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Carolina de Arruda Botelho, 38 anos, conhecida como Carol Botelho pelos colegas e amigos da editora, é mais um exemplo claro de pessoas que fazem da vida a sua verdadeira escola. Formada em história pela PUC-SP, ela chegou a fazer também dois cursos profissionalizantes: um de gastronomia e um de teatro. Mas foi trabalhando que ela se descobriu profissionalmente e encontrou a sua verdadeira vocação: os eventos.

Sempre – até hoje – muito ligada ao mundo artístico, Carol começou a trabalhar cedo na produtora de som do pai, a Vice-Versa, onde esteve sempre rodeada por amigos e músicos. Depois, já na faculdade, foi estagiária da agência DDB, onde trabalhou com rádio e TV – um aprendizado que mais tarde, já como braço direito da editora, seria também muito útil na produção dos eventos da casa. Aos 20 anos, ainda muito jovem, começou a atuar na área de captação de sócios do Museu de Arte Moderna. E foi lá que ela começou a se interessar por todos os detalhes envolvidos na produção de uma exposição artística. Aos 24, foi a vez de usar o seu talento, já como produtora, no Paço das Artes. Mas foi aos 26 anos que o seu caminho começou, de forma sutil, a ser conduzido até a Trip editora.

Nesse ano, ela foi chamada por Marcello Dantas – um ícone da curadoria artística de eventos – para trabalhar ao seu lado. Com ele, ela produziu a Arte da Áfria, no CCBB-SP; aEscrita da memória, no extinto Banco Santos; a O século de um brasileiro; a Coleção Roberto Marinho, no MAM; entre outras mostras de destaque no cenário nacional. Em 2007, quando Marcello foi convidado para fazer a direção artística projeto Trip Transformadores, que na época estava em sua primeira edição, ele indicou a Carol para fazer a produção dos eventos que compunham o projeto. Após uma entrevista com a nossa diretora do departamento de projetos especiais, Ana Paula Wehba, com quem “de cara se deu muito bem” – conforme confessou a própria produtora -, Carol começou a trabalhar em parceria – e sinergia – com a editora.

E de lá para cá já se passaram nove edições do Trip Transformadores. Nove edições que contaram com a excelência e com a força de vontade de Carol. O projeto evoluiu desde então, como conta a própria protagonista deste post: “Em 2009, mudamos o formato do prêmio, e decidimos não ter mais uma competição, a idéia do projeto era dar luz aos projetos dos homenageados, e com 36 nomes nós não conseguíamos e decidimos homenagear 12 pessoas”. Nesse mesmo período, firmou-se uma parceria com a Academia de Filmes, para produzir pequenos documentários que retratam o cotidiano e os projetos dos homenageados. E a Carol sempre ali, ajudando, colocando a mão na massa. Se ela acompanhou a evolução do projeto, com certeza aqueles que estão desde o início envolvidos com o evento também acompanharam o seu desenvolvimento, como a própria Paula ressaltou: “São 9 anos de parceria intensa e neste período pudermos acompanhar o desenvolvimento da Carol, que a cada dia se torna uma profissional mais completa”. E para ser um profissional exemplar, nessa área, são muitas as competências e responsabilidades. Para a Paula, a principal delas está na persistência, em acreditar que nada é impossível, e isso, segundo ela, a Carol tem de sobra: “Ela acredita e corre atrás para fazer acontecer. Nunca ouvi dela que algo era impossível, e desta postura se constroem os projetos mais incríveis, onde o céu é o limite”.

E olha que a rotina de um produtor não é fácil. O produtor é “quase um maestro”, nas palavras da nossa homenageada de hoje. É ela quem coordena toda a pesquisa e a escolha dos protagonistas de cada ano, quem entra em contato com eles e fala sobre o projeto, sobre as filmagens, as entrevistas. “Tem que ser muito cuidadoso porque todos eles são pessoas muito especiais, precisam se sentir especiais, e alguns tem agendas complicadas”, conta. As agendas, inclusive, também são de sua responsabilidade, além de cuidar das viagens, gravações, e pensar na escolha da equipe envolvida nestas diversas funções: “A escolha da equipe é fundamental, porque precisam ser pessoas que estejam ali por paixão e não só por função. Nós nunca sabemos muito bem o que vamos encontrar, às vezes tem viagens cansativas, temos todos que ajudar em tudo o que precisar. Já fiz até operação de áudio”. É um trabalho de muita organização, feito grande parte por telefone e e-mail, mas composto também por viagens e muito cuidado no dia do evento principal – a premiação. E no âmbito áudio-visual, é válida uma observação: ela participou também de outro projeto da editora. A criação do site do Abílio Diniz, na qual ela foi a responsável por coordenar uma série de vídeos baseados nos pilares do livro escrito pelo empresário.

Fora tantas competências adquiridas ao longo destes anos trabalhando na área e conhecendo pessoas diferentes, Carol também tem uma característica própria e pessoal que facilita muito o seu trabalho diário: a sensibilidade. Ela sabe como lidar com as pessoas e, mais do que isso, ela gosta de lidar com elas. A nossa também colaboradora do projetos especiais da casa, Mari Beulke, destacou principalmente esse atributo dela: “Gosto do seu jeitinho de como ela lida com questões do dia a dia, como administra as situações, contratempos e o cuidado/zelo que ela tem com pessoas tão incríveis como os homenageados do Transformadores”.

Ela ama o que faz e por isso faz tão bem: “Já conheci tantos Tranfosrmadores, já vivi com eles suas histórias, passei por diversas situações e conheci locais que jamais sonharia em conhecer um dia. Fui para sertão de Minas, Chapada Diamantina, Brasília, Rio de Janerio, Salvador, Nova York [onde coordena um dos eventos do movimento], andei por favelas, sertões e cidades grandes, cidades pequenas”, conta encantada e agradecida. Por tamanha aptidão e paixão às histórias que vive nesse projeto, ela conta que já ficou em bons hotéis, em casas de famílias e em quartos pequenos, sem ar condicionado, no calor de Marabá e com uma única janela pouco significativa. Não importa, ela quer é estar!

“Carol é uma pessoa incrível, parceira, uma mãe apaixonada pelo filho e cozinheira de mão cheia! Sou suspeita, ela virou minha musa inspiradora!”, sintetiza Mari Beulke, em uma opinião que provavelmente é comum entre as pessoas que conhecem e convivem com ela. Ah, e sobre ser “cozinheira de mão cheia”, é importante ressaltar que a Carol mantém um blog de cozinha, que anda meio parado, mas que pretende retomar o quanto antes: é oCores e Sabores.

 Se quiser entrar em contato com a Carol para saber mais sobre as tantas vivências dessa parceira da editora, que há tantos anos colabora com o projeto do Trip Transformadores e que está sempre à disposição para usar o seu talento e suas habilidades com produção, basta mandar um e-mail para: [email protected]

Fonte: Blog 'Das Internas', Editora Trip: http://bit.ly/1Fig9Xh


À margem da Serra da Cantareira, está um dos últimos bairros da Zona Norte de São Paulo, o Jardim Damasceno. De um lado, um morro com casinhas a perder de vista. Do outro, só mato. E bem no meio dessa comunidade com cerca de 20 mil habitantes, o Parque Linear Canivete é um um dos poucos lugares de curtição para os moradores da região. Muitas das ruas tortas dos arredores do bairro abrigam favelas e a situação econômica das pessoas que moram lá é, em geral, de pobreza. Isso fica claro com os números do Censo de 2010 que apontam: mais de 70% da geral do bairro ganha no máximo dois salários mínimos. Foi nesse cenário que rolou no último dia 1º de maio uma festa em comemoração ao Dia do Trabalhador.

Quão legal é o fluxo legal?

O evento, que foi divulgado na página de Facebook do Fluxo Das quebradas ZN, estava marcado para as 15h e teria vários shows, que começariam por volta das 18h. Apesar de ter o apoio da Subprefeitura Freguesia do ?"/Brasilândia com uma das atrações da Virada Cultural na Quebrada, a festa foi pensada e organizada pelo Nego, apresentado à nossa reportagem como líder da comunidade - não quiseram nos dizer seu nome, "chama de Nego mesmo", avisaram. As atrações esperadas para a festa variavam do pagode ao funk. Inicialmente, oito MCs estavam confirmados para cantar nesse primeiro de maio. Trocamos ideia com a rapaziada que foi ao parque curtir procurando saber o que a data significava para eles.

Logo no começo do rolê, o pessoal que estava trabalhando na organização foi bem enfático ao dizer que dificilmente ele falaria com a imprensa ou tiraria foto. As vezes em que ele apareceu durante o evento, o vimos ou circulando com suas correntes douradas de todos os tamanhos possíveis no pescoço e cumprimentando meio mundo, ou no palco dando uma pá de recados pra galera: curtir de boa sem causar tumulto e andar pelo caminho certo. "Se você tiver bebido demais e quiser se meter em alguma briga, vai pra casa. Não vai estragar o rolê dos outros, beleza?", avisava ele.

Leia a matéria completa de Larissa Zaidan no thumphttp://bit.ly/1KNaiJa

 

Antônio Abujamra: Ourinhos, 15 de setembro de 1932 - São Paulo, 28 de abril de 2015. Na foto com Glauce Rocha e Jardel Filho, em 1966.

Ele tinha 82 anos e atualmente comandava o programa 'Provocações', da TV Cultura; velório será no Teatro Sérgio Cardoso (Atualizado às 13h26) O ator e diretor de teatro Antônio Abujamra morreu na manhã desta terçafeira, 28, em sua casa em São Paulo. Abu, como era conhecido, tinha 82 anos, e morreu em decorrência de enfarte. Uma fonte próxima da família disse ao Estado que ele estava bem pela noite desta segunda, 27, mas que morreu enquanto dormia. O velório será realizado no Teatro Sérgio Cardoso e terá início no fim da tarde. Abujamra apresentava, desde 2000, o programa de entrevistas Provocações, na TV Cultura. "Agradecemos o carinho e apoio de todos que tem nos acompanhado ao longo desses 14 anos de programa", diz uma mensagem na página oficial do programa no Facebook.

Nascido em Ourinhos (SP), em setembro de 1932, Abujamra se formou em filosofia e jornalismo pela PUC do Rio Grande do Sul, onde iniciou sua carreira como diretor e crítico de teatro. Depois de uma temporada na Europa, estreia em São Paulo, em 1961, a peça Raízes, seu primeiro trabalho profissional na área. Ainda nos anos 1960, funda o Grupo Decisão, para estudar e disseminar o teatro político de Bertolt Brecht, muda-se ao Rio e encena várias peças de sucesso, comoO Inoportuno, Electra e As Criadas. Na década de 1970, após várias intervenções da ditadura nas suas peças, alia-se ao teatro de resistência, dirigindo o monólogoMuro de Arrimo, com Antônio Fagundes, entre outras montagens. Em 1981, começa a se dedicar ao Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC. Com a atriz Denise Stoklos, ele dirige Um Orgasmo Adulto Escapa do Zoológico, de Dario Fo, em 1984, que projeta a carreira internacional da atriz. Aos 55 anos, Abujamra inicia sua carreira de ator em telenovelas e também no teatro - uma de suas participações significativas na teledramaturgia se dá em 1989, quando interpretou o bruxo Ravengar na novela Que Rei Sou Eu?, da Globo. Durante os anos 1990, a frente do grupo de teatro Os Fodidos Privilegiados, no Rio, alcança definitivamente sucesso de público e crítica.

Fonte: Estadão. 

"Certo dia o morador de rua Emerson deparou-se com este cão sendo maltratado e apanhando. Pegou-o para si. Batizou-o Negão. Emerson me contou que Negão era muito bravo. Hoje, passados 6 meses, o doce Negão não desgruda de seu dono. Encontrei os dois abraçados assim na rua Haddock Lobo. " Depoimento de Maristela Colucci.

Museu de Imagem e do Som da São Paulo abre exposição com fotos de Vivian Maier, a babá que era fotógrafa nas horas vagas. 

São 101 fotografias (das quais, 79 em preto e branco), além de cinco folhas de contato e nove filmes gravados em super-8 mm Foi como descobrir a arca perdida - ao arrematar, em 2007, por apenas US$ 400 uma caixa com negativos de fotos antigas, o corretor de imóveis John Maloof, que também trabalhava como historiador, acreditava que apenas adquirira mais material sobre um livro que escrevia, a respeito da zona noroeste de Chicago. Tanto que não deu atenção imediata àqueles 30 mil negativos e 1.600 rolos de filmes não revelados. Mas, quando o fez, percebeu estar diante de um verdadeiro tesouro.

Tratava-se do arquivo de Vivian Maier (1926-2009), mulher que passou 40 anos trabalhando como babá em Chicago e que, nas horas vagas, fotografava gente comum, tanto em Chicago como em Nova York. Ciente de que não passava de um hobby, Vivian nunca divulgou suas fotos e o crédito só pôde ser conferido a ela graças à uma etiqueta com seu nome, grudada em um envelope. 

Para se entender a qualidade do trabalho artístico da babá basta conferir a exposição O Mundo Revelado de Vivian Maier, que abre nesta terça-feira, 21, no MIS. São 101 fotografias (das quais, 79 em preto e branco), além de cinco folhas de contato e nove filmes gravados em super-8 mm. “Em seu tempo livre, Vivian Maier fotografou a rua, as pessoas, os objetos, as paisagens. Ela soube capturar sua época em uma fração de segundo. Narrou a beleza das coisas comuns, buscando as rachaduras imperceptíveis e as inflexões fugidias do real dentro da banalidade cotidiana”, descreve Anne Morin, da diChroma Photography, curadora da exposição, informação fornecida pela assessoria da exposição. “O mundo dela eram os outros, o desconhecido, as pessoas anônimas que Vivian Maier tocava por um segundo, de modo que, quando registrava com sua câmera, primeiro era uma questão de distância - a mesma distância que transformava aqueles personagens em protagonista de um acontecimento sem importância. E apesar de ousar com composições imponentes e desconcertantes, Vivian Maier permanece no limiar e até além da cena que fotografa, nunca deste lado, como que para não ser invisível. Ela participa do que vê e ela própria se torna sujeito”, acrescenta.

Na abertura, o MIS exibe o documentário Finding Vivian Meier, dirigido por Maloof e Charlie Siskel, que concorreu ao Oscar da categoria, neste ano. A dupla falou com 90 pessoas para montar seu quebra-cabeças cinematográfico sobre Vivian - afinal, a fotógrafa não comentava sobre sua vida ou seu passado nas casas onde trabalhou. Ainda sem data definida, o museu também exibirá Who Took Nanny’s Pictures?, dirigido por Jill Nicholls, da BBC. Apresentado por Alan Yentob, o filme conta com entrevistas com pessoas que a conheceram e aqueles que revelaram seu trabalho.

Das poucas informações que sobraram sobre a fotógrafa, é sabida sua predileção pelo cinema, em especial o europeu. E, observando as imagens do cotidiano registradas por ela, é possível identificar uma forte influência do neorrealismo italiano assim como a nouvelle vague francesa. Vivian também era obcecada por autorretratos o que, segundo análise da crítica Maria Popova, seria uma resposta para a sua reclusão. No Brasil, já foi editado o livro Vivian Maier: Uma Fotógrafa de Rua, pela editora Autêntica, panorama de sua obra. Filha de pai austríaco e mãe francesa, Vivian só ficou conhecida após sua morte em 2009. A fotógrafa passou a infância na França e, após voltar para os Estados Unidos, trabalhou como babá por mais de 40 anos. Ela também fez viagens internacionais, como para Manila, Bangcoc, Pequim, Egito, Itália, sempre registrando as ruas das cidades por onde passou. Após a exibição no MIS, a mostra tem data marcada em Seul (Coreia do Sul), Santiago e Valparaíso (Chile) e em Estocolmo (Suécia). 

Ubiratan Brasil no Estado de S.Paulo.

Cultura e civilização, mais do que ocasionais sinônimos, são conceitos que andam de mãos dadas. É assim que pode ser compreendida a “revolução civilizatória” proposta à cidade de São Paulo pelo secretário municipal de Cultura, Nabil Bonduki, que tomou posse no começo do mês no lugar de Juca Ferreira, atual ministro da Cultura.

Vereador licenciado pelo PT (eleito com 42.411 votos), relator do atual Plano Diretor e ex-membro da CPI da Sabesp, Bonduki, de 60 anos, assume o cargo com olhar de urbanista e arquiteto (ele é professor da FAU/USP) que vê a cultura como conceito amplo, indissociável das relações entre pessoas e o espaço público. Para o secretário, é necessário difundir “a tolerância, o respeito pelo outro”, para que a cidade seja “menos agressiva em relação ao cidadão”. Leia a seguir trechos da entrevista com Bonduki, realizada na sede da Secretaria.

Valor: Em carta pública, o senhor disse que a cidade precisa de uma “revolução civilizatória”. O que não é civilizado na cidade?

Nabil Bonduki: Nós vivemos sob uma cultura que é a cultura do automóvel, do desprezo pelo espaço público, da segregação, dos muros altos, da falta de tolerância, da violência. Todas essas questões podem ser trabalhadas através da cultura, que tem um aspecto importante na mudança da lógica pela qual as pessoas se comportam. Não são só os cidadãos, também são os empreendedores, os comerciantes. Revolução civilizatória significa difundir a cultura de paz, a tolerância, o respeito pelo outro, pelo espaço público. Claro que não é só isso, nós temos questões econômicas, o preço da terra, a valorização imobiliária, a segregação gerada por custos econômicos diferenciados, não é só através da cultura que vamos fazer essa mudança.

Valor: O ministro Juca Ferreira tem criticado a Lei Rouanet, cobrando mais da iniciativa privada e sugerindo a revisão dos 100% de renúncia fiscal. Mas este é um ano de PIB baixo, previsão de inflação alta etc. Essas sugestões são viáveis no atual momento da economia?

Bonduki: Temos um modelo em São Paulo, a antiga lei de incentivo municipal – que está sendo revista porque foi aprovado projeto do Andrea Matarazzo que regula a lei -, cujo modelo era de 70% [de renúncia fiscal], no máximo. O recurso é público e as leis de incentivo, muitas vezes, transferem para os diretores de marketing das empresas a decisão sobre o que pode e não pode ser financiado. Isso procede, uma limitação para não termos 100%, ou apenas em situações muito excepcionais, e sobretudo que a gente tenha mais rigor para que o apoio seja feito de modo coerente. Sou totalmente contra dirigismo cultural, mas deve-se ter alguma compatibilidade com uma política cultural, para não termos eventos que nada têm de interesse público sendo financiados com recurso público.

Valor: Como o senhor avalia a passagem de Juca Ferreira pela secretaria? Pretende traçar um caminho diferente?

Bonduki: A Secretaria de Cultura teve um amplo crescimento nesse período, de orçamento e ações. Ampliamos muito a atuação na periferia, com a área da cidadania cultural, com a criação da SP Cine [empresa de audiovisual que articula as três esferas do governo], uma ressignificação do uso do espaço público. Ampliou-se uma efervescência cultural na cidade, muitas vezes simplesmente permitindo que as manifestações acontecessem. Algumas áreas merecem uma atenção especial, e o próprio Juca considerou que não teve condição de trabalhar isso. Por exemplo, a questão das bibliotecas, do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca. A cultura tem um papel importante quando a gente vê marchinhas no Carnaval que falam de problemas do cotidiano, da crise hídrica. As manifestações culturais chegam de maneira até mais aprofundada no dia a dia do cidadão, e com isso vão mudando mentalidades. Precisamos mudar mentalidades.

Valor: A SP Cine funciona também como estímulo ao cinema de rua, aos encontros nas ruas?

Bonduki: Já temos uma lei de minha autoria que isenta IPTU para o cinema de rua, acho isso importante porque o cinema de rua, e o teatro, passam por muitas dificuldades. Temos que buscar parceiros privados para reabrir cinemas, como aconteceu com o Belas Artes. Graças a uma intermediação da prefeitura, foi possível garantir a reabertura, com o patrocínio da Caixa, com a participação do proprietário. Acho que é um modelo interessante para os cinemas privados.

Valor: E as parcerias público-privadas (PPPs)? Elas são um bom caminho para a cultura?

Bonduki: No caso do Belas Artes não é uma PPP porque PPP envolve lucro. O que podemos ter é sempre uma participação e um apoio, um patrocínio do setor privado para certas ações que são feitas na área da cultura. O apoio buscado seria mais na linha do patrocínio. Por exemplo, a intenção é recuperar a Vila Itororó, transformá-la num centro cultural, com patrocínios da lei de incentivo cultural. Já houve um primeiro aporte do Itaú, e espera-se que possamos ter a participação de outras empresas públicas e privadas através da Lei Rouanet. Outra situação, um pouco diferente, é o Carnaval. Neste ano teve um patrocínio com a Caixa, que cobre 20% dos custos da prefeitura, então isso pode ser procurado em outros projetos. Também pode-se conseguir parcerias com outras entidades, como universidades e institutos culturais, para ampliar a gestão dos equipamentos. A secretaria é muito ampla, são mais de 150 equipamentos, de naturezas diferentes, desde o Teatro Municipal até as ações de cidadania cultural na periferia.

Apoio à música, formação de técnicos culturais e articulação entre equipamentos culturais estão entre propostas de secretário

Valor: O que o senhor pode adiantar sobre a Virada Cultural deste ano? Ela precisa passar por uma reformulação?

Bonduki: Não é questão de reduzir a Virada ou mudar seu formato, mas enquadrá-la em um conjunto de eventos culturais que acontecem o ano inteiro dentro da cidade. A partir do momento em que temos eventos nas várias regiões, como foi no aniversário da cidade, o Circuito São Paulo de Cultura (em março vamos anunciar a programação do primeiro semestre), que são centenas de atividades culturais espalhadas pelos equipamentos, começamos a oferecer mais alternativas. A preocupação principal é evitar que se reproduzam problemas como violência, arrastão, embora a gente saiba que esse não é um problema da Virada, é um problema da cidade. Com boa articulação com as várias secretarias do município, secretaria de segurança urbana, PM, podemos garantir uma Virada segura e com a mesma força.

Valor: Quais os planos e ações da secretaria com a cultura erudita?

Bonduki: Em primeiro lugar, temos um Teatro Municipal com uma temporada lírica excepcional. O teatro tem tido lotação frequente e os preços são populares. Além das apresentações no teatro, existem apresentações em vários CEUs. Temos a Orquestra Sinfônica, o Coral Paulistano, o Coral Lírico, música de câmara no conservatório, então é uma programação ampla. O Teatro [Municipal] passou por uma reformulação administrativa e estamos num processo importante de transformar os quadros estáveis em celetistas. Além disso, há uma ideia que não é cultura erudita, mas de cultura popular, em que o teatro poderá ter uma participação importante, que é a criação do Clube do Choro. Seria uma escola de instrumentos utilizados no choro, um espaço para roda de choro e shows. Há um interesse de que a gente possa impulsionar o choro, que é um gênero popular com grande aceitação na cidade, e São Paulo não tem um clube de choro, como Brasília e Rio.

Valor: A popularidade de Fernando Haddad, assim como a de Geraldo Alckmin e de Dilma Rousseff, tem caído…

Bonduki: A inércia das práticas anteriores é muito grande. O motorista do carro está acostumado a ter privilégios na cidade, não é de uma hora para outra que isso se altera, é um processo. Ao mesmo tempo que vamos ter dificuldades para mudar o padrão, temos que ter de parte a parte a tolerância. A reapropriação do espaço público é importante, mas também é necessário que quem usa o espaço público respeite os moradores do entorno, na questão do barulho, horário, sujeira. É um processo de acomodação num momento de mudança, e as mudanças não são fáceis de serem feitas, mas aos poucos vão se introduzindo visões novas. As pessoas reclamam um pouco no começo, mas vão se acostumando e aos poucos a gente vai avançando. Se tivermos algumas administrações em sequência que deem condições…. Não adianta falar “Ah, a pessoa não pode jogar lixo na rua” se você não der o lugar para ela colocar; você não pode falar “Ah, precisa usar transporte coletivo” se ele não melhorar. O poder público também tem que criar as condições para que essa mudança de comportamento aconteça, e as pessoas acabam sempre usando como desculpa para não mudar o fato de que não existem as condições adequadas para a mudança.

Valor: De que maneira a cultura pode se relacionar com a crise hídrica e a “revolução civilizatória”?

Bonduki: Temos um problema que não é apenas da crise hídrica – a crise só tornou isso mais evidente. Nossa cultura nas últimas décadas foi de que temos água demais e podemos usar sem cuidado. Precisamos introduzir a ideia de que água é um recurso escasso. A região metropolitana consome mais água do que produz, e deve ser trabalhada a ideia de que o uso deve ser mais racional. E isso é uma mudança cultural, porque para quem está acostumado a ficar no banho o tempo que quiser, usar a descarga de qualquer maneira, a não reusar a água, deixar a torneira ligada lavando louça o tempo todo, isso é um hábito criado. A cultura pode ter um papel importante não só agora, mas daqui para frente. Isso vale também para a energia, para o espaço público, o transporte coletivo, ou seja, temos que difundir novas práticas, novos costumes, novas civilidades, e sem dúvida a cultura pode atuar nisso sem dirigismos, de forma espontânea, porque são problemas que as pessoas enfrentam. Temos potencial para problematizar essas questões, e fazer com que elas ganhem mais repercussão, porque fico com medo de que, quando começar a chover muito – e isso vai acontecer, vamos ter enchentes daqui a dois, três anos, porque isso é cíclico -, todos irão esquecer isso. Não se pode trabalhar a questão da água apenas com a perspectiva do lucro, do negócio.

No Valor Econômico. Bruno Yutaka Saito, de São Paulo.