados, mais ativos, mais saudáveis e mais sábios. Afinal ninguém melhor criar produtos e serviços inovadores do que aqueles que sabem que não querem só comida, mas também diversão e arte, como diz a música da banda de rock Titãs, composta por artistas que também já passaram dos 50.  

Empreendedorismo sênior é acima de tudo, uma atitude. A sabedoria e a experiência podem ser, ao contrário de um limitador, um grande diferencial dos maduros. Eles sabem que é fundamental estarem abertos para as novidades do mercado do Século 21, às quais essa geração vem se adaptando. Se preparar para empreender suas ideias de negócios está entre os novos desafios para os integrantes dessa grande onda prateada que veio para ficar. Agora é por a mão na massa. 

O primeiro Startup Weekend 50+ das Américas vai acontecer nos dias 05, 06 e 07 de julho de 2019 em São Paulo. É uma jornada de inovação e empreendedorismo para aprender a criar uma startup em 54 horas com intensas e divertidas atividades. É uma oportunidade de tirar as ideias do papel e iniciar o protagonismo de um projeto empreendedor.  

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Mara Sampaio é psicóloga social, mestre em qualidade de vida no trabalho. Consultora organizacional, palestrante  e autora do livro: atitude empreendedora- descubra com Alice seu país das Maravilhas.