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Os catadores Reginaldo Souza Barbosa e Maria José de Oliveira Santos. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.Os catadores Reginaldo Souza Barbosa e Maria José de Oliveira Santos. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.

Do lixo o carrinheiro João Carlos de Lima tirou a carne que assou para a janta e os poucos reais que pagaram a conta de luz do mês. A catadora Maria de Oliveira, a Lia, bancou estudo aos seis filhos e montou uma coleção de taças de vidro, na qual ninguém põe a mão. Marli Tereza da Cruz, também catadora, alicerçou sua primeira casa própria — um barracão feito de vigas sujas, pregos baratos e lona, montado dentro do extinto lixão de Paranaguá, no litoral do Paraná.

Os três trabalham hoje com a coleta, a separação e a destinação de materiais recicláveis e, além das suas próprias vidas, movimentam toda a cadeia produtiva do lixo no estado, ao lado de outros milhares. Eles são o elo entre o que jogamos fora e o que é reutilizado por empresas recicladoras.

Catadora trabalha na separação do lixo. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.Catadora trabalha na separação do lixo. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.Os três trabalham hoje com a coleta, a separação e a destinação de materiais recicláveis e, além das suas próprias vidas, movimentam toda a cadeia produtiva do lixo no estado, ao lado de outros milhares. Eles são o elo entre o que jogamos fora e o que é reutilizado por empresas recicladoras.

Nos municípios paranaenses, há em média um catador para cada 1 mil habitantes, estima o Ministério Público (MP-PR). Boa parte deles está na rua, sem condições dignas de trabalho.

"Todos [catadores] são escravos, absolutamente escravos. Puxam um carrinho como se fossem um animal. São estágios de completo abandono, trabalhando individualmente, coletando de manhã para ganhar o almoço. As pessoas não sentem esse problema, não observam o catador. É ele que movimenta todo o processo do lixo reciclável", diz Saint-Clair Honorato Santos, procurador de Justiça de Direitos Difusos do Ministério Público do Paraná (MP-PR).

Claudete Batista de Godois. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.Claudete Batista de Godois. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.Para dar condições a quem trabalha com o lixo, a melhor maneira tem sido uni-los em cooperativas organizadas, para que trabalhem em conjunto com o poder público, afirma o procurador.

"A cooperativa é uma empresa que vai prestar serviço ao município, como se fosse uma terceirizada. É responsabilidade do município viabilizar essas cooperativas e associações, melhorando o meio de trabalho e deixando que os próprios catadores gerenciem o serviço", opina Saint-Clair.

Cooperativas são a melhor maneira de dar condições dignas de trabalho aos catadores, diz procurador. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.Cooperativas são a melhor maneira de dar condições dignas de trabalho aos catadores, diz procurador. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.Geralmente, as cooperativas recebem material de empresas parceiras, ruas e casas e fazem a separação. O que é reciclável vai para a prensa, controlada pelos próprios cooperados, e seguem para compradores.

Lia, de 43 anos, trabalha há mais de 30 anos com a separação de lixo. A maior parte do tempo foi nas ruas, arrastando um carrinho e catando o que encontrava nas calçadas. Há dois anos, porém, passou a integrar uma cooperativa organizada, no bairro Boqueirão, em Curitiba, da qual se tornou presidente.

Lia de Oliveira trabalhou pro quase 30 anos na rua e hoje é presidente de uma cooperativa. Foto: Giuliano Gomes / PR Press.Lia de Oliveira trabalhou pro quase 30 anos na rua e hoje é presidente de uma cooperativa. Foto: Giuliano Gomes / PR Press."Me lembro que vendia o papel a um centavo o quilo. Eu não ia para rua pelo material reciclável, mas para ganhar uma cesta básica, alguém me dar uma roupa. Foi o carrinho que matou muitas vezes a minha fome. Quando vim para um cooperativa organizada, eu deixei de me sintir uma lixeira. Eu queria que quem  lá fora sentisse o mesmo que sinto hoje", comenta a catadora.

Quem está lá fora é João Carlos Lima, que trabalha arrastando um carrinho em busca de material reaproveitável, todos os dias. "É sofrida a vida do carrinheiro, é sofrida. Sol e chuva, geada... tem que correr, andar atrás. Se não fizer isso aí, morre de fome", lamenta.

João Carlos de Lima trabalha como carrinheiro nas ruas. Foto: Weliton Martins / Reprodução.João Carlos de Lima trabalha como carrinheiro nas ruas. Foto: Weliton Martins / Reprodução.No estado, existem centenas de cooperativas instaladas, mas nem todas têm as condições adequadas de trabalho. Além disso, muitas delas são geridas por "atravessadores" — donos de barracões que exploram a mão de obra dos catadores para ficar com a maior parte da renda do material reciclável.

"Nós que trabalhamos de carrinheiro? Nós não ganhamos nada. Quem ganha são os atravessadores, lá em cima. A gente trabalha, eles que ganham dinheiro. Enquanto eu ganho R$ 20, eles ganham R$ 100", relata João Carlos.

Para Marli Tereza, que morou por anos dentro do lixão de Paranaguá e lá criou 15 filhos, o trabalho em uma cooperativa do município foi um alento. "Hoje eu sou uma mulher maravilhosa, sabe? Por estar trabalhando na associação, é um grande espaço da minha vida. Tenho maior orgulho do meu serviço, agradeço a Deus todos os dias por ter isso".

'Me sinto uma mulher maravilhosa', diz a catadora Marli Tereza. Foto: Weliton Martins / RPC.'Me sinto uma mulher maravilhosa', diz a catadora Marli Tereza. Foto: Weliton Martins / RPC.O ideal seria que todos os catadores estivessem realizados como Marli, mas falta volume de material para que isso se torne viável. Segundo o procurador do MP, as prefeituras ainda não olham para os cooperados com a devida importância.

"As cooperativas podem ser contratadas sem licitação, para abreviar o processo. Falta os municípios contratarem catadores e trabalhar com eles gerenciando o serviço. Se houver o apoio a essas organizações, o pagamento por tonelada e inserção social, poderemos chegar um bom resultado nos próximos anos", diz Saint-Clair.

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Fonte: G1 do Paraná.


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Ao ingressar no curso de História da Universidade de São Paulo (USP), em 2009, a estudante Grazieli Chirosse Batista, hoje com 27 anos, sentia certa discriminação. Moradora da zona leste da capital paulista e tendo cursado parte do ensino fundamental em escola pública, Grazi notou que a USP trata melhor o aluno que vem de escola particular – por consequência, de melhor renda. Perceber essa diferença – e querer mudar essa situação – foi fundamental na vida da jovem. No ano seguinte, ela já dava os primeiros passos na que vem a ser hoje uma de suas lutas mais consistentes: a defesa do ensino público, gratuito e de qualidade e do acesso democrático à universidade. “Tive contato com as ideias de Paulo Freire e me apaixonei”, revela. “Vislumbrei na educação uma possibilidade real de transformação social.”

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Eduardo Kobra, muralista nascido e criado na periferia de São Paulo, conversou com a HAUS de um hotel em Düsseldorf, na Alemanha. Dois dias antes, ele estava terminando uma obra em Múrcia, na Espanha, logo depois de entregar dois murais no Malawi, em plena África. Um dia depois, assinou um mural dentro da casa do craque Neymar, em Barcelona.