'Filmei a SP da minha adolescência', diz Marina Person sobre seu 'Califórnia' - São Paulo São


Marina Person falava com a reportagem quando avistou um carro de divulgação do filme dirigido por ela passar pela avenida Paulista: "Olha, o 'Califórnia!'". O grito, que interrompeu a conversa, mostra o entusiasmo com o lançamento do longa, na próxima quinta (3). "Nele, há a São Paulo dos anos 1980, da minha adolescência, dos programas que amava fazer." 
 
Sua estreia na ficção conta a história de uma garota que completa 15 anos em 1984 -como a própria Marina. E parte das filmagens foi no colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, na zona oeste paulistana, onde a diretora estudou. "Revisitei meus medos da juventude de um outro ponto de vista." 
 
Cineasta formada pela ECA-USP, ela também fala do agora. Marina espera que São Paulo construa um futuro mais cidadão. "Torço para continuarem com o pensamento de trazer a cidade a seus habitantes, de abrir a Paulista para pedestre, das ciclovias e do transporte público."
 
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Como surgiu a ideia de fazer o filme? 
As primeiras ideias pintaram em 2004, 2005. Tinha muita vontade de falar do que foi ser adolescente em São Paulo nos anos 1980. O Brasil estava se abrindo politicamente depois de anos de ditadura, havia uma cena superlegal de rock — com Titãs, Legião Urbana, Ira!— e tinha muita influência do pós-punk inglês. E eu queria retratar como foi ter as primeiras experiências sexuais justo na época em que a Aids apareceu.
 
Qual São Paulo o filme retrata? 
A da minha adolescência, do [clube] Madame Satã, do [espaço cultural] Carbono 14, onde assistíamos a clipes de música. Das lojas de disco, que não eram só um lugar para se comprar disco, mas para falar de música. Hoje, com a internet, essa cultura de compartilhar as informações pessoalmente se perdeu. 
 
O filme tem muitas cenas gravadas no Santa Cruz, onde você estudou. Sentiu-se numa máquina do tempo? 
A princípio, não queriam me deixar filmar lá porque seria uma bagunça, com 40 pessoas em um dia, 70 no outro (risos). Mas insisti. Para mim, não foi um túnel do tempo. Estava lá como diretora, onipotente, que manda (risos). 
 
De que forma o filme quer falar com a juventude de hoje?
Questões que permeiam esta fase [da adolescência], como "quem sou eu?", "para onde vou?", "o que farei da vida?", são eternas. A Estela [interpretada por Clara Gallo], a protagonista do filme, é muito curiosa, está procurando se desamarrar da família e encontrar o caminho dela. Isso fala aos adolescentes de qualquer época. A comunicabilidade mudou, a tecnologia avançou, o mundo está diferente, mas a essência dos adolescentes segue a mesma.

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Fernando Silva, colaboração para a Revista São Paulo.