Casal passa 5 anos documentando ecovilas da América Latina em ‘motor home sustentável’ - São Paulo São

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Largar o trabalho em um escritório e adotar uma vida em meio à natureza, promovendo práticas sustentáveis. Muitas pessoas já pensaram nisso, poucos são aqueles que de fato seguem esse caminho. Mas foi exatamente o que fez a gaúcha Letícia Rigatti, que desde 2010 percorre a América Latina ao lado do marido em um motor home visitando comunidades ecológicas para documentar e aprender técnicas que, posteriormente, divulgam no site do projeto Común Tierra.

Letícia diz que, quando atuava como publicitária em Porto Alegre, sentia falta de participar de “algo maior”. “Quando vivia em Porto Alegre era feliz com a minha vida, mas sentia falta de um significado maior, mas não sabia o que e como. Tive que viajar para encontrar”.

Ela conta que a ideia para o Común Tierra surgiu em 2009, quando conheceu seu atual marido, o americano Ryan Luckey, na comunidade ecológica de Esalen, na Califórnia. “Com essa experiência de viver nesse centro holístico, ficamos muito encantados com o universo da sustentabilidade e quis tornar a experiência de comunicação e educação, que ambos tínhamos, em um projeto focado em ecologia”, disse.

Após a experiência na comunidade, ela explica que pesquisou junto com Ryan sobre comunidades semelhantes na América Latina. “O enfoque era poder viajar pela América Latina, mas não encontramos tantas”, disse. “A gente pensou: é isso que a gente pode fazer”.

Foi assim que surgiu a ideia de viajar pela região mapeando as comunidade ecológicas e transformar isso em um projeto documental e educativo. Letícia Rigatti define o Común Tierra como “um projeto educativo com viés online”. “A gente vai viajando, mapeando e documento todos os projetos ecológicos que encontramos no caminho”.

Na parte documental, Letícia e Ryan fazem vídeos em três idiomas (português, inglês e espanhol) sobre as comunidades que encontram e mantém um mapa interativo online sobre elas em seu site. Já na parte educativa, eles realizam oficinas e workshops pelos locais que passam. O destaque é o motor-home adaptado que serve de meio de transporte e casa para o casal.

Oficina CT Costa Rica 2_ 2011Oficina CT Costa Rica 2_ 2011Casal faz demonstração sobre liquidificador movido à bicicleta na Costa Rica, em 2011. Foto: Arquivo Pessoal.

Motor home sustentável

Ao longo das viagens, Letícia explica que eles foram adaptando o motor home com tecnologias sustentáveis que foram aprendendo durante a viagem. “É um motor home adaptado com várias técnicas ecológicas, motor a gás, bicicletas mecânicas”, afirma.

Letícia explica que a lavadora de roupas e o liquidificador do motor home são movidos pela energia gerada por tração humana. “A correia do pedal é adaptada a uma base que faz virar a lavadora. É um processo totalmente mecânico”, explica, acrescentando que esta tecnologia foi desenvolvida a partir de uma visita a uma comunidade do México e que utiliza apenas materiais recicláveis.

Outra atração do motor home é o forno 100% movido a energia solar e que pode chegar à temperatura de 140º. “Ele tem três princípios: tem uma base de madeira, aí ele tem um vidro laminado, que não tem ar dentro, e a parte de dentro é coberta com um papel alumínio bem grosso, isso faz com que a energia se concentre muito”, explica.

Ao todo, as visitas do casal a comunidades ecológicas já geraram mais de 65 vídeos educativos que ensinam às pessoas técnicas sustentáveis que podem ser aplicadas em suas rotinas. Segundo Letícia, um dos maiores sucessos dos vídeos são justamente as tecnologias utilizadas no veículo. “Há um mês, a gente estava no Uruguai e conheceu uma oficina de bicimáquinas feita por uma pessoa que aprendeu com os vídeos do Comum Tierra”, diz.

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Uma das 'tecnologias' do motor home. Foto: Arquivo Pessoal.

Estilo de vida sustentável

Letícia afirma que um dos objetivos dos vídeos é mostrar para as pessoas que adotar um estilo de vida sustentável não significa que é necessário viver no campo ou passar por sofrimento.

“Tu pode fazer um forno solar, uma hortinha, uma bicimáquina. Isso traz um empoderamento para as pessoas: ‘eu também posso fazer’. A gente mostrar que isso também é muito divertido e não é um sofrimento, não é perda de conforto”, diz. “Existe um mito de sustentabilidade de que a gente precisa sofrer para ter uma vida mais tranquila. Em muitos desses projetos a gente vê as pessoas muito felizes, as crianças super saudáveis”.

Ela também afirma que a ideia é justamente promover o que chama de “sustentabilidade em escala humana”. “Os projeto que a gente documenta estão buscando a sustentabilidade em nível local. O que faço com minha energia e com os dejetos, como educar as crianças, o que a gente realmente precisa para viver bem e respeitando a ecologia”, diz. “Não estamos pensando em fazer projeto de reflorestamento”, brinca.

Comun Tierra em Feira de Escambo_Argentina 2015Comun Tierra em Feira de Escambo_Argentina 2015

Letícia durante Feira de Escambo, na Argentina, em 2015. Foto: Arquivo Pessoal.

 

Futuro indefinido

Na estrada desde maio de 2010 – começaram cruzando a fronteira da Califórnia com o México, o casal já passou por 14 países e 130 projetos na América Latina. Durante esses cinco anos, Letícia diz que eles tiravam apenas um mês de férias para visitar a família.

Em julho de 2015, o Común Tierra recebeu o Prêmio Global de Excelência Gaia durante a Conferência da Rede Global de Ecovilas 2015, na Escócia, que destaca projetos inovadores dedicados à promoção de práticas e técnicas de sustentabilidade ambiental em todo o mundo. Neste ano, eles também passaram quatro meses na “Común Tierra Tour Europa” fazendo o mesmo trabalho de documentação de ecovilas na Itália, Alemanha, Escócia, Espanha e em Portugal.

No último sábado, Ryan e Letícia chegaram a Porto Alegre e pararam o motor home na Associação Cultural Vila Flores, no bairro Floresta, onde o casal está participando de oficinas ao longo da semana. Neste sábado (12), eles estarão estacionados na Feira Agroecológica do bairro Menino Deus.

Como Letícia está grávida, ela não sabe se manterá o planejamento inicial de continuar a viagem pelo Brasil – o que ainda não fizeram – ou se irão se instalar em Florianópolis, para onde irão em breve, para promover cursos na área.

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Luís Eduardo Gomes no Sul21.